domingo, 23 de dezembro de 2018

Estrela do Norte

És a madrugada que atravessa a noite negra
e ilumina a face mais sombria do meu ser.
És o sol de inverno que do alto se alquebra  
e os meus pés nus vem na manhã aquecer.

E és o vento sueste que faz das ondas mau caminho
e sopra aos meus ouvidos este imperfeito bolerinho.

És a porta e a praça da velha cidade a oriente
O jardim de laranjeiras que julgo ter sonhado
O lento render da tarde na lua que se pressente
O tigre, a górgona, o centauro, o cavalo alado.

e és a letra com que todas as estórias se escrevem
e és a pauta onde todas as notas de jazz fervem

E és a água, o vinho, o mel, a pimenta
O rasgo na carne, as veias abertas, o sangue
O travo do mar na minha boca sedenta

O sul para onde as  aves partem
E o norte onde os rios nascem.









segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Diário de Bordo

Este navio chega hoje ao Natal.
As luzes dos chineses já estão espalhadas pelos mastros e agora é esperar que isto não arda tudo. Pendurámos os prisioneiros no cesto da gávea unidos em forma de estrela. Ficou bonito. Com os que nos sobraram, fizemos um presépio vivo em que não nos falta nem a girafa, nem o leão, que o Circo Chen nos alugou a preços de saldo. Não temos menino jesus, mas como tencionamos desmontar tudo a 25, contamos que ninguém chegue a dar pela sua falta. Substituímos o rum pelo vinho quente com canela. Andhriminir, o cozinheiro viking, está desde ontem a treinar receitas natalícias. Polly, o papagaio Pirata, consciente da sua aptidão para sucedâneo de peru, não tem sido visto na cozinha. Os bloggers e os poetas, num raro armistício, andam pelo convés a ensaiar cânticos de Natal. São péssimos. Os ex presidiários, libertos desde que há muitos anos atrás embarcaram neste navio, continuam a cumprir a atávica tradição de passar estes dias a preencher requerimentos para saídas precárias. Álvaro de Campos, é claro, dorme embriagado. Guiliano, o Pirata Italiano, está ocupado a escrever postais de Natal para todas as suas namoradas. Esta vossa tudo menos humilde capitã, que deus-nosso-senhor-nos-livre-de-tamanho-defeito, senta-se finalmente na sua cadeira de pensar e pensa que este ano, antes de aqui chegar, já trazia o Natal no coração. 
(de seguida, é claro, vomita o cliché)  

domingo, 16 de dezembro de 2018

Death makes angels of us all

Wow, I'm sick of doubt 
Live in the light of certain 
South Cruel bindings. 
The servants have the power 
Dog-men and their mean women 
Pulling poor blankets over 
Our sailors I'm sick of dour faces 
Staring at me from the tv Tower, 
want roses in 
My garden bower; dig? 
Royal babies, rubies 
Must now replace aborted 
Strangers in the mud 
These mutants, blood-meal 
For the plant that's plowed. 
They are waiting to take us into 
The severed garden 
Do you know how pale and wanton thrillful 
Comes death on a strange hour 
Unannounced, unplanned for 
Like a scaring over-friendly guest you've 
Brought to bed 
Death makes angels of us all 
And gives us wings 
Where we had shoulders 
Smooth as raven's
Claws 
No more money, no more fancy dress 
This other kingdom seems by far the best 
Until it's other jaw reveals incest 
And loose obedience to a vegetable law. 
I will not go 
Prefer a feast of friends 
To the giant family.

Virá o amor e terá os teus olhos

Sobre o amor, aprendi que deverá ter os mesmos olhos onde quer que esteja.
No amanhecer das ruas de Montmartre; no por do sol do Sena; nas noites escuríssimas de Santiago de Compostela ou nas madrugadas húmidas do Minho. Um amor que se apresenta com os mesmos olhos nas festas de Lisboa ou nas estradas de Queijas. No cansaço, no sono, na alegria. É um olhar único a essência do Amor.

(O título é roubado ao Pavese, que escreveu “virá a morte e terá os teus olhos”.)

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Rubaiyat

Nunca antes tinha percebido as razões pelas quais tanto gosto de poesia árabe.
Amor e vinho: A composição temática de qualquer bom rubaiyat.

Por mais esta noite

Deitada no chão, à sombra da árvore da vida, o céu é sempre de um azul tangível. As folhas ainda eram verdes quando aqui me deitei e coroavam as ocasionais figuras feitas de nuvem que deslizavam lentamente. Entretanto, amareleceram, caíram e vieram forrar de ouro a cama onde me deito. Agora tenho vista aberta para o infinito e, à noite, as estrelas acendem o rasto de um olhar.
Deitada no chão, à sombra da árvore da vida, perdi o fascínio pelas constelações amovíveis e pela direção dos ventos. São coisas que só interessam a quem viaja e eu não quero estar em nenhum outro lugar. Fiz deste chão a minha casa e é a única a que algum dia pertenci.
Deitada no chão, à sombra da árvore da vida, há muito que se avariaram os relógios, partiram as ampulhetas, obscureceram todas as clepsidras. O tempo desistiu de nos contar os dias e nós fizemo-los nossos com a avidez do mendigo ao seu cobertor.
Se estender os dedos, posso tocar o céu, tingir de azul a derme da alma, acender a lua.
Deitada no chão, à sombra da árvore da vida, se estender para os teus os meus dedos, quando estendo para os teus os meus dedos, é a mortalidade que se ajoelha.
E seremos deuses por mais esta noite.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Eros, a criança delinquente

O maior inimigo da criatividade é a paixão correspondida.

domingo, 14 de outubro de 2018

Talvez el corazon se lanza al mar sin poder nadar


Leslie

Os teus braços são a muralha de encontro à qual se desfazem todas as tempestades.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Confissões

como boa ladra que sou, roubo com a mão direita aos poetas, aquilo que com a esquerda te estendo.
no mercado das almas, a poesia, ainda assim, é a menos indigna das moedas. 


segunda-feira, 24 de setembro de 2018

sábado, 22 de setembro de 2018

Caderno de encargos

Habituar-me-ei à felicidade.
Será azul a sombra do pássaro,
leve o rasto de cada ausência,
certo o pulso da emoção.

Não deixarei culturas microbióticas
subirem por tábuas de gavetas fechadas
nem procurarei os telhados inclinados
para neles estender a corda de funambulista

Não ouvirei os sussurros que o medo
que vem do chão, deposita à noite na almofada
nem lhe retirarei todas as espadas
para que com o seu fio não me corte.

Será sempre inteira a lua,
estreita a corda de todos os Nós,
aberta a mão que se entrega.
Habituar-me-ei à felicidade.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Home

Quando os ossos se encaixaram, a combinação rasgou no peito uma porta inusitada.
Entre a quarta e a quinta costela fiz a enxerga onde me deitei a dormir. 
Foi o sono dos animais, das crianças, dos inocentes.
Havia, enfim, chegado a casa.

domingo, 16 de setembro de 2018

De um verso de Fernando Assis Pacheco

Porque tudo se escreve com a tua letra.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Capitão Strut

Um coração Pirata, vem nos livros da especialidade, só se deixa espelhar em coração de igual natureza. Podemos percorrer todos os mares de olhos abertos, apontar bússolas a rochedos escondidos, usar de um resto de boa fé para com meros mortais, ignorar os bons avisos do vento, recitar esses antigos códigos de ética de uma única frase. Tudo podemos fazer e tudo será em vão. Um coração Pirata nunca pertencerá a ninguém. E só se dará em penhor a outro coração Pirata. 
Durante uma curta estada em Tortuga, nas tabernas de má fama, entre facas e dados, vi-o ao balcão. Os céus responderam com um eclipse e a lua foi de sangue.
Os códigos de acasalamento da minha gente não correspondem aos dos homens de bem. Envolvem tangos de rosas roídas, danças de espadas ao luar, palmas das mãos seladas em pactos e a certeza empírica das coisas de que, inevitavelmente, um dos dois terá de morrer. 
O Capitão Strut partiu hoje para o mar do Norte. 
Perdi as horas sentada na gávea entre um livro de Virgínia e o reflexo metálico que deixaram no mar as asas do meu capitão. 
Neguei os três pratos que me estendeu Andrhiminir, o cozinheiro Viking adorador da bimby. Mandei calar o melhor verso de Álvaro de Campos. Ignorei os protestos dos presidiários. E quando a tripulação blogger, em desespero de causa, sugeriu chamar Tagik, o berbere contador de histórias, fiz saber que o deserto já não mora em mim.
Polly, o papagaio Pirata, pendurou-se no mastro de onde me grita insultos sobre a vulgaridade das mulheres apaixonadas.
Tenho uma campanha para fazer e todo o mar das Caraíbas para aterrorizar. 
Mas o meu capitão partiu e num baú cerrado, em penhor, levou-me um músculo que me faz falta. 

