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quinta-feira, 6 de outubro de 2011
terça-feira, 4 de outubro de 2011
da síndrome dos sapatos de verniz e meias até ao joelho
descreveram-no como simpático mas conservador. não entendi o mas. alertaram-me que dava sono e falava demais. desconfiei que ia gostar.
chegou a horas. o que significa que teve a atenção de se atrasar cerca de seis minutos. vestia de alfaiataria, a camisa era engomada e os botões de punho discretos. o sorriso era ainda de rapaz, pois que aos homens é inato conservar o ar descontraído da juventude. formal, mas sem demandar criados de libré.
vamos conversar?
perguntou-me pelo sobrenome e ficou feliz por me situar entre os seus pares.
os sorrisos encontraram-se, cegos da diferença de idades.
não surpreendeu pela gentileza nas portas e na escadaria, passando depois de mim nas primeiras, adiantando-se na descida da segunda para amparar a eventualidade da minha queda.
presumo que a nossa demora tenha gerado alguma apreensão àqueles a quem ele dá sono. quando demos pelas horas, já todos nos esperavam para o almoço. estávamos tão bem. estávamos tão bem no meu entusiasmo que se lhe pegou, com a sua serenidade a assistir, feliz, aos meus lampejos de olhar num futuro maior que o dele. foi com pena que nos despedimos daquele gabinete.
chegou a horas. o que significa que teve a atenção de se atrasar cerca de seis minutos. vestia de alfaiataria, a camisa era engomada e os botões de punho discretos. o sorriso era ainda de rapaz, pois que aos homens é inato conservar o ar descontraído da juventude. formal, mas sem demandar criados de libré.
vamos conversar?
perguntou-me pelo sobrenome e ficou feliz por me situar entre os seus pares.
os sorrisos encontraram-se, cegos da diferença de idades.
não surpreendeu pela gentileza nas portas e na escadaria, passando depois de mim nas primeiras, adiantando-se na descida da segunda para amparar a eventualidade da minha queda.
presumo que a nossa demora tenha gerado alguma apreensão àqueles a quem ele dá sono. quando demos pelas horas, já todos nos esperavam para o almoço. estávamos tão bem. estávamos tão bem no meu entusiasmo que se lhe pegou, com a sua serenidade a assistir, feliz, aos meus lampejos de olhar num futuro maior que o dele. foi com pena que nos despedimos daquele gabinete.
adoro conversar com pessoas mais sabedoras, e percebem-no logo. ao fim de três minutos estava a declarar-me empatia instantânea e a gabar-me a postura – o que endosso sempre aos meus pais.
nasci e sempre vivi mais adulta. sinto-me bem entre eles. a ouvi-los. invejo o tempo deles, que é um tempo que gira ligeiramente fora de tempo. é o tempo confortável das coisas pensadas e da vida vivida.
quando lhes tomo amizade estimo-os como a um aparador herdado. um verdadeiro aparador aparece-nos depois de anos de chocolates. de amêndoas confeitadas. de caixas de chá. há um número mínimo de latas de shortbread ou buttercookies que têm que se suceder. o açúcar deve permanecer nos três açucareiros por várias estações e ser sempre acrescentado. nas gavetas, as toalhas têm que misturar-se com as velas de aniversário que já ouviram as suas palmas e guardaram o desejo pensado naquele momento do sopro. partidas mas seguras pelo pavio sem arder. não dispensa as duas marcas redondas da garrafa de vinho do porto a manchar a prateleira, escondidas debaixo da caixa do faqueiro.
quando lhes tomo amizade estimo-os como a um aparador herdado. um verdadeiro aparador aparece-nos depois de anos de chocolates. de amêndoas confeitadas. de caixas de chá. há um número mínimo de latas de shortbread ou buttercookies que têm que se suceder. o açúcar deve permanecer nos três açucareiros por várias estações e ser sempre acrescentado. nas gavetas, as toalhas têm que misturar-se com as velas de aniversário que já ouviram as suas palmas e guardaram o desejo pensado naquele momento do sopro. partidas mas seguras pelo pavio sem arder. não dispensa as duas marcas redondas da garrafa de vinho do porto a manchar a prateleira, escondidas debaixo da caixa do faqueiro.
espero esta seja mais uma das minhas amizades-aparador. e que sempre que lhe abra as portas possa encher a sala daqueles cheiros doces. todos.
