terça-feira, 17 de setembro de 2013

Mar a dentro


SEM MAR DENTRO

O mar está sobreavaliado. Não me fascina o seu ruído constante, que para mim é a marca evidente da sua servidão. O mar não deixa de ser mar, apesar das mudanças de cor, da ondulação que embala ou que mata. Oscila entre marés e tem correntes, mas até os peixes, que são estúpidos, as conhecem. Eu sei que a matéria dos peixes os protege e mantém, e que isso é uma forma de inteligência, mas se os peixes têm inteligência é uma inteligência que é igual à do mar, porque é feita de mar, e o mar é apenas o mar, e por isso os peixes são bichos torpes e tu não sais com eles para jantar. São as coisas que não são do mar que o tornam suportável: um barco que naufraga, um polícia marítimo que olha os traficantes de droga e dá ordens e respira apressado. Por isso as ilhas são os lugares mais infelizes do mundo. Por causa do mar. Ela chegou de avião para ser juíza na ilha e ainda trazia um pouco de terra nos sapatos. Ele, polícia marítimo, prendeu-a por toda a vida num barquinho salgado, raspou-lhe as escamas, e o vulcão subiu do mar e sacudiu a água e eles ficaram lá em cima, na lavoura arcaica dos filhos e das sopas, dos sonhos, dos remédios, dos armários, no trabalho dos dias. 

Rui Costa, in Implantes de Ciclone, 10 de novembro de 2011



4 comentários:

  1. Este mar não sabe a mar. É prisioneiro das suas correntes. É o mar dos que vão a marear.

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    1. Foi exatamente isso que pensei quando li isto em 2011.

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  2. Com algum maniqueismo, admito, diria que o mundo se divide entre os que amam o mar e os que não o amam.
    Eu, amo o mar. Roubando despudoradamente a Robert Frost, diria: "And that has made all the difference."

    Boa noite, Cuca :)

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    1. Ter o mar nas veias é meio caminho andado para se ter magia no coração.

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