quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Grandes Filósofos

- "I do love you and you know there is something very important we need to do as soon as possible."
- "What's that?"
- "Fuck!"

in Eyes Wide Shut (1999)

Outras prisões


Pode-se estar preso dentro de um corpo e pode estar-se preso dentro de um cérebro. E a última, não deixa de ser uma espécie de tetraplegia.

The End Is the Beginning Is the End


Para a minha amiga Medusa, por motivos que ela está quase a descobrir

Incapacidades

Uma mulher pode ter lido Tolstoi aos 13 anos, Nabokov aos 14, esmifrado Sartre inteiro. Ter-se apaixonado por Soren kierkgaard, decorado meio dicionário de mitologia grega, saber quem foram Keynes, Smith e até Havelmo. Conhecer as fases de Picasso, distinguir um Monet de um Manet, identificar as influências de Hieronymus Bosche em Miró, reconhecer de cor os quadros de Hopper. Ter decorado as capitais de 100 países. Visitado um número significativo deles. Saber que o filme os Americanos se baseou num livro de Raymond Carver. E que Hitchcock dava cabo da cabeça às suas actrizes. Ligar o conceito de alavancagem aos mercados financeiros. Compreender os motivos pelos quais o cross euro-dolar já deu o que tinha a dar em matéria de Forex. Saber o que é uma operação reverse stock split. Conhecer os melhores restaurantes de take away de Lisboa. Fingir na perfeição que o jantar foi cozinhado por si. Não ficar imune às vantagens do linho egípcio. E explicar de cor o processo de construção do tapete de uma auto-estrada, analisando a problemática do betuminoso. Dissertar sobre a relação entre a teoria da poison tree a desconfiança no sistema judicial. Pode tratar por tu as leis dos homens. As nossas e as dos outros. E ainda as leis do karma. Identificar um Puccini ao segundo décimo. Saber a diferença entre o Bruegel pai e o Bruegel filho. Conhecer o nome de vinte ossos do corpo humano. Conseguir adaptar um medicamento para o reumático aos sintomas da gripe. Reconhecer uns Jimmy Choo estejam em que pés estiverem. Ser uma detectora humana de candonga de luxo. Ter capacidade para perguntar onde fica a casa de banho em sete línguas diferentes.

Mas do que lhe servem estas coisas todas, quando está em casa cheia de calor e não consegue descobrir como se colocam duas pilhas no comando do ar condicionado?

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Daddy's Little Girl


Para além de me teres dado um feitio irascível,
uns olhos impossíveis de maquilhar em degradée,
um nariz comprido de esfinge
e de me teres transformado numa paddock girl logo aos 4 anos de idade ao colocares-me no colo do Emerson F. himself,
ensinaste-me a adorar esta foto e a comentar, sem grandes gaffes, um combate de boxe.
Amo-te Papá.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Ainda a banhos


No domingo à tarde a Estrelita banhou-se, com deleite, em águas destas.

Conversas imaginárias com Deus; Cuca;

