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segunda-feira, 3 de maio de 2010

A minha vizinha da frente


Consigo ver-te da minha sala quando te penduras na janela da cozinha a fumar um cigarro.
Consigo ver a tua vida porque apesar da forma meticulosa como decoraste a casa, esqueceste-te de comprar cortinas.
Não tens mais de trinta e dois anos. No passado, leste todos os livros que pudeste, namoraste com todos os homens que quiseste, acreditaste no futuro que te vaticinaram.
Agora, tens um daqueles maridos dos anúncios, com um carro das revistas, que faz sempre mais barulho do que os outros quando o seu dono, teu marido, sai de casa às oito da manhã vestido com os fatos que lhe escovas na varanda do quarto.
O teu cabelo aloura proporcionalmente à velocidade com que emagreces. Aumentas o tamanho dos decotes para que o dono do carro perceba que tem uma mulher ao lado. Mas o dono do carro está sempre ao telemóvel.
Chegas a casa antes dele para lhe cozinhares um jantar de Japanese fusion que há-de ser comido com algum desdém e duas horas de atraso. Sem te avisar.
Sentas-te à mesa e fazes o teu melhor sorriso enquanto lhe perguntas como foi o dia dele. Aprendeste a fazer isto com a tua mãe. Que aprendeu a fazer isto com a tua avó.
O teu marido nunca te pergunta como foi o teu dia. Não lhe interessa. A ti também já não te interessa. O teu dia começa no instante em que ele toca à campainha por não se dar ao trabalho de tirar as chaves do bolso. O porta-chaves custou-te um mês de salário ganho com um emprego que ninguém percebe porque manténs.
Todos os dias, depois do jantar, ele deita-se no sofá a assistir a um programa de televisão enquanto pensa numa maneira de ganhar ainda mais dinheiro. Tu escondes os pratos na máquina de lavar louça que a empregada há-de ligar no dia seguinte. Sentas-te ao lado dele. Insistes numa tentativa falhada de carinho de fim de dia. Levantas-te. Voltas à cozinha. Abres a janela e penduras-te a fumar um cigarro.
É nesse instante, em que o dia acabou de começar e já antecipas o prenúncio do seu final, que te ocorre que as noites são cada vez mais curtas. Que o teu marido preenche a sua ausência com os gadgets com que enfeita a casa. Que nunca vais ter um filho porque não condiz com a decoração da sala nem é compatível com automóveis desportivos dois lugares. Ou Barbies humanas.
Às vezes, aos fins-de-semana, ele desliga o telemóvel para receber os amigos. Ficas com a sala cheia de pessoas que, depois de te estenderem os casacos para que os pendures, se esquecem que existes até chegar o momento em que o teu marido lhes chama a atenção para ti com uma história doméstica engraçada. Fazes parte de um número de circo. És a partner do dono do negócio. Ganhas uma taça de Champagne.
Sabes que se te queixares o suficiente terás um novo Rolex que enviarás desapaixonadamente para o cofre de um banco onde fará companhia a uns quantos Chaumet. Ou uma viagem a um país distante onde não vais ter com quem partilhar o fascínio da tua primeira visão do monumento lá do sítio, porque o teu marido vai estar uns passos atrás a ultimar os pormenores do negócio que te pagará a próxima crise conjugal.
Também sabes que, se te queixares demais, um dos telemóveis para onde ele agora liga às tuas escondidas, passará a tocar na (já só dele) sala de estar. A avisar que está atrasado.
Acho que esse teu esquecimento na compra das cortinas é uma mensagem inconsciente, trancada numa garrafa que atiras ao mar. Todos os dias.
Fumas o cigarro com a expressão de um animal encurralado entre um sonho e um pesadelo sem que consigas decidir qual é a realidade e qual é a mentira. Os livros que leste não te ensinaram a viver na desilusão que se instala quando se desvenda, por dentro, o cenário dos filmes.
Às vezes, vejo-te, pendurada na janela da cozinha, a brincar com a gravidade. Conheço demasiado bem o teu olhar.
Se não tens cuidado, um dia destes ainda cais.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Nostalgias


