segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Empréstimos

No livro que me foi emprestado, uma dedicatória manifesta o desejo imenso de ficar com ela para sempre. E informa que ele lhe pertence. 
Não sei quem foi ela, se o livro nunca chegou a ser entregue à destinatária da dedicatória, ou se foi devolvido, espólio de inventários posteriores. 
O desejo imenso não se cumpriu. Mas há declaraçoes de propriedade que sobrevivem à frustração das vontades. 
Ocorreu-me que nunca saberemos, de facto, a quem pertencem as pessoas com quem partilhamos as noites. 
É a diferença entre uma doação e um empréstimo. 

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Como um rei

O coelho como rei dos fantasmas 


A dificuldade de pensar no final do dia,
Quando a sombra disforme cobre o sol 
E nada sobra a não ser a luz na tua pele - 

Havia o gato a lamber o seu leite todo o dia 
Gato gordo, língua vermelha, mente verde, leite branco 
E Agosto, o mês mais tranquilo.

Existir, na relva, no mais tranquilo dos tempos, 
Sem aquele monumento de gato,
O gato esquecido na lua;

E sentir que a luz é uma luz de presença,  
Onde tudo é pensado para ti
E nada precisa ser explicado;

Então não há nada em que pensar; tudo nasce de si próprio;
E o Este apressa o Oeste e o Oeste apressa-se. 
Não interessa. A relva está cheia.

E cheia de ti. As árvores em redor são para ti,
O todo da imensidão da noite é para ti,
Um ser que toca todos os limites,

Tu tornas-te num ser que preenche os quatro cantos da noite. 
O gato vermelho esconde-se no brilho do pelo
E lá estás tu, a subir a duna, na duna,

estás cada vez mais alto, na duna, preto como pedra
Sentas-te com a tua cabeça como uma escultura no espaço 
E o pequeno gato verde é um inseto na relva. 

Wallace Stevens
Tradução de Cuca 


The rabbit as the king of the ghosts

The difficulty to think at the end of day,
When the shapeless shadow covers the sun
And nothing is left except light on your fur—

There was the cat slopping its milk all day,
Fat cat, red tongue, green mind, white milk
And August the most peaceful month.

To be, in the grass, in the peacefullest time,
Without that monument of cat,
The cat forgotten in the moon;

And to feel that the light is a rabbit-light,
In which everything is meant for you
And nothing need be explained;

Then there is nothing to think of. It comes of itself;
And east rushes west and west rushes down,
No matter. The grass is full

And full of yourself. The trees around are for you,
The whole of the wideness of night is for you,
A self that touches all edges,

You become a self that fills the four corners of night.
The red cat hides away in the fur-light
And there you are humped high, humped up,

You are humped higher and higher, black as stone—
You sit with your head like a carving in space
And the little green cat is a bug in the grass.


segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O feminismo é cool

Sou feminista, como Emma e como a generalidade das mulheres, desde o dia em que percebi que, pelo simples facto de ser mulher, corria o risco abstrato de gozar de menos direitos do que os homens. Não sei quando é que isso aconteceu, mas tenho a certeza que sou feminista desde essa data porque o feminismo não é mais do que fazer parte do grupo de pessoas que acredita que é intolerável que as mulheres sejam prejudicadas nos seus direitos de cidadania, apenas por terem nascido mulheres.
Grande parte dos homens que conheço, provavelmente a maior parte, embora assim não se reveja de forma consciente, são tão feministas quanto eu.
São hoje pacificamente aceites na generalidade das sociedades ocidentais os princípios defendidos pelo chamado feminismo de primeira onda (concessão às mulheres do direito de voto, do direito de propriedade e o reconhecimento de que as mulheres e os filhos não são propriedade do marido). 
O feminismo de segunda onda, iniciado em 1960, centrou-se na luta contra as desigualdades sociais e culturais e teve como ênfase a tentativa de estabelecimento de políticas que evitassem a discriminação efectiva das mulheres.
Cerca de 1990, com o surgimento do feminismo de terceira onda - e mais tarde com o pós-feminismo, que acredita que estão estabelecidos os objetivos da igualdade de género - geraram-se divisões dentro dos próprios movimentos feministas, já que enquanto alguns acreditam que há diferenças de género que devem ser assumidas, outros defendem que essas diferenças pura e simplesmente não existem.
O discurso de Emma Watson na ONU, embora apresentado sobre as vestes de uma ideia nova, não é novo. Desde, pelo menos, 1980 que uma facção do feminismo reconhece que, sendo a sua mensagem essencialmente dirigida aos homens, a melhor forma, se não a única, de alcançar os seus objetivos é convencê-los a integrar o movimento.
O que o discurso de Emma traz de novo, e já é muito, é a eficácia publicitária na forma de transmissão da mensagem.  
Com efeito, na era global da comunicação, é possível vender-se qualquer ideia e qualquer princípio, desde que se usem as técnicas de venda certas. 
O feminismo, há que admiti-lo sem pudores, fruto da sua vocação abrangente e consequente dispersão de objetivos, não tem sabido vender-se, dando de si próprio uma imagem que, no seu radicalismo, faz com que as próprias mulheres nele não se revejam, acabando por se afastar.
O que o discurso de Emma teve de bom e de inovador, mais do que apresentar o feminismo como um produto que pode ser consumido por ambos os sexos, foi lembrar-nos que o feminismo é cool.

Vénia ao Pipoco Mais Salgado, o falso misógino de serviço (se não fosse ele, quem?), por se ter disposto a falar do assunto.