Dos diários

Não me assustam os registos das angústias, das dores fantasma, da tristeza ou, pior, do tédio. No mais profundo dos poços sempre se esconde, entre as avencas, uma ou outra metáfora que é nossa. A inquietação registada é um farol que alerta para a proximidade das escarpas. Ou o nível por onde se medem as águas altas. 
O que já não suportaria era o registo desta luz dourada sob a pele, a que convencionaram chamar felicidade. 
Se um dia a perder, prefiro não ter provas de que me pertenceu. 

domingo, 9 de setembro de 2018

A sétima onda

esse espaço de tempo em que já se sabe que se mergulhará num mar revolto, mas em que, com os pés ainda bem assentes na areia, se contam as ondas pelos dedos da mão. Ao segundo dedo da mão esquerda, a sétima onda, esperar os exatos segundos necessários
mergulhar. 
O medo que atrasa o passo, já o sabemos, é o mais curto caminho para o embate.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Um quadrado do céu

Para memória futura, arranquei um quadrado ao céu e guardei-o no bolso.
Para memória eterna, tatuei na retina o horizonte das três da tarde.
Percebi que já pouco mais posso querer do mundo.
Um quadrado de céu portátil e a impressão eterna do horizonte das três da tarde.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Ah, mas e a bruma

Descongelar um coração é um processo científico de elevada precisão.
Há um equilíbrio entre a temperatura externa e o tempo que deve ser rigorosamente respeitado.
Os desvios à fórmula podem tornar o órgão imprestável para utilizações posteriores.
A bruma, percebi-o agora, dessa forma incidental que é apanágio das melhores descobertas científicas, é uma condição atmosférica propícia à descongelação.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Ambição

Não há projeto mais ambicioso do que o de sermos amados por aquilo que um dia fomos.

O fim do verão

O meu corpo adianta-se sempre ao fim do verão. Tenho a pele coberta pelas folhas que começarão a cair e os olhos raiados pelas sombras dos jaracandás despidos. Aguardo ansiosamente pelas primeiras manhãs de frio na esperança que me devolvam a coerência das coisas.
A uma primavera a que faltei, seguiu-se um verão que não me pertenceu. Foi um sonho breve de sesta de canícula. O ruído da praia muito ao fundo e o tempo a escoar-se numa vala aberta. Preguiça e desistência. Foram os sabores mais vendidos na gelataria da esquina.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Ascensão

Mas depois, afinal, os interstícios da terra eram estéreis.
A aridez do ferro, sob os pés,
deixava feridas por entre os dedos.
E a cada passo surgia uma vala
e um fundo de enxofre atravessado por girinos.
O sol abrasava os ombros dos homens que caminhavam
de cabeça baixa,
como quem protege a fronte dos céus.
As pessoas, na sua fealdade, pareceram-me feitas de medo.
O medo saía-lhes da boca em forma de bolas de sabão
e, pesado, desfazia-se de encontro ao chão.
Perguntei-lhes pela poesia mas
logo percebi que ainda não tinham inventado a metáfora.
Aguentei seis dias estelares.
Ao sétimo,
 subi por aquilo que me pareceu uma árvore
(Mas que também podia ser o fóssil de um sonho)
e ascendi ao espaço em branco
que fica entre dois versos do poema
de onde nunca deveria ter saído.




sábado, 21 de julho de 2018

Tangos

E depois de uma valsa ir-te-ás como uma 
tristeza que atravessa a rua deserta 
e haverá quem fique a olhar a lua
nalguma porta. 

Do poema «Has Vuelto», de Evaristo Carriego, citado por Jorge Luis Borges em O Tango, Quetzal.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Um rato

Na mesma semana desisti de duas coisas que queria fazer apenas para evitar a melancolia que me teriam provocado. Na verdade, desisti da primeira e fugi da segunda. Outras pessoas, mais benevolentes, fariam notar que a maturidade ensina a proteger-nos, a não enfiar os dedos nas tomadas, a recusar os joelhos esfolados. Mas eu não sou outras pessoas e não admito reivindicar para mim a benevolência que não gasto nos outros. Reconheço a cobardia quando a vejo assim de perto,

ouvido no Super Bock Super Rock

«É a única pessoa por quem alguma vez senti nojo efetivo.»
Fiquei a pensar que, talvez, por contraposição ao nojo virtual.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Um monstro, imenso como a noite

FELICE  O medo é um monstro, imenso como a noite...
CLARE. E projecta sombras, tal como o sol.
FELICE  Rápido e imprevisível, rápido como a luz...
CLARE  Desliza sob a pressão do polegar.
FELICE  Ontem à noite fechámo-lo lá fora.
CLARE  Mas já hoje o vimos de relance.
FELICE  Numa esquina, como um rato.
CLARE  A roer, a roer as quatro paredes.

Tennessee Williams, in Peça para Dois Atores, No Bar de Um Hotel de Tóquio e outras peças, Livros Cotovia

Reunion

There's an end to us with someone else inside
You shine your light
There goes that feeling, won't let me see them

Never not ever, never not ever again

Como uma nódoa numa toalha de chá

Encontrei as fotografias daquelas férias e passei largos minutos a apagar todas aquelas em que ele aparecesse. Algumas eram razoáveis e lamentei a perda de uma outra paisagem de enquadramento; de detalhes bizarros ou de felizes momentos de iluminação. Não creio ter olhado para ele uma única vez.  Não com maior atenção, pelo menos, do que a que se dedica à nódoa na toalha de chá. Apenas um breve lamento pelo tecido estragado. Um embaraço social momentâneo. Um incómodo doméstico.
A indiferença é desprezível em todas as suas conjugaçōes: A indiferença que nos guardam; a que nos provocam; a que é a nossa.

terça-feira, 17 de julho de 2018

Fim de ano

O meu ano, esse que se mede do sol de setembro ao sol de julho, terminou.
Foi o primeiro desde o regresso do exílio.
A casa, por fim, perdoou-me os anos de penumbra e abandono. As coisas voltaram a fazer-se minhas.
Também Lisboa já esqueceu a afronta e lá pelo oitavo ou nono mês aligeirou-me a insónia.
Sei agora que não havia quaisquer razões para continuar a fugir.
Os telhados de Lisboa estão isentos de fantasmas.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Das escadas para o céu

