domingo, 10 de maio de 2015

Tribos

A amizade é uma ciência oculta de misteriosas afinidades. E se ao amado não se lhe exige menos do que a perfeição, ao amigo exige-se-lhe apenas que seja ele próprio.
Perdi-o há dez anos por entre um corredor de suscetibilidades mal esclarecidas e o nevoeiro da indiferença fingida. Deixei-o ir convicta que voltaria depressa e que se não voltasse isso quereria dizer apenas que era melhor que tivesse ido.
Nem ele voltou depressa nem eu construí pontes no seu encalço. Depressa, demasiado depressa, passaram-se dez anos.
Voltou ontem. Igual ao que foi, como sempre acontece quando os laços são nós.
No fundo, voltou na primeira oportunidade, com esse miserável detalhe de a primeira oportunidade ter demorado dez anos a fazer-se.
Só não digo que foi como sempre aqui houvesse estado porque se assim fosse, tenho a certeza, eu teria errado muito menos.
No fim da noite, quando o resto do grupo se reduziu aos mesmos que já éramos, foi-me impossível evitar pensar na evidência das nossas carreiras tão bem construídas sobre vidas pessoais tão mal destruídas.
Mandaram-nos para longe de casa para aprendermos. Mas não estou segura que não tenhamos falhado todos a lição mais importante.
É por isso que voltamos. Ali, uns com os outros, é sempre como se estivéssemos a começar tudo outra vez. E tanta falta nos faz começar tudo uma vez mais.



12 comentários:

  1. Recomeçar é como renascer, uma nova oportunidade. :)

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    1. No fundo, recomeçamos todas as manhãs. A prática de reincidir no erro é que nos faz esquecer disso.

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  2. Ai de mim, Cuca, que me reli nas suas palavras. Com a agravante de se terem passado 16 anos e sem razão nenhuma que não a distância, nunca esbatida pela mão vazia de cartas trocadas.
    Boa tarde,
    Outro Ente.

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    1. Escreva-lhe. Morre-se demasiado nos tempos que correm.

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  3. Pegar nas pontas soltas, dar um nó e tecer um ponto de partida. Um recomeço é poder antecipar desencontros e respirar tranquilamente.

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  4. A mim também aconteceu uma vez, uma alma gémea da minha fugiu-se-me, mas durou apenas três anos. Um momento houve que me bateu uma saudade tal que decidi fazer o que sabia resultar: esperei pelo seu aniversário e enviei-lhe mensagem logo à beira de virar a meia noite. Resultou. :-)
    Acho que é como diz o povo, se houver azeite dentro da garrafa, ele há-de vir à tona.

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  5. Como assim, "mandaram-nos"?

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    1. Podia dissertar sobre o facto de no meu tempo as famílias ainda mandarem. Mas foi mesmo uma questão de estilo.

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    2. Então a Pirata cedeu ao chamamento do oceano. Não será sempre assim, o apelo de partir e navegar, mais forte do que as amarras da amizade? As espirais do tempo podem ser traiçoeiras e fazer-nos crer que ainda é possível lançar as amarras no cais de outrora.

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    3. Caro anónimo, o apelo de partir e navegar, pelo menos no meu caso, é mais forte do que tudo. É essa a minha maior tragédia.

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