sábado, 9 de novembro de 2013

cinema paraíso

O cinema está cheio de homens que chegam demasiado tarde, com a cumplicidade silente de mulheres que se deixam sacrificar em nome de interesses superiores.
A vida também.
É um inferno.


chuva de magnólias

Na falta da ansiada chuva de sapos fui ouvir a Aimee Mann.
Não foi um sucedâneo. Nem sequer "faz as mesmas vezes". 
Quem só chegou depois de o Magnólia ter acabado não pode perceber isto. Quem só chegou depois do Magnólia ter acabado não pode perceber nada. 
O filme representou o fim de um ciclo. Mas para acabar com este - para acabar com isto - nada menos que uma chuva de sapos.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O disco está cheio

Damien Rice pergunta na música que se ouve até à náusea se "it is there all right?".
O portátil insiste em fazer saber que o disco está cheio e uma campainha no forno informa que, de acordo com as instruções da embalagem, a lasanha ficou pronta.
"And it is there all right"
"Yeah"
Está tudo bem debaixo desta existência espacio-temporal congelada por alertas mecânicos e rigorosas instruções escritas em embalagens convenientemente recicláveis. 
Mas o início do verso de um poema soltou-se do livro e voou pela sala intersetando a traça que o cão acabará por comer mais tarde. 
E nesse ligeiro desvio, início de vida e morte, talvez esteja a única verdade do dia.
O cantor avisa que "i give my gun away when it´s loaded". 
E nós sabemos que there is not all right.

domingo, 3 de novembro de 2013

Pragmatismos

Não foi o único pôr-do-sol da minha vida.
Não foi o maior, o mais límpido, o mais deslumbrante e nem sequer foi, em absoluto, o mais puro.
Foi apenas o mais lento. E foi apenas o último.
E é só por isso que ainda o trago tatuado na retina. E é só por isso que ainda guardo na pele o frio que fica imediatamente a seguir a um pôr-do-sol.


de leitura obrigatória a espíritos inquietos

"Depois num registo apaixonado, porém amargo:

Da tua vida, Ofélia, basta-me o brilho da felicidade: o desejo insensato de haver alguém que me ama. Pequenas são as coisas que sentimos quando possuímos mais capacidade para as rejeitarmos. Este bom homem que julgas que eu sou não é senão um silêncio infantil que apenas deixou escapar um rumor dilacerado. Por ti não reflicto em nada, e todas as minhas palavras se destinam ao fogo dos teus lábios. Aceitar-te é confessar que estou perdido e que estranhos caminhos procuram os meus passos. A vida e o amor, o leito bem aconchegado, a postura mais natural para logo depois ser um pecado, o chapéu fora do lugar, o defeito e a virtude, na alegria e na tristeza e na palavra nunca eu haveria de ser perfeito, continuamente digno da tua companhia, e na ausência de entendimento, também solitária seria a tua vida. Hoje sonhei-te saída dum jardim artificial e casamenteiro, trazias o alimento que dava sede ao meu fruto, e a tua voz soluçava tanto como o meu íntimo nocturno.
Em que risíveis criaturas, tu e eu, nos transformámos? Podia a vida ter mais juízo e não me despedaçar tanto? Não, Ofélia! A vida continua, é deixá-la seguir, só as crianças se comprometem com o que dá gozo nelas e protegem com um tal sentido encantador os seus objectos de brincar.
Nenhum amor é mais que um desespero, Ofélia. Não temo tanto que o teu amor não seja para sempre quanto temo que ele permaneça planeado e insensível debaixo do mesmo tecto".