There's a sign on the wall
But she wants to be sure
'Cause you know sometimes words have two meanings
In a tree by the brook
There's a songbird who sings
Sometimes all of our thoughts are misgiving

segunda-feira, 9 de julho de 2018

nihil

Abri as mãos para deixar cair a nossa história.
Correram tantos grãos de areia na garganta da ampulheta que já não sei o que é memória, eufemismo, mentira e resto de verdade. Reduzi-te a um esqueleto de factos e presumo que alguns ossos sejam próteses. Falei sobre ti com a emoção da estenógrafa distraída, da má tradutora, do eco na sala vazia. Não houve humilhação nem culpa. Os nossos crimes prescreveram; já não existimos; somos personagens de Ibsen. Trocou-se a história pela estória.
No final, olhei para as mãos abertas e para o chão limpo e fiquei a pensar que talvez te tenha assassinado uma outra vez mais.

domingo, 8 de julho de 2018

Uma vez, a cada lua azul

Cruzo-me pela primeira vez com a expressão “once in a blue moon”. O dicionário, nem seria preciso consultá-lo, ensina que pode ser traduzida por “raramente”. Mas para quem falhou a promessa de um encontro sob uma lua azul, para quem sabe que não haverá outra oportunidade cósmica, para quem viu a lua azul na geografia errada, o único significado admissível é “desesperadamente nunca”. 

sábado, 7 de julho de 2018

Z, de Zarpar

Com o casco do navio finalmente remendado, sem fissuras nem brechas notórias, que quanto às outras já nada se pode fazer, esta intrépida tripulação Pirata e sua não humilde capitã, zarparam durante a madrugada, rumando aos mares das Caraíbas.
O meu gosto por chegadas e partidas cinematográficas ainda me tentou a espera pela lua cheia, para que o céu estivesse vestido de gala à saída da marina. Mas o mar chamou mais alto do que vaidade. Essa cãibra no músculo do coração que impele à viagem.
Como na canção, “parto rumo à maravilha, rumo à dor que houver para vir, se eu encontrar uma ilha paro para sentir e dar sentido à viagem”.

terça-feira, 3 de julho de 2018

Permutas


trocaria
de bom grado
todo o caudal deste rio
por três gotas do mar salgado.


sábado, 30 de junho de 2018

Ou talvez os poetas tenham todos a mesma expressão

Foi quando deixou de sorrir que o pude ver: o mesmo espelho quebrado; a carótida dispersa em pedaços; a chuva a submergir a alma; o pássaro que lhe há de ter morrido aos pés; a sombra escura do cão doente; essa estranha, íntima, forma de dor.

sábado, 23 de junho de 2018

Mudança de estação

Por fim, esquecemo-nos todos uns dos outros. Veio esse doce manto tecido a olvido e cobriu-nos a todos: As noites deixaram de ser perturbadas por mensagens nostálgicas de uns; os dias perderam o aborrecimento dos e-mails passivo-agressivos de outros; calaram-se os dolorosos telefonemas superficiais de terceiros; esfumaram-se as evidências históricas dos primeiros; os poetas deixaram de ser violentados a nosso bel prazer; as músicas perderam a sua função de arma de destruição massiva e até os mortos puderam, finalmente, partir.
Estamos todos prontos para o verão.

Falsificar a história

Uma boa alternativa ao homicídio é a falsificação. A maioria dirá que não devemos matar quem nos desilude. Eu concordo, mas apenas por razões práticas, vagamente relacionadas com a vontade de me manter fisicamente livre. Já a falsificação da nossa própria história, é crime que costuma assegurar uma certa impunidade. Ambas são formas relativamente satisfatórias de eliminação de pessoas e a segunda, em extensão, até é uma amputação mais radical.

domingo, 17 de junho de 2018

Ninguém foge ao seu destino

O Romeu e Julieta de Kleist, são Gustav e Toni em “Noivado em S. Domingo”. Toni, mestiça e assassina de brancos refugiados, apaixona-se por Gustav, Suíço e inocente, e tenta salvá-lo. Mas fruto de uma teia de equívocos, Gustav acaba convencido de que ela faz parte de uma conspiração para o matar a si e à sua família e dispara sobre ela. Toni, antes de sucumbir às balas, acusa: —“Ah, não devias ter desconfiado de mim”. Mas como não desconfiar de uma assassina? Como ver nas cordas que nos amarram a receita para a liberdade? Desfeito o equívoco, Gustav suicida-se com um tiro na boca, fazendo com queToni cumpra na perfeição o seu destino: atrair homens para os assassinar de seguida.
Uma lição de cinismo pelo preço de três euros na Feira do Livro.

sábado, 16 de junho de 2018

Vantagem competitiva

Sentei-me na cadeira de balouço onde já não descanso, no degrau junto à porta por onde já não entro, no cume da montanha que já mal recordo, nesses lugares onde desesperei e que guardei para neles desesperar outras tantas vezes, e esperei pacientemente pela tristeza. Caíram uma e várias noites mas a tristeza nunca veio. O melhor que consegui foi uma ligeira sensação de contrariedade. 
Hoje, num verso de uma música, ouvi a explicação: “you can’t break a broken heart”. Não se pode partir um coração partido. Não podes partir um coração partido. E essa impossibilidade, parecendo que não, é uma vantagem competitiva. 

quinta-feira, 14 de junho de 2018

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Homens a evitar

Mas evitai os homens preocupados com a elegância e a beleza 
e que têm o cabelo bem penteado;
o que vos dizem a vós, disseram-no já a mil mulheres;
vai deambulando e não se fixa em sítio algum o seu amor.
Que há de fazer uma mulher, quando o homem é mais instável do que ela
e pode, até, possuir, quem sabe, mais homens? 
Custa-vos acreditar, mas acreditai: Tróia ter-se-ia aguentado,
se tivesse posto em prática os preceitos de Príamo.
Há os que avançam a coberto de uma espécie enganosa de amor 
e, por tais caminhos, são ganhos indecentes que buscam.
E não vos iluda a cabeleira a brilhar, resplandecente, de perfume de nardo,
nem a pinça elegante a apertar as pregas da roupa,
nem vos engane a toga de um tecido finíssimo, nem os anéis,
por mais e mais que tenha nos dedos.
Talvez o mais elegante de entre todos eles 
seja um ladrão e esteja a arder por amor do que trazes vestido.
“Devolve o que é meu!”, gritam, muitas vezes, depois de roubadas, 
as mulheres; (...)

Ovídio, A Arte de Amar, Livros Cotovia 
No século I ac,  assim como hoje. 

Daquela situação de ser a única blogger que não acorda com o som dos passarinhos felizes e bonitos



terça-feira, 12 de junho de 2018

Como o azeite na água benta

Fingi-me civilizada. Cobri-me de rendas e enfeitei as cicatrizes com pérolas roubadas. Usei tiaras das inocentes flores do campo. Sentei-me direita e de pernas juntas. Calei o medo, a raiva e a loucura. Pintei um inteiro portofólio em tons rosa, pêssego e lavanda. Sei os gestos. Consigo reproduzi-los ao som do mais falso sorriso beatífico. Fomos quase felizes. Mas depois a lua mudou. As rendas comicharam-me as veias. As pérolas arrefeceram-me os pés. O pólen entrou-me pelas narinas. Os músculos do pescoço paralisaram. E então, com o metal do veneno já espalhado na boca, obedeci ao chamamento do sangue e revelei-me a bárbara que sou. Creio que ainda tinha o meu falso sorriso colado à cara quando lhe enterrei a espada no peito.
Foi um alívio e uma felicidade. 