gostei tanto de conversar com ele.
gostei tanto de conversar com ele.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
no final da tarde fazia tanto frio...
ficámos presos no Leste. contigo e o teu ar muito DDR a dar com as casas, as ruas e as gentes. ao longe, o muro que insistias em não transpor. por teus argumentos: beijos. e mãos.
o teu jeito de sorrir. reflectido em todas as vidraças da cidade.
o teu jeito de sorrir. reflectido em todas as vidraças da cidade.
no momento em que seguravas o meu rosto junto ao teu pescoço.
tudo no cenário da nossa vida. sem vestígios de escombros.
nem a um sítio onde nunca estivemos posso ir sem ti.
é assim.
tudo no cenário da nossa vida. sem vestígios de escombros.
nem a um sítio onde nunca estivemos posso ir sem ti.
é assim.
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medusa,
uma guerra fria que escalda de febre,
vida
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
da condição de humano
a asfixia é a insuficiência de oxigenação sistémica devida ao baixo teor de oxigênio no ar ambiente ou a obstáculo mecânico à respiração: o processo de estrangulamento, ao contrário do que vulgarmente se pensa, não parte ossos, mas provoca asfixia por não permitir o movimento dos músculos da caixa torácica.
tem várias causas: afogamento, enforcamento, paragem dos músculos respiratórios, envenenamento, aspiração de substâncias nocivas ou broncoaspiração.
isto vale para os animais.
no caso particular dos humanos, é também causa de asfixia a relativa proximidade de outro ser da mesma espécie. frequentíssima. o que só não acontece quando, em vez de só andar de bilhete na mão a ver os outros, dois indivíduos resolvem dar uma voltinha no rollercoaster...
tem várias causas: afogamento, enforcamento, paragem dos músculos respiratórios, envenenamento, aspiração de substâncias nocivas ou broncoaspiração.
isto vale para os animais.
no caso particular dos humanos, é também causa de asfixia a relativa proximidade de outro ser da mesma espécie. frequentíssima. o que só não acontece quando, em vez de só andar de bilhete na mão a ver os outros, dois indivíduos resolvem dar uma voltinha no rollercoaster...
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
teorias
- és mesmo tu naquelas fotografias.
- como "mesmo eu"!?
- mesmo tu. como me lembro de ti. e gosto do vestido.
- obrigada.
- se o trouxeres quando me vieres ver, sou um homem feliz...
- tonto... posso levar...
- e os brincos. são compridos, não são? gosto...
- são. são várias borboletas pequeninas.
- como "mesmo eu"!?
- mesmo tu. como me lembro de ti. e gosto do vestido.
- obrigada.
- se o trouxeres quando me vieres ver, sou um homem feliz...
- tonto... posso levar...
- e os brincos. são compridos, não são? gosto...
- são. são várias borboletas pequeninas.
hoje tentei lembrar-me do desenho da tua orelha. não consegui. conclui que se começa a esquecer um homem pelas orelhas. e sorri. havias de sorrir também, tu que adoravas as minhas teorias.
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
giving up.
até a ciência já provou que é relativo... mas tu continuas a querer fazer do amor uma equação exacta. conforma-te: não há respostas. nem resultados certos. é um roller coaster diabólico com curvas apertadas e loopings e descidas a pique. e sim. corre-se o risco de ser cuspido do assento.
vais passar a vida de bilhete na mão lá em baixo só a ver os outros a gritar de êxtase ou vais entrar?
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
dos tesouros nos roupeiros
dizem que arrumar o roupeiro traz boas vibrações. que espanta maus fluidos, que faz bem livrar-nos das roupas, malas e sapatos que já não têm a sorte de vir connosco para a rua. devem sair porque de outra forma ficam ali, naquela caixa de madeira ao alto. a apodrecer. como cadáveres. parece-me consensual que ter defuntos em casa não é boa onda.
pelo que, no interim desta vida de neo-nómada que escolhi, hoje foi dia de organizar vestidos (no sentido lato da palavra).
já três cadeiras da sala de jantar seguravam, aflitas, as tristes peças mortas de mangas a pingar para o chão quando passei às caixas das malas. tinha um objectivo: as não usadas há mais de duas temporadas iam para braços diferentes dos meus, sendo a única restrição a mesma que se faz aos vestidos de festa, aos casacos de inverno, e aos sapatos: aqueles que são investimento, ficam.
