Com o tempo, abandona-nos o deplorável vício da recriação de um concreto quotidiano alheio.
Foi assim que deixei de vê-lo caminhar, desajeitado, na direção do mar. Ou de ouvir a inoportuna gargalhada infantil. Ou de imaginar a sombra das costas projetada pela luz das velas; os dedos a arranharem as cordas da guitarra; a forma inusitada de pegar na chávena do café; uma ruga vertical na testa a anunciar um período de silêncio; o gesto de distender os músculos do pé.
Então, todas essas insignificâncias, que foram ínfimas parcelas de um homem, perdem-se no universo e o vício da recriação do quotidiano é substituído por uma nova forma de culpa.
Como os deuses e os crepúsculos, também tu te desvaneces por falta de quem te sonhe.
Tão triste. Tão belo.
ResponderEliminarDescobri o haiku do Bashô que combina com este post!
Eliminar"amanhã os bolos de arroz
serão apenas folhas mortas
sonhando"
Há um haiku do Bashô para tudo! É oficial!