Fernando Esteves Pinto, in O Carteiro de Fernando Pessoa, Parsifal,


terça-feira, 29 de outubro de 2013

Ballerina



"but what´s a memory without a life
it doesn't fill her empty side"

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

breve descida ao mundo real

No meu caso, o acto de fé na natureza humana é menos uma crença ou uma opção do que uma necessidade profissional. No dia em que deixar de ver as potencialidades da natureza humana terei que encontrar outra forma de ganhar a vida ou resignar-me a viver na hipocrisia. 
Notícias sobre mães que, durante dois anos, escondem bebés nus numa mala de um carro levam aos limites a minha construída capacidade de acreditar que em todas as pessoas, em todas sem exceção, há uma centelha de humanidade. 

domingo, 27 de outubro de 2013

we were pilots watching the stars


Armoured cars sail the sky
They're pink at dawn
If I lived forever, you just wouldn't be
So beautiful, as the sun
When it shines all over the world

We're pilots watching the stars
The world pre-occupied
We're pilots watching the stars
Who do we think we are?

Ice and clouds, shimmer outside
Rain just falls, at magic hour
It's just the sound of you and me
Time twitching
Murmurs of our friendly machine

We're pilots watching the stars
The world pre-occupied
We're pilots watching the stars
Who do we think we are?
(Yes, who do...)

There's just the sound
Of you and me

Diário de Bordo # 5


Somos oficialmente fugitivos...
Depois daquela brincadeira com o petroleiro, conseguimos atrair a atenção das autoridades marítimas e devo dizer que fugir da polícia é menos divertido do que inicialmente se poderia pensar. 
Não gosto de dizer mal da minha classe e até cultivo um certo corporativismo sadio, mas há que reconhecer que o índice de cobardia na classe dos capitães de navios é qualquer coisa de assustador. O intriguista não teve coragem de assumir que nos entregou o comando do petroleiro dois minutos e meio depois da nossa abordagem e sem oferecer outra resistência que não fosse soltar brados aterrorizados que ainda ecoam nos ouvidos mais sensíveis de alguns dos meus tripulantes. Foi fazer queixinhas às autoridades, dizendo que tínhamos mísseis a bordo, o que, por enquanto, ainda é uma aleivosa mentira. Já mandei vir uns quantos pela internet mas parece que estas coisas demoram a chegar e devido à incompreensível burocracia italiana, em cujas águas nos encontramos outra vez, não podem ser remetidos por correio. 
Seja como for, o mentiroso pintou um tal quadro terrorista que temo que os italianos enviem o exército no nosso encalce e tudo por causa de um petroleirozito de nada, cheio de um inútil crude, que só agora me dizem nem sequer servir para abastecer os nossos depósitos e do qual não há meio de me conseguir livrar, apesar dos anúncios que coloquei no olx e no jornal ocasião. 
Como se não bastasse, a minha tripulação está revoltada comigo por ter perdido a comodidade da piscina, transformada em temporário depósito de crude. São tão teimosos que nos primeiros dias ainda insistiam em levar a sua parafernália de bóias, patinhos, crocodilos e colchões de ar para dentro da piscina e banhavam-se no crude. Houve quem aventasse que a espessura do substância era benéfica ao exercício da natação. Por fim, já com o deck cheio de nódoas irreversíveis, fui obrigada a fechar o acesso à zona da piscina. Também tive que encomendar um sabão especial que lhes voltasse a restituir o seu aspecto natural porque, no negrume, já não são se conseguiam distinguir uns dos outros e havia quem não se distinguisse a si próprio. Além disso, as provas do crime estavam à vista de toda a gente.
O plano é simples. Recolhemos a bandeira Pirata e substituímo-la pela bandeira de um daqueles países off-shore onde os burgueses registam os barcos de recreio. Escondemos as vestes Pirata num dos barris de rum, livrámo-nos do papagaio Polly, e agora navegamos disfarçados de turistas veraneantes. Em boa verdade, manter este disfarce só nos custa não alterar rigorosamente nada naquela que é a nossa rotina habitual.
Para melhor treinar o disfarce e porque sabemos estar a ser observados por satélite, ontem sentámos-nos todos nas espreguiçadeiras do convés a ver as estrelas e a beber uns insuspeitos gin tónicos. Álvaro de Campos, o engenheiro naval, disse ter em tempos conhecido um tal de Pessoa que lhe ensinou umas coisas sobre astronomia. Concordámos em receber uma lição sob condição de não falar em verso durante pelo menos dois dias. Tudo correu mais ou menos bem até que começou a falar de Orion. Por razões cá minhas, Orion é uma constelação que me faz alterar o sistema nervoso e o motivo pelo qual uso tapa-olho quando vou à rua em noites estreladas, é para o poder ir desviando por forma a nunca ser obrigada a vê-la. 
Cometi o meu primeiro acto de arbitrariedade enquanto capitã e despedi-o imediatamente, apodando-o de psicopata torturador. 
Acho que o poder me está a corromper a alma.


