quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Noite

 Às vezes o peso da noite acorda-me no estremecimento de não saber onde tenho a espada. Entreguei-a há tanto tempo que devo ter esquecido onde a guardaram. Todos os armistícios têm o preço do desarmamento. E acordada não me queixo. Paguei pelo amor infinitamente menos do que vale. Pagaria, a cada dia, cem vezes mais. 

Porém, o sono faz-me ingrata. Sinto na jugular as ondas do velho mar e julgo que é do sal o que afinal é cheiro de terra. Ferve-me o sangue na memória da batalha. Peso a lâmina que me comanda o pulso. Todos os espelhos da casa refletem na alma a sombra que o dia não vê.
Depois acordo e tudo é paz, calor e terra e um rio na janela. 
E abraço-me com força à manhã. Para que a outra, que também sou, não me leve com ela.

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Nós


 Todas as gerações e os poentes.

Os dias e nenhum foi o primeiro.

A frescura da água na garganta

De Adão. O ordenado Paraíso.

O olho decifrando a maior treva.

O amor dos lobos ao raiar da alba.

A palavra. O hexâmetro. Os espelhos.

A Torre de Babel e a soberba.

A lua que os Caldeus observaram.

As areias inúmeras do Ganges.

Chuang Tzu e a borboleta que o sonhou.

As maçãs feitas de ouro que há nas ilhas.

Os passos do errante labirinto.

O infinito linho de Penélope.

O tempo circular, o dos estóicos.

A moeda na boca de quem morre.

O peso de uma espada na balança.

Cada vã gota de água na clepsidra.

As águias e os fastos, as legiões.

Na manhã de Farsália Júlio César.

A penumbra das cruzes sobre a terra.

O xadrez e a álgebra dos Persas.

Os vestígios das longas migrações.

A conquista de reinos pela espada.

A bússola incessante. O mar aberto.

O eco do relógio na memória.

O rei que pelo gume é justiçado.

O incalculável pó que foi exércitos.

A voz do rouxinol da Dinamarca.

A escrupulosa linha do calígrafo.

O rosto do suicida visto ao espelho.

O ás do batoteiro. O ávido ouro.

As formas de uma nuvem no deserto.

Cada arabesco do caleidoscópio.

Cada remorso e também cada lágrima.

Foram precisas todas essas coisas

Para que um dia as nossas mãos se unissem.


In Jorge Luis Borges, As Causas

Trad.: Fernando Pinto do Amaral

sábado, 17 de outubro de 2020

Enquanto houver dálias ao sábado...

 Dizem-me que no mundo, na europa, no país, em Lisboa, na minha freguesia, há ameaças, vírus e políticos, internamentos, doentes, mortos, aplicações e máscaras. Não sei nada sobre essas coisas. 

Ontem, a maré foi das grandes e o rio ia cheio e espelhado pela falta do vento. Hoje amanheci entre o sol e os braços do meu amor. Comprei dálias no mercado biológico aqui ao lado e demorei-me, ao som do jazz, a dispô-las na jarra. 

Se escolheres bem e tiveres muita sorte e tiveres vivido muito tempo dentro de um poema, pensei, talvez a tua vida, toda a tua vida, possa ela própria transformar-se num conjunto de estrofes harmonizado por um sentimento.

Agora, o meu amor toca guitarra aqui ao meu lado e, de alguma forma, eu sei:

Enquanto houver dálias ao sábado, tudo estará bem. 


quarta-feira, 17 de junho de 2020

Céus


Do flexiban

Dois comprimidos mais tarde, deitada de costas na cama, numa penumbra de sesta, vigiada pelo roncar do cão, adormeci a contratura que vive agarrada ao meu pescoço há mais de dez anos. Perguntam-me por que  não me livro dela. É uma contratura de estimação. Um repositório discreto de todos os enervamentos e angústias. Testemunha silenciosa de bagagens escondidas no fundo do rio. Dor amiga que avisa dos excessos. Álibi perfeito de relaxantes musculares. Essa pequena maravilha do reino da ciência.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Balada do Mar Salgado

Quando março começou seguiu-se junho e já ia na metade.
Perdi a primavera na minha cidade. Não vou falar dos jaracandás. Toda a gente fala nos jaracandás e até esse tempo já passou. Vou falar no frio das manhãs de primavera. Nunca passo tanto frio como naqueles dias em que decido que estará calor à tarde. Acontece todos os dias entre março e junho. Fez-me falta o frio das manhãs de primavera. É um frio que nos insulta, que nos coloca no nosso insignificante lugar, que nos emagrece. É o segundo ano que perco esse frio. O outro ano em que também o perdi foi um ano memoravelmente mau.
Cá em casa estamos bem, obrigada. Quando alguém tosse perguntamos com um ar descomprometido mas interessado “– covid?”.  Até agora as respostas têm sido sinceramente negativas.
Passámos três maravilhosos meses de quarenta, isolados mas felizes, entre o ócio isento de culpa e a comodidade dos relógios de sol avariados. Lemos. Cozinhámos. Tocámos a duas mãos uma pauta inteira. Banimos o pouco que ainda havia de televisão. Por pudor, fingi lamentar-me o mais que pude.
Agora já não deixamos os sapatos fora de casa. Não desinfetamos as mãos sempre que passamos por alguém e não passeamos o cão vinte vezes por dia. Não podendo manter a quarentena, esquecemo-nos completamente do pretexto e acumulamos máscaras cirúrgicas pelos cantos da casa sem sequer saber a quem pertencem.
Não voltei, ainda, a cruzar o mar.
Mas o mar, que é meu elemento, corre-me nas veias e, ocasionalmente, no rosto. Está em mim mesmo quando o meu único horizonte é a terra e as árvores de que são feitos os braços com que me embala o meu capitão.
Talvez talvez talvez, só, até nem precise de voltar.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Trade off

