quinta-feira, 29 de novembro de 2012
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
forgive me not
Choveu sem parar durante três dias e três noites. Na manhã do quarto dia o rio começou a lamber as ruas e as praças da cidade e entrou pelas frestas das portas de madeira. Primeiro molhou os sapatos de cetim cor-de-rosa que cobriam os pés da bailarina. Depois subiu pelas pernas das camas e transformou as almofadas em corações disformes de penas encharcadas.
Da janela do último andar eu vi a cidade como se já não lhe pertencesse.
O rio trouxe-nos muitas coisas. Sacos de plástico perdidos, folhas de papel que antes de serem borrão foram poemas, bacias de metal onde se lavaram cabelos, corpos de animais afogados, as flores de um jazigo próximo. Um piano. O rio trouxe-nos um piano que, preto e desdentado de teclas, encalhou entre o lixo e um sinal de trânsito e ficou ali a acusar-nos da falta de música.
Quando o nível da água chegou à mesa onde pousaste, esquecida, a minha caixa de jóias, o rio tomou-a, fez seus os nossos segredos e arrastou-os por todas as ruas da cidade, oferecendo-os, assim nus, a quem já não tivesse portas para deles se proteger.
Da janela do último andar eu vi a vida como se já não me pertencesses.
Uma caixa de madeira aberta flutuou pela corrente e transportou uma incansável bailarina de plástico que girava sobre si própria ao som de tchaikovsky.
É isso
Nostalgia do Presente
Naquele preciso momento o homem disse:
“O que eu daria pela felicidade
de estar ao teu lado na Islândia
sob o grande dia imóvel
e de repartir o agora
como se reparte a música
ou o sabor de um fruto.”
Naquele preciso momento
o homem estava junto dela na Islândia.
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Cuca; estado espírito cabides vazios.
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
Clave de lua
A utilização da música como arma é um acto duplamente cobarde.
Aproveita-se da genialidade do criador inocente e da sensibilidade do destinatário desarmado.
Para morrer, prefiro um tiro.
É assim que matam as pessoas de bem.
É assim que matam as pessoas de bem.
domingo, 18 de novembro de 2012
escape
Ainda me esforcei por ouvi-lo mas só lhe via os lábios moverem-se ao som de Escape de Craig Armstrong. Para o tornar mais real tentei imaginar-lhe um diálogo de telenovela mexicana. Não me consegui lembrar de nenhum que combinasse com uma camisa tão bem engomada. Desisti dos meus intentos e segui com genuíno interesse o percurso que uma formiga foi fazendo pelo topo da mesa. Também a ouvia ao som de Escape e dei por mim a desejar que aquela formiga levasse a cabo a sua missão épica, fosse ela qual fosse.
Sabia que o homem da camisa a esmagaria quando se aproximasse da travessa. O destino estava estampado na eficiência suspeita com que me serviu o peixe. Não teria sido justo intervir na batalha e, além do mais, já só decido vidas a troco de dinheiro. No confronto final virei a cara para não assistir à inglória derrota dos que se esforçam.
Devolvi-lhe o som a tempo de o ouvir dizer qualquer coisa sobre barcos. Mas há palavras mágicas que me fazem desaparecer dos sítios e me transportam para fusos horários distintos. Juro que senti um abraço inconfundível acompanhado do meu nome respirado com sotaque. Se uma onda mais violenta não me tivesse molhado a cara, talvez nunca tivesse regressado ao restaurante.
Escape. Escape. Escape.
No chão, a formiga endireitou as antenas e reiniciou o mesmo percurso.
A sangria de champanhe era bastante aceitável, o copo foi-se enchendo sozinho e demorei quatro horas para perceber que não me deixaram escolher nenhum prato.
Foi uma boa tarde.
Foi uma boa tarde.
sábado, 17 de novembro de 2012
Moby-Kubler
Os meus progressos na leitura de Moby Dick e a minha travessia pela escala de Kubler-Ross são uma e a mesma coisa. Fruto de disciplina espartana, tudo foi mais ou menos andando até chegar ao 32.º capítulo. Depois veio a cetologia que, mais grave do dissipar a motivação, está a ter o efeito de me fazer questionar os propósitos da empreitada.