Jacques Brel, esse Pirata

sábado, 26 de outubro de 2013

A quimera da felicidade

Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que se passava diante de mim, - flagelos e delícias, - desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enchada e a pena úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com agulha da imaginação; e essa figura, - nada menos que a quimera da felicidade, - ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão.


Machado de Assis, in Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Tivesse Brás Cubas logrado obter sucesso na invenção e comercialização do emplastro destinado a "aliviar a nossa melancólica humanidade" e não estaríamos condicionados a escolher aplacar a dor na indiferença, que é "um sono sem sonhos" ou no prazer, que é "uma dor bastarda".
Também existem os outros. Aqueles que nasceram de coração emplastrado na pomada que anestesia a melancólica humanidade. 
Mas esses, é claro, nem merecem que se fale deles...

Comunicações inter-galácticas

Ontem vi-te na rua, dois quarteirões a sul da porta onde nunca passo para evitar o teu reflexo no vidro grande da entrada. 
Era o teu andar desengonçado, esse jeito de voltar o pescoço para as nuvens, uma mão com a palma para cima, o sorriso trocista de quem acabou de relevar a última asneira que fez, o cabelo há três semanas a implorar por um corte e os passos como que demasiado pequenos para pernas tão altas.
Vi-te atravessar a dez metros da passadeira e quase ser atropelado e fiquei aliviada por teres sobrevivido.
Percebi que a tua morte foi um embuste. Uma paródia da qual todos os dias te ris de boca aberta sentado no sofá verde (era verde não era?) da casa a cuja porta nunca passo para evitar o teu reflexo no vidro grande da entrada.
Percebi que passaste os últimos quase dois anos a rir de nós, a espreitar-nos das esquinas, distraído com as passadeiras, quase a ser atropelado, a observar as nossas vidas, a ler as nossas palavras, a reprovar as minhas olheiras, a gozar  a nossa dor. A escrever os teus poemas.
Dizem-me que era outra pessoa. Um homem parecido com o que te parecerias hoje se hoje ainda te parecesses com alguma coisa. Dizem-me que morreste e que foi o teu corpo que o rio vomitou numa manhã mais fria do que todas as outras. Dizem-me que desapareceu para sempre o teu reflexo do vidro grande da entrada da porta onde nunca passo. Que se te acabaram os poemas.
Mas ontem vi-te e sei que a tua morte foi um embuste e só espero que não sejas atropelado. 
E que cortes esse cabelo.



Não sei nem quero saber

Apenas não tenho raiva a quem sabe.
Dominei os dois estádios mais úteis desse adágio infantil da inocência arrogante.
Vivo no alheamento das coisas, de todas as coisas e não me sinto culpada por isso.
A arte da eremitagem aprende-se em módulos, como os cursos de fotografia.
No fim, ganha-se a habilidade de suspender a indignação. Não é nada comigo, porque só é comigo aquilo que ocorre a menos de cinco centímetros do meu umbigo. 
O que me interessa são as metáforas de um texto, as curvas de uma frase, a melodia de uma música, o movimento de uma fotografia, a luz de uma pintura e, ocasionalmente, a sombra de uma ponte. Tudo o resto só existe como suporte das coisas que me interessam.
Os homens inventaram a arte por pressentirem que o mundo era um sítio demasiado inóspito para se viver. E a arte é um jardim de entrada livre onde podemos permanecer durante todo o tempo que quisermos.
Para lá destes muros de ferro forjado, o mundo continuou igual a si próprio. Não houve mais guerras, mais mortos, mais pobres, mais dor, maldade ou solidão pelo facto de eu ter deixado de querer saber das coisas. 
Começo a acreditar que é possível uma existência assim. 
E como é doce, esse estágio humano em que apenas um verso mal construído tem a capacidade de me estragar a manhã. 




