domingo, 16 de outubro de 2016

Baixas expetativas

Ao terceiro dia de cerelac e sumo de laranja natural e sem conseguir estar acordada por mais de cinco minutos seguidos, o meu corpo deu o primeiro sinal de vitória sobre a gripe: consegui beber um café. 

Amore


sábado, 15 de outubro de 2016

Geografia

Sentou-se ao meu lado, segurou a minha mão na sua e brincou com os meus dedos, afastando-os e aproximando-os. 
Enquanto eu esperava, contou-me ao ouvido as suas estórias de rir. Rimo-nos juntos e o tempo encolheu. A espera foi doce.
À noite, fez seu o pesadelo da minha febre para que eu pudesse dormir serenamente. 
Senti-o abraçar-me na primeira luz da manhã. 
Tudo isto conseguiu fazer sem sequer precisar sair do outro hemisfério. 

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Dylan - obra quase completa

http://www.azlyrics.com/d/dylan.html

É manter a esperança. Por este andar, para o ano entregam o Nobel a um blogger.



terça-feira, 11 de outubro de 2016

Da cobardia

Quando, por fim, também eu segui esse caminho, submetendo-me à promessa de não olhar para trás, nada me disseram sobre a deposição dos meus poderes de bruxa.
Transpus a montanha e renasci, obediente, durante um entardecer numa praia a sul.
Um de nós morreu, o outro sobreviveu.
A sobrevivência, e não a vida, é a justa recompensa pela cobardia.
Agora olho o imenso mar e o azul é-me tão indecifrável como a linguagem do vento e das aves e das pedras escuras. É verdade que me devolveram o cenário da noite. Mas os sonhos são de papel pintado. É dentro deles que me sei mais néscia. 
Trocava esta idílica praia que não sei ler pela clarividência de uma antiga montanha mal assombrada. 
O mar que não me molha, por um resto de céu que me respire. 
E se já não olho para trás, não é por temor aos deuses. 
Antes, por me saber cega. 


Duetos improváveis


Ausência

Ausência 

Eu haverei de erguer a vasta vida
que ainda é o teu espelho:
cada manhã hei-de reconstruí-la.
Desde que te afastaste,
quantos lugares se tornaram vãos 
e sem sentido, iguais 
a luzes acesas de dia.
Tardes que te abrigaram a imagem,
música em que sempre me esperavas,
palavras desse tempo,
terei de as destruir com as minhas mãos.
Em que ribanceira esconderei a alma
para que não veja a tua ausência, 
que como um sol terrível, sem ocaso,
brilha definitiva e sem piedade?
A tua ausência cerca-me
como a corda à garganta.
O mar ao que se afunda. 

Jorge Luis Borges, Obras Completas, I, Teorema

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Orçamento emocional

Se ao menos a lua estivesse cheia, ou viesse o siroco, encontraria um pretexto decente para vaguear de noite pela praia, desgrenhada e descalça, na minha camisa de dormir, branca e comprida, de louca. 
Como nada disso acontece, tenho de ficar dentro de casa, rasgando as unhas nas paredes de mate casca de ovo, sentada no cimo da estante de livros autorizados, vestindo a loucura com o meu mais sério twin set. 
O cão, que apreende todas as declinações da minha alma, traz-me a trela e pergunta-me se quero que me leve à rua.
Explico-lho que me sinto aprisionada nesta estação. É como se o verão tivesse apodrecido e o outono se recusasse a aparecer para o arrastar até ao ecoponto.

domingo, 9 de outubro de 2016

Lisboa

Tem múltiplas cambiantes, esta Lisboa onde coube o amanhecer cinzento por onde te vi partir mas cabe também a manhã de hoje: o rio de um azul que faz doer o olhar; um barco que parte e outro que chega; as árvores que em breve espalharão o ouro pelo chão. 
Cabe ainda a Lisboa que o espelho me trouxer. 

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Sindicato das Musas


Era uma péssima musa.
Odiava toda a obra manchada pela mais ténue sombra de inspiração de fonte própria.
Pelos seus artistas nunca soube sentir mais do que a zanga profunda.
Ansiou o silêncio dos poetas, a cegueira dos pintores, a surdez dos músicos.
Cada uma das maravilhas que lhe deram, sentiu-a como se um filho que lhe roubassem.
De pés presos ao pedestal, olhos vazios, sorriso de mármore, invejou-lhes os ossos, as veias e a carne.
Desprezou-os pela mentira e pelo logro.
Não se ama uma boneca de pedra.
Adorou o vento norte, a chuva grave, o gelo noturno.
Essa tríade libertadora de musas exaustas.







Viagens na terra dos outros




Pelo Henrique Bento Fialho, Aqui

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Não me dou à despedida


Nunca parto inteiramente.
Vivo de duas vontades: 
Uma, presa à corrente, 
A outra, que vai na nascente,
Fica para ter saudades. 

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Purgatório

Descobri um paralelismo evidente entre a leitura da Divina Comédia de Dante, que já leva cinco longos, lentos, anos, e a minha existência.  Às vezes penso que deveria acelerar o processo e sair do purgatório onde estou retida há cerca de um par de anos. Não era necessário nada tão dramático como acabar o livro. Talvez nem sequer seja aconselhável. Sabe-se lá o que me espera depois da última página. Bastava, ao menos, chegar ao Paradiso. 

