sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Das manhãs da normalidade possível

O dia nasceu sob o signo do sol. Parecendo que não, é uma variável relevante. 
Hoje comprei uma couve e uns tomates no mini mercado da esquina e regressei a casa com eles, dentro de uns sacos transparentes, para fazer o almoço. 
Pode haver alguma felicidade nisso de se escolher uns tomates maduros, com rama e tudo, e de os pousar na bancada da cozinha e ficar a pensar que são os tomates ideais para aquilo que queríamos fazer para o almoço. 
Aprendi, entretanto, que a felicidade é mais simples e concreta do que poderíamos imaginar. Já não preciso de encontrar a metáfora perfeita num poema. Uns tomates adequados ao prato têm a mesma aptidão para desencadear no meu cérebro o mecanismo da libertação da serotonina. É uma informação útil. Vidas poderiam ter-se salvo se os seus titulares tivessem aprendido a tirar proveito dos pequenos nadas do universo. Aposto que metade dos suicidas nunca desenvolveu o gosto pela culinária, nem percebeu a energia libertadora que existe entre uma faca e os alimentos crus. 
Depois li uma coisa no Henrique Bento Fialho e lembrei-me do Joe Dassin e passei parte do final da manhã a ouvi-lo na cozinha. 
- E se tu não existisses, pá, porque haveria eu de existir? 
Perguntei ao capitão Strut quando regressou a casa e me surpreendeu na cozinha a esfaquear os tomates do mini mercado. 
O capitão Strut tem o salutar hábito de nunca responder às minhas perguntas estúpidas. Pegou-me na mão e, em silêncio, dançou comigo o resto da música. 
Foi uma boa manhã. 


domingo, 7 de fevereiro de 2021

Fevereiro

Fevereiro avança 
indiferente aos nossos mortos e moribundos.
A natureza ri-se das dores dos homens 
E dá-lhes, por exemplo, esta inoportuna chuva
de fevereiro.
Os dias não esperam que fechem as feridas dos animais.
Ignoram a ética do luto. 
Caiu fevereiro sobre os nossos mortos e moribundos. 
A chuva assusta as vidraças da janela, 
afoga a papoila que se esforça por nascer,
escorre pela campa do meu último morto e 
enlameia as patas do próximo. 
Há sessenta noites que todos os dias
são regados pela tristeza.
Ensopou o tecido e colou-se aos ossos.
Por vezes, dou por mim a sacudi-los,
no gesto atávico do animal incomodado. 
Se houvesse um raio de sol, 
deitar-me-ia nele,
encostada às paredes da rua, 
com o focinho de encontro ao chão.
Mas não há sol, nem paredes, nem chão.
Só esta chuva triste,
e fevereiro,
e o desrespeito da natureza pelo tempo 
que demoram a sarar, as feridas dos animais.



Hologramas

Fiquei a pensar que talvez  exista 
em todas as imagens, de todas as coisas que compõem o universo e dos seus compositores, um holograma de uma borboleta de asas abertas.
Talvez seja imprescindível encostar o nariz à imagem e afasta-la muito lentamente e fixar o olhar no ponto que é tanto exato quanto irrepetível e misterioso. Perdermo-nos na dose certa de estrabismo, revirar os olhos para dentro, acreditar na existência da borboleta de asas abertas.
É o anti-Aleph. Não o ponto vazio que nos mostra todas as coisas que compõem o universo, mas o ponto cheio que nos mostra o espaço vazio que existe em todas as coisas que compõem o universo. 
Bem sei que o consolo da ideia de uma borboleta de asas abertas no interior das coisas é um holograma. Mas também assim deus e a poesia e ninguém parece especialmente perturbado com isso. 



sábado, 6 de fevereiro de 2021

Confins

Noutros tempos, passei longos dias e ainda mais vastas noites confinada dentro da minha cabeça. O confinamento interior parece-me, de todas as perdas de liberdade, a mais violenta. O cérebro projeta-se, como um hamster histérico, às voltas numa rodinha de plástico. E nós ficamos a girar no interior do brinquedo até que a exaustão nos salve do engodo. Se a loucura não chegar primeiro. 
Para quem foi obrigado a estar fechado dentro da sua própria cabeça, o confinamento sanitário tem a leveza e o arejo de um passeio numa praia vazia. E os tempos de não existência, na sua irrealidade, na sua bizarria, sempre nos trazem o silêncio que pode ser motor de uma qualquer forma de crescimento. 
(pese embora no meu caso, até agora, só o tenha notado nas indesejáveis raízes do cabelo)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

É necessário dançar antes que a morte venha e nos apague a cara

Diz Gonçalo M. Tavares, “é necessário dançar antes que a morte venha e nos apague a cara”. Antes de nos apagar a cara, a morte escurece-nos o coração. E esse não dispiciendo detalhe, parecendo que não, reforça a urgência da receita. É necessário dançar. É imperioso deixar que a música submeta todos os nossos músculos. Até o do coração. Só a música nos pode salvar. 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

A morte do pai

O pai morreu
  e ele, que era duro, endureceu mais.
Informou da existência do cadáver 
  como quem relembra um pormenor.
Amava o pai, mas o coração é assim
(a lei da sobrevivência)
   esconde-se quando o querem matar. 

