quinta-feira, 31 de março de 2011
quarta-feira, 30 de março de 2011
dos bichos que não podes ter
vais à praia e vês o peixinho. o peixinho se encanta de ti, num bronzeado dourado, cabelo molhado e pele a cheirar a fruta dos trópicos. pede comida. e tu dás. o peixinho fica contente, faz mais umas acrobacias e pede mais. e tu dás. muito riso. escutam-se hulahulas e o sch-sch-sch das folhagens. coqueiros e palmeiras.
o sol esconde-se, a brisa levanta e o dia acaba. arrumas as tuas coisas, vens para casa. insólito: o peixinho segue-te. mais: até se adianta! quando começas a sacudir a areia dos pés olhas e está sentado no capacho de entrada, com cara de quem está fora de água. tu o acolhes, não sem antes o mandares embora, ainda com convicção. é só esta noite – dizes a cantar –; amanhã, voltas para o mar. num aquário improvisado, finge que dorme todo contente, mas está a magicar agrados.
a manhã seguinte é de nevoeiro, desculpa cúmplice. então vamos passear e vais amanhã, que é Domingo. corda à volta do aquário. passeio. conversa. quotidiano de Sábado. frutaria, florista… peixaria não, seria de muito mau gosto. hoje vamos ao talho!, escarnece o peixinho. quotidiano de sábado – um perigo para a sedução. tarde de jardinagem. o peixinho assiste os teus trabalhos do aquário suspenso no ramo de uma camélia a rebentar de verdes folhas lustrosas. as pétalas já se tinham ido todas. duram tão pouco… gostava de as ver, diz o peixinho. olhas de soslaio – bem sabes, peixinho, que só aparecem no fim do Inverno e que os primeiros mornos da Primavera levam os últimos botões... o peixinho sabe que tu sabes que ele sabe. aliás, tu sabes que ele sabe que tu sabes. sorriem. prossegues na jardinagem.
o peixinho vai ficando, sempre com as desculpas cúmplices da natureza. acaba por conhecer as camélias, que até o desiludem. tanta expectativa…
acabas por enxotar oficialmente o gato que costumava fazer umas visitas surpresa. para o efeito, recorres a bombinhas de Carnaval do stock da mercearia ao fundo da rua. na mesma leva, assustas definitivamente os pombos e outros, como as gaivotas que em dias de tempestade no mar vinham passear até à colina da tua casa. ultrapassas vários incómodos. até gente de quem gostas mas que não gosta de peixe.
numa manhã de Junho desaparece sem deixar bilhete. nem uma escama azul marinha de recordação. ainda tentas ligar-lhe pelo búzio que ambos apanharam no Outono passado. sem resposta.
o peixinho é um bicho que não podes ter. ouve bem o que te digo. tem a tendência de voltar para o mar. e deixa-te uma espinha atravessada na garganta que pica para sempre.
terça-feira, 29 de março de 2011
segunda-feira, 28 de março de 2011
Farois
Todos os fins-de-semana, na minha ausência, aparecem coisas em casa que não estavam aqui antes. E não estou a falar das melgas gigantescas que tomaram conta do meu lugar no sofá. Tudo começou na primeira semana com a materialização de uma cama no quarto de hóspedes. Na segunda semana, quando cheguei a casa, havia um espelho na casa de banho e toalheiros pregados na parede. Desta vez fui surpreendida por um gradeamento no primeiro andar. Alguém descobriu e arruinou o meu plano de me suicidar dentro de casa, atirando-me em voo picado da mezzanine para a sala de estar. Acho que estas aparições não se dão de repente, quando não estou. A casa está viva e prenhe de benfeitorias. Todos os dias cresce. Simplesmente, como o crescimento é lento e eu distraída, só me apercebo quando estou uns dias fora. Ainda pensei que o responsável fosse o suspeito do costume. O meu senhorio, encapotado agente da Mossad. Encontrei uns rastos de sola de ténis à volta da minha casa de banho e tirei-lhe imediatamente as medidas. Com a intenção de o confrontar com as minhas suspeitas inventei um pretexto para o chamar. Apareceu três minutos depois vestido com um daqueles fatos que se usam na caça submarina. Apesar de se ter recusado a tirar as barbatanas consegui calcular-lhe o tamanho do pé e percebi logo que os rastos são demasiado pequenos para terem sido feitos por ele. As minhas suspeitas recaem agora sobre o faroleiro. O homem que, apesar das minhas vigilâncias nocturnas em redor do farol, jamais consegui ver. Abordei o assunto do misterioso faroleiro com o agente da Mossad que se limitou a olhar em redor, fazendo um gesto de silêncio com o dedo sobre os lábios, enquanto deu uma cambalhota no ar e apontou o buraco da salamandra que ainda não existe e que temo que seja a próxima coisa a aparecer no primeiro fim-de-semana em que me apanharem fora de casa. Encolhi os ombros e acompanhei-o à rua onde fiquei a vê-lo afastar-se, caminhando de costas, daquela maneira profissional como se caminha quando se estão a usar barbatanas. Os velhos da praça, logo que me viram à porta, vieram convidar-me para uma jogatana. Tal como previsto, a Vanity Fair que fingi esquecer no tasco local já está a dar os seus frutos. Fartaram-se da bisca. Estavam a jogar xadrez enquanto discutiam a crise política nacional. Um deles disse-me que no tempo do Salazar não tinham que aturar isto porque nunca havia eleições antecipadas. Voltei para casa com uma dívida de jogo e uma inquietação na alma. Aqui ou em Lisboa, as saudades nunca me largam.