Moinhos de vento

Todos os dias passo por aquela varanda enfeitada por coloridas túlipas de plástico que giram ao ritmo do vento e todos os dias penso que há, que tem de haver, algo de excecionalmente mágico numa alma que escolhe enfeitar assim a varanda. 

sábado, 1 de outubro de 2016

Contrariedades

Eu, que toda a minha vida tive imensa boa sorte, tenho aquela teoria que um dia vives feliz e satisfeito no olimpo e aquilo que é essencial está tão solidamente construído debaixo dos teus pés que nem sequer te ocorre olhar para baixo e, de repente, uma inusitada contrariedade terrena; um insignificante grão de areia; uma inesperada folha que cai da árvore antes do seu tempo, inaugura toda uma existência de misérias e sortes malvadas que nunca antes sequer configuraste como possível que te pudessem acontecer a ti.
É por isso, e apenas por isso, que não consigo deixar de olhar com apreensão supersticiosa para aquela mensagem a que não me responderam. 


O sol quente de outubro

Durante a madrugada, enviaram-me, do outro lado do mundo, o November Rain, dos Guns N' Roses.
É um facto notório que é difícil segurar uma vela debaixo da fria chuva de novembro. 
Recebo-a, acesa, a meio desta manhã de sol quente do primeiro dia de outubro. 
É uma vela especial. Tem a magia das chamas que muitos invernos não souberam apagar. 

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Emergência da verdade

Com a canícula ainda agarrada à carne 
e a emergência da verdade nos restos do sonho da sesta 
declaro-te que não sei do que falas quando dizes amor. 

Há também aquele anjo de louça, 
ajoelhado em inútil oração, 
de castigo de encontro à porta da vizinha inglesa, 
e lamento-o, quando por ele passo, depois do cansaço do dia,

Mas não lhe digo que o amo. 

Ou a papoila selvagem que insiste em nascer de um resto de terra, 
entre a calçada e o canteiro, 
e é o meu pequeno milagre do fim do inverno, 
que nunca sobreviverá à primeira lua do verão. 

Mas também a ela não juro amor. 

Há o gato que coabita o meu telhado e,
no sol frio da manhã,
estende a pata ferida para verificar a eficácia das garras contidas. 

Não seria capaz de amá-lo.

Nem sequer ao louco que desfila na rua
e engole com os olhos dementes
 os meus mais tristes segredos,
para os guardar dentro da bizarra cartola
que nunca  o vi estender 
na direção dos outros transeuntes.

E este ser 
que é soma do anjo de louça, 
da papoila intermitente, 
do gato ferido e do louco vadio, 
declara não supor, 
sequer, 
do que falas, 
quanto dizes amor. 





segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Música dos deuses


Antes de os deuses enlouquecerem

Houve um jardim com rosas suspenso no cume de uma montanha.
O sol mergulhava à hora certa na sétima onda da praia esquecida
E podia-se vê-lo cruzar-se com uma lua que era sempre azul,
Ambos no passo lento das valsas mornas, 
que é o abraço ligeiro dos amantes 
mais antigos
do que o mundo.

Uma manhã os deuses enlouqueceram de ciúme pelo amor dos homens.
Os olhares que deceparam a última das rosas, atearam o fogo à montanha 
E restou a cortina de fumo, que engoliu o sol e regurgitou uma lua cinzenta.
Estendendo a cegueira aos corpos desencontrados,
que são o alheamento profundo dos amantes
mais antigos 
do que o mundo. 

Os que ainda trazem entre os dentes os restos de uma rosa,
mas já esqueceram o contorno da mão que a plantou.






domingo, 25 de setembro de 2016

Essa outra Pirata

A mim não me puxa a compaixão, estou do lado deles, homens ruins de gengivas rotas, sou eu a mulher que têm durante as travessias, mulher incompleta e de pau, a quem entregam todos os terrores,
todos os clamores,
a quem acendem velas e renovam promessas. Sou eu que sei dos seus últimos cuidados, quando perdem um pé neste mundo e entram com o segundo no outro. Homens rudes, que arregaçam as mangas e mostram as cicatrizes, as tatuagens, corpos martirizados, tornam-se outra vez tenros, iniciais, limpos e pequeninos e chamam pela mãe. Ninguém, só eu, os consegue ouvir na transição. 

Ana Margarida de Carvalho, in, Não se pode morar nos olhos de um gato, Teorema

Lago Tanganica - o verdadeiro comunicado

A intrépida tripulação que compõe este navio, zarpou ontem dos mares profundos onde se encontrava, rumando aos bancos de areia do Lago Tanganica, numa inédita operação de resgate dos três habitantes que desapareceram após o anúncio de uma cimeira secreta com vista à resolução do problema criado por aquilo do concurso do melhor blog do ano e, mais especificamente, pelo facto de nenhum dos habitantes do Lago ter sido nomeado.
Chegados ao Lago, embarcámos nos nossos botes insufláveis, aqueles que sobraram dos saldos de verão da loja dos chineses, e seguimos o rasto dos desaparecidos. Pese embora a natural tendência para transformar qualquer ninharia em epopéia, devo aqui admitir que a empresa não foi difícil. Bastou-nos seguir o fumo dos cohibas. 
Fomos dar com os cimeirados, num dos bancos de areia, atrás de uns arbustos, rodeados pelos restos de um festim de Barca Velha, paté de flamingo, estranhos casacos de griffe e dossiers secretos do conselho de ministros. Estavam os três semi inconscientes e num estado absolutamente deplorável, mesmo para os liberais critérios de uma tripulação pirata praticante do relativismo ético.
Recolhidos os organizadores da cimeira, os nossos propósitos humanitários de libertação e salvamento, como, aliás, já é timbre desta tripulação, foram objeto de um ligeiríssimo desvio. 
Vamos manter a Palmier, o Pipoco Mais Salgado e o Senhor Ministro entre nós até que nos rendam a fortuna ou, pelo menos, a glória de uma vitória no dito concurso, para o qual nos autonomeámos, corrigindo assim uma grave injustiça do sistema capitalista que a todos oprime e nem a pirataria deixa incólume.
Ou, pelo menos, até que acordem. 
Tenham medo. 


sábado, 24 de setembro de 2016

Miragem



"O conceito corrige os olhos."