Processo de evaporação

Como no verso de Al Berto, “evapora-se o coração do amigo morto”.
Antes não compreendia por que razão não deixavam os vivos os mortos em paz.
Agora sei que não os largamos por ser a última forma de cuidado ao nosso acesso. Por temermos que se os largarmos caiam numa eternidade de olvido. Temos os mortos presos com molas da roupa, a secar nos estendais da memória e se os espanamos, e se não os deixamos cair, é por não os querermos por aí ao “Deus dará”, tristes panos enrolados numa esquina da rua. E quando se lhes evapora o coração assustamo-nos, porque sabemos, sabemos apesar de tudo, que é o nosso o único coração que ainda pode desidratar.

domingo, 10 de junho de 2018

La Traviata

Violeta é uma jovem feliz e desempoeirada que faz grandes festas em casa e tem um Barão que lhe paga as contas. Só quer ser livre e divertir-se. Um dia cai na cantiga de um poeta que lhe promete amor eterno. Então desenvolve um estranho sentido moral e começa a fazer coisas sem nexo como pagar as contas do poeta e acreditar que lhe é inferior. No instante em que acredita que um dia foi uma mulher perdida, perde-se. O poeta humilha-a publicamente e vai para o estrangeiro e Violeta deita-se numa cama para morrer. 
Antes, para que a ninguém falte a redenção, Alfredo regressa e Violeta perdoa-lhe.
Quando ambos gritam “nem homem, nem diabo, meu anjo, vão poder voltar a separar-nos” faltam exatamente quinze dolorosos minutos para Violeta morrer. Se se perderem na contagem, podem contar cinco segundos depois de Violeta dizer “desapareceram os espasmos da dor. Em mim renasce, agita-se um vigor insólito! Mas... eu regresso à vida!! Oh alegria!”.
Não sabemos se o poeta cumpre a promessa do amor eterno, aquele que suplanta a morte, mas posso garantir-vos que há um instante em que tememos que nos obriguem a ficar lá para ver.

Há quanto tempo é nenhum dos responsáveis pelo Teatro Nacional de São Carlos fica três horas e vinte minutos sentado naquelas cadeiras?

sábado, 9 de junho de 2018

A gentileza de não me amares

– Sabe por que razão estou hoje tão contente – perguntou –, tão contente por o ver? Por que gosto tanto de si hoje?
– Diga lá – pedi, e o meu coração batia descompassadamente.
– Gosto de si porque o senhor não se apaixonou por mim. Outro, no seu lugar, importunar-me-ia, insistiria, suspiraria, desfaleceria; o senhor, pelo contrário, é tão gentil...

Fedor Dostoiévski, in, Noites Brancas

A farsa do amado

É talvez abusivo, esse ato involuntário de trazermos as pessoas no coração, arrastando-as por aí, para onde quer que vamos, decidindo que estão junto de nós onde mais nos apetecem, fazendo-as presentes onde não decidiram ir, obrigando-as a partilhar connosco músicas que não ouvem e instantes que não sentem, forçando-as a personagens de uma história que afinal é apenas nossa. 
A tragédia do amante é a farsa do amado.
E bem sei que ninguém pensa nisto mas, na verdade, transportar pessoas no coração é uma terrível falta de ética. 

A lei do retorno


quinta-feira, 7 de junho de 2018

Traças

Há uma traça no ninho de borboletas. Um bater de asas desenfreado, nervoso. Os tecidos do estômago consumidos na avidez do verme. A picada inconfundível de uma pata que se estica e demora a encolher-se. O sintoma não me é estranho. Conhecemo-nos dos espelhos altos. Dos finais de tarde de chuva morrinha. Das notas agudas do piano. É o princípio do fim.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Um coração como o dele

UM CORAÇÃO COMO O MEU

Leio que Dostoiévski, quando se viu abandonado pela amante Apollinaria Souslova, lhe caiu aos pés e disse «Nunca mais encontrarás um coração como o meu.» Quase me cai aos pés o livro em que leio isto. Usei uma vez uma frase quase assim, nada sofistificada, lamechas, feita pânico e súplica. E fui atacado como nunca tinha sido. Toda a gente me chamou terrorista e mentiroso. Mas eu nunca disse nada tão pacífico na vida. E nunca disse nada tão verdadeiro. Disse e digo: «Nunca mais encontrarás um coração como o meu.» (e agora cito Dostoiévski).


Pedro Mexia, in, Estado Civil, Tinta da China 

Património é património

Tenho mais estima pelo erro do que pelo acerto. Ao segundo considero-o sempre filho do acaso e só o primeiro sou capaz de perfilhar. Além disso, conheço-o melhor. Temos uma relação íntima. Quando me perguntaram qual dos meus erros gostaria de ver emendado - e são tantos - descobri-me incapaz de me livrar de um único que fosse. Não é que tenha orgulho nos erros. É que são meus.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Da série o melhor conselho do ano

— “deixa as Louis Vuitton em casa. Vai à Natura e compra um daqueles vestidos. Mas, cuidado... não compres o urso.”

segunda-feira, 4 de junho de 2018

O erro de Rabindranath

Rabindranath diz “Em amor, Deus beija o finito, e o homem, o infinito”.
Mas é ao contrário. O Homem ama na medida da sua miserável finitude e os deuses só beijam aquilo que é infinito, pois só na eternidade residem. A cada um, o seu código genético.

Epitáfios possíveis (II)

Não sei por que se perde este coração no silêncio.
Mas creio que é por pequeninas coisas que não pede, nem entende, nem se lembra bem.


Rabindranath Tagore, A Asa e a Luz, Assírio & Alvim

sábado, 2 de junho de 2018

Epitáfios possíveis (I)

Falhou melhor pela última vez.

Ne bis in idem

Abri a carta dele no convés, sentada na minha cadeira de pensar, essa, que já foi mais vezes penhorada e recuperada do que a minha própria alma. 
A carta era uma acusação. Os factos e a culpa. Se ainda acreditasse em defesas, dir-lhe-ia que pelo mesmo crime já fui julgada, condenada e cumpro pena. Mas a única lei que conheço de cor é a espada. E a única defesa que pratico, o silêncio. 

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Vem na psicanálise

A fascinação do nada, da destruição — é o desejo de retomar a criação na sua origem. Só se pode recriar começando por destruir.

Eliade

Dia mundial da criança

Há de haver algum lugar,
um confuso casarão, 
onde os sonhos são reais
e a vida não.
(...) 
um lugar deve existir, 
uma espécie de bazar 
onde os sonhos extraviados vão parar. 

As escadas que fogem dos pés 
e relógios que rodam para trás.
Se eu pudesse encontrar meu amor 
não voltava jamais.

Chico Buarque, A Moça do Sonho 

Piratas, ogres, fadas, tritões, elfos, trolls, musas de vária ordem, ninfas, górgonas, génios, poetas, confraria de desgraçados que recusais as leis dos homens no fervor do garoto que cerra os dentes ao xarope para a garganta, vós que não fazeis cama na terra, que não sabeis ler as horas, que sois banhados pelo pó das estrelas, que tendes o futuro pelas costas e o presente nos dedos dos pés, vós que escondeis um sorriso secreto, desajustado, inconformado, alegrai-vos que hoje o dia pertence-nos (e o de amanhã também).

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Das leis

Todos deverão obedecer às ordens dadas de forma cortês; o capitão terá uma parte e meia de todas as presas; o patrão, o carpinteiro, o mestre de equipagem e o canhoneiro uma parte e um quatro.
Todos os que procurarem desertar ou esconder seja o que for à confraria serão abandonados em terra com uma medida de  pólvora, uma garrafa de água, uma arma pequena e munições.
Todos os que roubarem seja o que for à confraria ou que apostarem um valor superior a uma piastra serão abandonados em terra ou fuzilados.
Sempre que encontrarmos outro Pirata, quem consignar estes artigos sem o consentimento da nossa confraria sofrerá a punição que o capitão e a confraria julgarem conveniente.
A todos que agredirem outros enquanto os presentes artigos estiverem em vigor será aplicada a lei de Moisés (isto é, quarenta golpes menos um) nas costas nuas.
Todos os que inutilizarem as suas armas, ou fumarem tabaco no porão sem ter posto um resguardo no cachimbo ou que andarem com uma candeia alumiada fora de uma lanterna serão submetidos ao tratamento previsto no artigo anterior.
Todos os que não tiverem as suas armas prontas a servir, ou que não comparecerem no seu posto, serão privados da sua parte e sofrerão o castigo que o capitão e a confraria julguem convenientes.
Todos os que perderem uma articulação nos combates, receberão quatrocentas piastras. Se for um membro, oitocentas. 
Se em qualquer momento nos encontrarmos em presença de uma mulher honesta, todos os que quiserem apoderar-se dela serão imediatamente mortos.


