sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O Homem Insuportável (Último Acto)

Aos que ficaram com o coração tolhido de peninha do Homem Insuportável, ou seja, a ti Medusa, informa-se que o desprezo de Cuca contribuiu para a formação de mais uma família feliz.
No espaço de um mês, o nosso Homem Insuportável encontrou a almejada felicidade conjugal ao lado de uma imigrante ilegal e anunciou ontem aos amigos que vai ser pai.
Segundo explicou, a partir do dia em que foi violentamente despachado por Cuca ("violentamente" é mera citação que não traduz qualquer intenção confessória por parte da autora), passou a ver a vida de outra forma, tendo-se transformado num novo homem (a autora diria, talvez num "homem", vá!).
Cuca ficou genuinamente feliz pela felicidade do Homem Insuportável, da Imigrante ilegal, da futura criança (que até pode ser que seja filha do Homem Insuportável, mas que se prevê que nasça de sete meses e gorda) e congratula-se pela sua capacidade de alterar radicalmente o destino das pessoas, fazendo-as felizes, ao não se envolver com elas.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Ou isso, então



Tinha um outro texto sobre Nietzsche, mas depois pensei melhor e resolvi fazer antes um post sobre sapatos. No fundo, é tudo a mesma coisa.

infinita paciência

(…)Quem quer adquirir a sua alma na paciência conhece que a sua alma não lhe pertence, que há um poder em subtracção ao qual ele tem que adquiri-la, um poder a partir do qual ele tem de adquiri-la e que ele mesmo a tem de adquirir. Ele nunca abre mão da paciência, nem mesmo quando a adquiriu, pois foi a paciência que ele adquiriu e, mal abandone a paciência, abandona também a aquisição; mas ele também não abre mão da paciência quando parece que o seu esforço foi gorado, pois, na medida em que o for, ele bem sabe que a razão tem que ser esta: que a paciência não era adequada ou que a razão foi a impaciência. Quer ele, portanto, adquira a paciência no terrível instante da decisão quer a adquira lentamente, é na paciência que ele adquire a alma(…).
In Soren Kierkegaard “Adquirir A Sua Alma Na Paciência”, Assírio & Alvim.

Perder a alma na impaciência, apesar de revelar uma indesejada desobediência a Kierkegaard, sempre é uma coisa mais bonita do que, por exemplo, vendê-la ao diabo. A parte chata é que entre perder um objecto ou vendê-lo, toda a gente sabe que a segunda é francamente mais gratificante.

Traças

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

supresas

olho pela janela e vejo que é verdade, o natal está mesmo ali em baixo, a olhar para mim com um daqueles sorrisos festivos de quem sorri por sorrir, de quem sorri de feliz. de quem sorri porque chegou. de quem sorri porque encontrou o que já nem procurava mais.

quis agarrá-lo mas ele diz-me que ainda faltam umas semanas.
não aceito.

ando a querer que seja natal. todos os dias.



terça-feira, 23 de novembro de 2010

Nasceu uma Estrelinha



Bem-vinda, C.

Metros quadrados de uma estória devoluta

Uma rua cheia de árvores nuas, carros e pessoas com sacos. E os presentes dentro dos sacos a passarem pela minha ausência. Encostada à porta. Daquilo que também foi a tua casa. Em breve já nem sequer casa de ninguém. Agora cada vez mais vazia. Com a miúda atrasada para me devolver as chaves. E a minha voz sumida ao telefone a dizer que sim que esperava. A ausência de mim encostada à nossa porta. Ao que foi a tua porta. Sem sacos com presentes. À espera. Talvez à tua espera.
- Podemos subir agora?
A miúda a abrir-me a porta da minha casa. À minha frente. A dar-me tempo para reconhecer o elevador onde me começavas a abraçar. E eu a mover-me lentamente. Incapaz de carregar no botão certo. Seria o C ou o D? Foi há tantos anos. E a miúda cheia de pressa e de sacos. A estranhar a minha lentidão. Foi ontem. A minha recusa em sair do elevador. A respiração cada vez mais lenta.
Como uma velha.
Ela a abrir a porta de casa. E eu a fazer o favor de entrar. Para receber as chaves. Talvez ainda as que mandei fazer para ti. Talvez as que viveram dentro dos teus bolsos. E a mesma cómoda onde as deixavas cair à entrada. O barulho que me anunciava a proximidade dos teus braços. Agora apenas a avisar da partida de uma miúda. A casa já vazia. Com a porta do quarto entreaberta a atirar-me à cara um colchão despido.
- É melhor conferir para ver que está cá tudo.
E eu a olhar para a miúda. A saber que não estava lá nada. O espaço dos teus fatos no roupeiro vazio. Eu a não resistir a abrir a porta do roupeiro. Como se pudesses ter voltado na noite. Na minha ausência. Um presente dentro de um saco.
A miúda a querer entregar-me uma caixa cheia de cartas por ler. O teu nome nas cartas. Com pressa para me devolver a casa. Sem perceber o meu olhar decepcionado para o roupeiro. Para o colchão despido. Para a vista das traseiras. Para o candeeiro apagado.
- Está tudo como quando cá entrei.
E não estava nada como quando saímos dali juntos. Para uma outra nossa casa. Onde os teus fatos ainda apodrecem. E ainda há cartas com o meu nome. Mas onde já não deixo chaves em cima da cómoda.
E eu a dizer que sim à miúda. Que estivesse tranquila. Que só não sabia o que haveria de fazer agora com aquela casa. Com os meus metros quadrados de passado devoluto. O meu corpo a deixar-se cair em cima do banco da entrada. Ou da tua saída. A mesma mão indecisa entre afastar a caixa das cartas ou as lágrimas da cara. Que haveria de tratar disso depois. E a miúda, cautelosa, com a vergonha de quem ouve uma conversa íntima de terceiros.
- Podemos descer, então?
E eu a dizer-lhe que sim, que estava pronta para ir. Mas a permanecer na imobilidade absoluta. Dobrada sob o peso excessivo do meu casaco de viúva. As costas da mão a afagar uma parede fria. As tuas costas nessa parede. Como na noite em que me despedi de ti.
E depois, eu própria a querer acabar com aquilo rapidamente. A sacudir as mãos. A trancar a casa vazia. Com as chaves dela. As tuas chaves. A virar as costas aos restos mortais da nossa existência. A fingir procurar coisas dentro da mala. A evitar encontrar-me no espelho do elevador. A esquecer-me da miúda. A descer para uma rua cheia de árvores nuas, carros e pessoas com sacos. E presentes.

