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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Desligaste o som às gaivotas porque te fazem lembrar o sítio onde não poderás voltar

Quiseste a tua vida asséptica e desinfectada. Traçaste-a, assim, com linhas geométricas minimalistas. Sem beirais para andorinhas. Avenidas largas para passagens rápidas. Inexistentes obstáculos a atrasarem-te na prisão de um detalhe.
A condizer, arquitectaste uma casa branca sem cheiros, sais, ou molduras com sorrisos de mortos ou moribundos.
Apenas o permanente silvo do silêncio nas paredes vazias. Cheias da amplitude da tua existência. Para que nunca toques em nada. Para que nunca nada toque em ti. Para que tu e a tua sombra não se ouçam mutuamente.

Não tinhas má intenção. Limitaste-te a fugir da confusão circular de uma medina marroquina onde, por engano, na náusea das especiarias, acabaste por vomitar a alma.

Tens a tua vida asséptica e desinfectada. Como a desenhaste. Podes vivê-la na cápsula de vácuo que é a tua casa.

Mas o deserto, visto de perto, nunca é assim tão perfeito.
E o vento frio da noite faz feridas nos lábios. Daquelas que infectam.

No Reset

Receitas caseiras de chá calmante. Imersão corporal em banheiras de espuma. Meditação budista de nível dois. Exercícios cerebrais de exaustão mental. Conversas imaginárias com todo o tipo de divindades crueis. Horas de televendas com máquinas infernais que nos esculpem o corpo enquanto comemos bolachas de manteiga. Teletransporte para uma dimensão virtual com homens de orelhas nos pés. Aumentar a escuridão. Sair do quarto. Copos de pé alto com qualquer coisa que embebede. Voltar para o quarto. Diminuir a escuridão. Gente na BBC a discutir a importância da diminuição do gado ovino num lugar que não tenho a certeza que exista. Calor. Frio. Temperatura irritantemente perfeita. Drogas médicas que prometem o milagre da libertação da racionalidade. Escolher um quadro dentro do qual me pareça possível adormecer.
Noite após noite, após noite, após noite, após noite.
E hoje, outra vez, ela vai estar á minha espera, sentada num canto do quarto com um sorriso demente…

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Outras prisões


Pode-se estar preso dentro de um corpo e pode estar-se preso dentro de um cérebro. E a última, não deixa de ser uma espécie de tetraplegia.