encontrei uma mala de pele tostada Miguel Vieira, do tempo em que o Miguel vinha connosco beber um copo ao Pé de Salsa e ainda não desenhava sapatos brancos e bicudos para homem. para além de assumir-se como investimento, é bonita e muito seventie’s, pelo que fica com a dona e vai sair para dar umas voltinhas ainda este Verão.
abri (porque encontro sempre qualquer coisa dentro de malas guardadas) e encontrei isto. não me perguntem a razão de as pessoas se apaixonarem. não sei porque acontece. mas quando acontece, é assim:
“saberás porventura que não é suficiente o tempo,
e que será logicamente curta a vida,
para que nela percorramos por inteiro este país de entrega, de nudez,
o território de sintonia que trazemos pelo coração?
saberás…?
soube essa certeza um outro dia, num acaso de tempo que assim nos transtorna,
enquanto se escurecia o céu, num esgotamento.
soube que assim não serão suficientes os dias e todo o brilho prateado agregado nas luas.
que não serão suficientes as horas, pois nelas não se dividem em suficientes, os minutos.
e que assim, não chegarão as palavras que haveremos ainda de trocar,
e desse modo tornar mais extensa, a língua tão circunscrita dos dicionários.
soube pois que será o conceito de segundo que nos conduzirá à morte
– à minha ou à tua morte, a morte de ambos –
aborrecendo-nos de sobremaneira esse simples facto, por tudo ter sido tão magnificamente fulminante.
sei que nos causará também aborrecimento esse fim,
por não podermos alongar um pouco mais esta nossa luz.
e nesse acaso fulminante, escurecido,
compreendi que a eternidade das coisas nossas
começou no exacto segundo em que por mim te cruzaste,
trazendo já a marca sábia das teocracias:
a do destino infinito.
e fora assim, já em eternidade, o nosso encontro…
a eternidade és tu, sou eu,
são todas as horas que consigamos imaginar por cada segundo,
e na paixão iludir a monotonia cansada dos dias, inventando impossíveis,
arquitectando novas medidas para nelas aferir um curso mais pausado do tempo…”
pelo que, no interim desta vida de neo-nómada que escolhi, hoje foi dia de organizar vestidos (no sentido lato da palavra).
já três cadeiras da sala de jantar seguravam, aflitas, as tristes peças mortas de mangas a pingar para o chão quando passei às caixas das malas. tinha um objectivo: as não usadas há mais de duas temporadas iam para braços diferentes dos meus, sendo a única restrição a mesma que se faz aos vestidos de festa, aos casacos de inverno, e aos sapatos: aqueles que são investimento, ficam.
encontrei uma mala de pele tostada Miguel Vieira, do tempo em que o Miguel vinha connosco beber um copo ao Pé de Salsa e ainda não desenhava sapatos brancos e bicudos para homem. para além de assumir-se como investimento, é bonita e muito seventie’s, pelo que fica com a dona e vai sair para dar umas voltinhas ainda este Verão.
abri (porque encontro sempre qualquer coisa dentro de malas guardadas) e encontrei isto. não me perguntem a razão de as pessoas se apaixonarem. não sei porque acontece. mas quando acontece, é assim:
“saberás porventura que não é suficiente o tempo,
e que será logicamente curta a vida,
para que nela percorramos por inteiro este país de entrega, de nudez,
o território de sintonia que trazemos pelo coração?
saberás…?
soube essa certeza um outro dia, num acaso de tempo que assim nos transtorna,
enquanto se escurecia o céu, num esgotamento.
soube que assim não serão suficientes os dias e todo o brilho prateado agregado nas luas.
que não serão suficientes as horas, pois nelas não se dividem em suficientes, os minutos.
e que assim, não chegarão as palavras que haveremos ainda de trocar,
e desse modo tornar mais extensa, a língua tão circunscrita dos dicionários.
soube pois que será o conceito de segundo que nos conduzirá à morte
– à minha ou à tua morte, a morte de ambos –
aborrecendo-nos de sobremaneira esse simples facto, por tudo ter sido tão magnificamente fulminante.
sei que nos causará também aborrecimento esse fim,
por não podermos alongar um pouco mais esta nossa luz.