As leis do navio pirata Revenge, segundo Gilles Lapouge, in, Os Piratas. 

41 ladrões

Diz-se pelas ruas de Medina, mas Alá tudo vê e é quem mais sabe, que a história de Ali Babá e os 40 ladrões nos foi mal contada. Diz-se que, quando Ali chegou à gruta e se escondeu nas sombras para aprender dos lábios dos ladrões a frase mágica, que quando depois de cada um dos ladrões sair e os ter contado repetiu as palavras, que quando a porta se abriu a na sua frente se estendeu uma ampla e vasta gruta, Ali não encontrou se não o vazio e o eco da sua desilusão. Não havia uma única moeda, pérola, pedra preciosa, bago de ouro ou lágrima de prata. Não havia nada. As grutas frequentadas por ladrões, tal como sucede com alguns corações, tendem a ser meras câmaras de ecos desiludidos. Esta versão da história satisfaz-me mais. Por um lado, os bons ladroes, já se sabe, não deixam nada à sua passagem. Por outro, o justo prémio para o ladrão que chega em quadragésimo primeiro lugar e aspira ao tesouro dos outros é ficar trancado numa gruta a ouvir perpetuamente os ecos da sua desilusão.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Tua cantiga


Se o teu vigia se alvoroçar 
E estrada fora te conduzir 
Basta soprar meu nome 
com teu perfume
Para me atrair 

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Pagar para ver

Nós, os Piratas, entre o pragmatismo militante e a barbárie desenvolvemos um estranho apego à verdade.
Gastas que estão as palavras, desvalorizadas que ficam as ações, equívocos que são os gestos, a única forma de chegar à raiz da verdade é pagar para vê-la. 
De todas as vezes que paguei para a ver, e foram demasiadas, nunca o adversário me mostrou uma mão melhor do que a minha.
Coleciono um número incomportável de fichas plásticas de casino e sinto-me terrivelmente empobrecida.  

domingo, 27 de maio de 2018

Misantropia light

Quando finalmente saí de casa preparada para os carrinhos de bebé na feira do livro, eis que as minhas células misantropas se defrontaram com uma nova dificuldade: cães na feira do livro.

diálogo de mudos

«Que linguagem é a tua, ó mar?»
«É a linguagem da eterna pergunta.»
«Que linguagem é a tua resposta, ó céu»
«É a linguagem do eterno silêncio.»

Rabindranath Tagore, in, A Asa e a Luz, Assírio & Alvim

Piratas

E no entanto, não sabemos nada e a biblioteca está vazia. É que a pirataria, embora receba alento da história, só aspira a livrar-se dela. Quando os flibusteiros se fazem ao mar não será que fogem à todo o pano da história? Trocar a terra pelo oceano não é uma decisão insignificante: implica despedir-se da cidade e da sociedade, do discurso do método, do tempo das clepsidras ou dos relógios, das escalas nos portos, do esquadro, da colher de pedreiro e do compasso, das fábricas e dos campos, do código civil e dos arquivos, dos antepassados, das crianças, do passado e do futuro. E pressupõe substituir-se o ambiente em que se nasceu por outros ambientes menos conhecidos: o espaço vazio e circular onde o homem ainda não traçou as suas geometrias e as suas cidades, o indiferenciado, o tempo sem costura da lua e do sol, a paisagem lagunas do início do mundo ou da sua conclusão, o ciclo das estrelas no céu, a roda do eterno recomeço e do Grande Ano. É isso que balbucia a tentação pirata;

Gilles Lapouge, in, Os Piratas, Antigona

Pária do mar

O amor é apenas um dos mil nomes da guerra. Fizemos a vontade aos Homens: assinámos o armistício. Dividimos o mar em duas incompletas metades e cada um reinou sobre a sua sem jamais olhar os limites da fronteira. Então, livre do espartilho dos sonhos, revelou-se a nossa verdadeira natureza. Tornei-me Pirata. Fizeste-te Pária do mar.

sábado, 26 de maio de 2018

Vida tão estranha



A gente vive na mentira,
já não dá conta do que sente 
Antes sozinha toda a vida 
do que ter 
um coração que mente 

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Da dignidade

Felizes os que sabem aceitar o desprezo com condescendência, porque deles é o reino da dignidade.

terça-feira, 15 de maio de 2018

Do pragmatismo

Lembrar-nos, lembrar-nos sempre, que, para não lhe enriquecer a morte, depois de enterrar a espada no coração é necessário recuperá-la.

sábado, 12 de maio de 2018

Gostar

Mas o que é gostar, perguntamos nós, entre o muito gostar e o nada gostar está o menos e o pouco, e não chega escrevê-lo para sabermos que partes de sim, de não e de talvez comporta tudo aquilo, seria preciso proferi-lo em voz alta, o ouvido capta a vibração última, capta sempre, e quando nos enganamos ou nos deixamos enganar é só porque não demos ao ouvido ouvidos suficientes.

José Saramago, in, História do Cerco de Lisboa, Porto Editora

Os rapazes não choram


terça-feira, 8 de maio de 2018

Desexílio

Quando, finalmente, os céus me enviaram uma pequena amostra de tempestade de verão, abri a janela para deixar entrar em casa o cheiro do exílio.
Mas, aqui, falta à terra molhada o travo do café.
As noites não têm densidade, não há aurora, as manhãs assumem a cor das tardes.
E esta moínha na alma são saudades do meu exílio.


sexta-feira, 4 de maio de 2018

Anjos

Não sabíamos nem supúnhamos que a vida tivesse peso superior à densidade do ar, ainda que do ar húmido, idêntico ao que se respira no topo da montanha de onde dominámos o mundo.
Ficámos ainda muito tempo depois da guerra dos homens, espreitando-os do nosso jardim de laranjeiras, vendo-os dividir entre si os despojos do ódio e do amor. Não os compreendíamos nem os invejávamos. A imortalidade ainda não nos pesava nas asas.
Quando os Homens se rebelaram contra nós e empenharam a fé em troca da ilusão da liberdade, sobrevieram as trevas e regressámos às cavernas.
Incapazes de morrer, aprendemos, então, a aguardar.
Sabemos que uma manhã um deles há de sonhar-nos, fazendo-nos maiores, mais puros e mais loucos. Voltaremos a espreguiçar-nos ao sol, a atravessar os mares, a comandar os ventos e a desprezar os Homens.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Grandes Filósofos

Só precisamos de uma coisa para estar vivos...
De um coração que bata.
Quando o coração é ameaçado, podemos ter uma de duas reações:
Ou corremos,
Ou atacamos.

De um monólogo da Anatomia de Grey

domingo, 29 de abril de 2018

A crónica da verdade






Pelo Manel Mau-Tempo, o Pirata cigano.

