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terça-feira, 10 de agosto de 2010

A terrível contradição das mulheres



Penélope esperou quase vinte anos por Ulisses que passou metade desse tempo amantizado com Calipso, numa ilha de prazeres.
Helena de Tróia abandonou o seu devotado marido Menelau para fugir com Páris.
Inês Pereira, mais inteligente, precisou de uma série de amarguras até concluir pela preferência a um asno (que a carregue) do que a um cavalo (que a derrube).
Se Romeu não fosse um gandim com instintos de assassino, Julieta nunca lhe teria prestado atenção.
Scarllet O´hara, admirou Rhett Buttler pelo facto de ele a desprezar.
As mulheres vão sempre preferir os machos Alpha, apesar de já saberem que não são esses que as farão felizes.
Pode-se culpar a genética, responsabilizar as tragédias clássicas, atirar com a factura para as comédias românticas. É indiferente.
Consta que os machos se dividem em Alpha, Beta e Omega, sendo que os Beta são os que ocupam a linha de sucessão para Alpha e os Omega são os que nasceram para ser espezinhados por toda a gente.
Não se fala desta divisão a propósito das fêmeas, o que, se pensarmos bem, até faz sentido. Todas as fêmeas são potencialmente Alpha. Por isso mesmo escolhem machos da sua própria categoria, que lhes garantam uma descendência de Alphinhos puros.
E essa necessidade estratégica, lamentavelmente, é-lhes mais cara do que a própria felicidade.
Darwin esteve quase lá, mas acabou por ver as conclusões do seu próprio estudo deturpadas pelo facto de ser um preconceituoso que se recusava a admitir a superioridade feminina.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Cinco filosofias


1. Rasgo a nostalgia pelo meio a atiro-a para o primeiro caixote do lixo que encontre.
Não a componho, não a guardo em gavetas, nem sequer a reciclo. A nostalgia é o anjo negro do inconsciente.
2. Nado todos os finais de dia numa piscina de auto-perdão.
Não acumulo culpas judaico-cristãs nem de qualquer outra espécie. A culpa é um anestésico do erro.
3. Reanimo os fantasmas do passado para que não me atormentem as noites.
Não varro o passado para debaixo do tapete da porta de entrada. Todos os fantasmas são risíveis quando sentados no sofá da casa a beber um gin bombay.
4. Rejeito formas de aprendizagem que passem pelo sofrimento.
Não reconheço à dor capacidades pedagógicas. Competências curriculares adquiridas pelo sofrimento tendem a transformar-nos em piores pessoas. O mal não tem ancas para parir o bem.
5. Assumo-me como o rei Midas da futilidade.
Não há vida mais vã do que aquela que se desperdiça numa caverna cinzenta e feia. O fútil é o quociente emocional da existência humana.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Toda a verdade sobre os post-trinta



Um dia tem-se vinte anos e anda-se por aí a sonhar com a independência e com tailleurs com ar sério e de repente passou-se dos trinta anos e nós estivemos demasiado ocupadas a viver os últimos dez para nos darmos conta disso.
Aqui ficam os sintomas para que as almas mais distraídas não sejam apanhadas desprevenidas a tentar equilibrar-se sobre duas pernas dormentes:
Se subitamente todos a começarem a tratar por minha senhora, isso não significa que todos tenham ficado mais bem-educados.
Se nos jantares com amigas mais novas lhe estenderem a si a carta e lhe derem o vinho a provar, isso não significa que seja a mais bem vestida.
Se o homem da frente começar a olhar muito para as suas mãos é mais provável que esteja à procura da aliança do que a admirar a sua manicure francesa.
Se estiver à procura de umas meias porno-chic e depois de avisar a empregada que procura umas meias especiais lhe perguntarem se pretende uns collants de descanso, isso não significa que ela pense que é hospedeira de bordo.
Se de repente o seu metabolismo deixar de conseguir absorver quantidades industriais de haagen dazs chese cake, petit gateau e bolinhos de queijo, pode não ser uma conspiração organizada pela indústria de medicamentos de emagrecimento.
Se o puto de vinte anos com ar cool passar por si e não lhe ligar nenhuma, pode-se dar o caso de ele não ser necessariamente homossexual.
Se de repente começar a receber mais convites com fotografias de crianças e cegonhas com anjinhos do que motivos florais gravados em cima do símbolo das alianças, isso não significa que Portugal esteja a viver um Baby boom em versão gravidez precoce.
Se a empregada da fashion clinic a olhar de lado enquanto você se decide por aquela mini-mini saia impossível, saiba que pode-se dar o caso de a senhora não ser um empedernido e conservador membro da Opus.
Se der por si a erguer o sobrolho com ar reprovador todas as vezes que um homem não a deixar passar a frente ou não lhe segurar a porta, pode-se dar o caso de não ser apenas porque está habituada a pessoas civilizadas.
Se conseguir beber dois terços de uma garrafa de vinho tinto e levantar-se da mesa com o mesmo ar natural com que se sentou, é possível que tenha tido o tempo suficiente para habituar o seu organismo ao álcool.
Se der conta que já leu oitenta da lista dos cem melhores livros de sempre, considere a possibilidade de tal não se dever apenas ao facto de ler depressa.
Se souber de cor a letra do sobe, sobe, balão sobe, isso não significa necessariamente que tenha sido uma criança prodígio daquelas que decoram letras de música com apenas um ano de idade.
Se quando alguém lhe falar num fim de semana de campismo concluir que lhe dava mais jeito partir os dois pés do que ir agora enfiar-se num forno de lona a servir de jantar de formigas tenha presente que pode ser mais do que um súbito trauma anti-escuteiros.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Tiques insuportáveis que o levarão ao sucesso (Segundo Módulo)

