Ortega y Gasset, in A Rebelião das Massas

Tangos


Cuidados continuados

Nós, os de doença de alma crónica, sabemos como é aborrecida a permanente vigilância, o cuidado na recolha da temperatura, o critério na escolha do agasalho certo, a medição programada do tamanho da sombra, a análise química dos poluentes em redor. Às vezes, as pessoas saudáveis dizem-nos que devemos tirar a máscara, molhar os pés nas poças de lama, apanhar a chuva da manhã, correr pelas florestas, fazer amizade com os micróbios. 
Às vezes parece-nos tão verdade que rasgamos as paredes da redoma. 
Mas cedo regressamos ao castigo do quarto asséptico, incapazes de respirar; com os músculos demasiado doridos para nos susterem o esqueleto e os sonhos poluídos pelos germes que trouxemos debaixo das unhas. 

Sombras Chinesas



Levei a Anatomia da Melancolia, de Burton, mas confiscaram-mo juntamente com todas as outras iCoisas. 
Abandonaram-me, durante mais de meia hora, deitada numa cama, num espaço exíguo e quente. Ocupei o improgramado tempo de não existência a projetar sombras chinesas na parede. Quando finalmente se lembraram de mim e me perguntaram se estava pronta, respondi que não, que faltava libertar a princesa. 
Olharam para mim como se estivesse louca.
As pessoas tendem a menosprezar a necessidade de encerrar todas e cada uma das estórias. 

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Dentro da caverna de Platão

Passámos tanto tempo com as sombras como horizonte que esquecemos que a vida concretiza-se no relevo e no peso. Saberia reconhecer o anti-reflexo do ser em três dimensões distintas. Mas foi o simples toque de uma mão que me encheu de espanto. Um espanto animal. De carne. De coisa viva. E a imensidão das sombras, por um instante, diluiu-se nas veias. 

domingo, 18 de setembro de 2016

À mercê da lua

À grande lua pesaram-lhe todas as histórias de amor do universo. Soltou-se do céu. Encontrei-a caída logo a seguir à primeira curva da auto-estrada. Enorme, de um ouro antigo e muito cansada. 
Lembrei-me do poema que diz que a lua é o teu espelho. 

terça-feira, 13 de setembro de 2016

As lições de vida do facebook

Não basta anular as imagens. 
Se não apagares o facto que documentam, este permanecerá na memória do sistema. Então, será uma memória tão indistintamente partilhável como qualquer outra. E o sistema perguntar-te-á, num qualquer dia de menor atividade, se queres partilhar com mundo a memória do facto, agora devidamente acompanhada pelo quadrado em branco que é o correspetivo da imagem representativa que substitui a que apagaste.
A única coisa que, afinal, conseguiste destruir. 
Nessa altura, poderás ver um bonito coração vermelho; um verso do teu poeta preferido ou, pior ainda, uma frase que não seja falsa, fazer-se acompanhar pelo mais absurdo vazio. 
Se tiveres sorte, essa memória amputada de objeto parecer-te-á uma composição preferível à original. 

Atrofia


Boletim meteorológico

Amanheceu o cheiro da chuva hoje, pela primeira vez em demasiado tempo. 
A pele já havia esquecido como são frias as gotas da chuva quando nos caem entre o pescoço e as omoplatas e deslizam livres pelas costas. É a chuva boa.
A alma, percebi-o, não esqueceu o dia em que a chuva veio e na sua violência afogou as rosas, levou os caminhos, impôs o silêncio ao mar. É a chuva má. 

*E a alma dirigiu-se para o corpo que a feriu de amor*

Methinks I have a mistress yet to come,
And still I seek, I love, I know not whom.

Isto é verdade, sem dúvida, em relação ao amor casto e não natural, mas não em relação à paixão heróica, que é verdadeiramente luxúria ardente e animal, e da qual estamos a tratar. Falamos de olhos delirantes, lascivos, adúlteros, que, segundo diz o autor, "estão sempre à espreita como soldados e, quando notam que um inocente espectador se fixou neles, trespassaram-no com as suas flechas e, nesse preciso instante, enfeitiçam-no. Isto acontece, sobretudo, quando fixam os olhares entre si, como amantes impúdicos que, com essa comprazida disputa de olhos, participam mutuamente das suas almas". Do que foi dito podereis aperceber-vos de como é fácil, e rápido, apaixonar-nos, pois basta uma piscadela de olho para que os espíritos de Fedro contaminem, de maneira tão perniciosa, o sangue de Liceas. "Isto também não é espanto nenhum se consideramos pormenorizadamente quantas doenças se apanham, furtiva e inesperamente, por infeção: peste, icterícia, sarna, cólicas, etc." Desde que os espíritos tenham penetrado, quem os recebeu nunca mais terá descanso, ficando sujeito à irritação causada por eles. Idque petit corpus mens unde est saucia amore*". E podemos aperceber-nos de uma estranha extração dos espíritos, como quando o nariz do morto sangra se o seu assassino estiver presente.