Contra-informação

Aqui.

sábado, 28 de abril de 2018

Diário de Bordo

Deixar o navio Aleph nas mãos da Palmier Encoberto e ir de férias para Tortuga brincar aos namorados com um capitão da Disney não foi uma das ideias mais brilhantes que já tive na vida. 
Encontrei uma tripulação intrépida mas desmoralizada e o navio transformado num estaleiro que é a réplica infernal da grande obra, em que abundam chãos que não cabem no convés e foram construídas bonitas escadarias de mármore para lugar nenhum. A culpada estava escondida no porão, coberta por projetos de arquitetura e revistas de decoração. Andhrimniir, o cozinheiro Viking, recebeu-me num pranto e quando conseguiu deixar de soluçar, revelou-me que a capitã interina o obrigou a cozinhar coisas como soja e servir bagas de goji. Disse-me, até, que há mais de dez dias que não o deixam matar um ser vivo. Fui dar com os ex presidiários amotinados num bote fora do navio, onde fazem greve de fome há várias semanas, em protesto contra os desmandos da capitã interina. Os poetas, encontrei-os mais deprimidos e escanzelados do que o habitual, torturados pela incapacidade de produzir metáforas debaixo do constante ruído das obras. Giulliano, o Pirata Italiano, apaixonou-se por Palmier Encoberto e vive agora no cesto da Gávea, onde berra odes ridículas ao amor. Os bloggers nao os vi. Aos sábados nunca ninguém os vê. Álvaro de Campos sonhava o mesmo coma alcoólico em que o deixei.
Desde o dia em que parti, fui entretanto informada, o único assalto que estas almas fizeram foi aos cofres do meu navio que, esvaziados pela administração ruinosa, não têm o suficiente para nos sustentar  por uma semana. 
Sento-me agora à mesa do que sobrou da sala de crise, onde alguém mandou instalar um jacuzzi que não funciona, e faço aquilo que sempre faço diante de uma dificuldade extrema: reflito sobre aquela estupidez do mandamento do não matarás e tento dormir uma boa soneca. 

sexta-feira, 27 de abril de 2018

9 crimes e meio

Pois se tantas foram as vezes que traí a jura,
se cuspi no sangue que escorreu do pacto,
se lhe escondi no coração a espada,
se ceguei todos os olhos da hidra,
se dancei no sepulcro da vítima,
se lavei o veneno no riacho da aldeia,
se ateei o fogo aos celeiros da fome,
se roubei as vísceras à própria bruxa,
se azedei o leite no peito das mães dos deuses,
Porque não haveria de matá-lo, uma outra vez mais?









terça-feira, 24 de abril de 2018

Amplificador do silêncio

Quando os mares se fecharam
e as ilhas se inundaram
e tudo ficou submerso,
sobreveio o silêncio.

O silêncio amplificado
na tua boca fechada
e o meu corpo
de falsas escamas
a bater de encontro ao vidro
do aquário.
– Esse túmulo que te enfeita
as paredes da sala.


segunda-feira, 23 de abril de 2018

Doomed from the start


A esperança é a trela da submissão

E tu, Pandora, que tão bom serviço prestaste à humanidade ao abrir esse baú de onde se soltaram todos os bens e todos os males, não saberias tu, desgraçada Pandora, dar um pontapé na caixa para que também a esperança se perdesse entre os homens e deixasse de ser património divino? Penhor, chantagem, açaime e trela administrado por deuses? De que nos serve, Pandora, sermos senhores do bem e do mal, possuidores do amor e do ódio, se é dos deuses a esperança e se a usam para nos acorrentar?

(O título pertence a Raoul Vaneigem)

sexta-feira, 20 de abril de 2018

voar

Quando me perguntou se era feliz, por vergonha, embaraço ou piedade, menti muito e sem culpa.
Trago as asas enfaixadas sob a camisa de seda de alta costura e doem-me nas articulações da cobardia. Às vezes, uma ou outra pena escorrega-me pela manga e assoma à linha dos pulsos. Já fui obrigada a engoli-las, entre duas colheradas de sopa fria, para não incomodar os comensais dos restaurantes de luxo onde ele me senta à força. Os porteiros fingem não ver a corcunda de asas dobradas e à saída, grata, pago-lhes em lágrimas de prata a discrição profissional. 
Quando os dias têm mais horas e a noite me parece mais escura, solto as fitas das costelas e passeio-me na sala, nua, de asas abertas. Ele desvia o olhar e comenta a deformidade da sombra na parede como se de uma ilusão de ótica se tratasse. Finjo que sim. Os espelhos, voltei-os ao contrário para que não me traíssem. 
Mas hoje, por descuido, alguém deixou aberta a porta da varanda. 
As minhas mãos já alisam o frio da noite e os pés procuram o ponto de equilíbrio do salto. As asas, soltas, soltas, soltas, fizeram-se para voar. 

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Piratas mortos não contam estórias


Pesos

Ao esquecimento que Borges dizia ser a meta, também eu cheguei antes.
Não vi a marca que creio não ter sido desenhada no chão, nem fita vermelha que se rompa de encontro ao peito. Não ouvi fanfarras, nem isoladas palmas. Passei por esse portal de olhos fixos numa distração qualquer, gesto que sempre foi a minha maior desgraça e a minha maior sorte. Uma manhã igual a todas as outras, o esquecimento, de boas contas, levou o que tinha a levar e restituiu-me a liberdade. 
Pesa tanto quanto a memória que a resgatou.



sexta-feira, 6 de abril de 2018

Quando a chuva se for embora

Contei sete luas pelos dedos dos pés.
Era uma noite quente num dos telhados de Lisboa
mas depois vieram o vento e o frio e a chuva, por esta ordem.
Os telhados ficaram desertos, a escorregar sozinhos,
e nós não chegámos a deitar-nos sob a luz da lareira acesa.
Quando a chuva se for embora, irás com ela.
Para que nada distraia a primavera.

Diário de Bordo

Querida tripulação:

Não é que a bravura, a intrepidez, as calças justas debaixo dos casacos de missangas bordadas e o lenço encarnado a cobrir-me os cabelos não me fiquem bem. É que oito anos capitanear um navio Pirata, oito anos à cabeça de uma tripulação de delinquentes, criminosos e poetas, que é tudo a mesma coisa, oito anos a planear e a praticar o saque e a espada, oito anos a comer a comida de Andrimnir, o cozinheiro Pirata, a acordar com os uivos de Polly, o papagaio, a driblar os desamores de Giulliano, o Pirata Italiano, a conter os motins dos ex-presidiários, a tentar manter sóbrio Álvaro de Campos, ele mesmo, oito anos neste navio, dizia, sem secador de cabelo, sem vestidos de seda, sem sandálias de solas vermelhas, sem uma boa maquilhadora e, por último e não menos importante, sem sequer poder namorar, fizeram com que, em suma, me tenha farto de todos vós.
Foi imbuída desse bom espírito que aceitei o convite de Jack Sparrow para passar uns regeneradores tempos num estúdio da Disney e é lá que tenho estado desde então. Não vos escrevi antes porque tenho estado demasiado ocupada a contemplar perfeitos ocasos pintados em papel crepe, com uma mão num cocktail lilás e a outra na mão do Jack.
Não sei quando volto, mas deixei os comandos do Aleph entregues à grande Pirata Palmier Encoberto e tenho a certeza que está tudo bem. Vi que escreveu um diário de bordo, certamente a contar as glórias da última campanha, mas aqui, nos estúdios da Disney, há links que se se recusam a abrir.
Obedeçam-lhe como me obedeceriam a mim.
Muaaaahhhhhh

  

quarta-feira, 28 de março de 2018

Notebook

O meu amigo chegou e trouxe-me um notebook. Pensei que seria um objeto útil para depositar a saudade. Há pessoas que nos faltam tão por dentro que temos de esquecer a ausência. Um assassino ensinou-me, um dia, que é um ato de inútil masoquismo fixarmos o pensamento no que de antemão sabemos que nos trará tristeza. É por isso que prefiro só pensar no meu amigo nas duas horas que antecedem um nosso encontro. Não lhe disse que as páginas do notebook serão insuficientes para que, até à próxima vez, nelas caibam os caracteres da falta. Seria redundante. 
Um dia partiu para um país cujo nome me recusei a aprender, convencida que recusando os signos da sua nova vida renegaria a ausência. O nosso mundo encolhe quando nos separamos dos amigos. Naquele ano o meu encolheu demasiadas vezes. Disse-me que pensa em mim sempre que está em Istambul, cidade onde nunca estivemos juntos, mas onde me consegue ver a comprar quinquilharias no bazar ou a beber chá de menta sentada numa almofada. Percebi que o meu amigo segue um método mais evoluído do que o do assassino que me ensinou a não sofrer. Descontextualizar as pessoas é a melhor forma de as levarmos connosco. E, assim, fazer com que as saudade caibam todas dentro das páginas de um notebook. 

