
Não escolheu o marido. Ferraram-na com um sobrenome francês aos 19 anos. E foi para a capital, sofrer. Não teve medo. Aproveitou todo o tempo disponível para ler tudo o que pôde. Para ver tudo o que conseguiu. Para estudar mais duas outras línguas. Só não tinha as noites para si. Eram o seu Inferno. Recebia obediente o “francês” que, afinal, era argentino de sobrenome terminado em “n”. O bom que ele tinha eram os dias. Porque esses, deixava-os todos para ela.
Num Outono de garoa fina acabou uma tarde de passeio com a irmã mais velha no Teatro Municipal. Ouviu um violino que a encheu de vontade.
Vontade férrea. Divorciou-se do “francês”. O pai, desgostoso mas cheio de amor, manteve-a na capital porque sabia que os seus pulmões já se haviam habituado aos ares do planalto.
Nasceram os seus dois filhos. Ele calou-se cedo demais. Ela ainda viveu muito, muito, muito tempo. Quase teve tempo de ver o seu mais novo morrer.
O violino está em minha casa. Ela queria assim. Nunca conheci os dedos que o tocaram. Da última vez que a vi, encharcada, disse-me que pensava em mim todos, mas todos os dias da sua vida. Arrivals and Departures.