Robert Burton (1577-1640), in Anatomia da Melancolia, Quetzal 

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Espelhos

Encontraram-se na varanda. Ambas empenhadas na observação desse pedaço que falta à lua e que, na incompletude, a faz parecer quase humana. Pendurada, uma, pelos pés descalços no telhado, sentada, a outra, numa cadeira de balouço. Olharam-se demoradamente no silêncio confortável que é exclusivo dos velhos casais e dos eternos inimigos. A que se pendurava na noite foi a primeira a quebrar a harmonia:
- é cedo para ti. Esta lua ainda não é tua. 
A que se balouçava no escuro respondeu-lhe sem a olhar:
- é tarde para ti. Esta lua já não é tua. 
Então, por um momento, coexistiram pacificamente no mesmo espaço, a primeira na saudade da lua que foi, a segunda na expectativa da lua que será. 
E a lua brilhou, na noite, indiferente à cegueira de qualquer uma das duas.

domingo, 11 de setembro de 2016

Uma espécie de felicidade

Não sei dizer o que veio primeiro: Se as áridas noites que agora durmo abandonadas pelos sonhos que não me dou ao incómodo de sonhar; se a sucessão de dias que agora vivo despovoados de objetivos longínquos que não me dou ao incómodo de traçar. Sei que há uma espécie de felicidade nesta coerência de imbecilidades. Como se, por fim, tivesse chegado o momento em que já não preciso de mentir a mim própria. 
Por vezes, acordo durante a noite e observo o meu cão enquanto sonha. 
É uma criatura mais complexa do que eu. 

sábado, 10 de setembro de 2016

Cinzas

Choveram cinzas durante três dias. 
E agora que a estranha chuva finalmente parou, ainda nos vamos descobrindo, distraídos, a olhar para o céu ou para as costas da mão, à procura do pó que nos serviu de oráculo. 
Depois, retomamos a expressão grave, adequada a quem regressa da incineração dos anjos. 

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Desconstrução da felicidade

A melhor desconstrução do mito da felicidade, encontrei-a em Italo Calvino, em As Cidades Invisíveis, a propósito da sua imaginada cidade de Zenóbia, mas, sobretudo, válida para os seres humanos: "Dito isto, não vale a pena determinar se de deve classificar Zenóbia entre as cidades felizes ou entre as infelizes. Não é nestas duas espécies que faz sentido dividir a cidade, mas noutras duas: as que continuam através dos anos e das mutações a dar forma aos desejos e aquelas em que os desejos ou conseguem aniquilar a cidade  ou são eles aniquilados."
É substituir cidade por pessoa. 

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Esmola

Como o mendigo cego de Borges, antes de partir e levar na palma da mão as minhas últimas pedras, sem que também eu lhe tenha ouvido os passos ou me haja voltado para o ver perder-se ao alvorecer,  igualmente poderia ele ter dito:

– "Não sei qual é a tua esmola, mas a minha é espantosa. Ficas com os dias e as noites, com o siso, com os hábitos, com o mundo."

O preço, sei-o agora, foi bagatelar. 


Dia de citar Borges

P.S. 1924 – Já sou um homem entre os homens. Na vigília sou o emérito Hermann Soergel, que mexo num ficheiro e que redijo trivialidades eruditas, mas ao amanhecer sei, por vezes, que o que sonha é o outro. De tarde em tarde surpreendem-me pequenas e fugazes memórias, que porventura são autênticas. 

Jorge Luis Borges, A Memória de Shakespeare e Nove Ensaios Dantescos, Quetzal

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Autorizada memória

São fragmentos indistintos que nem sequer a ordem que pertence ao tempo sabem respeitar: 
os primeiros sapatos, vermelhos, com franjas caídas sobre os tornozelos escanzelados; um balão que se desenrolou do pulso, perdendo-se para sempre no azul do céu de agosto; um edifício em ruínas sobre o mar por cujas janelas sem vidros entraram as silvas, a manhã e o amor; o jardim de laranjeiras onde uma inusitada cama de rede ainda balouça ao ritmo do vento norte; o sol a apagar-se no pó da interminável pista de um aeroporto esquecido; as fotografias antigas nas paredes de um quarto que cheirava a restos de praia; uma goma em forma de ovo estrelado sobre a almofada de um hotel madrileno e o chapéu alto do seu porteiro; o corredor estreito de um outro hotel que a ânsia de um abraço tornou interminável; o rasto de sangue que ficou na palma da mão aberta; as cortinas com desenhos de laranjas, pêras e bananas penduradas na janela de uma cozinha; a expressão da morte nos olhos de um homem exposta na capa de uma revista antiga; o único juramento sentido; o teor de uma mensagem escrita que não me era dirigida; a sombra das omoplatas na penumbra de uma sesta tropical; quatro versos de Borges; o assombro do amanhecer veneziano numa praça vazia; a lua cheia sobre as vinhas e o seu mesmo reflexo nas águas do mar; um copo de vodka numa tarde de início de novembro nos anos noventa; dois faróis separados por vinte anos e pela inocência; o meu primeiro Nabokov; a sensação deixada pelo pesadelo recorrente de um cão cego a atravessar uma rua de moradias baixas; o sorriso triste de acrílico que pintaram no meu retrato e o sofá onde se formou; os caixotes espalhados no chão de uma sala que nunca fiz minha; uma noite de febre nuns lençóis amarelos e a varanda com vista para Monsanto; o frio do deserto que se encapsulou na medula e se tornou permanente; a primeira letra do meu nome bordada num bibe de riscas verticais; a carta que destruí antes de ler e aquela outra que não deveria ter escrito; a terceira bandeira de uma praia de nevoeiro; o som do último bater da porta que sabia bater pela última vez; o cais das colunas numa madrugada de chuva; o anel que perdi propositadamente; esse abraço indesculpado que só eu sabia não ser o último; os nomes que demos aos objetos de uma casa com rosas gravadas nas paredes; a sonoridade do meu nome em sotaques diferentes; a memória da marca eterna de uma clavícula partida; o instante em que fui atingida pela evidência da minha própria falibilidade; os poemas inéditos de um poeta morto que rasguei num dia de raiva; aquelas duas horas em que conheci os cambiantes do medo; os pés do Eros de Caravaggio num museu de Berlim e dois outros pares de pés em duas outras ignotas partes do mundo; Adagio for Strings, de Bernstein e o Clair de Lune de Debussy; o sabor a romã na boca de um homem; o mergulho no mar de esta manhã.
E a tão pouco se pode resumir a autorizada memória de uma existência. 


