Quiseste a tua vida asséptica e desinfectada. Traçaste-a, assim, com linhas geométricas minimalistas. Sem beirais para andorinhas. Avenidas largas para passagens rápidas. Inexistentes obstáculos a atrasarem-te na prisão de um detalhe.A condizer, arquitectaste uma casa branca sem cheiros, sais, ou molduras com sorrisos de mortos ou moribundos.
Apenas o permanente silvo do silêncio nas paredes vazias. Cheias da amplitude da tua existência. Para que nunca toques em nada. Para que nunca nada toque em ti. Para que tu e a tua sombra não se ouçam mutuamente.
Não tinhas má intenção. Limitaste-te a fugir da confusão circular de uma medina marroquina onde, por engano, na náusea das especiarias, acabaste por vomitar a alma.
Tens a tua vida asséptica e desinfectada. Como a desenhaste. Podes vivê-la na cápsula de vácuo que é a tua casa.
Mas o deserto, visto de perto, nunca é assim tão perfeito.
E o vento frio da noite faz feridas nos lábios. Daquelas que infectam.