Temo que quando chegar ao final do livro, a realidade acompanhe a ficção e os instintos animais vençam a razão humana.
Nessa altura, não haverá psicologia que me valha.
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
Nada menos que uma chuva de sapos
Consciente da urgência da catarse,
pedi uma chuva de sapos.
O processo de cura não se
completa sem um instante de mundo ao contrário. A impotência perante um céu que
desaba na nossa frente tem milagrosas capacidades libertadoras. A catarse
liberta-nos do que ficou para trás e, nessa medida, purifica-nos. Não há nada
mais puro do que um conjunto de desconhecidos a contemplar a brutalidade da
devastação.
Preciso de uma chuva de sapos.
Hoje deram-me um tornado, mas agora
percebo que foi manifestamente insuficiente.
Não aceito menos que uma chuva de
sapos.
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
Das pessoas que nunca mudarão
- jantamos amanhã?
- vou estar ocupada.
- mas jantamos amanhã?
- não me dá muito jeito.
- e a que horas mando buscar-te?
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
biografias
Passei trinta e oito anos convencida
que era egomaníaca. Depois… bem, depois pediram-me que escrevesse uma “pequena
biografia” e foi então que descobri que não tenho nada para lá pôr.
domingo, 11 de novembro de 2012
placebos
Enfiar a
mente num espartilho e mantê-la, assim, controlada e quieta, não é tarefa para
meninos. Uma dieta emocional à base de doze horas diárias de árduo trabalho intelectual
e mais três de todas as Jane Austen deste mundo, em versão áudio-livro e em
inglês, para tornar tudo mais insuportável, não foi suficiente para disciplinar
a minha mente e impedi-la de andar por aí a vaguear por becos perigosos e mal
frequentados. Convencida que o problema não estava no remédio e antes na dosagem,
intensifiquei o tratamento para cinco horas diárias da Moby Dick, do Melville. Deve
dormir-se o menos possível para não dar tréguas a uma mente insubmissa e pouco
escrupulosa que se aproveita da redução da vigilância para estabelecer contacto
com o coração.
Entretanto,
dei-me conta que além de me ter caído metade do cabelo, adquiri uma estranha
expressão de louca. Penso que são efeitos secundários do tratamento. Mas também
é possível que me esteja a transformar num fantasma.
Parece-me
o justo destino de quem entregou a alma e cortou relações com o coração.
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
terça-feira, 6 de novembro de 2012
os donos do circo
É possível dividir a humanidade
entre aqueles que se apaixonam por pessoas e os que apenas se apaixonam pelo
sentimento que algumas pessoas lhes suscitam. De um lado e do outro são sempre
os mesmos. Claro que apenas os últimos conseguem essa coisa da felicidade
amorosa. O mistério reside na incapacidade de aprendizagem por parte dos primeiros.
domingo, 4 de novembro de 2012
sábado, 3 de novembro de 2012
Das coisas que são realmente graves e têm a capacidade de me chatear 2
Que a Mara e o Fábio, lá da Casa dos Segredos, não consigam viver em permanente harmonia e felicidade doméstica enchendo os nossos coraçõezinhos de esperança e fé nas capacidades infinitas do amor.
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Cuca; oh se eu pudesse mudar o mundo...
terça-feira, 30 de outubro de 2012
marcadores
Arrumo um livro e cai-me aos pés
a fotografia dos pés dele.
O livro está cheio de crimes. Em
capítulos, secções, subsecções. Não consigo perceber porque utilizei esta
fotografia, como marcador, no livro que nos transforma a todos em criminosos.
Apanho-a do chão e volto a colocá-la, ao acaso, entre as páginas do livro. Algures entre a burla e a falsificação.
Apanho-a do chão e volto a colocá-la, ao acaso, entre as páginas do livro. Algures entre a burla e a falsificação.
