quarta-feira, 6 de junho de 2018

Um coração como o dele

UM CORAÇÃO COMO O MEU

Leio que Dostoiévski, quando se viu abandonado pela amante Apollinaria Souslova, lhe caiu aos pés e disse «Nunca mais encontrarás um coração como o meu.» Quase me cai aos pés o livro em que leio isto. Usei uma vez uma frase quase assim, nada sofistificada, lamechas, feita pânico e súplica. E fui atacado como nunca tinha sido. Toda a gente me chamou terrorista e mentiroso. Mas eu nunca disse nada tão pacífico na vida. E nunca disse nada tão verdadeiro. Disse e digo: «Nunca mais encontrarás um coração como o meu.» (e agora cito Dostoiévski).


Pedro Mexia, in, Estado Civil, Tinta da China 

5 comentários:

  1. depois de ler o jogador, tudo passou a ser Dostoiévski medido...

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    1. Aposto que tudo parece pequeno. Liliputiano.

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    2. microscópico... ao nível de bactérias :)

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  2. Terrorista não sei, mas labora evidentemente em erro qualquer proposição que seja iniciada por "nunca mais encontrarás".

    Li, ouvi, contaram-me, ou sonhei com isso, que até Nietzsche se apiedou de um pobre macilento equídeo chicoteado na eterna servidão ao seu algoz.
    Pobre cavalo, enobrecido pela honra de encontrar um coração assim.



    Então o Mexia também rabisca? O Mexia, que bem conhece os Mestres, rabisca sem se sentir envergonhado?
    E lucubra sobre a questão das Eras: O Amor enquanto suplício, perspectiva tão religiosa?

    Ando excessivamente distraído com os estrangeiros.

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    1. O Pedro Mexia fez-nos o favor de publicar os blogues e assim nos deu alguns dos melhores diários da atualidade. Coisa boa, mesmo.

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