terça-feira, 31 de agosto de 2010

Chegar a casa e não estar em casa

Se tivesse alguma ligação emocional com os objectos espalhados…
Se não tivessem deixado de importar o meu perfume…
Se me tivesse dado ao incómodo de abrir os caixotes que arrasto atrás de mim…
Se não se desse o caso de esta ser a minha décima terceira casa …
Talvez, ao meter a chave à porta, eu não tivesse a estranha sensação de me preparar para invadir a íntima existência de uma mulher que nunca vi.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Para o ano faremos uma nova tentativa


Cuca e Estrelita, logo que tocaram com os míticos pés esfoliados e bronzeados na Grécia, fizeram uns telefonemas a umas pessoas importantes e umas horas depois foram convidadas para subir a bordo do iate do Poseidon, himself.

Foi mais ou menos assim:

Poseidon: Ó belas criaturas!! Quem sois vós? De onde vindes? Ninfas estrangeiras?
Cuca e Estrelita em uníssono: Somos a Cuca e a Estrelita e viemos de Portugal.
Poseidon: Ah! Já sei! Fostes inventadas por aquele poeta zarolho que vos criou lá para o canto IX?
Cuca: Não sejas estúpido Poseidon. Os Lusíadas são uma obra de ficção.
Estrelita: Sai-me da frente que me estás a tapar o sol.
Poseidon: Deslumbrantes criaturas, que posso eu fazer por vós?
Cuca: Anda para aí um boato que envolve o Perseu e a nossa amiga Górgona… Queremos que chames esse cobardolas para termos uma conversinha com ele.
Estrelita: Ó pá!! Não te disse já que saísses do meu sol?!
Poseidon: Não vos sabia dona do sol, senhora doutora ninfa…
Estrelita (concertando o soutien do biquíni e sem se dar ao incómodo de olhar para o velho): Este gajo já me começa a irritar. Não sabes que o sol é uma estrela? Odeio gentinha ignorante. Sabes ao menos fazer uns mojitos decentes?
Cuca (com a sua irritante mania da etiqueta internacional): Não me parece que seja adequado beber mojitos na Grécia, no iate do Poseidon, Estrelita. Isso seria apropriado se estivessemos nas Caraíbas.
Estrelita: Se esse paspalho desse uso à forquilha e fizesse aqui aparecer o Johnny Depp com o seu galeão, eu mudava logo de poiso.
Poseidon (com ar amuado): Tecnicamente falando, é um tridente!
Cuca: Manda lá vir o rapazola Perseu que temos umas contas a ajustar.
Poseidon: Hum...posso tentar fazer umas caipirinhas. Tive em tempos uma empregada brasileira que…
Entra Perseu vestido com uma ridícula armadura e acompanhado de um escudo espelhado, tudo totalmente impróprio para uma tarde náutica debaixo de 40 graus.
Perseu: Chamaram-me? Quem são estas ninfas estrangeiras? Adoro ninfas!
Cuca e Estrelita (em uníssono, batendo palmas): Despe! Despe! Despe!
Perseu vai despindo o monte de latas com tiques de stripper e exibe um corpo que envergonha o David de Michelangelo Buanarroti.
Cuca: éh lá…
Poseidon: Eis Perseu!! Estas deusas vieram do país do poeta zarolho e trazem-te um recado da Medusa.
Perseu, ouvindo falar em Medusa entra em pânico e começa a arrumar as latinhas para se retirar à pressa.
Estrelita e Cuca (com os olhos fixados nos abdominais do Perseu): oh Poseidon, vai lá fazer umas ondinhas e deixa-nos aqui sozinhas com o Perseu que isto não é para a tua idade!
Poseidon: A minha mãe sempre me disse para não confiar em estrangeiras… Vou-me queixar ao Zeus!
Poseidon retira-se numa prancha de surf puxada por dois leões marinhos, levando consigo o tridente debaixo do braço.
Perseu (ainda a tremer, balbuciando baixinho): Medusa? Medusa? Medusa? Tenho que me ir embora. Lembrei-me agora que estou cheio de pressa…
Cuca e Estrelita: Medusa? Quem falou em Medusa?
Cuca: Isso não é uma alforreca manhosa que se cola à pele?
Estrelita: Isso não é o nome do símbolo da Versace?
Cuca, Estrelita e Perseu passam o resto da tarde no deck do iate de Poseidon a beber mojitos feitos pelo Jack Sparrow que, entretanto, avariou a bússola e se perdeu por aqueles lados.
Quando acordaram, o dia seguinte era uma semana depois e estavam a aterrar em Lisboa.