A trancar a dor da tua fingida ausência.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Habilidades



Equilibrismo é um termo genérico que abrange uma ampla gama de habilidades físicas que envolvem a capacidade de manter o equilíbrio.
Alguns exemplos exibições (normalmente
circenses) de equilibrismo são a manipulação de malabares, balizas, monociclo, perna de pau, funambulismo (corda bamba), devil sticks e algumas acrobacias.
In Wikipedia

Na arte do equilibrismo, a minha preferência vai, claramente, para o funambulismo. A corda bamba, a uns bons metros de um solo pejado de feras é uma espécie de habitat natural cuquiano.

Here we go again...


almas

a questão de se partilhar música é que ela tem, na saudade,
o mesmo efeito do sal na ferida.

sábado, 20 de novembro de 2010

manhã de natal

vi-te esta noite. debaixo de chuva. maltrapilho a olhar para a janela do primeiro andar. a tremer de frio. a querer tanto entrar. tanto. a saber que nunca te vão tratar tão bem como aqui. a querer. tanto. desci. olhei-te nos olhos e disse: sobe. estiveste horas com um pé na soleira. e o outro atrás. a chuva sempre a cair. o quente que te chegava ao rosto das lareiras acesas dentro de casa a fazer-te querer mais. o cheiro de casa. tanto querer. em camisa, eu já não ia suportar o frio por muito mais tempo. estendi a mão algumas vezes. viraste as costas e desapareceste no escuro do laranjal que começa a seguir ao tanque.
acabei por adormecer. gelada. não sei por quanto tempo. já havia luz no quarto quando me virei e encontrei os teus olhos. abertos. a decorar-me os cabelos. sorriste. disseste que era bom estar em casa.

Consciência de classe 3




Se tiveres estudado os racionalistas, os existencialistas e os niilistas ele acusar-te-á de não o conheceres. Se fores aluna de Paulo Coelho e companhia, limitar-se-á a ser ele próprio, ao teu lado.

Linguagem avatar


Estava eu ligeiramente obcecada com o meu recente historial errático em matéria de avaliação de personalidades, quando me apercebi das razões do meu logro.
Temos os SMS, o Facebook, o MSN, o Skype, o Google e os Blogues como formas de não comunicação. São muito úteis na arte de camuflar a clarividência de um sorriso, ou da sua falta, em enigmas linguísticos que, vai-se a ver, não querem dizer rigorosamente nada.
Nalguns casos, o vício intensifica-se ao extremo de o virtual se estender aos próprios sentimentos, como se a forma de expressão levasse a melhor sobre a mensagem. É a emoção à distância de um on, ou de um off, consoante as conveniências do instante. E não falta quem escolha viver a vida como se fosse um avatar de si próprio.
Quando se trabalha com a verdade, sabe-se bem os equívocos que se evitam quando se perde a paciência para os sinais de fumo e dois pares de olhos se encontram na mesma dimensão.
Eu não perdi nenhuma das minhas capacidades de avaliadora de personalidades. Só não estava desperta para a necessidade de refazer a fórmula, introduzindo-lhe o factor “esquizofrenia avatar”.

