sábado, 10 de outubro de 2015

Da psique coletiva


OS QUE PASSAM A CORRER 

Se vamos passear à noite por uma rua e um homem que ao longe se avista - porque a rua sobe à nossa frente e a lua está cheia - vem a correr de encontro a nós, então não o vamos agarrar, apesar de ele ser fraco e andrajoso, apesar de vir uma pessoa atrás dele e a gritar, vamos antes deixá-lo passar. 
Porque é de noite e não temos culpa que a rua seja a subir e esteja iluminada pela lua, e, além do mais, talvez esses dois homens tenham organizado a caça para seu divertimento, talvez os dois persigam um terceiro, talvez o primeiro esteja a ser injustamente perseguido, talvez o segundo queira matar e nós seríamos cúmplices do crime, talvez os dois não saibam nada um do outro e cada qual apenas corra, por sua própria iniciativa, para a sua cama, talvez sejam sonâmbulos, talvez o primeiro esteja armado.
E afinal de contas não podemos nós estar cansados, não é verdade que bebemos muito vinho?Estamos contentes por também já não vermos o segundo homem.


Franz Kafka, Os Contos, 1. volume, Assírio & Alvim 

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