quarta-feira, 8 de abril de 2020

Na atividade da limpeza assim como na passividade da confidência

(Mulheres de limpeza: por regra, nunca trabalhem para os amigos. Mais tarde ou mais cedo, ficam ressentidos por sabermos tanto acerca deles. Ou então deixamos nós de gostar deles, por sabermos.)

Lucia Berlim, Manual para mulheres de limpeza, Alfaguara

domingo, 5 de abril de 2020

Diagnósticos

“Propõe-se que a felicidade seja classificada como uma perturbação psiquiátrica e incluída em futuras edições dos manuais de diagnóstico especializados sob a nova designação de perturbação afetiva, do tipo agradável. Numa resenha da literatura relevante está demonstrado que a felicidade é estatisticamente anormal, consiste num discreto aglomerado de sintomas. Está associada a uma ordem de anomalias cognitivas e provavelmente reflete o funcionamento anormal do sistema nervoso central.”

Phillip Roth, Teatro de Sabath, Publicações Dom Quixote

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Éramos felizes, mas ao menos sabíamos.

A manhã foi daquele azul assustador e belo que, sabem-no os corações intranquilos, costumam prenunciar a tempestade. 
Passeei o cão. Trabalhei meia hora. Treinei no piano o triplo desse tempo. Atendi o peixeiro. Fiz o almoço. Bebemos o vinho. Li Roth. Fiz uma sesta. Passeámos junto ao  rio. Fizemos o jantar ao som das mornas e dançámos na cozinha. 
Ouço-o tocar ali ao lado enquanto ajeito palavras que talvez vejam a luz do dia ou morram junto de todas as tantas outras que guardei para mim própria.
Agora, os dias são todos iguais. 
De um azul assustador e belo que, sabem-no os corações intranquilos, costumam prenunciar a tempestade. 

segunda-feira, 23 de março de 2020

Amanhã é o mesmo dia

Oh, e esse novo emprego que é sobreviver? 

terça-feira, 17 de março de 2020

Boletim das 23 horas

Aqui em casa continuamos assintomáticos.
Li um terço do último Rushdie; vi uma comédia francesa sobre normandos nus e assei umas douradas no forno.
Enquanto o capitão Strut toca na guitarra o Spanish Romance e o cão dorme nos meus joelhos penso que amanhã vou ler um terço do último Rushdie; ver um filme italiano sobre Sicilianos e fritar filetes de peixe espada.

Não toques nos objetos imediatos


“Não toques nos objectos imediatos.
A harmonia queima.
Por mais leve que seja um bule ou uma chávena,
são loucos todos os objectos.
Uma jarra com um crisântemo transparente
tem um tremor oculto.
É terrível no escuro.
Mesmo o seu nome, só a medo o podes dizer
a boca fica em chaga.”
Herberto Helder 

segunda-feira, 16 de março de 2020

Sindérese

Definição: a suposta capacidade inata da mente humana para perceber os princípios básicos da ética e da moral. Um termo técnico de filosofia, que significa o princípio inato da consciência moral de todos os homens, que os dirige para o bem e os coíbe de praticar o mal.

In, A Casa Golden, Salman Rushdie

Movimento um post por dia até ao fim do Corona

Por amor deixei o mar. Silenciei o apelo das ondas até as não poder ouvir no búzio que guardo escondido numa gaveta. Por amor plantei-me na terra. Cobri os pés e esperei que as raízes chegassem ao outro lado do globo.
A troca foi justa. A terra recebeu-me com complacência e o amor tornou-a habitável.

Porém, ocorre-me agora, é da terra e não do mar que vêm os virus que nos prendem.

http://pipocomaissalgado.blogspot.com/2020/03/movimento-um-post-por-dia-ate-ao-fim-do.html?m=1

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

a redenção

Quando lhe perguntei sobre os seus pecados, disse-me que os esqueceu a todos. Quando lhe perguntei se foi medicamento, reza ou unguento, disse-me que nos braços do seu amante perdeu a memória dos seus crimes.
Assenti imediatamente.
Não creio que o amor liberte, dignifique ou salve. Mas não tenho nenhuma dúvida de que o amor, e só o amor, redime.

Mar é Morada de Sodade


Mornas

Dizia a morna que tocava ao fundo sala: 
— “mar é morada de saudade”. 
E eu pensei nos homens que afundam na imensidão do mar o peso de um coração carregado de saudade, alterando para todo o sempre a composição química do mar, acrescentada  do átomo da ausência. 
E pensei que até no verso de uma morna, que toca ao fundo da sala, é possível encontrar-se uma verdade. 

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Berliner

Desta vez não fui ver as unhas sujas do pés do Eros de Caravaggio. Também não vi, no Pérgamo, o pé da deusa de encontro à face do seu amor. Comi pretzels com champanhe e vi, na ópera, um rei que era regido por um mago.
As portas da babilónia, atravessadas por oito anos, pareceram-me mais insignificantes do que da primeira vez.
Na última noite, aprendi o que já sabia: “o amor, dizem, é a dança dos corações.”

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Créditos

Quando lhe entreguei a espada de Pirata, para que a guardasse longe do meu punho, sabia que estava a fazer uma concessão ao diabo. Já outras vezes tinha dado a alma em penhor  e nunca por um prémio tão alto. Dois outonos mais tarde, queimo os documentos do resgate numa pira de assar castanhas.
O amor, já se sabe, tem um preço tão elevado que só a crédito o conseguiremos pagar. Uma vida inteira não chegaria para saldar a minha dívida. 
Já não tenho saudades do mar. Um poeta disse-me um dia que o mar é só sofrimento e que são de sofrimento todos os lugares do mar. Não tenho saudades de nada. Nem sequer dessa inquietude que é a saudade das saudades. 