e nesse acaso fulminante, escurecido,
compreendi que a eternidade das coisas nossas
começou no exacto segundo em que por mim te cruzaste,
trazendo já a marca sábia das teocracias:
a do destino infinito.
e fora assim, já em eternidade, o nosso encontro…
a eternidade és tu, sou eu,
são todas as horas que consigamos imaginar por cada segundo,
e na paixão iludir a monotonia cansada dos dias, inventando impossíveis,
arquitectando novas medidas para nelas aferir um curso mais pausado do tempo…”
quarta-feira, 13 de julho de 2011
i hope you have a good life

esperei-te todos os dias, todo o santo dia. mesmo quando não estive só.
em todo o lugar onde procurei paz sentaste-te ao meu lado. a sorrir e a pedir para nos rirmos. e o meu sorriso de volta era tão dolorido que chegou a secar todo um largo repleto de jacarandás.
recorre o sonho de uma viagem numa estrada ladeada de verde e a cheirar ao mar que brilha em prata, ao longe. mas não tem fim porque nunca chego à praia. é, pois, um pesadelo.
sei que vou viver o resto desta vida com o teu nó na minha garganta.
e sim. perdi a capacidade de escrever coisas bonitas.
terça-feira, 5 de abril de 2011
segunda-feira, 28 de março de 2011
sexta-feira, 25 de março de 2011
por vezes preciso que me esfreguem um espelho no focinho
naquilo que faço é egoísmo gostar ou não gostar de uma terra.
todos os lugares são “gostáveis” desde que se assuma o seu “povo”.
desterrada tantas vezes, eu já devia saber isto bem.
como me disseram esta manhã, eu não sou de lado nenhum e ando sempre a tentar pertencer. ora, isso nunca vai acontecer.
pode ser que eu consiga ser adoptada por um “povo” qualquer, que precise de mim.
e, assim, possa ser de algum lado. afinal, a orfandade é minha.

todos os lugares são “gostáveis” desde que se assuma o seu “povo”.
desterrada tantas vezes, eu já devia saber isto bem.
como me disseram esta manhã, eu não sou de lado nenhum e ando sempre a tentar pertencer. ora, isso nunca vai acontecer.
pode ser que eu consiga ser adoptada por um “povo” qualquer, que precise de mim.
e, assim, possa ser de algum lado. afinal, a orfandade é minha.

segunda-feira, 21 de março de 2011
you must believe in spring
duas cervejas e um ginger ale
duas tostas mistas
tremoços
em brasa, um rosto feliz
Domingo
já não me lembrava de estar a contar as ondas do mar e a ver as que vem atrás ultrapassarem, mesmo antes de morrer na praia, as que vinham mais à frente. maré a encher.
o carreiro no mar, sob o sol, é de ouro
trinco um PernaDePau por saudosismo
e, ao longe, o barco pirata aparece e desaparece. viaja lento.
veio ver-me sorrir.
*
acabo o dia na urgência pediátrica. regresso a casa com um pacote de fármacos para sete dias.
lua cheíssima. o equinócio da Primavera ocorreu às 23h21m e vão ser 92,79 dias até ao próximo Solstício.
grata pelos começos.
duas tostas mistas
tremoços
em brasa, um rosto feliz
Domingo
já não me lembrava de estar a contar as ondas do mar e a ver as que vem atrás ultrapassarem, mesmo antes de morrer na praia, as que vinham mais à frente. maré a encher.
o carreiro no mar, sob o sol, é de ouro
trinco um PernaDePau por saudosismo
e, ao longe, o barco pirata aparece e desaparece. viaja lento.
veio ver-me sorrir.
*
acabo o dia na urgência pediátrica. regresso a casa com um pacote de fármacos para sete dias.
lua cheíssima. o equinócio da Primavera ocorreu às 23h21m e vão ser 92,79 dias até ao próximo Solstício.
grata pelos começos.
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almanaque do observatório astronómico de Lisboa,
medusa,
vida
quinta-feira, 17 de março de 2011
o amor que eu aprendi
já só conseguia sentar-se curvado para a frente, cotovelos nos joelhos e a cabeça entre as mãos. há meses.
era como estava quando ouviu do médico que não havia nada a fazer. do muito que já se havia feito. das várias combinações de calmantes. na altura era assim que se tratavam os deprimidos. só algum tempo depois se compreendeu que não precisavam de ser acalmados.
as sessões que duravam horas. o psicólogo. o psiquiatra. o dormir a valium.