domingo, 28 de setembro de 2014

Os Maias


Por mais que me esforce para acabar com estes hábitos burgueses a bordo do navio, é um facto que o reflexo condicionado do tédio próprio dos domingos à tarde sobrevive à imposição de uma jornada sem dias de descanso.
Em sofrimento, a minha tripulação veio pedir-me autorização para improvisar um cinema no convés. Acedi sob condição de ser estritamente proibido comer pipocas, chocolatinhos, batatas fritas e todas essas coisas que transformaram as nossas salas de cinema num calvário de ruminação e cheiro a cantina, a tal ponto que uma boa oportunidade de negócio parece-me ser salas de cinema onde seja proibido comer.
Fizemos um referendo e decidimos, quase democraticamente, piratear Os Maias.  (A meio da eleição decidi enviar SMS insidiosas a fazer campanha por este filme, que, associando o amor à desgraça, contribui para o favorecimento da minha causa).
 Como ainda não há salas de cinema espalhadas pelo alto mar, fizemo-lo sem sombra de culpa. 
Álvaro de Campos fez uma prelecção introdutória sobre a narrativa que só interessou a Gualtiero, o Italiano, o único que não foi obrigado a ler o livro. Os ex reclusos nunca passaram do nono ano mas, sendo certo que além da spanish inquisition, dos impostos e do Natal, também ninguém escapa aos Maias, foram obrigados a lê-lo na prisão, à troca de saídas precárias.
Não sou crítica de cinema e, por isso mesmo, limito-me a dizer que gostei muito do filme, que aquilo dos cenários pintados até acaba por ter alguma graça e que todos, sem exceção, têm interpretações de grande nível.
No final do filme ocorreu-me, com algum desalento pela falta de originalidade da vida, que então, como agora, o drama do amor impossível resolve-se exatamente da mesma forma. Carlos da Maia fez uma longa viagem. Maria Eduarda casou-se. 

Medo da luz

"Podemos facilmente perdoar a uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz".

Platão, sempre preocupado com a minha vida...

sábado, 27 de setembro de 2014

Ao espelho



Espelho

Sou de prata e exata. Não tenho preconceitos.
Absorvo imediatamente tudo o que vejo, tal como é,
Limpo de amor ou desgosto.
Não sou cruel, apenas verdadeira- 
O olho de um pequeno deus, de quatro cantos.
A maior parte do tempo medito de encontro à parede.
É rosa, com manchas. Olhei-a tanto
Que penso que já faz parte do meu coração. Mas desvanece-se. 
Rostos e escuridão separam-nos uma e outra vez. 

Agora sou um lago. Uma mulher curva-se sobre mim,
Procurando no meu leito por aquilo que realmente é. 
Então, volta-se para essas mentirosas, as velas ou a lua. 
Vejo-lhe as costas e espelho-as fielmente. 
Ela recompensa-me com lágrimas e com a tremura nas mãos.
Sou importante para ela. Vai e vem.
Em cada manhã é o seu rosto que substitui a escuridão. 
Dentro de mim afogou uma menina e dentro de mim, dia após dia, uma velha ergue-se sobre ela, como um peixe terrível. 

Sylvia Plath 
(Tradução minha)

MIRROR

I am silver and exact. I have no preconceptions.
Whatever I see I swallow immediately
Just as it is, unmisted by love or dislike.
I am not cruel, just truthful -
The eye of a little god, four cournered.
Most of the time I meditate on the opposite wall.
It is pink, with speckles. I have looked at it so long
I think it is a part of my heart. But it flickers.
Faces and darkness separate us over and over.

Now I am a lake. A woman bends over me,
Searching my reaches for what she really is.
Then she turns to those liars, the candles or the moon.
I see her back, and reflect it faithfully.
She rewards me with tears and an agitation of hands
I am important to her. She comes and goes.
Each morning it is her face that replaces the darkness.
In me she has drowned a young girl, and in me an old woman
Rises toward her day after day, like a terrible fish.

Alerta laranja

Podes esperar pela tempestade esticada num lounge de camas brancas e jazz electrónico, com os pés enterrados na areia e os cabelos cheios de sal. Mas enquanto cospes os restos da hortelã do sumo e juras que à tua frente não existe uma nuvem, não ignoras a formação negra que se adensa nas tuas costas. 
Podes acomodar-te na espreguiçadeira, retomar o verso de um poema repetido, desviar-te dois centímetros da sombra.
Mas continuas à espera da tempestade.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Antes que setembro morra




Comprar um leque colorido e usá-lo muito em público.
Acreditar que se pode ser uma pessoa diferente por se ter um leque colorido.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Diário de Bordo

Por longos trinta dias estivemos, no mais absoluto dos sigilos, embarcação, piratas e animais, estacionados na marina do Parque das Nações.
As razões são complexas e qualquer tentativa de as explicar sairia frustrada já que há verdades, sobretudo verdades motivacionais, que só o decurso do tempo tem a paciência de aclarar.
À tripulação disse apenas que, após dois anos de dura vida marítima, mereciam umas férias junto dos familiares e amigos. Disse-lhes que não o decidia por generosidade, mas antes por saber que tais contactos teriam a virtualidade de lhes revigorar a vontade de se manterem em fuga por, pelo menos, outros dois anos.
Mas este mês sabático foi determinado por causas muito mais terríveis. Desde o dia em que aterrei em Nova Iorque tenho estado acometida por uma silenciosa crise existencial que chegou a fazer perigar a minha carreira de Pirata.
O contacto com a civilização capitalista, as lojas da quinta avenida, os brunch do bryant park, as montras com modelos vivos da Abercrombie, as festas nos terraços de Manhattan, os almocinhos na esplanada em frente ao lago do central park, começaram a fazer-me duvidar da utilidade da minha missão, obrigando-me a autocríticas destrutivas centradas numa certa comparação com a figura de Ahab, o capitão louco e a sua obsessão pela Moby Dick.
O amor, nunca o escondi, é a minha miserável baleia branca. 
Dedicar a vida à sua destruição é propósito que não se questiona a bordo de um navio pirata onde a tripulação masculina é pouco amiga do banho, maioritariamente cadastrada e cuidadosamente escolhida pela sua fealdade. 
Mas em Nova Iorque vi-me exposta à propaganda capitalista do amor, a um Eros alto, musculoso e de caracóis mais louros e brilhantes, arco de design art decor, que domina a utilização de corações pintados nos prédios com mensagens discretas e sublimares a implorar por "love me". 
Os pérfidos efeitos da publicidade massiva ao amor abateram-se sobre mim ainda antes do jet lag se ter esfumado. E de repente, a indomável vontade de erguer um sabre contra tudo o que se assemelhasse a um coração palpitante, deu lugar à tenebrosa compulsão por revistas espanholas de noivas, encomendadas online. 
Somos sempre salvos pelos outros e é essa, afinal, a única razão pela qual não eremitamos definitivamente. 
Quando vi o meu olhar apaixonado espelhado no horror e pasmo da minha tripulação, percebi que estava perdida. 
Rumámos na mesma manhã a Lisboa, comigo escondida na minha camarata a experimentar véus de noiva, a copiar citações roubadas da internet para cartões vermelhos em forma de coração e a assistir compulsivamente a doses inumanas de episódios de telenovelas venezuelanas.
Três angustiantes semanas depois, a Pirata que há em mim estrangulou a gémea fofinha que me roubou o lugar no voo Nova Iorque - Lisboa.
Eu e estes bravos tripulantes partimos ontem. Em direção ao terror e ao saque e à glória e ao domínio dos mares. Todos cada vez mais fugitivos. Fugitivos, sobretudo, desse medo que vem do chão. 
Todos cada vez mais Piratas. 

sábado, 20 de setembro de 2014

Entre o contentamento e o júbilo

"A felicidade é um estado durável de plenitude, satisfação e equilíbrio físico e psíquico, em que o sofrimento e a inquietude são transformados em emoções ou sentimentos que vão desde o contentamento até a alegria intensa ou júbilo."