Deus: Talvez, se te deitasses no sofá e conseguisses rever o momento em que me abandonaste, conseguíssemos resolver este problema…
C: Se me deitasse no sofá, adormecia. Não sei se já reparaste, mas eu trabalho. Lembras-te? É que houve “alguém” que nunca me entregou o prémio do euromilhões.
Deus: Estás a ver? Resumes tudo aos bens materiais! Que raio de pai seria eu para ti se te impedisse de descobrir que só na espiritualidade encontrarás o fim dessa inquietude?
C: Serias um pai preocupado com a tua herdeira que, finalmente, poderia comprar o tempo necessário para reflectir.
Deus: És uma chantagista! É por isso que nunca te faço as vontades. Sinto que não devo alimentar os teus caprichos.
C: será? Ou será, antes, que não fazes porque não podes fazer? Porque não sabes. Porque não és omnipotente. Porque és um inútil preguiçoso. Porque nem sequer existes…
Deus: Não me tentes manipular!!
C: Olha que para deus, estás a ficar com um discurso muito parecido com o do meu ex…
Deus : Tu não eras assim antes de ler Nietzsche! Se tivesses tido a paciência de chegar ao fim da obra terias percebido que ele enlouqueceu por não ter outra criatura para colocar no meu lugar. Um lugar demasiado importante para ser ocupado pelo vazio.
C: Enganas-te. Ele enlouqueceu primeiro e concluiu isso depois. Além disso, subestimas-me se pensas que dois livros de mensagens encriptadas são o suficiente para me induzir uma crise espiritual. Nem que fosse pelo meu ódio aos clichés! Jamais seria assim tão previsível.
Deus: Proporcionei-te aquele encontro com Rembrandt, a sós num canto do museu, para que fosses atingida pelo impacto da espiritualidade…
C: Ai sim? Já que foste tu que o proporcionaste, concluo que me estejas a dever o dinheiro que me custaram essas férias. É que eu não me teletransportei para o museu, lembras-te?
Deus: Os sinais estavam lá todos…não sei porque te recusas a ver todas as migalhas que te coloco na direcção de casa.
C: Tens que experimentar com chocolates! Pode ser que resulte melhor. Já agora, porque é que eu haveria de querer regressar a uma casa onde nem sequer me lembro de ter estado?
Deus: Minha filha, o caminho da paz começa no reencontro com a pureza que um dia existiu dentro de nós…
C: Óh! Pelo amor da Santa! Agora falas como uma testemunha de Jeová! Vá, sai lá de dentro do meu carro que tenho que atender o telemóvel e não te quero aqui a ouvir a conversa!

It's not too much, is it...!?

domingo, 5 de setembro de 2010

Segue o teu destino

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Fernando Pessoa (in Odes de Ricardo Reis)

coisas simples

O silêncio. A ponta dos dedos da tua mão direita no meu pulso esquerdo. A proximidade do chão. Um pé sobre o outro. Os filmes em plano de fundo a concentrar toda a acção da sala. Crepes de chocolate com gelado de noz. Relógios de pulso avariados no tempo. Tonalidades de pele que mudam com as horas do dia. Pimenta com todas as espécies de massa italiana. Imobilizar-me no teu olhar. Outra vez o silêncio. Um recado e um poema.


A minha mãe é uma sereia (!?)


Uma blusa por causa da saia comprada na passada 5ª feira. Fica a faltar o par de sapatos, porque todos aqueles que tenho não ficam impec com a saia e a blusa. Oh mãe, esses de que falas não têm nada a ver. Mais um giro. Par de sapatos encontrado, pena não ter sido o mais em conta, ...tens um dedinho para estas coisas. Entretanto, da parafarmácia sai um saco com 4 caixas de Memofit e uma lata das grandes de Ecophane em pó para ajudar os cabelos e as unhas a resistirem às agruras outonais. Mais umas tralhas, entre as quais creme para colocar nos cabelos antes de usar o ferro que a Cuca recomendou e que já se tem mas se anda a usar apenas nos 170º porque ainda não tínhamos o tal produto. Agora é que vai ser, vamos aos 230º para ficar lisinho espelho (termo técnico inventado por moi).


Pausa para o chá, com refrescos. Blá blá blá e carros. Adoro falar de carros, quero um novo, quero muito, não já porque não vale a pena. É para quando acabar o desterro alfacinha, mamã. E porque não um conversível? - depois de tantos embarques e desembarques, por vezes esta mulher nem sabe de que lado do Atlântico está, - Mamã, pelo amor de Deus, não fales como o Roberto Leal! Blá blá blá, côr, estofos, e não quero gps pois sinto-me bruta a ouvir uma Sandrine qualquer a mandar-me virar aqui e ali. Descapotável...? Mãe, já sabes o que penso de carros de empreiteiros. Hum... Só se fosse para ir a um drive in de vez em quando.



Total SILÊNCIO, olhos verde-garrafa (as minhas cores têm, sempre que possível, nomes compostos) pregados na cadeira vazia ao seu lado.



Mãe...?



Pois filha, não sei, isso dos drive in... acho... que me lembre só fui uma vez, antes de conhecer o teu pai... e fomos 4 pessoas. E... é que isso não tinha lá grande reputação... sabes...?
É? E que filme foram vêr?
Ah, sei lá filha...!