domingo, 28 de agosto de 2016

sábado, 27 de agosto de 2016

prazo de validade

Foram tantos os regressos e tantas as partidas que a bagagem minimizou-se ao que coubesse em duas mãos cheias. Agora estás na minha frente e tudo o que consigo pensar é como foi possivel esquecer-me que és tão alto. Espreitamo-nos no fundo dos olhos mas só vislumbramos o que já trazíamos dentro de nós. Entretanto, correu um rio inteiro e as margens alargaram-se ao limite do intangível. Ouço-te falar sobre o tom do meu cabelo com o olhar de quem conta estórias sobre reinos longínquos de gigantes e unicórnios alados. Comovo-me com o equívoco. Estendo um braço mas não toco coisa alguma. Não te digo que já não existimos. O regresso é breve, a partida longa e um dia acabaremos por morrer.
Até a verdade tem um prazo de validade.

Funambulismo

Dentro de uma dessas caixas de papelão seladas por fita de seda cor-de-rosa está enrolada e arrumada a velha corda de funambulista por onde correram os meus pés descalços nas viagens entre os terraços dos arranha-céus da cidade.
O tempo limou dos pés as marcas desse vício mais antigo do que eu e o rasto que agora se cola à areia mostra um negativo igual ao de todos os outros. 
Não foi por medo de morrer que desisti de unir o cimo da cidade com as minhas cordas e fazer delas o caminho das estrelas. 
Foi por ter engolido a vertigem. 


sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Diário de Bordo

Quando a minha tripulação vê o mês de agosto formar-se no horizonte, deixa de ser intrépida e valorosa e entrega-se à compulsão nacional burguesa que consiste num irresistível impulso para se enfiarem todos dentro de uma marina algarvia.
Foi assim que há cerca de 15 dias, rumando eu na direção da Noruega,  reparei que sempre que me afastava do leme, o navio, como se com foros de vontade sua, assumia imediatamente a rota algarvia. 
Uma noite, o Garcia Márquez e o seu livro de contos aliaram-se a esta tripulação viciada e viciosa, fazendo com que me distraísse no convés por largas horas. 
Adormeci com os pés civilizadamente frios, enrolados numa manta de arminho, e tive um pesadelo com mares sem cheiro.
Acordei afogada num charco de calor africano; mordeduras de melgas entre os dedos; pregões de bolinhas com e sem creme; a costa do Algarve, que estaria à vista, se não estivesse coberta por gente estendida nos areais... 
A minha tripulação, é claro, já se havia disperso por creparias, italianos, lojas de quinquilharia recordacional, saltitando feliz e veraneante entre as ondas e os pés do vizinho. 




segunda-feira, 8 de agosto de 2016

E quando a terra completa outra volta ao sol...



Compra-se a ficha para mais uma viagem no carrossel. 

domingo, 7 de agosto de 2016

Éramos felizes e não sabíamos

Acordar com os gritos de Adhriminir, o cozinheiro pirata, a tentar apanhar o papagaio Polly para podermos ter carne ao almoço. Subir ao convés e tomar um brunch de panquecas de alga e ovos de gaivota. Escolher todos os dias uma peça de design nova para vender no OLX e garantir orçamento para livros. Usar tapa-olhos e chapéus comprados nos saldos de carnaval das lojas de chineses. Sentarmo-nos todos em frente ao espaço vazio onde antes foi a mesa de reuniões para planearmos um golpe exequível sem as armas que a nossa pobreza já não podia pagar. Assaltarmos botes de turistas pé descalço e no final do dia lutarmos uns contra os outros pelos três euros do saque. O cheiro da sopa de búzio e o sabor dos restos de rum diluídos em água do mar. 
Ah, a nostalgia dos dias em que ainda não não tínhamos aprendido a assaltar petroleiros...

sábado, 6 de agosto de 2016

Houve aquela tarde

Nunca consegui ensiná-lo a ver, não para além, mas através do aparato. 
Sentados no chão de terra batida, joelhos nus, mãos sujas, olhos límpidos, o sol a esvair-se para lá da montanha, eu a afiançar que podia ser apenas aquilo e ele ensurdecido pelo inoportuno tilintar das minhas pulseiras. 
Demorei muito tempo a perceber quão escura e densa é a cortina do aparato. Depois aprendi a amá-la. Daquela maneira como se ama a pequena cicatriz que se trouxe de lembrança de uma guerra que não foi ganha nem perdida. 

domingo, 31 de julho de 2016

Deslucidez

Como o padre António Isabel do conto de Gabriel Garcia Márquez, "Um Dia depois do sábado", também eu acredito, em momentos de menor lucidez, que é possível alcançar a felicidade na terra, quando não está muito calor. 

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Gaiolas

Pendurados na grande gaiola de grades da cor do falso ouro, despedimo-nos o número de vezes suficiente para entreter uma plateia de deuses entediada até à crueldade. 
Despedir-nos para sempre foi o número circense em que nos tornámos exímios. Creio que vieram de longe, deixando um rasto de pó de estrelas, antes de se sentarem em apinhadas nuvens a ver-nos dançar tangos últimos, uns atrás dos outros. 
Da última vez substituíram-nos o mar por um rio. Há qualquer coisa de definitivo nos rios que não se pressente na infinitude de um oceano único. 
Veio uma noite maior do que as outras e os deuses cobriram a gaiola com um pano de seda azul e esqueceram-se de nós, aqui presos, ao som de uma milena desafinada e sem outro ofício que não seja o de nos despedirmos para sempre. 