In Wikipédia 

Ah, mas tanto que distam as margens, entre o contentamento e o júbilo.

Sobrou-me esta t-shirt de pirata

Diz Borges que apaixonar-se é criar uma religião que tem um deus falível.
Mas a falibilidade divina é transversal a todas as religiões se coadas no filtro pragmático da miséria humana remanescente. 
Temos, então, que apaixonar-se poderia ser criar uma religião.
Talvez. Mas apenas na medida em que assumirmos que é componente essencial da paixão a profunda crença numa verdade não comprovada. Acho que é isso que chamam de fé. 
Mas a fé não está ao alcance de todos. 
Não se escolhe ser crente.
E se Borges estiver certo, se apaixonar-se for criar uma religião, pode bem ser que eu esteja perdida.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

As primeiras chuvas

Enquanto o céu desabava sobre o amanhecer e uma mesa de bambu se afogava na varanda e insetos mortos eram arrastados na direção do ralo e o latir furioso dos cães nos acordava para o dia, dentro do quarto o cheiro quente da baunilha, a promessa de croissants acabados de fazer, a sensação do linho na pele, os acordes de uma música francesa comum. 
E entre o dormir e o acordar, entre o passado e o futuro, entre o inverno e o verão, a velha imagem de uns pés nus assentes na corda do funambilista, em equilíbrio precário. 

domingo, 14 de setembro de 2014

Ao que tudo indica

Primeiro, fiz um estudo aturado sobre o conceito de felicidade. Consultei enciclopédias, teses e gráficos e analisei o assunto com profundidade científica.
Depois, desconfiada, perguntei-lhe se era isto, afinal, essa coisa da felicidade.
Disse-me que sim.

A verniz

Quando se é Pirata e se decide viver a bordo de um navio e ganhar desonestamente a vida através do saque e da atemorização contínua dos outros torna-se inevitável fazer escolhas difíceis.
Foi sentada no convés, enquanto pintava as unhas do pé esquerdo com verniz Chanel, que percebi que o amor, ainda que epistolar e semi platónico, é incompatível com as exigências do comando de um navio Pirata.
O amor é mau para o negócio. Amolece-nos o coração e enfraquece-nos o espírito.  
Escrevi estas mesmas palavras, a verniz vermelho, nas costas da última carta que recebi de Herberto,  o escritor, enrolei o papel dentro de uma garrafa de rum, fechei-a com cuidado e atirei-a ao mar.
Espero receber a mensagem que enviei a mim própria a tempo de me salvar de chatices maiores.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

And that´s that


"The heart wants what it wants. There's no logic to these things. You meet someone and you fall in love and that's that." – Woody Allen




sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Assim

Só posso descreve-lo assim:
Entre o cais do sodré e o areeiro o globo terrestre estremeceu e reencaixou-se em torno do eixo. Então, recomeçou a girar. Como se o engenho nunca tivesse estado avariado. Como se os bolos de maçã com canela, os acordes do Moon River na guitarra, a meia lua em forma de sorriso, a marca dos dedos entrelaçados, um peso doce assente nas costas, a foz onde desagua um olhar que vê, houvessem estado sempre aqui. À espera.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Bolero que já não é do Vicente


Voltar

Diz Proust que a ausência, para quem ama, é mais certa, a mais eficaz, a mais viva, indestrutível e fiel das presenças. 
Foi assim que percebi, em jeito de momento Eureka, que o regresso desta viagem seria diferente de todas as outras. Só eu parti, mas voltámos juntos. 

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

sábado, 2 de agosto de 2014

Diário de Bordo

Depois do fracasso do meu romance epistolar com Herberto, o escritor - que descobri ter mais de oitenta anos e que conseguiu partir-me o coração sem que alguma vez, sequer, lhe tenha posto a vista em cima -  comecei a pensar que talvez esteja há demasiado tempo neste navio e não seja má ideia ir ver pessoas que não usem tapa-olhos e falsas pernas de pau.
Pretendendo aproveitar para esbanjar todo o conteúdo dos nossos cofres, uma rápida pesquisa no Google fez-me perceber que é em Nova Iorque que o posso fazer de forma mais rápida e discreta. 
À primeira vista pode parecer um acto egoísta, mas faço-o em prol da formação espiritual e da saúde da minha tripulação que, desde que enriquecemos com o negócio da venda da caca da baleia, não faz outra coisa a não ser apanhar sol na piscina. Começo finalmente a perceber a que se referem as pessoas que insistem em jurar que o dinheiro é um cancro. No nosso caso, pode vir a ser de pele. 
Deixo o comando do navio entregue a Álvaro de Campos, depois de uma aturada reflexão de vários dias que culminou com um-dó-li-tá. Como está quase sempre em coma alcoólico, antevejo aquele nível de anarquia indispensável ao bom funcionamento de qualquer instituição.
Voltarei quando conseguir esbanjar o último dólar.

This kiss is hello, this kiss is goodbye



"Take my hand, take my tongue, lets run."

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Fuso horário

Por fim, entre os dois interpôs-se a noite.
Como se não houvesse maior distância possível do que aquela que impede duas pessoas de fixarem, em simultâneo, o mesmo sol.
E foi como se cada um dos dois vivesse os dias sob uma agonizante luz artificial.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

A poesia não está inocente

Um barco de madeira que encontraram na margem do rio e empurraram até à água. O sol a bater-lhe nos olhos e os contornos do rosto dele a esbaterem-se na luz do fim de tarde. Um vestido branco deitado, imóvel, sobre os joelhos dele. O livro de poemas aberto na página marcada. Uma voz em uníssono com o sussurro dos juncos. O trajeto da lua nascente no horizonte. Uma mão que se segura na outra. O verso que ele lhe repete. E repete. E também estas coisas deverão um dia amanhecer esquecidas.  