Gonçalo M Tavares, 1, Relógio D’água.

sábado, 23 de janeiro de 2021

Mar

“Whenever I find myself growing grim about the mouth; whenever it is a damp, drizzly November in my soul; whenever I find myself involuntarily pausing before coffin warehouses, and bringing up the rear of every funeral I meet; and especially whenever my hypos get such an upper hand of me, that it requires a strong moral principle to prevent me from deliberately stepping into the street, and methodically knocking people's hats off - then, I account it high time to get to sea as soon as I can.” 
― Herman Melville, Moby-Dick

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Starry Night

Deixei de viver dentro de um livro de poemas, 
algures entre a segunda e a terceira dança. 
Era difícil, 
no espaço entre dois versos, 
unir as mãos e dançar contigo 
todos os acordes do infinito.
Mas quando se aprende a viver
dentro de um livro de poemas,
Amor,
não se retorna à claustrofobia dos espaços.
Sou a habitante discreta de todas as caixas de magia.
Espreito do interior dos espelhos desta casa
E adormeço dentro dos quadros. 
Às vezes navego no veleiro pendurado sobre o piano 
E outras, muitas, quase todas, 
Amanheço no crepúsculo do Van Gogh
que resgatámos de uma noite de Nova Iorque. 
Ancorada nos teus pés, 
deixei de deambular, sonâmbula, 
sob a lua das praias geladas 
e de me pendurar, pelas sombras,
nos mais escuros telhados de lisboa. 
E são teus os dias, as  noites,
Todos os crepúsculos e todas as albas.
Mas quando não souberes de mim,
Amor, 
procura-me nas coisas inanimadas,
para as quais ainda me arrasta
esta estranha sede de magia.




sábado, 16 de janeiro de 2021

Talvez o fim do mundo

Estão nuas as árvores da minha rua. 
Em tempos houve um gaio na floreira da janela. 
Desapareceu quando o tentei subornar com aveia. 
É manhã de sábado e o mundo parece suspenso na imobilidade. São as minhas manhãs preferidas.
Sentada no chão do escritório, velo a estante sem livros novos e lastimo a minha negligência.
Não tenho mais livros para ler e parece que já os não vendem.
O fim do mundo, penso, deve ser qualquer coisa assim. 

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

(Temporary Backup) Minuet in D Minor

Estão vinte e seis graus dentro da sala. 
Deitada na chaise long do sofá, com o cão a ressonar encostado à minha perna esquerda, observo a expressão do meu amor enquanto aprende na guitarra o Minuet in D minor. 
Será a música do novo confinamento. 

Tenho saudades dos meus amigos, de passear no Chiado, dos teatros, de ouvir e ver tocar música ao vivo, de jantar em restaurantes, de comer batatas fritas, de aterrar numa cidade desconhecida. Também tenho saudades de abraçar as pessoas de quem gosto, mas sobre isso escolho não pensar. 
Sei que a minha gaiola é dourada e tem vista para o Tejo. 
Esse que corre indiferente à angústia das margens e ensina a lição que eu preciso aprender. 
Correr indiferente à angústia das margens e agradecer o Minuet in D minor; estes vinte e seis graus e os dedos do meu amor na guitarra.



segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Medicamentos do coração

Sofri suficientes desgostos de amor para conhecer de cor cada um dos degraus de pedra de que são feitas as minhas escadas de Kubler-Ross. São altas e retorcidas. Enquanto rastejava por elas, acima ou abaixo, consoante a época do ano, a incidência da luz e os períodos de recessão ou progressão, tive oportunidade de aprender o equivalente a todo um curso superior de geologia. 
Sei muitas coisas sobre corações partidos e ainda mais coisas sobre a alquimia das substâncias que compõem a cola capaz de os endireitar. Experimentei a hiperatividade; a inércia; o áudiolivro do Melville e a sua baleia branca; todos os Jane Austen; a tradução de poemas ingleses; o estudo dos árabes; as festas e a eremitagem. Nunca acreditei no poder curativo do amor, talvez por, antes, ter sido esse mesmo a fonte da doença e eu saber há muitos anos que o que é parte do problema jamais pode ser parte da solução.
Finalmente, tive o meu primeiro desgosto que não foi de amor. Aprendi que quando não é de amor, é só de dor. Tudo o mais é basicamente igual, pois a infelicidade é monocromaticamente aborrecida e as lágrimas sabem sempre ao mesmo. 
Quando o desgosto não é de amor, sei-o agora, o amor é cura e antídoto. 
Passei os últimos dias embrulhada no silêncio da natureza e nos braços do meu amor, com o tempo suspenso na lenta espera da cicatrização dos tecidos. 
O amor, fiquem sabendo, é um corticóide de ação rápida. 