Hearts


quinta-feira, 28 de julho de 2016

Palavras

A bem da libertação das palavras, queimou todas as cartas físicas e apagou as eletrónicas. Então as palavras soltaram-se da triste prisão da sua história e voaram livres pelos céus, em bandos migratórios, na busca de um reino onde um resto de verdade lhes restituísse o sentido da sua existência. Da varanda do convés, vi-as passar esta manhã. Voavam demasiado alto para que as pudesse alcançar com os braços erguidos. E, de uma forma ou de outra, nenhuma delas me pertenceu de verdade.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Diário de Bordo

O mundo todo

O adágio chegou ao fim e eu recebi o silêncio sem leve sombra de comoção. Não me soube comover a música, ou a lua, ou um verso, ou qualquer uma das auroras que se seguiram. 
É assim que deve ser.
O mundo encolheu até ao absurdo tamanho de um berlinde de vidro colorido.
Pode ver-se através dele.
Essa pequena esfera que transporto junto ao corpo e que há de ficar esquecida na areia da praia, dentro de um dos bolsos dos calções, é o mundo todo. 

segunda-feira, 25 de julho de 2016

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Disso, da magia dos blogues


Outro Entre, in, TalqualmenteOutro 

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Desertos


A mim, que sou do mar, não sei de onde me vem esta saudade do deserto. Uma aurora feita de pó, o sabor da areia na boca, a recordação de um fio de azul a reaparecer por entre as dunas, o cheiro da gruta onde desenhámos o que talvez fosse o futuro. 
Essa noite feita de estrelas e de frio à qual sempre regresso quando adormeço. 

sábado, 16 de julho de 2016

Outros ciganos


Olhar para trás

A propósito de passagem sobre a mulher de Lot, em Caim (de José Saramago), lembro-me de Orfeu e Eurídice, esses desgraçados, e pergunto-me o que tanto enfurece os deuses nas pessoas que olham para trás. A mulher de Lot, transformada em estátua de sal por ter ousado voltar o rosto para as chamas que, nas suas costas, consumiam sodoma e gomorra. Eurídice, devolvida às profundezas do reino dos mortos, pela indiscrição ansiosa de Orfeu, que olhou para trás, para avistar a amada.
Olhar para trás não é apenas uma forma de evitar os espelhos, é a única maneira de compreender o seu reflexo. Talvez os deuses incriminem a autoconsciência. Essa empresa concorrente no negócio monopolista do destino. 

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Resumo do dia

Mas em mau.

Filhos de deus

Pela fé, Abel ofereceu a Deus um sacrifício melhor do que o de Caim. Por causa da sua fé, Deus considerou-o seu amigo e aceitou com agrado as suas ofertas. E é pela fé que Abel, embora tenha morrido, ainda fala.
(Hebreus, 11, 4)
LIVRO DOS DISPARATES

Citação retirada de Caim, José Saramago. 

Todos os homicídios têm dezenas de justificações possíveis. É inútil tentar compreendê-las. 

Das férias grandes

Como as crianças, conto os anos começando pelo mês de setembro. 
Este ano termina hoje. 
Teve horas a mais. Vivi ocasos a menos. Perdi duas ou três luas. Esqueci alguns encontros com o mar. Não colecionei todos os céus. Dei mais aos livros do que às pessoas. Recebi incomparavelmente mais das pessoas do que dos livros. Descobri que a música é uma obsessão de eficácia superior à compulsão para fazer muffins. Renovei o exílio por outro ano. Talvez seja a minha pátria. Continuei a falhar, mas falhei melhor. 



quinta-feira, 14 de julho de 2016

Movimento

Este blogue também adere ao movimento EU EXIJO SER PLAGIADA.

terça-feira, 12 de julho de 2016

uma música para a noite


LEBENSWEISHEITSPIELEREI

A enfraquecer, cai a luz do sol
Na tarde. Os orgulhoso e os fortes
Já partiram.

Aqueles que restaram são os incompletos,
Os finalmentemente humanos,
Nativos de uma esfera diminuída 

A sua indigência é uma indigência 
Que é a indigência da luz 
Uma palidez estelar pendurada nos fios

Aos poucos, a pobreza 
do vazio outonal transforma-se
Num olhar, em poucas palavras ditas.

Cada pessoa toca-nos por completo 
Com aquilo que é e como é, 
Na estéril grandeza da anulação.  

Wallace Stevens, traduzido do inglês por Cuca, a Pirata


Weaker and weaker, the sunlight falls
In the afternoon. The proud and the strong
Have departed.

Those that are left are the unaccomplished,

The finally human,
Natives of a dwindled sphere.

Their indigence is an indigence

That is an indigence of the light,
A stellar pallor that hangs on the threads.

Little by little, the poverty

Of autumnal space becomes
A look, a few words spoken.

Each person completely touches us

With what he is and as he is,
In the stale grandeur of annihilation.

(Versão original)

Poemness

À tardinha, naquela hora definitiva que precede o esmorecer do dia, quando a casa parece subitamente mais vazia e se repara no ondular embalado das cortinas de linho e não há jazz que encha o espaço e os miúdos que brincam na rua já recolheram ao banho e sabemos que nada poderemos fazer para agarrar o dia que começa a dissolver-se na noite, preciso, às vezes, de um poema. Então procuro-o na estante e em folhas soltas e em cadernos de notas, e acontece-me, às vezes, não o encontrar em Fiama, em Stevens e nem sequer nos vários volumes de Borges. E então esqueço o Globo, que fica, assim, suspenso, a ondular ao ritmo das cortinas, que é também o ritmo do vento e do mar, e procuro melhor o poema que me falta.
E, às vezes, sabes, não consigo encontrá-lo em canto em canto algum, porque o poema que me falta pertence à superfície plana que é o teu espólio dos poemas que me faltam, à tardinha, naquela hora que precede o esmorecer do dia, quando a casa parece subitamente mais vazia, e apenas tu o podes encontrar por, para, mim. Às vezes.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Os homens que nos amam a todas