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Canícula

Deitada no chão do quarto, absolutamente imóvel, como se temesse acordar o calor para uma birra nocturna, absolutamente imóvel, deitada no chão do quarto, ocorre-me que no alto mar o calor não se atrevia.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Um doce desassossego

Ouve: em primeiro lugar, sentimos uma coisa a mexer dentro de nós, um doce desassossego; depois, uma a uma, vão voltando as recordações, como os pombos-correios. De noite palpitam nos nossos sonhos, de dia voam connosco nos nossos giros e rodopios. Sentimos falta de saber, uns pelos outros, aquilo por que passámos, de comparar observações e de ter a certeza de que foi tudo verdade, é dessa maneira, os cheiros, os sons e os nomes de sítios já esquecidos voltam gradualmente à nossa memória  e fazem-nos sinal.

In, O Vento nos Salgueiros, Kenneth Grahame, Tinta da China

Detalhes da vida doméstica de uma Pirata desembarcada

O mar ainda me corre nas veias e as ondas balouçam-me nos ouvidos, mas debaixo dos nossos pés há já longos dias que só há terra. 
A velha chaise long do convés vive agora num burguês jardim de magnólias, daqueles que combinam pérgolas com barbecues e é deitada nela que, nas horas lentas, confirmo a superioridade literária dos russos. Num dos baús, trouxe Polly, o papagaio pirata, que agora se balouça feliz e sedentário no topo de uma yuca.Trouxe também a velha bandeira que o Capitão Strut me deixou pendurar num daqueles veleiros de betos que, noutros tempos, não hesitaria em bombardear. 
Quando o Capitão Strut quis saber do meu índice de felicidade, lamentei-me pela falta das estrelas, assassinadas nas luzes das cidades. Strut saiu por dez minutos e regressou com uma caixa de luzes comprada nos chineses. Tenho uma constelação instalada no céu deste jardim e devo dizer que nunca Orion me pareceu tão verdadeiro. 
Aprendi, também, que ao contrário do mar, que por natureza é um caminho, a terra, esse destino, dá-se em pertença. 

Na terra

Navegámos durante muitos dias e várias foram as luas que nos iluminaram o rasto. 
Guiámo-nos pelas estrelas; pela força dos ventos e por mapas caducados.
Por fim, pisámos a terra. 
Enterrámos as espadas. Construímos a morada. Pagámos as dívidas. Virámos o rosto para o pôr-do-sol. Sobrevieram o silêncio e a paz. 




quarta-feira, 8 de maio de 2019

marmelada de banana; bananada de goiaba; goiabada de marmelo; Sítio do Pica-pau Amarelo

Veio o amor e tem os seus olhos.
São olhos grandes e quentes, daqueles que abarcam o
Mundo num viés distraído e o fazem, ao Mundo, estremecer um pouco, de espanto e alegria. 
Libertei Eros, a criança assassina que mantive aprisionada na cave, e o pequeno Deus, desta vez, não me destruiu a sala de estar.
Chegaram o outono e a primavera e retornará o verão, essa estação de onde vieram todos os dias de todas as outras estações. 
Daqui de onde vos escrevo, o mar é profundo e as correntes são de aço. Mas as ondas são mansas e pode-se dançar ou dormir no seu embalo.
Cumpro todos os dias, escrupulosamente, o caderno de encargos da felicidade. 

domingo, 23 de dezembro de 2018

Estrela do Norte

És a madrugada que atravessa a noite negra
e ilumina a face mais sombria do meu ser.
És o sol de inverno que do alto se alquebra  
e os meus pés nus vem na manhã aquecer.

E és o vento sueste que faz das ondas mau caminho
e sopra aos meus ouvidos este imperfeito bolerinho.

És a porta e a praça da velha cidade a oriente
O jardim de laranjeiras que julgo ter sonhado
O lento render da tarde na lua que se pressente
O tigre, a górgona, o centauro, o cavalo alado.

e és a letra com que todas as estórias se escrevem
e és a pauta onde todas as notas de jazz fervem

E és a água, o vinho, o mel, a pimenta
O rasgo na carne, as veias abertas, o sangue
O travo do mar na minha boca sedenta

O sul para onde as  aves partem
E o norte onde os rios nascem.









segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Diário de Bordo

Este navio chega hoje ao Natal.
As luzes dos chineses já estão espalhadas pelos mastros e agora é esperar que isto não arda tudo. Pendurámos os prisioneiros no cesto da gávea unidos em forma de estrela. Ficou bonito. Com os que nos sobraram, fizemos um presépio vivo em que não nos falta nem a girafa, nem o leão, que o Circo Chen nos alugou a preços de saldo. Não temos menino jesus, mas como tencionamos desmontar tudo a 25, contamos que ninguém chegue a dar pela sua falta. Substituímos o rum pelo vinho quente com canela. Andhriminir, o cozinheiro viking, está desde ontem a treinar receitas natalícias. Polly, o papagaio Pirata, consciente da sua aptidão para sucedâneo de peru, não tem sido visto na cozinha. Os bloggers e os poetas, num raro armistício, andam pelo convés a ensaiar cânticos de Natal. São péssimos. Os ex presidiários, libertos desde que há muitos anos atrás embarcaram neste navio, continuam a cumprir a atávica tradição de passar estes dias a preencher requerimentos para saídas precárias. Álvaro de Campos, é claro, dorme embriagado. Guiliano, o Pirata Italiano, está ocupado a escrever postais de Natal para todas as suas namoradas. Esta vossa tudo menos humilde capitã, que deus-nosso-senhor-nos-livre-de-tamanho-defeito, senta-se finalmente na sua cadeira de pensar e pensa que este ano, antes de aqui chegar, já trazia o Natal no coração. 
(de seguida, é claro, vomita o cliché)