Neste blog também se fazem propostas legislativas
O Estado deveria ser chamado a intervir nesse flagelo social que consiste na incompetência generalizada dos cidadãos para manter uma relação amorosa a longo prazo. Além de afectar a produtividade nacional e aumentar o consumo privado, este drama social, pela sua natural susceptibilidade de induzir à depressão, assume contornos de problema de saúde pública. Demonstrado o fracasso geral da auto-regulação, conto com o Estado para nos garantir a todos relações amorosas mais eficazes e sustentáveis. Inspirada no sistema da praxis da minha antiga universidade – onde se publicitavam as relações sérias fazendo um rasgão a meio da capa do traje académico e se anunciava o seu final, cosendo o dito rasgão com linha da cor do curso – burilei um sistema perfeito que nos pode livrar de vários desgostos. Proponho a institucionalização obrigatória de um cadastro público, disponível na internet, dos relacionamentos amorosos de cada um. Uma vez terminada a coisa, o ex casal seria obrigado a preencher um formulário previamente aprovado por uma comissão, do qual constassem, o mais objectivamente possível, além das características do ex-outro, as causas da ruptura. Este sistema teria três inequívocas vantagens: em primeiro lugar, a capacidade de objectividade do outro, com vista a um presumível final e à necessidade de uma justa avaliação, passaria a ser considerada uma virtude indispensável a um relacionamento. Em segundo lugar, todos passaríamos a adoptar o nosso melhor comportamento no decurso da relação em vez de, tal como acontece agora, isso só suceder durante as primeiras duas semanas. Por fim, a disponibilização pública da informação relevante sobre o candidato evitaria esse outro flagelo social que é a publicidade enganosa. Enquanto o Estado se demite da sua função de me garantir uma escolha informada resta-me adoptar uma forma um pouco mais arcaica, mas igualmente eficaz, de despistagem da conversa da treta: a partir de agora só invisto sentimentalmente num homem que esteja disposto a tatuar o meu nome no peito. Assim, por cima do coração.
domingo, 27 de março de 2011
domingo
- é o rali de Portugal… - onde? - ai isso não sei… aquilo parecem as Beiras - o Guilherme e o Bernardo foram - mas vão sempre - o Bernardo não, não foi uns tempos, por causa da menina - ah pois - não, é Alentejo… - com aquela vegetação toda…? não pode ser… só se for mais cá para cima... - não que essa terra Santana-Não-Sei-Das-Quantas é das primeiras que se vê depois de se sair do Algarve - ai não pode ser… que estranho, tanta árvore - olha, passa-me a travessa - queres que te sirva? - o Alentejo não é o Sahara… e de onde pensas que vem a cortiça? - não, passa-me… e então as obras na casa do tio Belchior… aquilo nunca mais acaba… - ah, e agora é que vai durar, fase de acabamentos – toda a gente já sabe como é e aquilo ficou tudo esventrado, tudo - então mas e os tectos, aquilo eram tectos lindíssimos, tudo trabalhado - ah, agora fazem uns moldes, é um espectáculo, fazem uns moldes e quando refazem o tecto fica igualzinho ao que estava - ai sim? - ui haviam de ver o entusiasmo do Alexandre com aquilo tudo, estava muito entusiasmado… - como é que…? - Contralex (risos) - contra a lei, que nome mais parvo - então: é de construções Alexandre… (risos) - mas parece que têm que ter um alvará específico, para fazer restauros… - oh pai, mas isso só é preciso se forem monumentos