Tsujiura Senbei






"Que alcances distinguir a mentira da verdade."

sábado, 28 de agosto de 2010

Noves Fora, Nada

Do pai não me peças partilhas em vida que eu sei lá da minha velhice; do marido querida estás sempre bonita; do filho espero que dures o suficiente para não me tramares a juventude com a tua falta e poderes dar uma ajuda até eu ter uns 35 anos, pelo menos; do amante não me venhas pedir para ficar a dormir, já sabes que não pode ser, e é um sarilho, não te quero comprometer; da sogra não me mace o Natal com o seu ar de esfinge do tédio; do colega de trabalho se julgas que me passas à frente estás redondamente enganada, deves andar a trabalhar muito na horizontal, deves, foi como chegaste até aqui; da amiga tu não me adoeças com cancro porque isso é horrível e não sei se tenho estômago para passar tardes no IPO ou para ir às compras contigo sem sobrancelhas


Não importa o que ela ouve, a frase é sempre a mesma: Só quero que sejas feliz.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Medusa Is Heavily “EVELy” Drunk OR The Fuckin’ Bee OR Amigos Que São Muito Más Companhias


M: Incitar uma abelha a aferroar-me foi a coisa mais vil que algum dia me fez. Não tem graça nem par. Uma tarde inteira a fazer apostas patéticas. Incluiu-me no seu rol de prémios – quem aposta a aferroada de uma abelha no tornozelo de uma amiga!? Que amigo é esse?

Lobo A.: Ora, minha querida, já lhe prometi que a acompanho nessa pantomina da abelha até à cova. Não vai ser pela minha boca que vão saber que a minha querida teve aquele ataque de choro e fúria ao acabar o livro que fala da vida de um senhor ministro. Livro que, lamentavelmente, a minha querida atirou para a piscina e que se desfez quase instantaneamente no ph 7,1. E que o palavrão que murmurou ao arremessá-lo era para mim. E que a minha querida já não chorava por causa de um livro desde que, aos 13 anos e de um fôlego, leu o Fernão Capelo Gaivota.

M: Que disparate! Atirei o livro à mentecapta da abelha! À mentecapta da abelha!

Lobo A.: A pobre nem a beliscou, minha querida… Vá, já lhe assegurei que não conto a ninguém. Seja boazinha e vamos beber o café para a sala, já todos foram. Escute: quero ouvir os improvisos do Fritz ao piano. Vá lá.

M: É um idiota. Sabe bem como o estimo e põe-se com estas coisas. Sabe que mais? Não passa de um crápula ordinário que usa os seus truques de psicanalista e os seus olhos azuis para atrair garotas. Estou cheia de si! Não satisfeita mas cheia. Amanhã já começo os Cavalos Que Fazem Sombra…

Lobo A.: Está bem. Sossegue. Quando voltar do seu passeio pelo vinhedo esta madrugada e chegar com os pés carregados de terra (que vai sorrateiramente lavar à piscina, pensa que eu não sei?) e a camisa de noite esfarrapada e ainda a mastigar pétalas de rosas, estarei à sua espera para falarmos sobre isto. E fumamos um cigarrinho juntos, sim?


quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Midsummer Night’s Teaser

Jantar generoso de gargalhadas. Serão animado que lentamente esmorece à medida que os comensais se paralisam, etilizados. Tombam. Um a um.
Meias luzes por toda a casa. Entorpecimentos.
O xisto liberta-se do calor que engoliu o dia inteiro enquanto estivémos ao sol e nos embalsamámos em loções.

Ficamos reduzidos a dois. Não apreciamos particularmente qualquer jogo de cartas. Estou a baralhá-las há dez minutos. Sopram-se das minhas mãos e espalham-se pelo chão.


A piscina. Lá fora.


Wanna take a swim?
My bikini is still wet… – I argue

Well babe, we’ll find a way to it, won’t we…?

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Postal Ilustrado









Alto Douro, 25 de Agosto





Queridas!


Depois de vários convites que já não podia declinar sob pena de ferir esta caríssima amizade, finalmente me encontro de visita ao Barão F que me recebeu com as gentilezas habituais. Instalada em n almofadas, de varanda debruçada sobre a piscina. O fim de tarde foi de preguiças tais que já nem me lembrava.