terça-feira, 27 de março de 2018

A noite que nunca acaba

Dizem que correr liberta o espírito. Não há nada que não faça para me ver livre do meu. Depois do quinto quilómetro, o rio, que no início era uma língua de prata a encomiar o céu, transformou-se no fio de lama que o estrangula. As pernas revoltaram-se contra o processo de liberação do espírito e o próprio perdeu-se, fixado, insistente, na tormenta de um pensamento mau. O corpo dobrou-se ao peso. 
Foi então que, pela manhã, entraram os primeiros acordes da música. E o espírito regressou a casa e a boca, involuntariamente, abriu-se num sorriso que eu queria pintar em mim para sempre, e as pernas correram ligeiras por cima do rio que foi o mar que nos separa. 
Foi assim, bem o sei, que mil vezes me arrancaste das profundezas do Hades. Aqueronte nada pode contra a força da música que é como se fosse o meu nome nos teus lábios. Mil vezes morri e, imortal, mil vezes me trouxeste à tona da caverna que é o inferno dos que amaram. Mil vezes me esqueci e mil vezes me lembraste. Deste-me a história e deste-me a canção. E esta é a noite que nunca acaba. 



segunda-feira, 26 de março de 2018

Achados

O remoto rei dos corvos 
Edgar Allen Poe,
deixa cair do seu bico, 
no centro de uma biblioteca, 
os restos de uma musa.
Cansados de tanta melancolia, 
os ratos montam à sua volta um circo.

«Annabel Lee», «Annabel Lee», 
guincham os bichos,
repartindo os ossos entre si.

Mostram os dentes,
esticam-lhe a pele.
Sabem que o poema 
não tem outro precursor 
a não ser a fome;
nem outro seguidor 
a não ser o crime.


Golgona Anghel, Como uma Flor de Plástico na Montra de um Talho, Assírio & Alvim

Jet lag emocional

Tantos foram os estados que atravessei e a tão grande velocidade se sucederam que passsei a sofrer de jat lag lag emocional.

domingo, 25 de março de 2018

Mas no céu não conhecemos ninguém...



“That’s a long way to go just to eat.

evito os evangelizadores, os bajuladores, os ególatras e os medíocres.”

A Flor, aqui, a explicar porque não tem amigos. 

sexta-feira, 23 de março de 2018

Sonhos

Sonhei, ou quis sonhar, que Alah é quem mais sabe, com essa encosta de vinhas que se estende até ao mar. Vi uma vez mais a enorme lua refletida nas águas negras do mar-chão e as mesmas estrelas que guardei tatuadas na íris. Às vezes, num segredo que guardo de mim própria, quando o sono distrai o porteiro deste mundo, regresso à noite que pariu todas as noites que se lhe seguiram. À tarde que a antecedeu, bem sei, nem em sonhos poderei regressar. No instante em que a culpa se forma, perde-se, para todo o sempre, a capacidade de recordar a inocência.

Radialistas


quinta-feira, 22 de março de 2018

Oferecem-se Haikus


Achei que era um bom dia para voltar a oferece haikus do Bashô (e outros que talvez nem tanto)
Diga um número de 55 a 296 e receba um haiku.

terça-feira, 20 de março de 2018

raízes

Passei incontáveis minutos a observar o processo de crescimento das raízes no vaso de vidro da planta suspensa em água. A resiliência é o meu milagre preferido. Se fecharmos os olhos e o dia não tiver sido péssimo e tiver feito um pouco de sol e alguém nos tiver oferecido uma música nova ou se tivermos encontrado uma metáfora aceitável num poema, ou num cartaz publicitário, ou mesmo entre duas pedras junto ao rio, se o dia não tiver sido péssimo e fecharmos o olhos, dizia, podemos acreditar na resiliência, essa, que a natureza jura que, estatisticamente, também há em nós.
E então saberemos que as raízes continuarão a crescer mesmo quando ninguém as observa.
E tudo estará bem.

Equinócios

Às 16:15 horas de hoje, mais segundo, menos segundo, decidiram os Homens, chegou a primavera.
Não espanta, por isso, que ainda traga os restos do inverno colados aos ossos.
É preciso fechar as janelas ao vento norte, ajeitar os pés ao raio de sol, sacudir um resto de gelo do coração, deixar secar as gotas de chuva das pestanas, abrir as asas à clepsidra e aceitar a renovação.
Valha-nos as estações para nos lembrarem que o tempo, qualquer forma de tempo, ainda corre.

terça-feira, 6 de março de 2018

Biografia




Como dizer-te dessa estrada secundária por onde só passa quem procura alguma coisa que não sabe o quê; do seu asfalto gasto pelo pó do deserto que vai da berma até ao meio da faixa de direção unívoca; como dizer-te desse café de portas empenadas, por onde já só entra um pouco de vento que se anuncia no abraço do cristal das velhas estrelas penduradas no tecto; do salão vazio onde não se dança ao som da caixa de música avariada. Como dizer-te das cinco da tarde e das janelas de vidros sujos onde a luz dourada assoma à despedida. Das coisas que eram minhas e que foram, uma por uma, abandonadas. Como dizer-te de mim?

Diamond rings and Chevrolets

A Saga 

Pela Palmier Encoberto 

segunda-feira, 5 de março de 2018

sexta-feira, 2 de março de 2018

Diamond rings and chevrolets

Escorreguei uma vez mais pela toca do coelho. Foi difícil encontrá-la na cidade. Entre dois prédios, escondida no chão, disfarçada de conduta de esgoto. Aqui, as portas são todas iguais e umas levam à miséria e outras à maravilha. Só descobres depois de teres descido muitos metros, de costas, com os pés no ar e os cabelos em desalinho. 
Caí diretamente na sala grande. A minha pouco discreta chegada não interrompeu a festa. Havia uma harpa que se tocava a si própria. O coelho das pressas dançava um tango melancólico com a lagarta azul e nenhum dos dois olhou na minha direção. O gato que ri mostrou-me os dentes de cima e apontou-me a sombra escondida atrás do reposteiro. Vi-lhe a forma do chapéu alto e lamentei a ausência da matéria. Um dos gémeos gordos veio dizer-me que também no wonderland há sombras vazias. E o outro ecoou vazias vazias vazias até que a palavra ganhou a consistência do gelo e as letras subiram desordenadas e fizeram um looping junto ao lustre de cristal pingado.
Fingi não me importar com o acidente do chapeleiro louco. Perguntei ao vazio onde estava a rainha branca e o gato, rindo-se, disse-me que estava dentro da rainha de copas.
- Nunca saberei se sou Alice ou a rainha de copas e quando ouço o "corteeeem-lhe a cabeça", tanto pode ser uma ordem dada contra mim como por mim. 
Então, a lagarta libertou-se das patas do coelho das pressas e instalou-se no meu ombro com o seu cachimbo de ópio.
- Aqui ninguém quer saber quem és; Depois apontou a sombra do chapeleiro louco escondida por trás do reposteiro e disse com um gesto dramático: - A verdade enlouqueceu aquele..
A harpa chorou um novo tango e eu estendi os braços na direção do reposteiro vazio. Ergueu-se a sombra do chapeleiro e enlaçou-me numa dança que durou um tempo que o relógio do coelho apressado se esqueceu de medir.
Mas depois, ouviu-se aquela frase, terrível, cujo som nunca sei se vem de dentro ou de fora e que esvazia o ar e arrefece os dedos e deixa um rasto de dor na garganta.
- corteeeem-lhe a cabeça.