Manhã de sol numa esplanada em cima do mar



O café vem sem o adoçante e o pastel de nata vem com a inútil canela. Não tento corrigir o empregado de mesa. Se não aprendeu em seis meses, é pouco provável que venha a aprender algum dia.
A minha melhor qualidade é a capacidade de resignação perante a incapacidade alheia.
As duas mulheres, sentadas do meu lado direito, dividem a atenção entre um bebé e um cão. Um dos dois faz uns ruídos irritantes que perturbam a concentração exigida pela profundidade estonteante das imagens da revista Elle. Ergo o sobrolho para o cão, em quem deposito mais esperanças do que na criança que se vinga de mim soltando um guincho animalesco. As duas mulheres acham graça.
Atrás de mim, sentado sozinho numa mesa, está um homem que faz telefonemas consecutivos a mulheres diferentes. O meu café ainda está a meio e já ele acordou três. Sempre com o mesmo tom de voz. Dispensa a todas o tratamento por menina. E a todas queria apenas ser o primeiro a dar-lhes um beijinho de bom dia. Pergunto-me se será um novo serviço telefónico, daqueles que se subscrevem através de uma assinatura mensal. A voz melosa desvanece-se rapidamente quando decide desancar o empregado que trocou o pão caseiro pelo pão de forma. Ao contrário de mim, este homem não tem nenhuma capacidade de resignação perante a incapacidade alheia.
À minha frente sentou-se o casal típico desta esplanada. Vejo-o todas as manhãs de sábado, encarnado em diferentes corpos. Ele é inglês, velho e mais ou menos rico. Ela é uma portuguesa, normalmente agente imobiliária. Faz uma eficiente utilização do inglês deficiente para tentar convencer o velho que está interessada nos problemas dele. É solícita na tradução ao empregado do pedido de um café sem leite. Quando se quer um café sem leite, pede-se um café. Toda a gente sabe isso. Aposto comigo própria que o inglês acabará por beber um café com leite e, dez minutos depois, devo-me cinco euros. Estes dois ainda não dormiram juntos. Mas se ela não tiver capacidade de resignação perante a incapacidade alheia, uma conhecida marca de comprimidos azuis acabará por lhe patrocinar uma deprimente noite de sexo num aldeamento algarvio.
Para um sábado de manhã, toda esta exibição de existência humana parece-me excessiva e despudorada. Desisto da exigente actividade mental de ver fotografias na revista Elle, decido voltar para casa e peço a conta.
O cão aproxima-se para me avisar que deveria subscrever um desses modernos serviços telefónicos de bons dias menina, acreditar nas potencialidades do sexo com ingleses idosos e levar para casa um bebé guinchador.
O empregado engana-se e traz-me a conta das duas mulheres. Eu pago-a em silêncio.
Afinal, a minha melhor qualidade é a capacidade de resignação perante a incapacidade alheia.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

duendes pululantes


Como se não me bastassem as insónias crónicas, ultimamente, as minhas escassas horas de sono são conspurcadas com duendes pululantes. Fui investigar a cura e dei de caras com o prenúncio:

Os duendes são personagens animadas da mitologia europeia e são semelhantes às fadas e aos goblins. Nos sonhos, as loucuras que os duendes cometem podem conduzir o sonhador à pobreza e, como tal, devem estar o mais atento possível a todos os problemas que possam surgir.
• Ao sonhar que vê duendes, isso significa que poderá ter problemas com o que parece ser um prazer momentâneo;• Ao sonhar que você é o duende, isso quer dizer que a loucura das suas ações podem conduzi-lo à pobreza
.

In Sonharcom.com

Não estando certa que nos sonhos não seja, eu própria, um dos duendes pululantes, fico na dúvida sobre o meu destino: Uma pobre louca ou uma louca pobre?

Eu conto-te como foi

Como uma lâmina que invade um corpo incrédulo
que não se sabe baixar para receber a facada,
nem se deixa escorregar por uma parede fria,
recusando-se a deixar atrás de si uma mancha
vermelha

e sem a graça de, por um mísero instante, perder a noção da realidade,
um corpo a descodificar lentamente uma informação
que a mente, virgem daquela espécie de dor,
não pode, não sabe reconhecer

embrulhada numa nova forma de violência
(a gratuita, a inútil, a bárbara)
com o vício a obrigar o corpo a erguer-se,
a mesma expressão resignada de outros cadafalsos
embrulhada numa velha forma de dignidade
a esconder as feridas nos casacos de pele.

Só porque as minhas margens não coincidem com o boneco
traçado a giz no chão da estrada,
Não significa que o sangue que corre não seja o meu.

E se foi há tantos dias,
E se foi tão gratuito, inútil e bárbaro
Porque é que eu ainda não consigo respirar?

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Admito

Talvez devesse ter batido à porta em vez de a tentar arrombar.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Consciência de classe 2



Consta que Cesare Pavese terá escrito em Il Mestiere de Vivere que "Uma mulher que não seja idiota, mais cedo ou mais tarde, encontra um farrapo humano e tenta salvá-lo. Às vezes consegue. Mas uma mulher que não é uma idiota, mais cedo ou mais tarde, encontra um homem são e redu-lo ao estado de farrapo. Consegue-o sempre."
Não sei nada sobre isso. O que sei é que um homem idiota, quando tenta salvar uma mulher, consegue sempre transformá-la num farrapo.

Coisas más que o Inverno traz

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Grandes Filósofos


After all...tomorraw is another day.
Scarlett O´Hara, in Gone With the Wind