A décima oitava casa

A minha décima oitava casa tem vista para as copas das árvores.
E uma varanda voltada a Sul onde as gaivotas vêm pousar.

Nada pode correr mal.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Perder ou ganhar






“From this point on in our lives, she had whispered to him earlier, we will either find or lose our souls.” 


Mas uma certa forma de decoro, terá impedido um de dizer ao outro que a premissa imutável é a existência de uma ou duas almas perdidas.

Da reinserção social



Sobre as férias, vim aqui informar que, lá pelo vigésimo mergulho, desvanece-se a estranheza de não ter rigorosamente nada importante para fazer. 


domingo, 20 de julho de 2014

Este é o degrau onde tropeça a melancolia




Estas são as minhas veias cruas,
disfarçadas na seda debruada do vestido
que roubei numa loja de Paris.

Estes são os meus ossos transparentes,
algemados nas asas de um sepulcro profundo
de chão de veludo-brocardo e cristais.

Trocava-os pela efemeridade de ser o fio de vento
que abraça os ombros ressequidos de sol
do Pirata
adormecido sobre as pedras da praia,
entre a onda que nasce e a que morre.

Onde as estrelas do mar dançam
a dança que embala o esquecimento
E o vento se deixa naufragar.

Este é o degrau onde tropeça a melancolia
de uma manhã que demasiado tarde e em vão se eleva
num céu de perfeito algodão doce.




sábado, 19 de julho de 2014

O mármore da tua ausência

E assim fazemos cumprir, em dobro, e qualquer uma destas tardes, em triplo, a profecia do poeta que transformámos em promessa, inquebrantável como o mármore da ausência: 


Despedida

Hão-de erguer-se entre o meu amor e eu 
trezentas noites quais trezentos muros
e o mar será magia entre nós dois.

Apenas haverá recordações.
Oh tardes merecidas pela pena,
noites esperançadas ao olhar-te, 
que vejo e vou perdendo...
Definitiva como um mármore,
a tua ausência irá entristecer outras tardes.


Jorge Luis Borges, Obra Poética, Vol. I, Quetzal.


Algodão doce


sexta-feira, 18 de julho de 2014

Afinal

As camas de praia, mesmo em lounges simpáticos, sobretudo nesses, talvez não sejam o melhor sítio para se conseguir escrever um conto em tempo útil.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Um calendário usado

Entre o meu lixo, descubro dezenas de fotografias impressas dos teus pés.
É o calendário eternamente incompleto de que hesito em desfazer-me.
Reparo na última imagem, no teu pé direito ao lado do meu pé esquerdo.
Figuração de um passo único. Mas incerto. Aleijado. Impróprio para caminhar.

Das férias

A única conjugação aceitável do verbo perceber.

sábado, 12 de julho de 2014

Permutas


Para o Xilre, que me deu o Wallace

Reafirmação do Romance

A noite não sabe nada dos cânticos da noite.
É o que é, como eu sou o que sou:
E percebendo isto, percebo-me melhor a mim

E a ti. Só nós dois podemos permutar
em cada um aquilo que o outro tem para dar.
Só nós dois somos um; não tu e a noite,

Nem a noite e eu, mas tu e eu, a sós;
Tão a sós, tão profundamente por nossa conta,
Tão além de ocasionais solidões;

Que a noite é apenas o nosso cenário,
cada um na suprema verdade de si próprio,
na pálida luz com que nos iluminamos mutuamente.


In Wallace Stevens
Tradução miserável by Cuca, na falta de melhor e receptiva às vossas sugestões
O original:
Re-Statement of Romance
The night knows nothing of the chants of night.
It is what it is as I am what I am:
And in perceiving this I best perceive myself

And you. Only we two may interchange
Each in the other what each has to give.
Only we two are one, not you and night,

Nor night and I, but you and I, alone,
So much alone, so deeply by ourselves,
So far beyond the casual solitudes,

That night is only the background of our selves,
Supremely true each to its separate self,
In the pale light that each upon the other throws.




SuperMoon

Em retrospetiva, sei-o agora, não haveria nada que pudesse ter sido feito.
A explicação saltou de um antigo calendário de superluas devastadoras e libertou-me.
Talvez até volte dançar sob a luz de uma nova lua gigante.
Tremores de terra e marés violentas, pensando bem, é o preço bagatelar do feitiço.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Um quadro onde passar a noite

Henri Rosseaeu, The Sleeping Gypsy, no MOma

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Cantigas de Escárnio e Maldizer

III.

Ele

Nunca foi amor, foi um equívoco. 
Num início de tarde tu foste embora e a montanha recuperou o silêncio. Mas o silêncio não voltou vestido do branco da quietude, tilintando os acordes do fundo da paz. Foi um silêncio opaco e pesado como uma surdez eterna. Um silêncio de interior de caixão soterrado.
Primeiro dei pela falta de todos os pássaros e vi ninhos caírem vazios no chão. Depois percebi que as noites aumentaram no tamanho e no rigor, sem um rasgo de lua a cortar o negrume. Esperei o nascer do sol no cimo da montanha, mas ele não veio iluminar o mar que amanheceu para sempre cinzento.
E então fui para o porto, à procura de um barco que me devolvesse uma partícula de elemento vivo. Mas os barcos encalharam no molhe e transformaram-se noutra montanha. De madeira e metal e plástico inútil.
Nunca foi amor, foi um equívoco.
Vagueei durante dias pelas areias da costa à procura de uma clave de sol início de um som de vida que quebrasse o silêncio. O mar vomitou búzios vazios, conchas carcomidas pelos anos e algas mortas. Nenhuma semi breve.
Tentei ler o teu rosto nas nuvens mas nem essas assumiram outra forma que não a neblina profunda onde se confundem o início e o fim das coisas.
Contei as noites pelos dedos e perdi-me no último dedo grande do pé. 
Numa madrugada, esqueci-me dos contornos do teu rosto e percebi a decomposição imagética do homicídio. Nesse dia, quando enterrei o meu corpo na areia para dormir, sonhei com um piano e compus nele uma música que ecoasse a minha miséria.
Na manhã seguinte acordei numa cama que me disseram ser a minha. Aninhei-me nela na posição fetal que conservo.
Recordo vagamente, como uma sombra lunar, aquilo que me ensinaram de ti.
Nunca foi amor foi um equívoco.