Esta noite uma insónia horrenda atirou-me para o passado fazendo-me carpir por tudo aquilo que não fiz.
Invadiu-me uma nostalgia a atirar para a agonia, intensificada pelo facto de serem quatro da manhã, de me ter deitado perto da uma com uma enxaqueca monstra e, por isso, não ter adormecido de imediato; e ainda por saber que o despertador iria implacavelmente fazer-me sair da cama às sete e um quarto da manhã.

Eu que deitei mão a tudo quanto foram oportunidades para desbravar mundos novos, que venho ao longo dos anos acumulando funções (profissionais, familiares, domésticas, sociais, artísticas, culturais e desportivas, ecc) aparentemente inconciliáveis, com uma carga horária sobrehumana, as mais das vezes com kilometros e kilometros pelo meio;
Eu que fiz todas as minhas escolhas de forma livre e consciente, e alcancei todas as metas a que me propus;
Eu que tenho um marido que me adora, que eu amo, e com quem venho construindo uma família linda, deu-me para as nostalgias do que não fiz.
Dos caminhos que não percorri. (Sou aquela que gulosamente escolhe o prato mais saboroso do menú e depois fica a cobiçar a comida do vizinho.)
Não fosse eu a verdadeira idealista, eterna insatisfeita, sedenta de vida e acontecimentos.

Assim não fosse e não teria, há cerca de dois anos, virado a vida de pernas para o ar, voltado à escola e ao estupor das avaliações, e embarcado num projecto de vida diferente.
Aquele que há 18 anos todos me adivinhavam e que eu dizia não querer.

Deu-me para lamentar as aventuras que não vivi, porque aquelas que irei recordar pela vida fora, assim me permita o alzheimer, essas não contam. Já foram.
Lamentei as loucuras que não cometi, os homens a quem não me entreguei, aqueles a quem me entreguei e que me atiraram para os ansiolíticos e as benzodiazepinas à conta das quais arruinei a porta do carro, aqueles que me desejaram em silêncio e nunca me tiveram.
Lamentei ainda ter-me estruturado de uma forma que me impediu ousar viver de forma mais ligeira, sem preocupações, e inconsequente até. Só para evitar os disparates da juventude.

Agora que por força das actuais e futuras circunstâncias, o peso das minhas acções vai estar sempre à espreita, o terror dos disparates que não fiz antes agonia-me. Hoje, pelo menos.
Porque só mais tarde percebi que não se tem 20 anos e a vida por nossa conta para sempre. E que a vida não pode ser adiada. Que não há um "mais tarde é que vai ser a sério e agora não convém".

Em rigor, este post deveria ser colocado noutro lado, mas esta inelutável tendência é mais forte que eu. E hoje deu-me para aqui.

"Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje". Sempre me disse o meu pai. Ironia das ironias...

