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quinta-feira, 29 de julho de 2010

Cartomância de feira



Medusa desconfia brutalmente das ciências ocultas. Todas. Idolatrias.

Entrou na tenda muito contrariada. Achou a decoração pirosa. O incenso nauseou-a.
Via-se mal. Sentou-se. Esperou. Até que lhe chegaram os olhos amendoados cor de esmeralda. Madura; gorda; mal arranjada. Medusa vaticinou: menopausa.

A mulher lá fez o que tinha a fazer enquanto Medusa contorceu-se de desconforto. Sem um único movimento. Mais de uma hora nisto.
No fim, Medusa exausta, mulher satisfeita – cheia do gozo, certa de que a tinha esmagado.

Ditou-lhe:

“Comporta-se de forma polida e controlada. Por vezes usa uma linguagem rebuscada, pouco comum num contexto coloquial. É uma pessoa popular entre pares. No entanto, as suas relações são marcadas pela superficialidade. É-lhe difícil o contacto humano em profundidade e, portanto, a identificação com os outros. Parece faltar-lhe capacidade empática. Defende-se. Não apresenta traços marcados de hostilidade ou agressividade mas tem uma grande tendência para o controlo. Facilmente inverte papéis, procurando impor-se e afirmar o seu ponto de vista. Esta atitude de cariz narcísico arrisca a fazê-la perder a objectividade.

Felicidades, Madame X.”

Medusa saiu da tenda com um sorriso rasgado no rosto e os olhos a brilhar de fogo.
Estava intacta.