ou... - não não, que eu sei que ele tem esse alvará, filho - acho que estás a confundir - estou-te a dizer… - ai eu tenho pena daquele rapaz, o Tomás - sim, é uma pena, é um tó-tó - a culpa é do pai! vai ser outra história como a da Teresinha - que acabou na desgraça que se vê… agora meteu-se na bebida, não a deixaram seguir filosofia, era a vida dela, a filosofia, a mania que ela fosse para o Conservatório, e depois ficou na Academia, mas que vida triste… - ai sim? não conheço… - ah pois foi! então não sabes quem é…? é a filha da D. Gilberta! foi tanto estudo, para nada, ficou na Academia e não fez nada da vida. vocês nem imaginam a figureta que ela fazia para atravessar a rua, vejam bem, atravessar a rua! parecia uma tolinha! - pois… o menino, ai menino, qual menino qual quê, que aquilo é um homem, ele está no 12,º ano, não teve infância… - é incrível, noutro dia fomos jantar lá a baixo, ficámos ao pé deles, estava a família toda, e o miúdo passou o tempo todo a contar anedotas sobre a União Soviética… que palhaçada - mas a culpa é do pai, que meteu na cabeça que ele ia ser um Nigel Kennedy - a mãe também se calou - a mãe…? oh coitada, tu bem sabes como ele é… - agora tudo que é concerto lá está o miúdo e francamente… - eles ficaram na direcção da Academia para poder exibir o miúdo, quase se mataram… - e é um virtuosismo que nem existe, eu não posso falar muito mas… - ai pois é, o miúdo não é assim tão bom , pois não… - noutro dia… - que dia? - quando estávamos a jantar e tu até disseste dos sinos, que estava a ser um exagero - ah pois foi… e já tinha 84 anos - o da Clara? já? - ah pois... mas tanta doença… sempre me lembro dele já doente - pois - mas porque é que tens que ir agora para Vale de Cambra? - porque é assim… - ai menina, que estupidez, ficavas em Espinho - eu bem queria… - já não basta o que andas a passar… agora para Vale de Cambra, aquilo Deus me livre - ...e fomos ontem - lá ao Porto? - sim, muito bom, um bocado caro mas… - ah mas vale a pena, de vez em quando
- é, tem que ser - é ao pé do Ferreira Borges, num Palácio das Artes que nem sabia que existia… - é o mesmo do DOC, aquele no Douro, acho que é em Armamar - eh pá, muito bom mesmo - e cheio! não percebo onde esta a crise - andava a ligar desde 4.ª feira, tudo cheio, chegaram a perguntar-me se queria mesa para a uma da manhã… - é tem sido assim, ou ligas antes de 4.ª ou não tens hipótese - mas hoje vêm jantar lá a casa… - sim sim - queres que leve uma sobremesa? - raios partam a mudança da hora, detesto isto sexta-feira, 25 de março de 2011
por vezes preciso que me esfreguem um espelho no focinho
naquilo que faço é egoísmo gostar ou não gostar de uma terra.
todos os lugares são “gostáveis” desde que se assuma o seu “povo”.
desterrada tantas vezes, eu já devia saber isto bem.
como me disseram esta manhã, eu não sou de lado nenhum e ando sempre a tentar pertencer. ora, isso nunca vai acontecer.
pode ser que eu consiga ser adoptada por um “povo” qualquer, que precise de mim.
e, assim, possa ser de algum lado. afinal, a orfandade é minha.

todos os lugares são “gostáveis” desde que se assuma o seu “povo”.
desterrada tantas vezes, eu já devia saber isto bem.
como me disseram esta manhã, eu não sou de lado nenhum e ando sempre a tentar pertencer. ora, isso nunca vai acontecer.
pode ser que eu consiga ser adoptada por um “povo” qualquer, que precise de mim.
e, assim, possa ser de algum lado. afinal, a orfandade é minha.