Aprenda a comportar-se em público.

As estrelas só têm interesse porque nos provocam sensações agradáveis. Ninguém se põe a contemplar o céu com o mesmo propósito doentio com que algumas pessoas param para assistir a tragédias automobilísticas.
Há uma lista de assuntos sobre os quais não deve falar à mesa, nem que para os evitar se veja na contingência de ter que encher a boca de comida e sair da festa com mais dez quilos.

Aqui fica:
- Doenças
Não descreva as suas dores reumáticas, calos nos pés, pus na garganta, furúnculos em qualquer parte do corpo e, sobretudo, doenças hormonais. Por mais obcecado que esteja com aquela amiga que tem cancro não estrague o jantar das pessoas com histórias de quimioterapia que ninguém quer ouvir.
Se em desespero de causa tiver mesmo que falar em doenças – cenário que só é concebível num encontro de médicos workaholics ou de pessoas geriátricas – permita-se os seguintes estados patológicos: jet lag (por motivos óbvios), gota (doença historicamente reservada à nobreza), sonambulismo (dá sempre um certo ar de mistério), paludismo (significa que saiu de Portugal pelo menos uma vez na vida) e aquele pulso que partiu numa queda a cavalo ou nas últimas férias da neve.

- Política
Falar de política à mesa é uma forma pseudo-culta de instalar a discórdia e aborrecer os que não estão dispostos a armar-se em espertos. Além disso, se houver um comunista presente (sim, eles existem e às vezes vêm parar às nossas mesas) estará a abrir uma raivosa torneira doutrinadora que vai inundar a sala de jantar e estragar os seus sapatos novos. Guarde para si as suas convicções sobre a conspiração do clube de Bilderberg (alguém lhe dirá que é inveja por nunca ter sido convidado para nenhuma reunião), da Maçonaria (alguém lhe dirá que é inveja por nunca ter sido convidado para nenhuma reunião) e da Opus Dei (agora já sabe porquê).
Discutir programas de partidos políticos é ainda mais grave. Em primeiro lugar, os seus convivas não os leram (sim, mesmo que sejam deputados), em segundo lugar, você não o compreendeu e, por último, se tiver o azar de estar lá alguém que perceba do assunto, essa pessoa será suficientemente presunçosa para fazer questão de o humilhar em público.
Se adormecer à mesa e acordar no meio de uma acesa discussão política, faça um ar inteligente e diga que prefere falar da política interna do Butão que, isso sim, constitui uma ameaça para o sistema bancário da Suiça que, obviamente, é o único que lhe interessa.

- Guerra dos sexos
Não há nada mais irritante num jantar social do que apanhar com o anormal do lado a debitar teorias machistas sobre a inferioridade feminina quando todos os presentes sabem que além de se arrastar atrás de uma messalina de condição inferior é casado com uma mulher que manda nele. Os sorrisos amarelos das senhoras presentes não são sinal de concordância. São o equivalente educado ao “don´t feed the troll” que é o mesmo que dizer “nem abro a boca para ver se o palhaço se cala”.
Por outro lado, associar-se a um bando de fêmeas excitadas a desancar na espécie masculina, também só a fará parecer uma galinha com a cabeça cortada. Se estiver acompanhada todos pensarão que o seu marido a engana. Se estiver sozinha todos perceberão que o seu ex marido a enganou.
Também aqui, o silêncio dos cavalheiros não significará concordância. Mesmo que a olhem com ar solidário saiba que estão a pensar “o que tu precisas, sei eu o que é!”.
Se for confrontada com uma guerra dos sexos iniciada por um conviva mal-educado, abstenha-se de participar na conversa e diga qualquer coisa espirituosa como “E o que acham dos hermafroditas?” ou o menos sofisticado mas igualmente eficaz “isso era no tempo em que éramos todos macacos”.