Fomos jantar com Dionísio, que também já está por cá e fica até ao fim das vindimas. O repasto durou um bom par de horas que deram tempo para que as gavinhas se enrolassem lentamente em mim. Acabei a refeição florida de videiras e com aquele riso que fixa uma covinha involuntária entre o lábio e o nariz.
Espero que estejam a divertir-se bastante por esse mundo helénico fora (ainda que o Dionísio esteja aqui comigo). Contem-me: já deram com o Perseuzinho...? Que maldade lhe fizeram!?

Bem, o postal já vai longo e tenho Morfeu a sussurar-me ao ouvido...

Vossa,
Medusa.

Introducing Medusas' new shrink: Erasmus

"Mas o homem, nascido para administrar as coisas, deveria receber um pouco mais do que uma onça de razão. Júpiter consultou-me a este respeito e dei-lhe um conselho digno de mim: o de unir a mulher ao varão. A mulher é um animal louco como nenhum, inepto, ridículo e delicioso que no convívio doméstico atenuaria a tristeza do engenho viril com a loucura feminina. E claro que, quando Platão parece hesitar em incluir a mulher entre os animais racionais, nada mais pretende do que indicar a loucura insigne desse sexo. Quando por acaso uma mulher quer passar por sábia, não faz mais do que dizer que é duas vezes louca. Ninguém vai ungir um boi para a palestra, nem Minerva o consentiria. Não procedamos, pois, contra a natureza; o vício fica agravado quando dissimulado de virtude, por maior que seja o engenho. É bem justo o provérbio grego: um macaco é sempre um macaco, ainda que vestido de púrpura. Assim, também a mulher é sempre mulher, quero dizer, sempre louca, ainda que ponha uma máscara."
Erasmo de Roterdão ::: Stultitiae Laus * 1511

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Possessa pelos sítios, como os gatos



Estive na cidade do costume que, ao fim e ao cabo, não é minha porque, na verdade, não tenho nenhuma. Fruto das idas e vindas. Não tenho um lugar mas tenho sítios. Mas tenho pessoas. E tenho coisas que, normalmente, são como etiquetas das pessoas que eu tenho. E saudades, essas tenho sempre muitas porque me habituei a tê-las. Não daquela forma dolorosa, ao jeito fado, já que esse não é nada o meu jeito. As minhas saudades são dignas e conformadas. Não acomodadas. Apenas conformadas, como se conformam as pessoas com os seus feitios que são defeitos e que sabem vão piorar com o tempo. E gostam.
Não tenho cidade e até tenho. A questão é que tenho mais que uma, como se tivesse nascido de uma forma simultânea em duplicado. Sou de mim aquilo a que se chamava sósia e que a ciência aprimorou como clone.

Talvez seja esta a razão de não me assustar a duplicação de sentimentos. Consigo sentir o mesmo por mais que uma pessoa ao mesmo tempo.

Talvez seja esta a mesma razão da minha fraqueza de toxicomaníaca de algumas coisas, aos olhos dos outros patéticas, mas que fixam a minha satisfação a determinados locais.

Noutro dia, depois de mais uma visita a um comerciante do qual dependo (apesar da distância da minha casa que, entretanto, aumentou muito), tive a coragem de atravessar a rua e entrar na Praça, um pouco acima.

Ainda não tinha lá voltado depois da remodelação facínora que fez conjunto com outras obras públicas vergonhosas que golpearam de morte a cidade que já vinha a falecer de mansinho.

Dali eu voltava, aos Sábados de manhã, com uma braçada de flores. E o resto que a minha mãe queria comprar. As flores eram as únicas compras que eram só minhas. E havia aquele cheiro ardido a pescado fresco. Vendia-se e comprava-se no chão. Alguns à sombra, aqueles que tinham bancadas à volta do pátio interior. As lojas de fora eram as peixarias que mantinham os passeios constantemente encharcados como que para poupar os peixes e o polvo das saudades do mar. Um quiosque com montra onde conviviam o Pato Donald e uma morena impossível de desenhar ou uma loira inédita nas capas da Playboy. A micro-ourivesaria onde se vendiam relógios Swatch. A casa dos linhos e bordados. Outra de chás e produtos naturais. A dos bichos, onde chegámos a comprar periquitos e peixinhos, daqueles que morriam dois meses depois sem mais nem porquê.

