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sexta-feira, 25 de março de 2011

por vezes preciso que me esfreguem um espelho no focinho

naquilo que faço é egoísmo gostar ou não gostar de uma terra.
todos os lugares são “gostáveis” desde que se assuma o seu “povo”.
desterrada tantas vezes, eu já devia saber isto bem.
como me disseram esta manhã, eu não sou de lado nenhum e ando sempre a tentar pertencer. ora, isso nunca vai acontecer.
pode ser que eu consiga ser adoptada por um “povo” qualquer, que precise de mim.
e, assim, possa ser de algum lado. afinal, a orfandade é minha.






sexta-feira, 9 de julho de 2010

Deus devia conceder a todos os homens a graça de terem filhas.


Chegaste a casa.
Pela última vez.
Esta podia ter sido a imagem da nossa última conversa quinze dias antes de eu te abandonar; mas as condições não eram exactamente as mesmas.
Ainda assim, lembras-te que me sentei no chão para te ouvir? Foi para poder, apesar das circunstâncias, olhar para cima para te ver. Cumpri o que me pediste, o melhor que pude. Ires para casa foi um bónus. Espero que aprecies.


Diz-me porque é que ainda não consigo deixar de sofrer aquele teu sofrimento.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Um lugar

Depois de eu lhe perguntar, com ar muito aflito, onde ficava a igreja mais próxima, a velhinha de casaco de malha azul escuro, como o meu fato novo, acompanhou-me. Chamou-me menina duas vezes.

Desci aquela rua empedrada há um par de séculos apoiada nos corrimãos verde-garrafa que ardiam ao sol de Lisboa.

Quando galguei as escadas brancas já os soluços me denunciavam apesar dos óculos escuros.


Ontem, foi aqui que te visitei.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Nemo plus SPES ad alium transferre potest quam ipse habet


Depois de acordar do estampido do rebentamento olhei por mim abaixo e vi-me coberta de escoriações profundas. Nunca poderei esconder a escarificação generalizada que daí vai resultar.

As minhas palavras de conforto têm o eco metálico das coisas falsas.

Sou vista como portadora de uma doença contagiosa quando, em casos semelhantes ao meu, tenta-se falar em esperança. Trago ao pescoço o sino dos leprosos.

Sou o chapéu em cima da cama, as facas cruzadas à mesa.
O espelho partido.


Não se pode dar aquilo que não se tem.
"Esta é a verdadeira pobreza do homem" (Benedictus PP. XVI)

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Preciso

encontrar um lugar para te visitar.

terça-feira, 11 de maio de 2010

canto escuro

No dia seguinte, quase todos os balões já tinham perdido o hélio. De forma irregular. Uns ainda estavam colados ao tecto, outros a um metro dele. Os mais coloridos estavam espalhados pelo chão.

Foi quando eu percebi que não vais vê-la crescer. Não com estes olhos de vida.

A tristeza da tua ausência fica cada vez mais funda. A dor é física.

Lentamente vou acordando para o facto de ser infinita.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Assassino



Odeio todos e cada um dos cigarros que fumaste.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

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A tua voz ecoa na minha cabeça como numa sala vazia.

Vejo muitas vezes as tuas mãos e a cor de chumbo das tuas olheiras.

Todos os dias da minha vida.

segunda-feira, 22 de março de 2010

A muleta e o aleijão


No início, a muleta é um auxílio e um alívio. O aleijão agarra-se a ela. Arranja a melhor que pode.
Com o tempo, passa a manejá-la com maior destreza.
A muleta permite-lhe baloiçar menos, dá-lhe apoio e segurança.

Entretanto, o mutilado começa lentamente a perceber que a facilidade ganha na marcha é inversamente proporcional à invisibilidade do seu defeito – acaba por entender que, por menos que manque, a muleta denuncia-o sempre.
A muleta não apaga o defeito. Torna-o mais visível. Esvai-se a paz que o trucidado tanto procura.

O luto é a muleta do destroçado. Que será aleijão para sempre.
Por isso, resolvi tirar o meu.