quinta-feira, 24 de março de 2011
preferia uma coisa destas do que um ram... não. preferia uma coisa destas com o ramo de camélias
Cada memória apaixonada tem suas madalenas e a minha -saiba disso, onde quer que você estiver- é o perfume do tabaco claro que me devolve à tua noite espigada, à lufada da tua pele mais profunda. Não o tabaco que se aspira, a fumaça que reveste as gargantas, e sim aquela vaga equívoca fragrância que o cachimbo deixa nos dedos e que em algum momento, em algum gesto despercebido, sobe com seu látego de delícias para encabritar a lembrança que tenho de ti, a sombra das tuas costas contra o branco velame dos lençóis. Não me olhes aí da tua ausência com essa gravidade um tanto infantil que fazia do teu rosto uma máscara de jovem faraó núbio. Acho que sempre ficou bem entendido que nós só daríamos um ao outro o prazer e as festas leves do álcool e das ruas vazias da meia-noite. De ti não tenho mais do que isso, mas na lembrança me voltas nua e derramada, nosso planeta mais preciso foi a cama em que lentas, imperiosas geografias iam nascendo das nossas viagens, de tantos desembarques amáveis ou resistidos, de comitivas com cestas de frutas ou flecheiros à espreita, e ganhamos cada poço, cada rio, cada colina e cada planície em noites extenuantes, em meio a obscuros parlatórios de aliados ou inimigos. Oh, viajante de ti mesma, máquina de esquecimento! E então passo a mão pela cara num gesto distraído e o perfume do tabaco em meus dedos te traz para me arrancar outra vez desse presente costumeiro, te projeta antílope na tela desse leito onde vivemos os intermináveis caminhos de um efêmero encontro...
CORTÁZAR, Julio ::: Último Round*1969
quarta-feira, 23 de março de 2011
processos de afasia
Acordámos no deserto. Tínhamos areia debaixo das unhas, dentro dos ouvidos e nas narinas. Não nos dentes. Não, ainda, nessa altura. Não no deserto daquela noite.Ficámos deitados nas almofadas de veludo da tenda berbere a beber chá de menta enquanto ouvíamos o barulho que faz a noite quando se levanta sobre o deserto sem fim. Com os olhos postos na aurora e as mãos esquecidas nos meus joelhos gelados prometeste-me uma existência sem dor. Ofereceste como testemunhas da tua verdade as cobras, escorpiões, escaravelhos e todas as criaturas rastejantes que conseguiste manter longe dos meus pés nus. Eu não precisava de testemunhas. Nunca duvidei de ti.
Nem quando no dia seguinte os camelos foram incapazes de encontrar as margens do rio e os guias insistiram numa direcção que não era a da tua bússola. Nem aí duvidei de ti.
A promessa daquela noite haverias de a repetir à exaustão. Em cenários dispersos por vários continentes. Sempre com as mãos pousadas sobre os meus joelhos. Aquecidos.
Cumpriste-a postumamente.
Cauterizou-me os nervos o sol desse outro deserto em que acabaste por me abandonar.
Deixei de sentir dor.
Mas nessa altura passei a duvidar. De mim.
À Estrelita
terça-feira, 22 de março de 2011
CXX

"Cento e quatro dias
que fazem as férias
e a escola acaba com elas.
mas o grande problema
que todos vivemos
é saber como aproveitá-las
..."
Assim começa a canção de abertura de uma das séries de desenhos animados preferidos das minhas filhas mais velhas retratando o dilema que eu supunha ter de enfrentar nos últimos cento e vinte dias.
Puro engano.
Em boa verdade, nos últimos cento e vinte dias, o dilema que se me apresentou foi sempre o de decidir que tarefa realizar em primeiro lugar por forma a que o equilibrio da gestão da vida familiar não fosse perturbado.
Tarefa àrdua, como é bem sabido, numa familia recentemente alargada.
Devo ainda confessar que, neste período, mantive ao serviço a empregada doméstica a quem demovi de se reformar há seis meses atrás, alegando ser-me impossível ficar de licença de maternidade sem os seus serviços. A contragosto lá se comprometeu a ficar até eu regressar ao trabalho.
Agora anda a instruir a empregada nova.
Assim, aos cento e vinte dias já o tempo os levou (felizmente os de Inverno) e eu nada fiz.
Não li um livro, nem uma revista de fio a pavio.
Não li o jornal diariamente. Acumulei semanários sem tocar em muitos dos cadernos e lambi "as gordas" dos restantes.
Não ouvi um album completo, só os hits do momento, no rádio do carro furtuitamente sintonizado.
Não escrevi um post. Não tive uma ideia nem condições de abrir o portátil (a não ser às onze da noite, quando o marido reclamava a minha companhia).
Fui três vezes ao cinema, duas delas para ver desenhos animados.
Continuei sem ver televisão, à excepção dos canais Panda, Disney e Nickelodeon, como, aliás, desde há quase quatro anos.
Fui uma vez ao teatro. Ver a "Mãe Coragem e Seus Filhos" (foi o que se arranjou).