Às vezes, quando a noite é longa e o fresco da rua não me chega aos pés e crescimento das unhas me impede de dormir, às vezes, quando o resto da casa sonha o aroma dos lilases e eu sou submersa pela sombra dos poemas ao lado da cabeceira, às vezes, nessas alturas, queria que durante sessenta minutos, nem mais um segundo, a felicidade desse a trégua necessária à sobrevivência da vontade de escrever.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Na atividade da limpeza assim como na passividade da confidência

(Mulheres de limpeza: por regra, nunca trabalhem para os amigos. Mais tarde ou mais cedo, ficam ressentidos por sabermos tanto acerca deles. Ou então deixamos nós de gostar deles, por sabermos.)

Lucia Berlim, Manual para mulheres de limpeza, Alfaguara

domingo, 5 de abril de 2020

Diagnósticos

“Propõe-se que a felicidade seja classificada como uma perturbação psiquiátrica e incluída em futuras edições dos manuais de diagnóstico especializados sob a nova designação de perturbação afetiva, do tipo agradável. Numa resenha da literatura relevante está demonstrado que a felicidade é estatisticamente anormal, consiste num discreto aglomerado de sintomas. Está associada a uma ordem de anomalias cognitivas e provavelmente reflete o funcionamento anormal do sistema nervoso central.”

Phillip Roth, Teatro de Sabath, Publicações Dom Quixote

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Éramos felizes, mas ao menos sabíamos.

A manhã foi daquele azul assustador e belo que, sabem-no os corações intranquilos, costumam prenunciar a tempestade. 
Passeei o cão. Trabalhei meia hora. Treinei no piano o triplo desse tempo. Atendi o peixeiro. Fiz o almoço. Bebemos o vinho. Li Roth. Fiz uma sesta. Passeámos junto ao  rio. Fizemos o jantar ao som das mornas e dançámos na cozinha. 
Ouço-o tocar ali ao lado enquanto ajeito palavras que talvez vejam a luz do dia ou morram junto de todas as tantas outras que guardei para mim própria.
Agora, os dias são todos iguais. 
De um azul assustador e belo que, sabem-no os corações intranquilos, costumam prenunciar a tempestade. 

segunda-feira, 23 de março de 2020

Amanhã é o mesmo dia

Oh, e esse novo emprego que é sobreviver? 

terça-feira, 17 de março de 2020

Boletim das 23 horas

Aqui em casa continuamos assintomáticos.
Li um terço do último Rushdie; vi uma comédia francesa sobre normandos nus e assei umas douradas no forno.
Enquanto o capitão Strut toca na guitarra o Spanish Romance e o cão dorme nos meus joelhos penso que amanhã vou ler um terço do último Rushdie; ver um filme italiano sobre Sicilianos e fritar filetes de peixe espada.

Não toques nos objetos imediatos


“Não toques nos objectos imediatos.
A harmonia queima.
Por mais leve que seja um bule ou uma chávena,
são loucos todos os objectos.
Uma jarra com um crisântemo transparente
tem um tremor oculto.
É terrível no escuro.
Mesmo o seu nome, só a medo o podes dizer
a boca fica em chaga.”
Herberto Helder 

segunda-feira, 16 de março de 2020

Sindérese

Definição: a suposta capacidade inata da mente humana para perceber os princípios básicos da ética e da moral. Um termo técnico de filosofia, que significa o princípio inato da consciência moral de todos os homens, que os dirige para o bem e os coíbe de praticar o mal.

In, A Casa Golden, Salman Rushdie

Movimento um post por dia até ao fim do Corona

Por amor deixei o mar. Silenciei o apelo das ondas até as não poder ouvir no búzio que guardo escondido numa gaveta. Por amor plantei-me na terra. Cobri os pés e esperei que as raízes chegassem ao outro lado do globo.
A troca foi justa. A terra recebeu-me com complacência e o amor tornou-a habitável.

Porém, ocorre-me agora, é da terra e não do mar que vêm os virus que nos prendem.

http://pipocomaissalgado.blogspot.com/2020/03/movimento-um-post-por-dia-ate-ao-fim-do.html?m=1

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

a redenção

Quando lhe perguntei sobre os seus pecados, disse-me que os esqueceu a todos. Quando lhe perguntei se foi medicamento, reza ou unguento, disse-me que nos braços do seu amante perdeu a memória dos seus crimes.
Assenti imediatamente.
Não creio que o amor liberte, dignifique ou salve. Mas não tenho nenhuma dúvida de que o amor, e só o amor, redime.

Mar é Morada de Sodade


Mornas

Dizia a morna que tocava ao fundo sala: 
— “mar é morada de saudade”. 
E eu pensei nos homens que afundam na imensidão do mar o peso de um coração carregado de saudade, alterando para todo o sempre a composição química do mar, acrescentada  do átomo da ausência. 
E pensei que até no verso de uma morna, que toca ao fundo da sala, é possível encontrar-se uma verdade. 

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Berliner

Desta vez não fui ver as unhas sujas do pés do Eros de Caravaggio. Também não vi, no Pérgamo, o pé da deusa de encontro à face do seu amor. Comi pretzels com champanhe e vi, na ópera, um rei que era regido por um mago.
As portas da babilónia, atravessadas por oito anos, pareceram-me mais insignificantes do que da primeira vez.
Na última noite, aprendi o que já sabia: “o amor, dizem, é a dança dos corações.”