O comércio resistiu emoldurado por tapumes durante todo o tempo em que a reabilitação durou. Cortada a fita da inauguração, parece-me envergonhado nos seus caixilhos novos de vidros duplos. A fachada, essa cobriram-na de um amarelo e um cinzento impróprios.
Lá dentro não há mais canteiros para se expor as novidades da horta, nem o sol aquece o percurso das compras. Há elevadores, extintores, dísticos a proibir e a permitir e a informar, escadas de emergência, pavimentos lisos, degraus assinalados.

Há paredes e tecto onde havia uma arena aberta. E não cheira a nada. Onde cheirava a tanto.

Eu seria uma viúva mais consolada se fosse o mar a arrasar a minha Praça. Como fez à igreja matriz, em tempos.
Mas, ao mar, já não o deixam bater assim.

domingo, 22 de agosto de 2010

Rigor Mortis

O medo de viciar sucede ao medo de experimentar. O medo de cair, ao medo de saltar. O do desencanto, ao da ilusão. O de chegar, ao de partir. O de surpreender, ao de tentar. O de morrer, ao de viver.

Pessoas que compram casas com roupeiros embutidos. Roupeiros sem graça nenhuma que combinam com os rodapés e o parquet no lugar de móveis espantosos por serem altíssimos e onde se guardaram gerações de vestidos de cauda em cabides que tem uma pega para que se possa retirá-los do varão. E que se chamam guarda-vestidos. Gente sem camiseiros nem toucador. Satisfeitos com as cozinhas equipadas de electrodomésticos encastrados, perfilados, como se os fossem fuzilar.

Os zombies. Que exalam normalização. As férias, sempre da mesma forma. As festas de aniversário numa constante no que se refere à pâtisserie.

Não há riscos. E não estou a falar de tentar benji-jumping… Só há protecção. Mas sem os primeiros, serve a segunda para exactamente o quê?





É tudo tão certo que só apetece desmanchá-los. À pancada. Até ao dia em que eles se desmancham a eles próprios.

sábado, 21 de agosto de 2010

A manhã não vai ser de praia


O nevoeiro está cerrado. Voltaram as noites normais. Sem os abafos subsaarianos tão a despropósito.
A humidade passa ligeira e oblíqua no halo da iluminação pública que me calhou em frente a casa. A temperatura é própria a criaturas que gostam de dormir sem desidratar por todos e cada um dos poros do seu corpo.

Lembra-me a estola de vison. Sim, vison, esses bichos que são capturados apenas para que se lhes arranquem o couro e dos quais só se aproveitam os lombos, como costuma realçar a turba de esquerda. A mesma que não gosta da festa brava. Apenas se aproveita o lombo do animal porque as patinhas ficam danificadas nas armadilhas, como é óbvio.

E penso na manta que tenho que comprar para este Inverno. Quero uma nova porque a que a minha mãe furtou à British Airways fica cá em casa.
Caxemira; em cinza-chumbo ou azul-petróleo. Adoro essas cores impossíveis e sei que vou andar doida com os exemplares vermelhos e amarelos que me vão tentar impingir dizendo que são cores quentes próprias e normais para mantas. Mas não para mim.
A manta é totalmente figurativa, sei-o. É para aconchegar a solidão bem encaixada no meu colo. Se não encontrar a que quero, embrulho-a no vison mesmo.

Soube há pouco que ia ser raptada para o Alto Douro muito em breve. Bom sítio para os meus passeios dementes.

Voltaram as noites normais.
As noites normais.

Apetece escrever à mesa da sala de jantar. Que era dos meus avós. Com um candeeiro do lado esquerdo e de janelas abertas sem recear as apunhaladas dos mosquitos. A beber um chá quente acompanhado de biscoitos torrados feitos em quatro moldes diferentes da Hello Kitty.

De soslaio e envergonhada por estas linhas, fito o Lobo A. que estou quase a acabar de lamber.
Esse sim, dono da mestria do desencanto.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

No need to pee on a stick!