Um dos motivos pelos quais vim para Pirata foi para fugir dos homens que me amam. 
Neste navio ninguém me ama e, parecendo que não, esse é um factor não desprezível no aumento da minha qualidade de vida. 
Como a minha existência tem o condão de se pautar pela falta de originalidade, sou obrigada a presumir que não haja mulher com mais de trinta e cinco anos que se preze que não tenha pelo menos cinco homens na sua vida que se dedicam à tarefa de amarem loucamente. Claro que falo de um amor especial. Falo daquele tipo de amor louco, permanente e insistente que alguns homens conseguem manter durante toda a vida, enquanto vivem a dita, a fazer outras coisas mais interessantes, como por exemplo, ir viver para África, viajar pelo mundo inteiro e estar casado com outras.
Os homens que me amam são pessoas fantásticas que, contrariando o mito de que o sexo masculino não consegue fazer mais do que uma tarefa de cada vez, ocupam-se da atividade de me amar profundamente ao mesmo tempo que fazem safaris no Quénia, enfiam anéis de brilhantes da Tiffanys a outras, limpam o ranho dos filhos e compram tampões para as respetivas mulheres nas raras fases em que não estão grávidas.
Estas criaturas maravilhosas carregam com elas o seu eterno e omnipresente amor por mim enquanto vão vivendo vidas feitas de um sacrifício atroz, sempre em nome de um interesse superior, que tanto pode ser a necessidade de construir uma carreira internacional como a simples obediência ao dever moral de estarem para ali, até que a morte os colha.
Quando o tédio do quotidiano os faz sentir tão miseráveis que até parece que estão já mortos, resta-lhes o consolo interior de se saberem pessoas especiais, consistindo tal especialidade na circunstância de me amarem para sempre. Nessas alturas, imbuídos pela grandeza da paixão que há tantos anos sentem por mim, os olhos brilham-lhes, os lábios entreabrem-se para deixar escapar um profundo suspiro, a consciência desse sentimento garante-lhes a congregação das duas gotas de adrenalina que lhes circulam nas veias, as suas vidas assumem as cores do grandioso sacrifício que fizeram e o espelho lá de casa devolve-lhes a imagem de um Ulisses que um dia há-de retornar a coisa nenhuma.
Os homens que me amam seriam mais suportáveis se aquela nefasta reunião das duas gotas de adrenalina que ainda lhes restam não os levasse, invariavelmente, à urgente necessidade de entrarem em contacto comigo - estatisticamente falando, quando eu estou a dormir, a trabalhar ou a comprar sapatos -  para me comunicarem o facto de, contra todas as expetativas e pese embora as minhas preces noturnas, ainda me amarem loucamente. Depois da comunicação sofredora, uma vez cometida esta loucura arriscadíssima que quase mudou radicalmente o curso das suas vidas, as harmonas lá se recompõem, África parece mais confortável, o ranho dos filhos mais doce, os tampões das mulheres menos deprimentes e torna-se mais fácil retornarem à tarefa de me amar loucamente enquanto vivem as suas vidas.
Estes homens que me privilegiam com o seu amor, é claro, não me têm qualquer préstimo. Não me mudam os pneus do carro, não me fazem canja quando tenho gripe, não me lavam o cabelo, não testemunham a minha vida, nem sequer me aparecem na frente. A sua missão é carregarem ao longo das suas vidas o seu inútil amor por mim e comunicar-mo comovidamente, pelo menos, a cada seis meses. Também me telefonam todos no dia do meu aniversário, normalmente, de seguida, por forma a que, nalguns anos, já me interroguei se estariam todos na fila da mesma cabine telefónica.
Os homens que me amam, antes de eu vir para Pirata e cortar amarras com a minha existência anterior, eram uma praga metafísica na minha vida.
Além de me interromperem o sono, o trabalho e o prazer da aquisição de sapatos, eram a armadilha dos dias maus. Aqueles em que a falta de horas dormidas, o cansaço da labuta ou a inexistência do número 36 naquelas sandálias fantásticas, me rasteiravam um pé e eu caía na asneira de me perguntar se a minha vida poderia ter sido mais feliz se se desse o caso de algum desses homens que me amam não ser tão obscenamente cobarde.
Aqui, sentada no deck deste navio, com o "Estudos Sobre o Amor", do Gasset, caído sobre o colo e a lua a brilhar na minha frente, não tenho a menor dúvida que a resposta é uma rotunda negativa.




domingo, 10 de julho de 2016

Sódio


Tenho nos ombros os restos do mesmo mar que esta manhã te lambeu os pés. 

É o suportável limite de intimidade. 

Diário de Bordo

Neste navio não há ar condicionado. Suporto com facilidade todas as outras limitações civilizacionais inerentes ao facto de viver no meio do mar, acompanhada por intrépidos piratas. Não sinto falta da televisão que antes me fazias as vezes de aquário ou de lareira, consoante a estação do ano; nem das livrarias, que se tornam prescindíveis quando se descobrem os cinco ou seis livros de onde derivam todos os outros; nem dos cinemas, agora transformados em salas de piquenique fast food; nem dos serviços de estética, que são inúteis quando se assume que a castidade continua a ser a maneira mais inteligente de evitar o amor. 
Tenho, contudo, a nostalgia do ar condicionado. Não há brisa marítima que se compare ao luxo de carregar num botão que, em três minutos, nos destempere. 
Fui ao baú buscar o leque vermelho de bolinhas negras que comprei em Sevilha quando ainda era burguesa, deitei-me no convés com um livro e pedi a Andrhiminir, o cozinheiro pirata, que me abanasse com ele durante meia hora. Mas o imprestável viking, no geral pouco comunicativo, aproveita-se destes momentos para reivindicar melhores condições de trabalho, como uma segunda bimbi ou uma faca de cozinha elétrica que viu num folheto promocional, e faz mais barulho do que o motor dos ares condicionados antigos. 
Foi então que me lembrei que nunca assaltámos nenhum bacalhoeiro e que essa é uma desculpa tão boa como outra qualquer para abandonarmos as Caraíbas e rumarmos aos Fiordes. 
A verdade é que o meu sonho sempre foi ter um icebergue para uso exclusivo.