- Críticas às profissões dos presentes:
Se você for um trolha e construir um prédio todo torto, acha decente que passem o jantar a atirar-lhe isso à cara? Pois claro que não.
Dizer que os juristas são vigaristas não lhe vai resolver o problema de continuar a ser vigarizado. Vai obrigá-los a enganarem-no naquela mesma conversa com argumentos falsos.
Chamar incompetente, preguiçosa e ladra à classe médica só fará com que lhe perguntem porque raio é que ainda não subscreveu um seguro de saúde decente.
Dizer que os jornalistas são mentirosos e difamam as pessoas será meio caminho andado para que nunca falem de si na altura em que lhe dava um jeito enorme uma entrevista de duas páginas.
Se forem pastores, designers, pasteleiros, filósofos, escritores ou professores, aplica-se a mesma lógica.
Aprenda que os membros de uma classe profissional não são uma espécie de livro amarelo em que pode despejar as suas reclamações, as da sua família, as dos seus amigos e as da senhora que ouviu no programa das tardes da Júlia. Além disso, noventa por cento das pessoas fazia outra coisa se pudesse ou soubesse e tem pelo menos o dobro das queixas contra pessoas da sua própria classe profissional.

Nota importante: Sempre que estiver num jantar em que o aborreçam com algum destes assuntos proibidos durante mais de cinco minutos, faça um ligeiro aceno de cabeça, levante-se, despeça-se e retire-se invocando que a conversa lhe desencadeou imensas saudades da sua almofada.

É provável que o anfitrião não o volte a convidar. Mas já sabe: não estará a perder nada que lhe faça falta...

sexta-feira, 12 de março de 2010

Cuca anda a ler:



Assim, em inglês e tudo!

terça-feira, 9 de março de 2010

Tiques insuportáveis que o levarão ao sucesso (Primeiro Módulo)






O primeiro passo para o estrelato é comportar-se como uma vedeta. No início pode perder alguns amigos, mas saiba que não perderá nenhum que lhe faça falta.


Nos restaurantes:


- Nunca, mas nunca, aceite comer no McDonalds. Nem que a alternativa seja comer um lagarto assado numa tenda de berberes. Almoçar um hambúrguer sentada naquelas mesas de plástico americano só é desculpável em New York e se ninguém estiver a ver.
- Recuse-se a comparecer num restaurante sem ter reserva feita mesmo que seja a tasca da esquina que está sempre vazia. Verá como a sua vida muda a partir do instante em que se apresenta à porta do restaurante largando um confiante “tenho mesa para as dez!”.
- Exija facas adequadas para comer o bife e não se esqueça de pedir a carta dos vinhos mesmo que já saiba que só quer beber uma coca-cola light.
- Obrigue o empregado a recitar a lista das sobremesas. Além de o estar a ajudar na sua tarefa de memorizar o menu, quando voltar com amigos pode exibir-se demonstrando que conhece todos os doces da casa, fazendo-os acreditar que a sua boa forma é uma condição natural.
- Jamais beba uma simples água com gás. Encomende-a com limão e especifique o número de pedras de gelo que quer dentro do copo. Depois conte-as e se houver alguma a mais peça delicadamente uma chávena para colocar o excedente. É preciso disciplinar os empregados de mesa.


Em viagem:


- Leve sempre três malas. Se puder, faça questão de pagar excesso de bagagem, se não puder, leve-as vazias.
- Recuse-se a voar em low cost. De qualquer forma, com aquilo que o vão obrigar a pagar por cada uma das malas, não iria valer a pena. Verá como vai parecer muito mais credível da próxima vez que fingir que acha que a Ryanair é uma cantora de música pop.
- Chame a hospedeira ainda antes de o avião levantar voo e faça saber que precisa de um copo com leite. Se ela lhe disser que não tem, sugira-lhe que use os pacotinhos para colocar no café. Diz-me a experiência que um copo de leite equivale a dez pacotes.
- Mantenha-se atento. Dez minutos antes de iniciarem as manobras de aterragem exija uma mantinha e uma almofada dizendo que precisa de dormir uma sesta. Resista à tentação de roubar as mantas. Vendem umas no Continente por três euros que, com a vantagem acrescida de não se desfazerem na primeira vez que vão à máquina de lavar, não é preciso esconder quando recebemos amigos civilizados lá em casa.

Na rua:


- Se for abordado por um pedinte agradeça-lhe ainda antes de ele lhe pedir alguma coisa. Se ele insistir, diga-lhe que não se incomode porque não precisa de nada.
- Obrigue os outros a desviarem-se de si enquanto passeia nas ruas. Se não se desviarem, pare na frente deles com um ar aborrecido, durante todo o tempo que for necessário e espere que tomem a iniciativa de o deixar passar.
- Jamais compre/use um guarda-chuva. Render-se aos humores do S. Pedro pode ser o primeiro passo para fazer de si um derrotado. Você não é o Sinatra, logo, não tem nada que fazer na rua quando está a chover.
- Não fale ao telemóvel enquanto caminha. Atenda apenas para despachar a pessoa com um rápido “agora não posso falar porque estou a caminhar na rua”. O seu interlocutor pode parecer confuso mas o mistério faz parte do charme.
- Recuse-se a caminhar enquanto ouve música no ipod. Se pudesse ver a sua expressão de louco enquanto ouve uma música que não partilha, perceberia a razão.


Nota importante: Cultive todas estas manias mesmo que isso limite a vida dos outros ou, principalmente, se assim for.


Cuca