Que ainda haja chocolate AMARGO no armário da cozinha. Que seja O sucesso. Que aquele vestido na montra seja no NÚMERO 34. Que os seus olhos BRILHEM quando sob o corpo dele. Que ela SEJA feliz. Que no balanço das virtudes e iniquidades, o saldo seja POSITIVO. Que os idiotas que apontam no canto da piscina com toalhas D&G contrafeitas se deitem a MILHAS. Que o toucador se mantenha FIEL. Que o resultado seja: CURA. Que o Natal o seja em PAZ. Que não arredonde como a sua MÃE. Que continue a TROÇAR nos enterros. Que não descontinuem o seu PERFUME. Que consiga se DEFENDER. Que haja DECÊNCIA. Que NÃO tenha que cozinhar. Que não se ACABE. Que consiga copiar a memória do i-pod para o novo modelo sem perder NADA. Que não dêem cabo do CASTELO. Que ele tenha PACIÊNCIA. Que não a OBRIGUEM a reciclar. Que ele ganhe JUÍZO. Que não a DESCUBRAM. Que eles não DESISTAM dela. Que a criada seja INVISIVELMENTE perfeita. Que não morda a LÍNGUA. Que MANTENHA os seus poucos amigos. Que a miopia ESTAGNE. Que não se PARTA a redoma.

Que continuem a ENCANTAR-lhe certas coisas simples.

Fuck You, Perseus!

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Até Já!



Cuca e Estrelita vão estudar mitologia grega. O tema principal do estudo são os mistérios de Poseidon. Por isso, se nos virem por esse Egeu fora todas contentes enfiadas num iate, saibam que, ao contrário do que possa parecer, não estamos de férias. Estamos a aprofundar conhecimentos.
Medusa, desde que teve aquele mal-entendido com o cobardolas do Perseu, é persona non grata lá por aqueles lados.
Como tal, fica por aqui a tomar conta do tasco.
Kalimera, Kalispera, Kalinixta e Eukaristó.

Espelhos


Não te posso pedir uma estória.
Mas queria que me desses quatro linhas onde eu me pudesse reconhecer.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

What the hell...?!


Estado mental de Cuca após duas horas de literatura de cabeleireiro:

Quem é esta gente?

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Pesadelo de uma noite de verão


Logo que me aproximo da varanda do restaurante vejo-o lá em baixo, no bar. A dançar no meio de centenas de pessoas. Acho que ainda tenho os olhos treinados para o encontrar nas festas. Tem vestida uma camisa preta de linho que custou quase um salário mínimo e só pode ser lavada à mão. Sei estas coisas sobre ele. Com a mesma naturalidade com que sei os nove sítios do corpo onde tem cicatrizes. Ou o número dos casacos que usa. Ou o número das camisas. Ou que os ténis Nike são dois números acima do número dos sapatos. Um manancial de informação que não me serve para nada. Sei, pela maneira como distraidamente toca no cotovelo, que irá chover amanhã. Sei, porque estava lá quando ele fez aquela lesão que piora com a humidade. Acho que se pensar um pouco ainda sei de cor o número do passaporte dele. Claro que sei. É o número a seguir ao meu.
Da mesma varanda vejo-te a ti, ao lado dele. Tens um vestido de seda que foste comprar à pressa para a noite de hoje. É demasiado parecido com os meus para teres sido tu a escolhê-lo. Calças uns sapatos impossíveis que ele te comprou. Levou-te à loja, pediu o teu número à empregada, como se nem sequer lá estivesses. Experimentou-tos sem olhar para ti e deu-te o saco depois de saírem da loja. Também sei muitas outras coisas sobre ti. Sei, por exemplo, em que cabeleireiro te estragaram o teu tom de mel natural, com essas madeixas louras que te fazem parecer mais velha. Sei que preferias usar uns ténis. Ter ficado em casa a beber cerveja com as tuas amigas. Aquelas duas que ainda te restam. Agora que a prioridade da tua vida é viver a vida dele. Sei em que carro chegaram. E que ele parou à porta e entregou-o para que alguém o arrumasse. Sei quanto deu de gorjeta. Sei de que piadas não te riste no chatíssimo jantar de dez pessoas que antecedeu a decisão de vir dançar para este sítio. Decisão que, obviamente, não passou por ti.
Sei porque tens uma sombra sobre o teu rosto perfeito. Sei que sabes que foste enganada por ele na noite de ontem. E sabes que serás enganada por ele na próxima semana. Que já lhe procuraste os registos do telemóvel. Que já ligaste para números suspeitos. Que te atendeu uma voz ensonada de mulher. Sei a que te souberam as lágrimas que choraste na cama. A cama escolhida por mim. Num quarto azul. Um azul celeste que demorou três dias e dois pintores a conseguir. Não sei o teu número de passaporte. Nem sequer sei o teu apelido. Mas basta-me ver o movimento ansioso do teu corpo de modelo, ao lado dele, para perceber que já te explicaram que se não estás bem deves mudar-te. Que já te estenderam uma lista de prioridades da qual não fazes parte. Que já percebeste que, logo que a tua beleza foi banalizada, passaste a valer menos que a estátua da entrada da sala. Que também foi escolhida por mim.
Se só o querias a ele, nunca deverias ter aceitado a minha vida.
Estou pendurada na varanda do restaurante e tenho atrás de mim o meu futuro. E à minha frente o meu passado. E é estranho olhar para ti, ainda tão nova e já tão triste, saber estas coisas todas, e não perceber exactamente de quem é que tenho pena.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Agenda da Semana


