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domingo, 18 de abril de 2010

O valor das coisas ou de como o poeta estava errado




Fernando Pessoa disse que o valor das coisas não está no tempo que elas duram mas na intensidade com que acontecem.
Fernando Pessoa existiu nos dias da lentidão, em que uma viagem do Porto a Lisboa ainda não demorava duas horas e um quarto, os quotidianos não se absorviam no ápice da pressa, as mensagens não chegavam ao destinatário em menos de trinta segundos, o verniz das unhas não estalava em dois dias.
O contexto do poeta na definição do tempo que não dura era o de seis meses seguidos, uma estação inteira ou, no mínimo, a gestação de um rato.
Fora desse tempo de dias marcados por relógios de corda, a maioria das vezes parados nas paredes que lhes serviam de sustentáculo, o tempo que as coisas duram condiciona o seu valor.
Numa equação em que um dos termos é o custo e o outro o benefício, até a longevidade de uma mera sensação é condicionante da memória da sua intensidade.

terça-feira, 9 de março de 2010

Os nazis não teriam perdido a guerra se eu estivesse nas Waffen-SS – ideias para casamentos.


Sou aquela pessoa que todos querem convidar para as suas festas, particularmente casamentos. O temor reverencial que provoco naqueles que melhor me conhecem é extático. Sou uma espécie de fasquia, um garante de qualidade. Para mim, a festa tem que ser, no mínimo, o máximo. Reparo em tudo. Mesmo. Ainda que esteja a exibir o meu sorriso simpático a vossa festa pode estar a ser um desastre para os meus parâmetros, por muito que dancem os convivas.

99.9% das festas de casamento são um martírio, não há-que negar. Raríssimas vezes não achei mal empregue o investimento feito na roupa, sapatos, mala, cabeleireiro e maquilhagem profissional.

Enfim,

a lagosta vai estar seca,

à homilia vai faltar inspiração,

vai estar calor demais, o que vai fazer com que os convidados se pareçam com quadrados de manteiga fora do frigorífico,

vão faltar flores nos toillets,

algum garçon vai apresentar os punhos da camisa dois tons de branco menos alvos que a toalha da mesa, outro vai trazer o salto do sapato cambado,

as frutas estarão arranjadas em esculturas zoomórficas patéticas,

não vão poder pagar a uma orquestra e o grupo musical vai acabar por tocar versões unplugged dos Gipsy Kings, ou o medley de música gravada vai incluir Gloria Gaynor.

Basta falhar um pormenor, se eu achar que é fundamental...

Se correr mesmo muito mal abandono a festa com aquele ar de enfado característico da esfinge e desenrolo um monólogo de meia hora na viagem de volta a casa pontuado de palavras como “fraco”, “pouco”, “demais”, “garraiada”.

O vosso casamento (nunca me convidem para a vossa “boda” num “salão para banquetes“!) pode ter-vos dado grande trabalho a preparar mas eu vou estar lá para reparar. Dir-me-ão: “mas não temos culpa que...” E eu responderei: “eu também não tenho!”

Convidar-me para o vosso casamento é estar uns furos acima, é um investimento naquilo que podem querer para o “dia mais feliz das vossas vidas”.

Vou com todo o gosto.