Esse espaço onde cabe o amor.
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Cuca; a post idade da inocência.
domingo, 28 de outubro de 2012
sábado, 27 de outubro de 2012
Disney Channel is back
Seria de supor que a itinerância
constante nos abre a vida a um imenso rol de rostos e a uma roda viva de
experiências novas e irrepetíveis. Estatisticamente sim. Mas comigo não. O meu
mundo é tão minúsculo e feito de repetições de personagens que às vezes temo
que tudo não passe de uma conspiração ao jeito de “The Truman Show”. As seis
pessoas que conheço insistem em aparecer-me, com toda a improbabilidade do mundo,
onde quer que eu esteja e sem a menor colaboração da minha parte.
Foi assim que encontrei na rua o
meu ex senhorio israelita da planície alentejana que já foi personagem neste blogue.
Uma hora depois, sentados num
muro:
- Kierkegaardiana? Mas que raio é isso?
- oh, esqueça. Daria muito
trabalho a explicar e não tem assim tanto interesse.
- Foi alguma doença que apanhaste
nas ilhas?
- Não me trate por tu. Já falámos
sobre essa questão do excesso de familiaridade.
- Mas agora já não sou teu
senhorio… não temos impedimentos de ordem ética.
- Você não sabe o que está a
dizer, pois não? E não use essa expressão na minha frente que me desencadeia pensamentos angustiantes.
- Pensamentos angustiantes tenho eu por tu usares esse vestidinho na minha frente.
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Cuca; sou do sítio do picapau amarelo.
Devolver ao mar o que o mar apenas nos emprestou
Escolhi uma noite sem lua nem
estrelas. Por ser para ti, usei o meu melhor vestido de seda cinzenta e calcei
uns sapatos prateados. A hora era aquela em que o mundo é entregue aos insones
e aos desesperados e as praias são cantos esquecidos de existência. Cheguei contigo
pela mão absortos no silêncio e na escuridão total. Para que a música não me
distraísse dos batimentos do coração. Para que com a luz não viesse a sombra e
nela a denúncia da demência no reflexo onde tu não aparecerias.
Apertei-te a mão com mais força
quando entrámos no mar gelado e fomos varridos pela primeira onda de noite e
vazio e escuro e nada. Deixei-me enrolar na turbulência e afundar e emergir. Nadei
até ao limite das minhas forças na direção de coisa nenhuma. Reconheci a
derrota para o mar e negociei o preço da minha vida.
O mar deixou-me fazer a viagem de
regresso da escuridão.
Apenas para voltar à praia. Nua e
de mãos vazias.
Talvez, ao fundo, houvesse um
barco a afastar-se na direção da linha do horizonte.
Nunca o saberei. O preço que paguei pela minha vida foi a promessa de não olhar para trás.
Nunca o saberei. O preço que paguei pela minha vida foi a promessa de não olhar para trás.
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Soren & Choo
It is told that there was once a man who through his misdeeds deserved the punishment which the law meted out to him. After he had suffered for his wrong acts he went back into ordinary society, improved. Then he went to a strange land, where he was not known, and where he became known for his worthy conduct. All was forgotten. Then one day there appeared a fugitive that recognized the distinguished person as his equal back in those miserable days. This was a terrifying memory to meet. A deathlike fear shook him each time this man passed. Although silent, this memory shouted in a high voice until through the voice of this vile fugitive it took on words. Then suddenly despair seized this man, who seemed to have been saved. And it seized him just because repentance was forgotten, because the improvement toward society was not the resigning of himself to God, so that in the humility of repentance he might remember what he had been. For in the temporal, and sensual, and social sense, repentance is in fact something that comes and goes during the years. But in the eternal sense, it is a silent daily anxiety. It is eternally false, that guilt is changed by the passage of a century. To assert anything of this sort is to confuse the Eternal with what the Eternal is least like -- with human forgetfulness.
Purity of Heart is to Will One Thing, Soren Kierkegaard
Os sapatinhos são Jimmy Choo
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