Ouvido à saída da praia

- erradicar não existe.
- ah, existe, existe.
- não. O que existe é irradiar. Estás a inventar coisas.
- existe! Irradiar é para o calor.
- não existe erradicar!
- quando chegarmos a casa já te mostro o que é quer dizer!

Dado o tom exaltado da discussão, ocorreu-me que o meio de prova que ele tinha em mente talvez não fosse um inocente dicionário. 

sábado, 9 de julho de 2016

35•

Trinta e cinco graus. Ainda.
Esqueci o chá de romã no congelador e quando regressei estava ultrapassado aquele ponto em que o chá gelado se transforma em gelado de chá.
O cão continua deitado no chão, onde o deixei, indiferente ao suborno do biscoito, desesperado por um pouco de frescura e a olhar para mim como se me responsabilizasse por este inferno. 
Estando fora de questão suportar a praia debaixo deste calor, ocorreu-me que a coisa mais próxima que poderia fazer era comprar biquínis. Comprei muitos. Alguns com lantejoulas e pregadeiras. Não servem para a praia mas ficam muito bem no mosaico da sala. Único sítio onde eu e o cão conseguimos existir. Aqui deitados, lado a lado, responsabizando-nos mutuamente, ele pelo calor, eu pelas minhas dores nas costas.
Lá fora, numa varanda próxima, um rapaz canta o Nessun Dorma de Puccini. Desligo a música para o ouvir. 
As gaivotas também não dormem já há várias noites. 
Estão trinta e cinco graus e faltam oito dias para as férias grandes. 
Daqui, do chão da sala, de onde vos escrevo, o mundo parece-me cada vez mais estranho.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

O admirável mundo dos relaxantes musculares

Parece-me que o sol já era tórrido e infernal quando, às duas e meia da manhã, fui arrancada da onírica sensação de deserto por uma insuportável dor nas costas. Não estava deitada na areia, coberta pelos panos da tenda berbere, mas a cama sabia àquilo que sabem cada um dos meio-dia no deserto.
Já alguém deve ter estabelecido uma correlação científica de proporcionalidade inversa entre as temperaturas demasiado elevadas e o grau de tolerância à dor. É tão óbvia que julgo impossível não estar documentada.
Mais de doze horas e muitos ibuprofenos e paracetamois de diversas cores depois, apresentaram-me essa maravilha da medicina que dá pelo nome genérico de relaxante muscular. 
A perspetiva empírica permite-me jurar que a alma é um músculo. 
Há toda uma lixeira de angústias, pequenos e grandes afazeres, preocupações quotidianas de vários níveis de gravidade. 
E depois há o efeito incinerador de um comprimido de tamanho inofensivo que faz desaparecer as dores nas costas e todo o globo que sobre elas assenta. 
É noite e lá fora, dizem-me, estão trinta e cinco graus. 

segunda-feira, 4 de julho de 2016

domingo, 3 de julho de 2016

Sorria, está a tocar o Danúbio Azul

Na terceira linha da pauta estava inscrita a palavra simile - que, partilho com quem não sabe, na música, é uma instrução de repetição - e que foi por mim assumida como Smile. 
Então, juntaram-se a minha rigorosa determinação em aprender sem aldrabices, a cega odediência aos comandos, o terror ao leve desvio à composição e as inoportunas férias da minha professora de piano. 
Apesar das dores nos dedos da mão esquerda, de uma certa frustração por não acertar com o ritmo e de alguma perplexidade com aquela instrução,  consegui passar um considerável número de horas a esforçar-me por sorrir sempre que tentava tocar aquela frase do Danúbio Azul. 
E agora hei-de sorrir, para sempre e sem esforço, de todas as vezes que voltar a tocar aquela passagem, assim se comprovando, ainda que de uma estranha forma, aquela coisa dos vícios de má aprendizagem.

Sanidade mental

Todas as cidades deveriam ter um cemitério de amores perdidos. Uma aliança entre a geografia e a desilusão. Comprávamos amorosas lápides de mármore branco que, em ocasionais mas sentidas visitas, decoraríamos com coroas fúnebres de violetas ou margaridas. 
E um nome inscrito em letras douradas, ali, entre milhares de outros nomes, sob o sol e sob a chuva, a desvanecer-se ao ritmo do nosso esquecimento.
Como seria terapêutico, ter um depósito de amores perdidos. Um sítio onde os deixar, quando já não nos trazem qualquer préstimo e nem sequer cabem na organização doméstica.

sábado, 2 de julho de 2016

O velho, o rapaz e o burro


Os que nos envergonharam por termos chorado Paris, são os mesmos que nos condenam por calarmos Istambul. 

Verões indignos

Sonhei, em tempos, com um pátio andaluz, balouços de verga e almofadas de linho, com vista para a porta de madeira vermelha de uma casa térrea. Era o entardecer e uma guitarra descansava de encontro à cal da parede impossivelmente branca. 
Perguntou-me se os últimos verões foram dignos e, por vício de contradição, obstei ao conceito de dignidade das estações. Então lembrei-me de pequenas felicidades, como a camisola a acordar os nervos dos ombros salgados, a areia encharcada que a última maré do dia estende aos resistentes, o barco abandonado nos juncos que ensombram a barragem vazia, aquele instante em que o corpo cai no sono num colchão a flutuar na piscina silenciosa. Todos eles foram há demasiado tempo.
Percebi o que me queria dizer o sonho. 
É preciso restaurar a dignidade das estações.