Dormi alguma coisa.
Não apanhei chuva, nem suportei o frio.
Tive uma existência profunda como uma lente de contacto.
Mas passei horas perdida nos olhos da minha bébé.
Amanhã vou voltar ao trabalho.
Hoje fui almoçar à praia. E o sol apiedou-se de mim, e escondeu-se atrás das nuvens.
A Música
A MÚSICA
A música partilha com a flor
a carne que se alaga como um copo.
A música é um rizoma atómico
cheia de sílabas grossas e finas
no peito maduro da onda.
Por isso a onda cai e a flor
também. E se te digo sei que ficas
triste e é quando substituis essa
geração de força por dois pequenos
vasos à entrada do teu dorso (e qual
és tu e qual sou eu é uma haste subindo)
Do teu lado esquerdo é dia.
O vestido é branco e aponta
a cidade a que chegas com os
dedos, rodando os ombros mas
não a cabeça. O teu olhar
é uma ferida musical sem verbo fixo:
a penumbra bate às vezes na
pálpebra, outras na imaginação.
A queda gera o seu próprio
impulso, como se fosse o preen-
chimento de uma forma: chama-se amor
e serve para os ouvintes ouvirem o esbracejar
do desejo, esses versos de asa silenciosa-
ouves?
Há poetas azuis que julgam que a
coerência é um pardal azul (da goela
até aos pés). Normalmente limpam os óculos
com coerência, em vez de com (enfim)
e depois vêem o mesmo pardal, a todas
as horas do dia e da noite, sentado azul-
mente sobre o seu nariz azul.
Pela direita, dizes que os versos
não caem se mudares constantemente
o chão. Mas os sonhos sim, e que a transla-
ção do vento sabe do remorso dos bichos mais
pequenos: procura as palavras junto ao chão
e se não me vires,
é porque o silêncio é também a música
e canto-a sem nome
para ti
Rui Costa
in Um poema para Fiama
Labirinto
2007
A música partilha com a flor
a carne que se alaga como um copo.
A música é um rizoma atómico
cheia de sílabas grossas e finas
no peito maduro da onda.
Por isso a onda cai e a flor
também. E se te digo sei que ficas
triste e é quando substituis essa
geração de força por dois pequenos
vasos à entrada do teu dorso (e qual
és tu e qual sou eu é uma haste subindo)
Do teu lado esquerdo é dia.
O vestido é branco e aponta
a cidade a que chegas com os
dedos, rodando os ombros mas
não a cabeça. O teu olhar
é uma ferida musical sem verbo fixo:
a penumbra bate às vezes na
pálpebra, outras na imaginação.
A queda gera o seu próprio
impulso, como se fosse o preen-
chimento de uma forma: chama-se amor
e serve para os ouvintes ouvirem o esbracejar
do desejo, esses versos de asa silenciosa-
ouves?
Há poetas azuis que julgam que a
coerência é um pardal azul (da goela
até aos pés). Normalmente limpam os óculos
com coerência, em vez de com (enfim)
e depois vêem o mesmo pardal, a todas
as horas do dia e da noite, sentado azul-
mente sobre o seu nariz azul.
Pela direita, dizes que os versos
não caem se mudares constantemente
o chão. Mas os sonhos sim, e que a transla-
ção do vento sabe do remorso dos bichos mais
pequenos: procura as palavras junto ao chão
e se não me vires,
é porque o silêncio é também a música
e canto-a sem nome
para ti
Rui Costa
in Um poema para Fiama
Labirinto
2007
segunda-feira, 21 de março de 2011
Full moon party
Pelas mesmas razões que me desfiz do CD dos boleros, não quis ver a lua cheia.
Para evitar o risco do vislumbre fechei as portadas às seis da tarde e recusei-me a sair de casa até o sol da manhã garantir um céu isento de luas traiçoeiras a despoletar pensamentos proibidos.
A culpa é da música da Rosana que a Estrelita me ofereceu há muitas luas atrás.
Consta que há uma relação entre a lua e os amantes.
Talvez fechando os olhos à primeira se consigam apagar os segundos.
Para evitar o risco do vislumbre fechei as portadas às seis da tarde e recusei-me a sair de casa até o sol da manhã garantir um céu isento de luas traiçoeiras a despoletar pensamentos proibidos.
A culpa é da música da Rosana que a Estrelita me ofereceu há muitas luas atrás.
Consta que há uma relação entre a lua e os amantes.
Talvez fechando os olhos à primeira se consigam apagar os segundos.
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