“… a não ser que ela regresse para perto da família dela, dos lugares onde viveu em menina… saindo daqui, quem sabe…”
ele não precisou nem quis ouvir mais nada, saiu antes que o homem acabasse a frase com um “…pode não adiantar nada”. estava farto da falta de esperança.
ela trazia o rosto pequenino. cada vez mais pequenino. era só olhos. cabelo curto. pele cinzenta da súplica de não ver a luz do dia. 41 kgs. 2 filhos pequenos. uma vontade imensa de morrer.
meteu-a num avião cheia de instruções.
ele foi um mês depois, esperou o fim do ano lectivo da menina - que pensava que ia de férias, como das outras vezes. ria-se muito quando o pai lhe dizia que a mãe já tinha encontrado uma escola para ela.
chegaram numa manhã gelada. amassados e mal dormidos. a um aeroporto patético do tempo em que não se usava aquecimento. excesso de bagagem – uma pequena fortuna em taxa suplementar por transporte de 20 kgs de brinquedos.
a roupa mais quente que tinham deixava passar o Novembro inteiro até aos ossos.
no almoço cheio de perguntas e pedidos de relatos de factos exóticos olhavam-se os 4, com vontade de fugir.
uma agonia que se prolongou pela hora do chá adentro. era Domingo.
o apartamento que lhes compraram por procuração tinha mobília comprada por procuração. não estavam habituados às cabeceiras de cama com torneados. riram-se muito do conjunto de tapetes do quarto-de-banho que incluía a insólita peça que cobria a tampa da sanita.
uma dia chegou a casa e ela só chorava.
lembro-me de os ver na cozinha, ela bonita e ele aflito.
ela chorava muito porque estava constantemente a queimar a comida por não se habituar ao fogão de discos eléctricos. e tinha medo que o cilindro explodisse.
o meu pai abraçou a minha mãe e disse que ia correr tudo bem.
e correu.
era como estava quando ouviu do médico que não havia nada a fazer. do muito que já se havia feito. das várias combinações de calmantes. na altura era assim que se tratavam os deprimidos. só algum tempo depois se compreendeu que não precisavam de ser acalmados.
as sessões que duravam horas. o psicólogo. o psiquiatra. o dormir a valium.
“… a não ser que ela regresse para perto da família dela, dos lugares onde viveu em menina… saindo daqui, quem sabe…”
ele não precisou nem quis ouvir mais nada, saiu antes que o homem acabasse a frase com um “…pode não adiantar nada”. estava farto da falta de esperança.
ela trazia o rosto pequenino. cada vez mais pequenino. era só olhos. cabelo curto. pele cinzenta da súplica de não ver a luz do dia. 41 kgs. 2 filhos pequenos. uma vontade imensa de morrer.
meteu-a num avião cheia de instruções.
ele foi um mês depois, esperou o fim do ano lectivo da menina - que pensava que ia de férias, como das outras vezes. ria-se muito quando o pai lhe dizia que a mãe já tinha encontrado uma escola para ela.
chegaram numa manhã gelada. amassados e mal dormidos. a um aeroporto patético do tempo em que não se usava aquecimento. excesso de bagagem – uma pequena fortuna em taxa suplementar por transporte de 20 kgs de brinquedos.
a roupa mais quente que tinham deixava passar o Novembro inteiro até aos ossos.
no almoço cheio de perguntas e pedidos de relatos de factos exóticos olhavam-se os 4, com vontade de fugir.
uma agonia que se prolongou pela hora do chá adentro. era Domingo.
o apartamento que lhes compraram por procuração tinha mobília comprada por procuração. não estavam habituados às cabeceiras de cama com torneados. riram-se muito do conjunto de tapetes do quarto-de-banho que incluía a insólita peça que cobria a tampa da sanita.
uma dia chegou a casa e ela só chorava.
lembro-me de os ver na cozinha, ela bonita e ele aflito.
ela chorava muito porque estava constantemente a queimar a comida por não se habituar ao fogão de discos eléctricos. e tinha medo que o cilindro explodisse.
o meu pai abraçou a minha mãe e disse que ia correr tudo bem.
e correu.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
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