X-Acto


Medusa tenta desesperadamente recortar Bogart da chachada que é Casablanca...




sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Ancestrais vícios burgueses

Entrei na pastelaria para comprar uns bolinhos de sortido húngaro.
O ambiente era exactamente igual aos dos jogos de futebol do mundial. Tremoços e amendoins acompanhados por cervejas geladas. Clima de expectativa e festa. Insultos e palavrões dirigidos a jogadores e árbitros.
No plasma, em rodapé, em vez de um score de golos, havia um score de penas de prisão.
Também havia um senhor advogado a anunciar que o reino das trevas se abateu hoje sobre nós.
O povo riu-se.
Eu paguei os meus bolinhos de sortido húngaro e saí.
Envergonhada.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Grandes Filósofos


Ivo Pitanguy (born in Belo Horizonte, Brazil - 1926) says he has never opted for an operation himself. “Of course I could be much better if I had, but I tolerate myself. My ego is transcendent.”

Querida Amiga RELOADED


Desta vez chegaste-me sob a forma de uma insónia severa. Só me largaste depois das 4h57, que foram os últimos números que li.

Muito oportuna, como sempre, e tendo em consideração o que comemorei ontem. Tu e o teu sorriso estúpido de quando bebias uns copos a mais. E as tuas DrMartens. Ridícula, pseudometaleira. Nós, no inferno do States. Nós, nas escadas da Capela, à sombra. Nós, na fila das Químicas. Na casa do amigo do amigo do amigo não sei de quem, onde te fui resgatar “muito fora” numa manhã de 6.ª feira. Os nossos jantares apenas de brócolos, para emagrecer... sim, eu uma mulher adulta que pesava 42 kgs e precisava muito de emagrecer. Noites em forma de gargalhada. Viagens de comboio. Bilhetes Gerais da Q.. Chá Dançante e pernas cheias de base. O boob job que íamos fazer assim que arranjássemos emprego.
Encheste o meu quarto com a tua tralha. E todas as fotografias que rasguei, exibiste-as coladinhas uma a uma, sem lhes faltar qualquer pedacinho.
Como é que volta e meia ainda rastejas para fora do teu ossário, CABRA!?

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Cada um tem o que merece...

Há fotógrafos que têm a mão de Deus...





Eu tenho que apanhar com a mão da Estrelita.

Bens de primeira necessidade


O Tenebroso Regresso de Cuca II


“Qual é o problema?” Pergunta-me, ao telefone, a simpática senhora de um instituto público que se encarrega de resolver problemas.

O problema é que eu prefiro o pequeno-almoço em frente ao mar ao café miserável sacado na máquina da entrada que, ainda por cima, me queimou os dedos enquanto eu aguentei o minuto e meio que o elevador demorou a chegar ao meu piso.
O problema é que tive que ordenar uma revista a mim própria para me auto-apreender todos os enfeites com conchas, estrelas, fitas e fitinhas que não tivessem três marcas legais.
O problema é que apesar de gostar muito de parecer 14 centímetros mais alta, o que eu queria mesmo era continuar a usar havaianas, de preferência douradas e com os pés cheios de areia por baixo.
O problema é que o preto fica terrivelmente mal com o meu bronzeado e o mesmo se diga do meu habitual sorriso n.º 2, motivo pelo qual fui obrigada a substituir o preto pelo azul escuro e o sorriso n.º 2 por uma expressão imperturbável no limite do socialmente bem educado mas dois tons abaixo do simpático.
O problema é que tal como as bestas farejam as vítimas, as urgências, as desgraças, as tragédias a reclamar intervenção humana pronta, farejaram o meu regresso e decidiram suspender as suas férias para me atazanar o dia inteiro.
O problema é que para resolver essa panóplia de chatices góticas eu precisava de não me ter esquecido da password de acesso a um sistema informático que me permite assinar ordens.

E, por fim, o problema é que pressinto que nem este último problema a senhora do instituto público que se encarrega de resolver problemas vai ser capaz de solucionar.

O Tenebroso Regresso de Cuca I

Pelas 14 horas, recusando-se a repetir a frase: “foram boas, obrigada. E as suas?”, Cuca tranca-se no seu gabinete, coloca o telemóvel em modo “mute” para não ser denunciada e faz de conta que não está cá.

Ouvem-se uns passinhos nervosos e desconfiados do lado de fora. Cuca, armada com a faca do papel, está firmemente decidida a assassinar qualquer criatura que ouse entrar aqui com a chave suplente e perguntar como foram as férias.