Amor epistolar 2

Descobri que Herberto, o escritor que nunca vi e que tem colorido os meus fins de tarde neste navio com o filtro polarizador da paixão nascente, tem oitenta anos. 
Enviei-lhe uma carta mais desesperada do que as outras exigindo-lhe o remédio para as minhas angústias existenciais que, percebo-o agora, passam pela necessidade de consumação deste amor epistolar.
Herberto, que crê que todas as respostas a outros tantos problemas equacionáveis nos foram gentilmente cedidas na literatura de Borges, mandou-me ir procurar ao livro.
Umas páginas depois, percebi que Herberto se estava a referir ao platonismo como solução.
Fui perguntar ao meu senhorio Israelita da Planície o que pensa disto.
Deu-me a seguinte resposta:

- Deves esquece-lo já! E, penosamente, voluntario-me para ser usado nesse processo.

Fiquei tão comovida com o espírito de sacrifício que não tive coragem para lhe corrigir o tratamento informal.

Itinerância

No último instante possível, perguntei ao coração, essa coisa que fica no fundo da alma à esquerda, onde estava a minha casa.
O coração explicou-me, com a paciência que é marca característica de todos os meus órgãos, que nem sempre a nossa casa permanece no sítio onde conservamos o endereço postal.
Foi com alívio que recentemente recebi a notícia que, embora não voltando para o meu lugar, este ano fico em casa.


sábado, 5 de julho de 2014

Manhãs


So speak kind to a stranger
Cause you'll never know
it just might be an angel come
Knocking at your door
Knocking at your door

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Teatros



Neste teatro, que é de sombras e é mudo, redistribuíram-nos os papéis no final do primeiro acto.
Saiu-te nas sortes chinesas a figura do vilão e a mim o da tua mocinha. 
Também podia ter sido ao contrário sem que o sol se perturbasse no seu trajeto do nascente ao ocaso ou qualquer outra estrela se movesse no firmamento de uma forma perceptível ao olho nu do pescador que sabe que amanhã a preia mar será às cinco e quarenta e oito. 

Perdoar-te com sinceridade devota é um texto que decoro e recito para dentro. Fazeres a vida na sombra da indiferença ao meu perdão é um gesto que repetes dentro das linhas de marcação do palco.

E ambos sabemos que depois do cair da cortina, 
apenas o som da madeira de duas marionetas, estragadas, de encontro ao chão cansado. 
E as sórdidas palmas de uma plateia néscia,
do amor.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Diário de Bordo

Na vida, e este navio é igual à vida mas em versão ligeiramente bizarra, os objetivos atingem-se mais ou menos por acaso e só por mera coincidência estatística na proporção do esforço meritório empregue. 
Fiquei pasmada quando percebi que, apesar do pouco que temos feito para realizar a nossa missão de atemorizar o mundo e granjear a fama, já ouviram falar de nós na Argentina.
Álvaro de Campos interrompeu-me o pequeno almoço de salada de frutas com iogurte e mel para me entregar nada menos do que uma carta de Jorge Luís Borges.
Aparentemente, Borges tem um amigo Pirata apanhado nas malhas do desemprego corsário e decidiu escrever-me para me meter uma cunha.
O candidato chama-se Egil Skallagrimsson e, segundo Borges, tem o seguinte curriculum: 

"A sua história abarca o Norte: a Islândia, onde nasceu no início do século X, a Noruega, a Inglaterra, o Báltico e o Atlântico. Foi hábil no manejo da espada, com a qual matou muitos homens, e no manejo da métrica e da intrincada metáfora. Com sete anos já tinha composto o seu primeiro poema, no qual pedia à mãe que lhe desse um navio comprido e bonitos remos para para sulcar o mar e fustigar as costas e matar aqueles que o enfrentassem. Nas antologias perdura o "Resgate da Cabeça", que na cidade de Iorque lhe salvou a vida, e uma ode que celebra a vitória saxónica de Brunangurh, na qual entreteceu uma elegia para chorar a morte de Thorolf, seu irmão, que caíra durante a batalha e a quem deu sepultura. Fugitivo da Noruega, gravou numa caveira de cavalo uma maldição de duas estrofes de setenta e duas runas cada uma, número que lhe conferiu uma virtude que não tardaria a cumprir-se. Era iracundo como Aquiles e cobiçoso. (...)"

Foi nesta altura que interrompi a leitura da carta, com os dedos tremeluzentes e as pernas bambas diante da magnífica perspetiva de ter entre nós um mix Pirata/Poeta iracundo e cobiçoso que desde os sete anos sonha fustigar até ao pó inocentes povoações costeiras.
Mas logo que levantei os olhos do papel pardo vislumbrei a minha tripulação embrenhada na sua heróica atividade de apanhar banhos de sol e percebi que talvez não tenha trabalho para Egil Skallagrimsson.
Ainda me ocorreu contrata-lo para nos espalhar protetor solar nas costas, mas logo reparei que Borges anexou uma fotografia do candidato:

Terei de escrever-lhe a explicar que Skallagrimsson tem excesso de qualificações.

(In, Biblioteca Pessoal, Quetzal)

O meu amigo está longe


"Nem um poema, nem um verso, nem um canto,
Tudo raso de ausência, tudo liso de espanto"


segunda-feira, 30 de junho de 2014

Impostores

Diz Borges, a propósito de Arthur Machen, que toda a ficção é uma impostura e que o interessa é sentir que foi sonhada sinceramente.
A pretexto da escrita de um conto que me atormenta, ocorreu-me que a frase é igualmente válida para o amor, esse impostor por excelência.  
Se o amor é um Frankenstein composto por ilusões, esperanças, enganos e substâncias químicas isoláveis em tubos de ensaio, então, o máximo que podemos esperar do seu objeto é nos sonhe sinceramente.  
Ninguém tem culpa de acordar.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Tetsubin

Jantámos os dois na companhia um do outro, embora separados por muitos quilómetros de distância e na presença de terceiras pessoas. 
Entre o chá verde e o sashimi, a veemência do protesto da ausência fez-me aterrar sobre a mesa com tal velocidade que confundi os interlocutores.
- sabes o que é um tetsubin?
- um vestido de japonesa?
Ainda pensei em iniciar uma dissertação sobre a arte do chanoyu, a temperatura da água e a intensidade do sencha, mas deixei-me vencer pelo desalento.
- é uma chaleira.