- Lembrar-me de me deitar de costas para o sol porque estou a ficar bicolor;
- Lembrar-me de tirar os óculos de sol porque começa a parecer que andei a fazer férias de neve com um protector solar manhoso;
- Acabar de ver os DVDs dos filmes dos últimos dois anos que não tive tempo para ir ver ao cinema;
- Fazer um périplo pela nova colecção outono-inverno e encomendar coisas que ainda não haja nas lojas;
- Vencer a guerra contra a leitura da Ilíada que começa a demorar quase tanto como a própria guerra de Tróia;
- Retocar as madeixas para acabar com este ligeiro ar de raínha das farturas com que acordei hoje;
- Ir levantar as passagens para a próxima semana;
- Aprender grego elementar de sobrevivência;
- Marcar os tais jantares que só tenho tempo para fazer nas férias e que já estou a ficar sem tempo para fazer nas férias;
- Aprender a fazer cocktails;
- Continuar a evitar aqueles dois livros enormes e horríveis que caso não sejam lidos antes do regresso ao trabalho vão acabar por fazer com que as pessoas descubram que há coisas sobre as quais eu não sei rigorosamente nada;
- Passar o dia inteiro a vegetar na piscina para aliviar o stress de uma agenda de férias tão pesada.

domingo, 15 de agosto de 2010

Deus tem uma agenda mais estranha do que a minha


Acabo de ouvir uma notícia na televisão que explica tudo.
Consta que um grupo de surfistas decidiu criar uma Bíblia, originalmente chamada a “Bíblia dos Surfistas”, que é uma espécie de Novo Testamento em linguagem mais acessível à classe – imagino qualquer coisa como “É assim: aquele milagre custou uma beca a fazer a J.C., que ficou bué de cansado” – com fotografias de surf e devidamente impressa em papel plastificado, para se poder levar para a praia enquanto se espera que o mar deixe de estar flat.
E porque é que isto explica tudo? Perguntariam vocês se se dessem ao trabalho de ler os meus posts, ainda por cima um com um título que inclui a palavra Deus.
Tranquilizem-se as almas mais cépticas que andam por este mundo a perguntar-se, se Deus existe e é bom, porque raio há moscas em vez de comida em redor das bocas das crianças de África? Porque é que a indústria da guerra continua a assassinar inocentes? Porque morrem como tordos os bons cristãos, atacados pelo cancro, ataque cardíaco e pelo Range Rover que circula do lado contrário da auto-estrada?
Finalmente, um dos rapazes adeptos da novíssima “Bíblia dos Surfistas” dá-nos a resposta no noticiário da SIC:
Explica ele:
“Se deus me deu aquela onda boa…se me proporcionou aquele bom momento… foi por alguma razão…”
E aí está! Deus anda ocupado a criar ondas para a malta fazer surf…como podem esperar que tenha tempo para se lembrar dos desgraçados que morrem nos tsunamis?
Em democracia, não se pode agradar a todos!
Por mim, limito-me a agradecer por esta notícia divina me ter dado um pretexto para escrever aqui qualquer coisa.

Vicky Cristina Barcelona

Ao contrário do que dizem, Vicky Cristina Barcelona não é um filme sobre o amor. Nenhuma das personagens do filme ama a pessoa com quem está envolvida.
É um filme sobre a amizade. E sobre essa poderosa capacidade que une os amigos verdadeiros, que é a renúncia constante ao facilitismo de um julgamento moral.