How much do you love me

 


quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Dia 30 do mês de Dezembro do Ano da Peste

Por fim, fui vencida a fazer as malas para terminar em pleno campo os dias do inominável ano. 
Que as cidades estão cheias de peste; que os teatros estão vazios; que as pessoas já não podem tocar nos copos umas das outras e desejar dias melhores; que irá chover a semana inteira; que há filas para tudo; que no campo as cores de início de inverno; que os vermelhos e os laranjas; que o cheiro das lareiras e a beleza do orvalho nos pastos; que os épicos passeios pelas ecovias; que as vantagens da adega e os sabores do Minho.
Enfim...
Cá estou. Vinte e quatro horas depois, entre os caprichos de um  aquecimento central que talvez exista ou não e o ártico que também decidiu mudar-se para cá,  ainda não consegui despir o casaco da neve e descalçar as botas. Penso que já nem sequer tenho nariz, mas tenho medo de ir ao espelho confirmar. O dedo mínimo da mão esquerda passou de encarnado a preto e também ameaça cair. O que me assola nem é tanto o medo de que a hipotermia me impeça de chegar a um ano decente. É mesmo a tristeza de morrer no meio do campo. 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Kierkegaard, o cão Pirata

Kierkegaard, o cão Pirata, está velho.
Era um bebé de seis semanas quando o ofereci a mim própria de presente de Natal e o levei para todo o lado dentro dos casacos de inverno, como se fosse uma exarpe fancy. Depois cresceu e deixou de me caber no colo. Quando decidi ir para Pirata, fiz uma grande fogueira no pátio e queimei todos os livros, todos os vestidos e todos os sapatos. Quando embarquei no Aleph e soltei amarras na direção do crime, da liberdade e das Caraíbas, o único acessório que levei comigo foi kierkegaard e a sua coleira de marca. E uma chaise long de design. E alguns cristais. E um talher de prata. E uma toalha bordada. E umas iCenas, algumas das quais com as versões digitais dos livros que queimei. E os shampoos da Kiel’s. E um secador de cabelo. E umas sombras da Chanel e aquele verniz da moça do Pulp Fiction. ... mas voltando ao ponto, o único acessório que levei comigo - com exceção de todos os outros - foi Kierkegaard, o cão Pirata. Vivemos juntos a experiência do crime, do mar, da liberdade. Quando pelo amor traí o mar - as pessoas dizem escolher, mas todas as escolhas sérias são traições - abandonei o Aleph com a roupa do corpo e Kierkegaard, o cão Pirata, pela trela de marca. 
O cão foi o que primeiro se habituou à vida na terra. Ainda eu suspirava pelo sabor da lâmina da espada e pelo cheiro do sangue salgado, já o cão se aburguesara a jardins de magnólias, sofás finos e mantas de pura lã virgem. Vendeu-se por biscoitos gourmet e esqueceu o cesto da gávea nos pés do novo dono, a quem quis, à semelhança da sua dona, como nunca antes tinha querido a ninguém.
Kierkegaard, o cão Pirata, está velho. Dorme a maior parte do dia, rendeu-se à DogTv, só aceita comer patê gourmet servido em pratos dourados, ergue as orelhas ao assobio do seu dono do coração e quando o sonho o abana, eu sei, é nos macios relvados em que esfrega os costados que está a pensar. 
Kierkegaard, o cão Pirata, essa última testemunha da minha vida de liberdade e aventura já esqueceu os tempos em que mordia as ondas. 
Não o censuro. O sabor do Lindt de laranja também já me fez esquecer o gosto da espada nos dentes. 

sábado, 26 de dezembro de 2020

Tango caliente

Quebradas as amarras e a pequena campanula de cristal, a bailarina dança livre sobre a caixa das jóias. Tchaikovsky não previu isto. Os brilhantes que se soltam do cabelo de nylon espalham-se pelo mogno da base ao ritmo em que o cisne negro mergulha na sua profunda loucura branca. 
A bailarina já não gira aprisionada numa caixa de música. Fez do tampo o seu palco e dança e dança e dança até gastar os sapatinhos de plástico prateados. 
Sobre ela há de cair a noite de hoje e mil e uma outras. A bailarina dobra-se, por vício ou reflexo condicionado, na vénia à plateia imaginária. Ninguém bate palmas. A bailarina ainda não sabe. Mas, liberta, já dança sozinha para essa outra figura que a espera, do outro lado do espelho da caixa de música. 