Love more


Chained to the wall of our room
Yeah, you chained me like a dog in our room
I thought that's how it was
I thought that we were fine
Then the day was night
You were high, you were high when I was doomed
And dying for with no light, with no light

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Sabres

Do cabo à ponta da lâmina: A distância mínima que é obrigatório conservar entre opositores com sentido de honra.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Todos os Poetas são magos


Um Sistema de Relação

Considere-se o caso em que A é igual a 1.
Obtém-se a função ípsilon igual a X à vida inteira
partindo da convicção que nenhum amor é para sempre
sendo A o mínimo absoluto do que és capaz de amar
e 1 uma falha de expressão comum ao tempo
em que sofrias fechada num quarto
a sentir uma régua de luz com origem sobre o teu rosto
a definir a região inundada do teu espaço
à medida que o tempo ocupa uma parte da cidade
e a tua situação representada numa estação de comboios
onde o esquema da vida se define por perpendiculares
aos dias cruzados na tua memória
sendo cada dia um gesto que te posiciona
em relação a todos os medos
mentiras de origem abjectas
e a proporção de ípsilon na mais estranha irracionalidade
no centro de um jardim onde se passeia geometricamente
apenas com o pensamento intimamente ligado
por símbolos de circunferência e dimensões harmoniosas
comparando o valor da vida à mais bela arquitectura
da experiência e da perda
um processo prático desenvolvido no laboratório
das horas mais simples e gráficas
ordenadas de uma forma circular
no teu caso um valor compreendido
entre duas questões humanas
por comparação do que foi destruído
pois há uma maior concentração de tristeza nos teus olhos
se designarmos por sofrimento algumas atitudes provocadas por 1
e se traçarmos duas rectas de amor paralelas à desigualdade de amar
e que passem pelos dias intuitivamente felizes
nesse quarto classificado de nuvens pesadas
onde a tua vida é agora inferior à média da felicidade
se concluirmos que o estado de ser feliz é um ponto diário
que varia de predominância e influência
nos tempos nulos condenados e negativos
na figura mínima encostada ao balcão do álcool
numa noite de cubos de gelo
e o que uma bebida especial
servida à mistura com a estratégia das palavras fez dos teus planos
calculando agora o valor referente aos lucros do amor e das promessas
introduz as marcas do teu corpo e obténs as medidas do teu prejuízo
define o tempo correspondente a cada acto de amor
seleccionando o menu da tua experiência
e tens uma lista que confirma o historial da tua personalidade
para que função o problema X tem significado
se o volume da tua casa tem todas as janelas fechadas
e o teu corpo é um fio de comprimento que mede a solidão dos dias
ou se os teus braços já não traçam uma recta de prazer abaixo da cintura
ou ainda se o teu sexo é um foco distante que se fecha em curva
e não há intersecção nem arco entre dois corpos
considerando as arestas da tua vida propriedade de defesa
uma estimativa do tempo ao fim do qual tudo se perde
e tens deste modo um amor protagonizado pelo desespero
sujeito às regras da obediência e da ilusão.

Fernando Esteves Pinto

Mundial

Neste navio estamos indecisos entre atribuir as culpas da desgraça a Gualtiero, o Italiano, ou Andhirmnir, o cozinheiro Pirata.
Talvez o último, que sempre é nórdico.

Condição de boneca


O calor do dia aliou-se ao fumo de um incêndio próximo e juntos rastilharam a febre dentro dos meus pulsos. 
Adoeci.
A dona da casa saiu para apanhar azáleas e perdeu o espírito na rua. 
Foi então que o rapazinho chegou para brincar com a sua boneca.
- As bonecas devem conservar-se a temperatura amena.
Lembrou-se ele enquanto me sentou num sofá branco climatizado e experimentou nos meus pés minúsculos sapatinhos de renda.
O oxigénio não me chega aos pulmões e do outro lado do vidro há uma lua que se enubla a cada instante que voa.
O rapazinho passa-me do sofá para a cama de brilhantes, não sem antes me escovar os cabelos de nylon e me descalçar os sapatinhos.
A dona da casa saiu para apanhar azáleas e caminha fresca por entre uma vereda com vista para o cheiro do mar.

Enchem-me de pulseiras coloridas os pulsos da febre. 
Na minha confusão, sabem-me a algemas.

- Gosto muito da minha boneca.
Lembrou-se ele enquanto me arrastou, de cabeça para baixo, na direção de um carrinho.


A dona da casa saiu para apanhar azáleas e manda dizer que só volta quando a noite voltar a estar respirável.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Ex-notas

Entre as minhas notas antigas, encontro a seguinte frase: "A loucura do acaso e a lógica do destino."
Garante-me o registo que misteriosamente me dei ao trabalho de fazer que a frase é de Nabokov, Contos Completos I, página 317.
Mas o destino não obedece aos cânones da lógica. E há pouca coincidência, e menos loucura, no acaso.
A frase é falsa.
Apago-a rapidamente, como se apagasse uma fotografia comprometedora arrancada num instante de distração.
Pergunto-me quando terá sido escrita, que histórias andava eu a tentar contar a mim própria e se me terei deixado convencer.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

A morte branca



A verdade é que tenho andado indecisa entre combater esta tosse suspeita ou aceitá-la na perspetiva da oportunidade de morrer como heroína romântica.