Quotidianos míticos

Acordo com um salto. Tomo consciência de mim. Desligo o despertador. Atiro-me para fora da cama. Arrasto-me para a casa de banho. Meto-me debaixo do chuveiro. Penso na roupa que vou vestir. Saio do banho. Visto-me. Seco o cabelo. Lavo os dentes. Prometo a mim própria que amanhã vou tomar o pequeno-almoço. Escondo as olheiras. Aumento o tamanho dos olhos. Recolho os objectos espalhados pela sala. Saio de casa. Encontro o vizinho do quarto andar. Entro no carro. Faço cinquenta quilómetros na auto-estrada. Chego ao destino. Tiro um café na máquina da entrada. Desespero pelo elevador. Entorno o café. Ligo o computador. Passo a manhã a ouvir mentiras. Espero pelo meio-dia e meia. Desço as escadas. Dirijo-me ao restaurante. Peço o prato do dia sem perguntar o que é. Entabulo uma conversa sobre o tempo. Almoço. Peço um café com adoçante. Pago a conta. Despeço-me. Volto para o computador. Passo a tarde a ouvir mentiras. Espero pelas seis da tarde. Desço as escadas. Entro no carro. Faço cinquenta quilómetros. Desligo o motor. Encontro o vizinho do quarto andar. Entro em casa. Ligo o computador. Procuro uma verdade no meio das mentiras do dia. Abro o frigorífico. Percebo que deveria ter ido às compras. Sento-me em frente à televisão. Prometo a mim própria que amanhã vou jantar. Coloco o computador no colo. Respondo aos mails do dia. Deito-me no sofá e reduzo as luzes. Assisto a cinco minutos de dez diferentes programas de televisão. Constato que é tarde. Lavo os dentes. Dispo-me. Enfio-me na cama. Ligo o despertador. Leio páginas de um livro. Começo a adormecer. Apago a luz. Acordo com um salto. Tomo consciência de mim. Tomo consciência de mim.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

The bathtub


D. salvaste-me a vida

C. obrigada pela receita

A. love u

Before you grab the pain killer, go for the bubble bath.



terça-feira, 16 de março de 2010

Psicanalistas de trazer por casa


Tenho poucos pequenos prazeres.
Sempre invejei aquelas pessoas que nasceram com o dom de conseguir que o pôr-do-sol lhes arranque um sorriso, que a folha que lhes cai no nariz e inicia o Outono não passe sem ser notada, que têm o dia feito pelo facto de ligarem o rádio do carro no preciso instante em que se inicia a sua música preferida, que vêem no olhar curioso de uma criancinha um sinal de esperança que melhora uma aflição qualquer.
Estes são os donos do mundo. O seu bem-estar depende de coisas tão poucas e acessíveis como o abanar da cauda do gato do vizinho. Podem nunca ter lido um livro de poesia mas vivem-na dentro de si.
A mim, os prazeres saem-me sempre caríssimos e nunca são pequenos.
Os filmes podem ser muito bons mas falta-lhe um final à altura, os livros podem ser inesquecíveis mas a tradução é má, o hotel pode ser maravilhoso mas há um mais caro, a comida pode estar excelente mas com outro vinho teria ficado melhor e a conversa até pode ser celestial mas a sandália direita apertava-me o pé.
As pessoas como eu, quando descobrem um pequeno prazer agarram-se a ele como se a sua vida dependesse disso porque sabem que poderão passar anos até voltarem a descobrir um novo comprimido prozac em versão barata, não aditiva e isenta de culpas.
Tive, durante muitos anos, um pequeno prazer secreto que era atravessar a ponte Vasco da Gama para entrar em Lisboa.
Se fosse de manhã, Lisboa apareceria à minha frente em tons azulados, a irradiar esperança e vida, carregada do optimismo das coisas que são movidas por algo maior que nós. Se fosse de tarde, Lisboa embrenhada num tom dourado, como uma cidade abandonada a si própria far-me-ia lembrar o gosto que têm todas as coisas quando dentro delas se sente o cheiro do voltar a casa. E de noite, então, a Lisboa carregada de promessas, em que as luzes se confundem com os sonhos e tudo nos parece possível é uma sensação avassaladora que foi, provavelmente, o meu maior pequeno prazer.
Seis meses depois de cinco vezes por semana ser obrigada a passar pela ponte Vasco da Gama para entrar em Lisboa, constatei com infelicidade que, à força de tanto o viver, o meu antigo pequeno prazer se transformou em dez irritantes minutos em que carrego no acelerador para que passem o mais rapidamente possível.
Espoliada no meu parco património de instantes prozac, praticando a apregoada filosofia de me queixar a toda a gente, hoje ao almoço decidi partilhar a minha desventura.
Quatro pessoas concluíram da seguinte forma:
- Talvez não tenhas sido feita para o casamento.