Ouvem-se uns passinhos nervosos e desconfiados do lado de fora. Cuca, armada com a faca do papel, está firmemente decidida a assassinar qualquer criatura que ouse entrar aqui com a chave suplente e perguntar como foram as férias.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
O Tenebroso Regresso de Cuca I
Ouvem-se uns passinhos nervosos e desconfiados do lado de fora. Cuca, armada com a faca do papel, está firmemente decidida a assassinar qualquer criatura que ouse entrar aqui com a chave suplente e perguntar como foram as férias.
segunda-feira, 12 de julho de 2010
sexta-feira, 9 de julho de 2010
segunda-feira, 7 de junho de 2010
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Sanatorium ::: 2055, DC

Cuca (aproximando-se da chaise longue onde se encontra Medusa): ahahahahahaha coff coff coff ahahahahaha
Medusa: Então querida, como correu?
Cuca: Era giro o gajo... Disse-me: "A Senhora tem que deixar de fumar de uma vez por todas!"
Medusa: ahahahahahahahahahahaha
Cuca: Pois! Era giro... mas era um miúdo, pá, um miúdo. Olha, apesar disso não me pareceu nada imbecil... nada imbecil mesmo...
Medusa: Mas não é o mesmo do mês passado!?
Cuca: É, é!
Medusa: Oh querida, então... Foi esse que me disse: "A Senhora tem que deixar de usar saltos altos de uma vez por todas!"
Cuca e Medusa: ahahahahahahaha (coff coff coff - Cuca) ahahahahahahaha
Medusa (baixinho): Gente ignorante... humpf!
Cuca: Nem me fales...
silêncio
Medusa: Bem, este solinho de Primavera, vou te dizer... e tu já estás preta mulher, que ódio! Sempre invejei a tua melanina...
Cuca: eheheheheh
silêncio
Cuca: Olha, vem aí a parvalhona da Fraulein-Enfermeira; Oh "psit"! coff coff coff
Medusa e Cuca: ahahahahahahahah
Cuca: Oh Fraulein, é um Gin Tónico e um Dry Martini, sim?
Medusa: O Martini é com cereja, veja lá, não me traga azeitona de novo...
Fraulein: Ja, ja...
o uniforme alvo da Fraulein volta a desaparecer
silêncio
Medusa: Um dia destes levas com um "Ja vol", Frauleinzinha, levas, levas... Lembras-te, querida, do tempo em que eu queria ter uma pistola...? Temos que sair daqui.
Cuca: Pois temos, querida, pois temos. A Estrelita já não manda um postaleco há muito...
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Mais despedidas
Nasci numa cidade construída numa baía sobre o Índico.
Cresci a 3 kms da praia.
Recusei-me a concorrer às Instituições Europeias porque não suportaria continuar a viver no Centro da Europa.
Vou agora instalar-me a cerca de 250 kms da costa.
Vai custar-me horrores ressacar a falta de maresia.
Adoro o Mar. Mas gostava de não o trazer nos olhos.
sábado, 8 de maio de 2010
Viúva de marido vivo

viuvez (i-u...ê)
s. f.
1. Estado de quem é viúvo.
2. Fig. Solidão; privação.
3. Desconsolo; desamparo.
In, Dicionário Priberam da Língua Portuguesa
A viuvez, mais do que um estado civil é um estado de espírito.
Apesar de tudo, confere ao dissolvido património conjugal a dignidade que lhe falta na mera separação. Evita-se a distribuição de culpas e tem o conforto do absolutamente irremediável.
A circunstância de a outra pessoa continuar a respirar é um mero fait diver pelo qual não nos devemos deixar distrair.
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Hoje, como sempre, tenho dias...

Abro os tetrapack num dos cantos. Picotado ou não, é preciso é que o corte seja recto e regular, de forma a que não verta, não pingue, e o liquido não saia em jorros irregulares. À cautela, mais vale comprar dos que têm tampas.
Faço questão de manter a roupa assim a modos que dobrada, em cima das cadeiras. Mas só um dia, dois no máximo. E a suja no respectivo cesto.
As toalhas são penduradas no topo das portas dos quartos e casas de banho, que assim não fecham mas deixam a casa com um delicioso cheiro a lavado e a frescura.
À cama puxo sempre as orelhas. Bem puxadas. Antes de me deitar (há quem tenha a felicidade de a abandonar tarde na manhã, muito depois de eu já ter ouvido umas boas patranhas).
As revisões do carro são feitas nas datas previstas, mas no mecânico lá do bairro. Porque para além de terem o mérito de evitar gripar o motor, não contam para mais nada.
O telefone carrega-se e descarrega-se em função do que no dia der mais jeito. Desde que não seja novo.
A despensa tem sempre lâmpadas suplentes. Que sou sempre eu que troco. Há-as de tamanhos e formas variadas.
Tranco a porta de casa. Desde que a saída dure mais de duas horas ou o destino se encontre a mais de 30 km. A menos que a saída seja em familia, assim já não há quem venha atrás e deixe a porta no trinco. 5 minutos depois de eu zelosamente a ter trancado.
Leio um livro por dia. Ás vezes o mesmo cinco vezes na mesma semana. Sempre do principio para o fim. Sem aldrabar uma linha sequer. A censura não deixa.
Agora só tenho musica em suporte informático. E um programa bestial que organiza tudo por mim.
Um dia destes vou voltar a imprimir fotografias.
Deixei-me de encarar a vida como a agenda de um chefe de Estado ou como uma grande experiência quimica em que cada reacção condiciona a seguinte. Um micrograma a mais ou a menos, e é a ruina.
Como se diz por aí, "Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos".
Se o dia é alegre, entusiasmante, inesperado e surpreendente aproveitemos. Amanhã podem-nos chamar ao caos e à pasmaceira do costume.
P.S. Acondiciono os alimentos por categorias no frigorifico e arrumo os roupeiros por tipos de peça e por cores. Sempre com os ganchos dos cabides virados para o interior.
Provavelmente nunca *** Adoro-te Cuca.