Marie Duplessis, por exemplo, foi uma desprezivelmente fútil cortesã que nunca fez nada de relevante na sua curta vida. Suspeito que não teríamos ouvido falar nela se não se desse o caso de, na ruína e já sem novos homens por perto para arruinar, ter tido a excelente ideia de se deixar morrer de tuberculose.
A literatura eternizou-a na Marguerite Gauttier de "A Dama das Camélias". A música, na Violeta Vallèry de "A Traviata".
Talvez a designação "morte branca" se deva menos ao estado final de absoluta palidez das vítimas, do que à capacidade da doença de branquear a negrura das condutas.
Desde que se morra dela, é claro.





quarta-feira, 11 de junho de 2014

E ainda o cheiro do mar


O som de um saxofone a brilhar no crepúsculo das paredes. As asas da traça de encontro ao vidro da janela fechada. A nuvem de fumo que se acolhe na lâmpada. Uma mancha minúscula a estender-se para lá da ombreira. A folha branca que a ventoinha propulsiona em voo tropeçado. Moléculas de pó que me caem das clavículas e se arrastam pelo chão. O teu nome escrito a dourado num sobrescrito esquecido. Duas memórias rasuradas.
É interminável a lista de desesperos que aprisiono dentro desta sala. 




terça-feira, 10 de junho de 2014

Eu sei, diz-te a canção do medo...


Amor epistolar 1

Percebo agora que nem no alto mar é possível preservar o coração embrulhado em celofane.
Esta que vos escreve, à semelhança de todos quantos habitam o mesmo navio, não escolheu a vida de pirata apenas pelo gosto sanguinário do crime, o bálsamo do cheiro da liberdade na onda de uma maré, ou essa balada quotidiana que nos embala o coração de ciganos dos mares. 
Aqui, todos fugimos de alguma coisa e eu escolhi fugir do amor.
Mas Eros, a criança assassina, tem formas ardilosas de nos fazer olhá-lo dentro dos olhos, deixando-nos presos do reflexo do nosso próprio sorriso de basbaque.
A minha correspondência com Herberto, o escritor, iniciou-se de uma forma acidental e imbuída do espírito de inocência que sempre gera os mais insolúveis dramas humanos.
Passaram-se três meses. Contam-se mais de vinte cartas.
Será possível amar-se alguém que nunca se viu?


Quadro de René Magritte

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Diário de Bordo

Numa tentativa de aplacar o meu mau humor da última semana, e sabedores das minhas manias do domingo como dia de elevação espiritual, ontem, a tripulação decidiu organizar uma sessão de cinema surpresa.
Gualtiero, o Italiano, com a ajuda de dois dos ex- presidiários, pirateou na net o filme Tabu; as bloggers fizeram pipocas salgadas com recurso a uma receita milenar; Álvaro de Campos, o engenheiro, menos alcoolizado do que o habitual e com a colaboração do resto dos ex-presidiários, construiu uma pequena sala de cinema dentro da piscina; Adhriminir, o cozinheiro pirata usou a bimby para nos fazer um mojitos e os poetas preparam uma bonita apresentação do filme em que não faltaram as metáforas sobre amores impossíveis e intrépidos exploradores que almejam sentir na carne as dentadas de um crocodilo melancólico.
Assisti à sessão sentada ao lado do meu ex senhorio da planície, o israelita da Mossad que, insistindo em manter o disfarce de pacato alentejano, fingiu dormir dois terços do filme. 
No final da sessão, contagiada pela consternação da plateia com a intensidade do drama romântico, levantei-me, pedi desculpas pelo meu humor e justifiquei-o com um desgosto amoroso.
Nessa altura, o Israelita da Mossad fingiu acordar, limpou o fio de baba que deixou escorrer pelo queixo para dar um ar realista à falsa soneca, ensaiou uma expressão estupefacta e perguntou de forma não completamente impertinente:
- Homessa... mas se está aqui fechada neste navio e não anda com ninguém... como conseguiu arranjar forma de lhe partirem o coração?
Expliquei-lhe, com a paciência que me caracteriza, que apesar de tecnicamente ainda não me terem partido o coração, tendo eu desenvolvido um recente interesse por um homem é certo e sabido que tal acabará por acontecer. E que, assim sendo, decidi queimar todas as etapas intermédias e, evitando perder mais tempo, entreguei-me já à fase final do processo que consiste em deixar-me cair num profundo e intenso estado de desgosto.
A minha tripulação, pese embora tenha deixado transparecer alguma dificuldade em perceber o meu argumento, mostrou-se mais empática do que seria de esperar.
Álvaro de Campos, que ontem estava num dos seus melhores dias, escreveu mesmo um poema para mim, que, generosamente, passou a recitar:

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos de criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir. 

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçaram-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles dez de mim.

(...)

Ia ele neste verso quando foi abruptamente interrompido pelo meu ex-senhorio, Israelita da Mossad que, tornou-se claro, tinha passado os últimos minutos à procura de uma solução.

- Você precisa urgentemente ir para a cama com alguém...

Constatei que não me tratou por tu e fiquei satisfeita por, finalmente, ter adoptado para comigo um tratamento respeitoso.
Os domingos são dias bons.

domingo, 8 de junho de 2014

Serpentes


Em tempos, engoli a Serpente.
Agora, a música despertou-a e a ela espreguiça-se.
De encontro às paredes do meu estômago.

Quadro de Gustav Klimt, Sea Serpents (detalhe)

por mais distância que corras, por mais dias que passem, de teu coração não conseguirás escapar


“Mas se as pernas avançam por vontades superiores, soberanas ou divinas, já o coração, o mais insolente músculo de toda a anatomia, dita, em paralelo, outras razões para amar. Pobre homem, o infeliz. Pois o caprichoso órgão manda mais que rei e interno e aqui revelamos a verdadeira lei da expedição: percorrer os confins do mundo, afastar-se das terras onde viu morrer, sem que à morte pudesse obstar, a sua querida e doce esposa.
Intrépido é o explorador. Mas por desespero, taciturno e melancólico, a triste figura agarra-se em consolo pelo planalto inóspito e, por mistérios que o homem não explica, recebe em visita, de lugares ainda mais longínquos, aquela por quem o coração lhe suplica. Vestindo – oh pormenor de acentuada morbidez – o rico vestido que a amortalhou quando à terra desceu.
- Por mais distância que corras, por mais dias que passem, de teu coração não conseguirás escapar.
- Então morrerei.
- Triste e pobre infeliz.
Submerso em turvas águas, um crocodilo aguarda o seu momento. 
O intrépido explorador bem sabe que neste rio encontrará o seu destino. 
Os seus homens testemunham o horror. O explorador despede-se da vida.
A noite cai sobre a savana e mil e uma noites cairão após essa primeira.