quinta-feira, 1 de março de 2018

My love

Babe don't try to call
My heart is ticking and the show, just won't wait

It's strange, you couldn't see it my way, hey now go
I pray for you to fall
The spark, has died and now you're just too late 

A shame, you're knocking at the wrong gate, hey go home
Come what may, I won't give away

My love, diamond rings and Chevrolets
My love, aces high and cigarettes
My love, faking all like Hollywood
My love, love, love

No way you'll see me crawl
Like a shark I'll be ripping you apart, and celebrate
With lots of champagne, you caught me on the wrong day, now you know

Come what may, I won't give away

My love, see me dancing in the rain
My love, no more whiskey and cocaine
My love, ending all forbidden fruit 
My love, love, love

Ashes to ashes, dust to dust 
No you can't amuse me, so leave you must
Ashes to ashes, dust to dust
If the spell won't kill you, your ego does

My love, diamond rings and Chevrolets
My love, no more tears and no regrets
My love, time to lay the man to rest

My love, love, love

Amon Ra

Sonhei que atravessava o deserto sob o sol do meio dia. É a hora em que o inferno engole as sombras e regurgita o desespero. Do horizonte, não veio miragem que aliviasse a sede. Éramos o sol, a areia e os meus pés nus.
A chuva da madrugada e da manhã e da tarde e do anoitecer não chegou para me salvar do destino.
Há um deserto intransponível que todas as noites me espera. Tem a languidez do cão que sabe que o dono virá.




quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Cioran2

Cioran disse que esperar é desmentir o futuro.
Também poderia ter dito que é confirmá-lo.
Continuaria a ser verdade.

Cioran

Cioran disse que o limite de cada dor é uma dor maior.
Não é verdade. Só se sente uma grande dor. Todas as outras são tristes revisitações da primeira. É sempre a mesma, uma dor única, passada, revivida em réplicas imperfeitas.
Depois da primeira dor, todas as outras são mera candonga.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Sem nome

Por fim, fui alcançada pela tristeza do dia.
Ainda icei as pernas e trepei pelas cordas o mais depressa que soube.
O trapézio é muito alto e eu sento-me para lá das nuvens.
Onde o dia é sempre azul e a noite estrelada.
E essa felicidade, que só existe no que antecede e no que precede todas as coisas, é o meu superpoder.
Mas desta vez trouxe nos bolsos um resto de nuvem escura.
Deles se formou uma chuva estrangeira, alienígena.
Essa tristeza sem nome que agora me chove no colo.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Diário de Bordo

Zarpámos, eu e esta intrépida tripulação Pirata, há vários meses atrás, na direção do triângulo das Bermudas. Por lá navegámos durante muitos dias à procura dos tesouros que os outros perderam quando cruzaram esse espaço maldito onde o nada reina e nenhum homem sobrevive. (Houve quem aventasse que procurávamos o amor, mas não nos pronunciamos sobre o sentido das metáforas).
Não nos perdemos em nihil. Não ouvimos cantos mágicos de sereias assassinas. Não fomos arrastados para as profundezas do mar pelos ávidos braços de Kraken. Não conhecemos, tão pouco, a fúria de um Eolo insultado pela nossa presença.
Atravessámos o triângulo das Bermudas - várias e vezes e em diferentes direções - e concluímos que não há lá nada.
Não o nada que promete o início de todas as coisas; não o nada que atemoriza pela eternidade do vazio. Nem sequer o nada que é o desolo das nuas paredes na alma. Apenas o nada, o velho nada que é dos pragmáticos e entedia até aos ossos. Nihil ao espelho.
Um vazio tão profundo e concreto como o das nossas barricas de rum.



Seis meses

Seis luas novas vieram desde que deixei o exílio.
O que mais me faz falta é o vento dos loucos. De tempos a tempos acordava com areia nos dentes, feridas nas plantas dos pés e a camisa de dormir salgada. Sabia, então, que, enquanto dormia, tinha chegado o sueste, o vento dos loucos. Durante três dias enlouquecíamos todos e o remoínho de lixo plástico que se arrastava nas ruas era o reflexo da reciclagem das nossas memórias. Durante três dias levantávamo-nos e adormecíamos com a alma a gritar em sintonia com os uivos do vento, de tal forma que, na sua partida, já não sabíamos o que era uma e outra coisa.
Aqui não há vento. A temperatura, o ar e até as horas de luz, são rigorosamente controladas pelos burocratas que há muito descobriram que a melhor forma de nos controlar é eliminar a sensação do tempo. Aqui a loucura não é trazida pelo vento. Existe no asfalto e cola-se-nos às solas dos sapatos. Quando damos conta já se agarrou às nossas pernas. As pessoas sacodem-na com força porque, aqui, ninguém aceita a loucura, ainda que temporária, como uma inevitabilidade da natureza. Aqui não há natureza. Há um ecosistema definido por decreto-lei. E um dia, também eu deixarei de contar o tempo. E de enlouquecer.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Anymore

Tenho enterrado no fundo do mar, em lugar ignoto, um baú de chaves perdidas. Não fiz mapa do sítio nem guardei cópias das chaves. Nunca ninguém o encontrará, jamais o seu conteúdo verá a luz do dia. Segui esse critério ancestral que ordena que se enterre o que é indestrutível mas incómodo.
Na maioria das vezes o meu tesouro, que é também o meu crime, castigo e vergonha, é uma dor surda que o ruído dos dias disfarça. Uma manhã por outra, porém, liberta-se do baú o espírito do seu conteúdo e espera-me aos pés da cama, para me surpreender logo que abro os olhos, atacando-me, à traição, antes que tenha tempo de desviar o olhar. 

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

meias

As botas eram novas e tingiram-me as meias. 
A condição humana é de uma fragilidade insuportável. 
Não interessam os poemas que sabemos com o coração, os livros que lemos ou as músicas que conhecemos ao terceiro acorde, quando se está dentro de uma máquina, numa sala gelada e tudo o que reconhecemos como próprio é um par de meias tingidas que nos rouba a última réstia de dignidade.
Felizmente, tendemos a esquecer-nos disso. 

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Esta noite africana

O dia pariu uma noite instantânea, africana.
Não sei de onde veio a pedra que atingiu a lâmpada.
Vi os cambiantes do dourado enegrecerem na sombra das minhas próprias mãos.
Não há dor mais inoportuna do que aquela que é de causa ignota. Essa dor traiçoeira que é uma traça de asas abertas pousada no vison que nos cobre o peito.
Quando abri os olhos havia, sob a noite densa, um buraco de malhas roídas.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Destoriada

Tagik, o berbere contador de estórias, dormia a sono alto à entrada da tenda. 
Fizemos a longa viagem pelas areias do deserto em busca de uma estória. Não há na vida coisa mais valiosa do que uma boa estória. Teria de bom grado percorrido duas vezes a distância desta areia infinita e suportado as feridas que o sol do meio dia deixa na boca e as pontas dos dedos queimadas pelo frio da noite de estrelas, se, ao menos, tivesse encontrado Tagik acordado na sua tenda, de mão estendida para a minha moeda e olhos fixos para lá de onde nasce o vento, que é também o sítio de onde vêm as  boas histórias. 
Mas Tagik, o berbere contador de estórias, não acordou.
E eu regressei desta viagem, um pouco mais ferida, um pouco mais cansada, um pouco mais velha, com o bolso pesado pela moeda que, desta vez, a mão de Tagik não quis receber.