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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Querida Amiga RELOADED


Desta vez chegaste-me sob a forma de uma insónia severa. Só me largaste depois das 4h57, que foram os últimos números que li.

Muito oportuna, como sempre, e tendo em consideração o que comemorei ontem. Tu e o teu sorriso estúpido de quando bebias uns copos a mais. E as tuas DrMartens. Ridícula, pseudometaleira. Nós, no inferno do States. Nós, nas escadas da Capela, à sombra. Nós, na fila das Químicas. Na casa do amigo do amigo do amigo não sei de quem, onde te fui resgatar “muito fora” numa manhã de 6.ª feira. Os nossos jantares apenas de brócolos, para emagrecer... sim, eu uma mulher adulta que pesava 42 kgs e precisava muito de emagrecer. Noites em forma de gargalhada. Viagens de comboio. Bilhetes Gerais da Q.. Chá Dançante e pernas cheias de base. O boob job que íamos fazer assim que arranjássemos emprego.
Encheste o meu quarto com a tua tralha. E todas as fotografias que rasguei, exibiste-as coladinhas uma a uma, sem lhes faltar qualquer pedacinho.
Como é que volta e meia ainda rastejas para fora do teu ossário, CABRA!?

quarta-feira, 31 de março de 2010

Querida Amiga


Imagino a campa muito limpa. É rasa e tem flores. Não tem velas. A fotografia que se vê é a ampliação granulosa da parte de uma que tirámos. Só o teu rosto. Estás a colocar o cabelo atrás da orelha esquerda.

Não. Não é assim romântico, à Herculano.

Morreste naquele instante. Em que eu te matei. Só depois percebi que foi premeditado. Porque tinha que ser assim. Porque tentaste; bastou isso. Foi a tentativa que te matou, entendes?

Cravaste a faca mas não torceste. Ficaste satisfeita apenas com o esforço da perfuração. Deixaste-a lá. Não a puxaste. Não sangrei. Fiquei assim, a olhar para ti, meses e anos enquanto as tuas pupilas perdiam cor.

Até que consegui balbuciar o anúncio de que tinhas morrido – já estavas podre até aos ossos quando te guardei.

Ficaste menos alta assim, morta. Ficaste feia. Nem te concedi a graça de seres um fantasma.

Revoguei todos os perdões que te dei.

Acabei contigo assim. O que sobrou está num ossário ordinário qualquer e não sei o número da tua gaveta.

Descobri que tenho vocação para SOL. Não mais orbitei ninguém.