domingo, 20 de outubro de 2013

caleidoscópios

Foi há muitos anos, num telhado de Lisboa.
Estavam sentados na beira, com os pés descalços, a abanar sobre o abismo. Ele tirou-lhe o copo da mão e entregou-lhe o telescópio. 
Enquanto ela apontava à lua, ele disparou:
- há muito anos que te amo.
Por trás do telescópio ela ficou calada a assistir às imagens da existência que teriam tido se fosse verdade e se o tivesse percebido a tempo.
Quando o olhar dela tombou sobre o dele o silêncio iluminou uma estrela que nasceu morta.
Se ele se tivesse achado digno de ser aceite por ela há muitos anos atrás, talvez ela, muitos anos à frente,  ainda tivesse dignidade suficiente para o poder aceitar.
Foi há muitos anos. 
Antes de terem demolido os telhados de Lisboa.

Céus

Colecionar céus, foi a desculpa mais discreta que encontrei para não ser obrigada a olhar em frente.

"apenas bolsos cheios de pedras"

Os repórteres de guerra estão demasiado ocupados com os seus heróis e nós estamos suficientemente desocupados deles para não nos ocuparmos com as suas ocupações. Ela era uma figura, uma imagem que apetece ouvir como um beijo na boca. Ela não precisava de ter cuidados, apenas bolsos cheias de pedras, ela dispensava conselhos, ela não se deixava embalar pelo sorriso dos amigos que nos desejam a morte, ela era apenas uma velha solitária, sentada no meio do fumo como uma estátua de pedra rodeada de nevoeiro, ela era em silêncio como o homem que fala alto por não temer que o ouçam, ela era o derradeiro adeus daqueles que acabam de chegar com uma ideia na cabeça: construir diariamente a casa que entra pelo mar.



Henrique Bento Fialho, (a pretexto de Virgínia Wolf), in Suicidas, Deriva Editores.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Preçários

São infindáveis as dificuldades daqueles que oferecem resistência a viver no mundo real.
Podemos ignorar os avisos da EPAL sobre cortarem-nos a água se  não os deixarmos entrar em casa para nos ler o contador. Mas não podemos esperar que os senhores da EPAL façam algo tão simples e justo como devolver-nos o desprezo. 

...

Antes que o copo ficasse vazio, já não estava lá. Aprendi a mover-me no tempo sem sair do espaço. Os meus momentos são capítulos cruzados de vários livros incompatíveis. Do final de um Tolstoi apreendo o início de um verso de Dante e perco-me numa tragédia de Shakespeare. O riso que te entrego não é teu e o meu gesto dirige-se a um morto. Talvez ainda regresse antes de nos levantarmos da mesa. Se estiver a chover numa rua de Paris. Se já não houver bazares abertos em Istambul. Se na penumbra do quarto a lua me devolver a imagem de um amante adormecido. Talvez até venha a ser para ti o comentário que farei sobre a intensidade do ar condicionado. Ou aquela marca desagradável que alguns vinhos deixam nos lábios. Mas nunca poderei ficar por mais que um instante. E essa é a minha secreta tragédia. 

Aridez

Foi preciso apagar o mundo. 
Desligar as estrelas. Ensurdecer à música. Tirar a voz aos poetas. Despir a beleza.  
Foi preciso asfaltar o chão.
A aridez é uma forma de desesperada sobrevivência. 
Onde nada medra, a tua alma descansa.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

give (for) not



In dark times when no one wants to
I will give you me