Nesse tempo, depois dele, por mais absurdo que pareça a todos os homens de razão, há quem jure a bom jurar ter avistado demoníaca visão: um crocodilo triste, melancólico, acompanhado por uma dama de outros tempos. Inseparável par que um misterioso pacto uniu e que a morte não pode quebrar."

do Prólogo de Tabu (Miguel Gomes, 2012)

Meia lua menos uma dentada

Há quem acredite que tudo aquilo que existe no mundo, desde  a substância agregadora das coisas até à célula génese do pensamento, são transferências de energias.
E há também quem creia que a energia das emoções, uma vez ultrapassada a carga processável pela mente, se dissipa pelo cenário que as envolve e se deixa cair, arrefecida, sobre as coisas. Cobrindo-as com um manto feito dos mesmos fios com que foram tecidos os sentimentos. De tal forma que, um simples banco de jardim, tanto pode assumir a sombra soturna da memória do último fôlego daquele que nele foi assassinado, como o brilho solar da felicidade de um casal de namorados que, sem sequer ver o banco, ali se sentou para se beijar. 
E foi para tentar perceber quanto tempo resiste nos locais esta forma de energia que ontem, depois de a lua se erguer, segui os nossos passos da noite anterior. 
Na calçada junto ao rio encontrei, espalhados, restos de uma felicidade de véspera que, assim, abandonados a céu aberto, me pareceram indecorosos, quase decadentes.
E enquanto me baixava para recolher do chão a energia das emoções sobejantes, olhei para a lua, quase perfeita meia lua, e percebi que alguém lhe deu uma dentada.



sábado, 7 de junho de 2014

Tabu

Vi o filme, conheço a história, sei o final.
Nada ficará por dizer.

Splash chop tzzzz

É óbvio que Vigny - que terá dito que, contrariamente ao clamor (que pode ser estrangulado), não temos como nos vingar do silêncio - nunca teve oportunidade de reflectir sobre a utilidade marginal do objeto telemóvel e os elevados poderes terapêuticos contidos no gesto de o atirar à piscina.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Descalça

Dizem-me, para me consolar, que as pessoas que estão habituadas a decidir o destino das outras são as que mais sofrem diante de um cruzamento quando se trata de decidir o seu próprio caminho. 
Hoje é um bom dia.
Também à alma se aplica o processo de distensão muscular que se segue ao acto de descalçar uns sapatos exageradamente apertados.
Com a escolha irreversível já formalizada; com o destino codificado num papel a caminho de um lado qualquer; com as consequências ainda distantes do gesto, apenas o alívio de uma decisão. 
Nem importa se boa ou má. 
O alívio doloroso dos pés finalmente descalços. 
E esta chuva. Como se até as nuvens não suportassem mais um grama de peso.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Pé de Pirata Snob-chic

"Afundo um pouco o rio com os meus sapatos 
Desperto um som de raízes com isso
A altura do som é quase azul"
Manoel de Barros

domingo, 1 de junho de 2014

Grandes Filósofos



"Amar é sofrer. Para evitares sofrer, não deves amar. Mas, dessa forma vais sofrer por não amar. Então, amar é sofrer, não amar é sofrer, sofrer é sofrer. Ser feliz é amar, ser feliz, então, é sofrer, mas sofrer torna-nos infelizes, então, para ser infeliz temos que amar, ou amar para sofrer, ou sofrer de demasiada felicidade - espero que estejas a perceber."

in Love and Death, Woody Allen

Eros, esse arqui-inimigo

"O amor é uma cama, 
feita de pedras e lama, 
É o que há de mais negro em nós; 
É um corte, um percevejo, 
É o lado mau de um beijo 
É uma valsa dançada a sós."

Prana, A Valsa do Cupido, Esse Sacana

Entre a quinta e a sexta estrofe

Deitados nas espreguiçadeiras do convés:

- Suponha que entre a quinta e a sexta estrofe, por exemplo, me apaixono por ele?
- Porque haverias de fazer isso?
- Sei lá porquê! Não seria coisa inédita. Às vezes acontecem-me coisas non sense. 
- hum, já sei... A mítica tendência dos piratas para a bizarria ...
- Não se ria. O caso pode ser sério! Esta noite sonhei com ele...
- Está na altura de voltares comigo para a amnésia imensa da planície. Ambos sabemos que este navio acabará estacionado na barragem de santa clara.
- Não quero ouvir nada disso! Estou farta de si e da sua organização manipuladora ... 
- A propósito de manipuladores, ouvi dizer que Napoleão...
- Nem mais uma palavra! Amanhã quero-o fora daqui! E trate-me por senhora!!!! Exijo-o!!
- Pronto, pronto. A senhora desculpe-me por não lhe aconselhar o mergulho em profundidade nas águas infestadas por tubarões...
- Estás a irritar-me tanto... Que sabes tu sobre o amor, afinal?
- Tanto quanto tu. Nada de nada. E então? Posso dizer aos velhos da praça que voltas para a planície? 

Um quadro onde passar a noite

Edgar Degàs 

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Noite

E quando a noite caiu, ainda estávamos juntos, nesse canto etéreo do universo onde nos sentamos, um em frente do outro, ambos descalços, para não pisar o verso dos poemas com que forramos o chão. 
Esses poemas, de que nunca poderíamos ser personagens.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Das penas

A pomba entregou a sua mensagem. 
Deixou-a cair quase aos meus pés, de tão perto que estávamos.
Foi a primeira da formação, porque, suponho, quem me conhece os hábitos saberá que sou melhor a chegar a horas do que a ficar até ao final.
Não faltou o nome de código, versão murmúrio, o gesto a condizer. 
A mão esquerda no coração, a cujas janelas se assoma a pomba que traz a mensagem. 
Foi perfeito e não serei ingrata.
Reconheço o valor do empenho nos bastidores de tão formidável encenação. 
Um telefonema? Dez telefonemas?  
Acho que noutros tempos teria desmaiado de emoção.
Mas os tempos são estes. Tornei-me uma pessoa de gostos simples.
A verdade desnuda do silêncio não se cobre no veludo das cortinas de opereta.








Metade de qualquer coisa

sábado, 24 de maio de 2014

Poeta en el mar

Se recuperei a plena propriedade da senhora lua; retive em segredo duas ou três estrelas; fiz minhas as ondas do mar sobejante e até me devolveram a superfície das ilhas, não vejo razões objetivas para continuar a partilhar os direitos de utilização dos acordes da guitarra de Vicente Amigo.
Hoje, tocará apenas para mim.