sábado, 24 de abril de 2010
Talvez um dia...

Talvez um dia eu aprenda a abrir os pacotes do leite pelo sítio certo. E passe a dobrar a roupa sobre as cadeiras. E me lembre de pendurar a toalha molhada do banho. E me decida a começar a fazer a cama. E leve o meu carro às revisões nas datas previstas nos livrinhos. E espere que a bateria do telefone descarregue antes de a voltar carregar. E compre lâmpadas suplentes para substituir as que se fundem. E me lembre de trancar todas as portas de casa. E consiga ler um livro de cada vez. E o leia do início para o fim. Talvez um dia eu organize as minhas músicas por listas e as minhas fotografias por anos.
Talvez um dia eu aprenda pensar a minha vida como se arruma uma casa. E consiga abri-la pelo sítio certo. E a torná-la organizada, funcional, previdente e segura.
Um sítio onde se consiga morar.
E deixe de a viver do fim para o princípio.
…Só que esse dia ainda não é hoje.
Grandes Filósofos
"A census taker once tried to test me. I ate his liver with some fava beans and a nice Chianti."Hannibal Lecter, in The silence of the lambs
terça-feira, 20 de abril de 2010
24 com uma 38

Quem ama também odeia, como quem ri também chora. Não sou boazinha, simplesmente não tenho licença de porte de arma, nem arma sem licença.
Por inúmeras vezes já senti em mim, explicitamente, o desejo de matar. Tenho a certeza que, em determinadas situações, se tivesse uma arma, teria feito uso da mesma. O desejo de matar manifesta-se em mim num jorro de sangue anormal à cabeça, que me estonteia e tolda parcialmente a visão durante uns segundos. É nesses segundos que aperto o gatilho. Nada menos que um calibre 38. Com um estampido de deixar os ouvidos a zunir. Nem que seja para atirar aos pneus do idiota que resolve passar pela direita na autoestrada só porque ao sair da portagem o meu carro não atinge os 100 kms/hora em 4,9 segundos...
Para apaziguar a onda de ódio que me invade nessas situações e em muitas outras refugio-me na ideia de que este mundo estúpido vai sofrer um holocausto qualquer do tipo nuclear e os sobreviventes, de entre os quais eu obviamente me conto, irão viver os seus últimos dias acompanhados pelas baratas, sem lei nem dó. Dada a minha fragilidade física (antípoda do meu gigantismo de ego e da minha fortaleza de espírito) penso que apenas durarei cerca de 24 horas nessa nova ordem mundial. Mas essas 24 horas irei vivê-las num estado de plena violência, no aturdimento permanente que o ódio proporciona a quem nada mais tem a perder. Essas 24 horas compõem aquilo a que apelido de
O Dia Mad Max.
Finalmente terei porte de arma, sem licença.
E muita munição, porque do exercício em causa faz parte a elaboração mental de uma lista daqueles que irei aniquilar pelo fogo, nesse dia.
Tantos são os nomes. Desde o palhaço que ultrapassa pela direita, ao urologista do meu pai. Desde o gajo que é um bluff na vida e safa-se, ao vizinho que deita as beatas no chão da garagem do prédio ou qualquer vizinho que se apanhe a jeito (porque os vizinhos são como os nazis... não os há bons...). Desde a conhecida que se derrama cada vez que vê o meu marido ao corno do marido dela. Desde o puto que bateu no meu irmão no 6.º ano ao dono da padaria que no meio de 8 pães coloca 1 de ontem. Se aparecer, a Celine Dion também leva, assim como o André Rieu.
Espero poder gozar esse dia apocalíptico como plena serva do meu mau feitio; só no seu final poderei repousar em paz.
“Na verdade, as nações se enfureceram; chegou, porém, a tua ira, e o tempo determinado para serem julgados os mortos, para se dar o galardão aos teus servos, os profetas, aos santos e aos que temem o teu nome, tanto aos pequenos como aos grandes, e para destruíres os que destroem a terra.” Apocalipse, 11:28