2020

Foi o melhor e o pior ano da minha vida. 
Conheci os limites da alegria e da tristeza. 
Ganhei o meu marido, perdi o meu pai.
(Foi a primeira vez que consegui dizer qualquer um dos dois)
O Natal teve uma árvore verdadeira. A árvore da vida. Essa, sob a qual se passa tudo o que há milhões de anos se passa na estória dos homens. Já as luzes, meus amigos, as luzes são sempre a pilhas. O que nos ilumina esgota-se ao ritmo determinado por um qualquer fabricante que, apenas por sorte, pelo menos, não será chinês. 
Hoje há música na sala. Este ano aprendi que é preciso dançar enquanto há música na sala. Kierkegaard não nos ensina isso. Os russos também não. Podemos ler muitas bibliotecas e deixar assentar os sedimentos de qualquer coisa. Mas é preciso ganhar um marido e perder um pai para perceber isto: é preciso dançar enquanto há música na sala. 

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Noite

 Às vezes o peso da noite acorda-me no estremecimento de não saber onde tenho a espada. Entreguei-a há tanto tempo que devo ter esquecido onde a guardaram. Todos os armistícios têm o preço do desarmamento. E acordada não me queixo. Paguei pelo amor infinitamente menos do que vale. Pagaria, a cada dia, cem vezes mais. 

Porém, o sono faz-me ingrata. Sinto na jugular as ondas do velho mar e julgo que é do sal o que afinal é cheiro de terra. Ferve-me o sangue na memória da batalha. Peso a lâmina que me comanda o pulso. Todos os espelhos da casa refletem na alma a sombra que o dia não vê.
Depois acordo e tudo é paz, calor e terra e um rio na janela. 
E abraço-me com força à manhã. Para que a outra, que também sou, não me leve com ela.

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Nós


 Todas as gerações e os poentes.

Os dias e nenhum foi o primeiro.

A frescura da água na garganta

De Adão. O ordenado Paraíso.

O olho decifrando a maior treva.

O amor dos lobos ao raiar da alba.

A palavra. O hexâmetro. Os espelhos.

A Torre de Babel e a soberba.

A lua que os Caldeus observaram.

As areias inúmeras do Ganges.

Chuang Tzu e a borboleta que o sonhou.

As maçãs feitas de ouro que há nas ilhas.

Os passos do errante labirinto.

O infinito linho de Penélope.

O tempo circular, o dos estóicos.

A moeda na boca de quem morre.

O peso de uma espada na balança.

Cada vã gota de água na clepsidra.

As águias e os fastos, as legiões.

Na manhã de Farsália Júlio César.

A penumbra das cruzes sobre a terra.

O xadrez e a álgebra dos Persas.

Os vestígios das longas migrações.

A conquista de reinos pela espada.

A bússola incessante. O mar aberto.

O eco do relógio na memória.

O rei que pelo gume é justiçado.

O incalculável pó que foi exércitos.

A voz do rouxinol da Dinamarca.

A escrupulosa linha do calígrafo.

O rosto do suicida visto ao espelho.

O ás do batoteiro. O ávido ouro.

As formas de uma nuvem no deserto.

Cada arabesco do caleidoscópio.

Cada remorso e também cada lágrima.

Foram precisas todas essas coisas

Para que um dia as nossas mãos se unissem.


In Jorge Luis Borges, As Causas

Trad.: Fernando Pinto do Amaral

sábado, 17 de outubro de 2020

Enquanto houver dálias ao sábado...

 Dizem-me que no mundo, na europa, no país, em Lisboa, na minha freguesia, há ameaças, vírus e políticos, internamentos, doentes, mortos, aplicações e máscaras. Não sei nada sobre essas coisas. 

Ontem, a maré foi das grandes e o rio ia cheio e espelhado pela falta do vento. Hoje amanheci entre o sol e os braços do meu amor. Comprei dálias no mercado biológico aqui ao lado e demorei-me, ao som do jazz, a dispô-las na jarra. 

Se escolheres bem e tiveres muita sorte e tiveres vivido muito tempo dentro de um poema, pensei, talvez a tua vida, toda a tua vida, possa ela própria transformar-se num conjunto de estrofes harmonizado por um sentimento.

Agora, o meu amor toca guitarra aqui ao meu lado e, de alguma forma, eu sei:

Enquanto houver dálias ao sábado, tudo estará bem.