domingo, 14 de novembro de 2010

Bens de primeira necessidade


Explica-me, enquanto trocas de camisa


Explica-me
Se foi por mera conveniência semântica que chamámos amor à guerra…
Se jamais qualquer um dos dois se contentaria com menos do que a total anexação do outro…
Se o instinto genocida sobreviveu ao armistício posterior à divisão de territórios…
Explica-me
A expressão de mártir apátrida, a dor vazia nos olhos, o torcer das mãos de gigante,
Só porque regurgitei o teu coração e to servi, assim, mastigado
Numa bandeja de prata,
Design Versace.

truques de sempre





1. homem bonito com criança.
2. homem bonito com cachorro.

sábado, 13 de novembro de 2010

Parábolas mais que perfeitas


Kafka emendado
Diante do Amor está um porteiro. Um homem aparece e pede para entrar. O porteiro não autoriza. O homem pergunta se pode entrar mais tarde. O porteiro diz que talvez. O homem espreita pela porta aberta. O porteiro desafia o homem a tentar entrar, avisando que depois dele estão outros guardas, cada vez mais fortes. O homem desiste. O porteiro oferece uma banqueta ao homem, para que ele espere sentado. Espera anos e anos. Tenta súplicas e subornos. O porteiro aceita os subornos, «para que não penses que houve alguma coisa que não tentaste». Mas não deixa o homem entrar. No fim da vida, o moribundo faz ao porteiro uma pergunta que nunca fez: «Se todos aspiram ao Amor, porque é que durante todos estes anos mais ninguém tentou entrar?». O porteiro responde: «Aqui não podia entrar mais ninguém, porque esta porta era só para ti. E agora vou fechá-la».
Pedro Mexia, in Estado Civil, aqui

Consciência de classe 1


Há as mulheres que inspiram as obras. E há as mulheres que recebem a dedicatória das obras inspiradas pelas outras. E, sendo-se mulher, faz-se sempre parte de uma destas duas classes.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Sobre a verdade



E depois as pessoas ficam presas numa realidade moral paralela. A verdade confunde-se com brutalidade ou ingenuidade. A mentira é servida como se fosse o último grito da boa educação. Há os contextos, os cenários, as especiais razões, os valores mais altos. A relativização ao serviço do adormecimento da consciência. Uma neo-verdade. Uma ego-verdade. A mentira que mais convém.
E há também a indignação do incompreendido. Uma expressão no rosto muito própria de quem, em confronto com a mentira, tenta explicar que a sua verdade é um amiguinho imaginário.
Estou demasiado familiarizada com esta expressão. Odeio-a.

Quando o telefone toca


Habitualmente, o visor do telefone só revela este emissor quando há lágrimas pelo meio.
Vindas do outro lado, com queixume e lamentações.
Aliás, daquele lado, ao longo de cerca de 35 anos, sempre só ouvi lamentações.
Não lhe duvido da natureza dos sentimentos, embora tal de pouco valha se no mundo exterior praticamente tenho que os adivinhar.
A não ser que me venham pedir colo. E fazer queixas, e carpir mágoas alimentadas a delírios e obsessões.
Ontem foi mais ou menos assim. Embora a coisa tenha soado a expiação de culpas.
O móbil? A história do puto que pede € 15,00 emprestados ao pai para lhe comprar os € 30,00 que ganha por hora contra o regresso a casa uma hora mais cedo.
Aquele que, residindo a 2 km, não faz visitas, não procura nem dá notícias, a não ser quando se distrai muito, desfez-se em lágrimas ao contar o emocionante postal informático que qualquer outra alma atormentada lhe fez chegar.
E pronto, interrompidas que foram cerca de 3 ou 4 semanas de silêncio, considera-se feito o refresh.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

You don´t know me from the wind

(…)
You don't know me from the wind
you never will, you never did
I was the little jew
who wrote the Bible
I've seen the nations rise and fall
I've heard their stories, heard them all
but love's the only engine of survival
Your servant here, he has been told
to say it clear, to say it cold:
It's over, it ain't going
any further
And now the wheels of heaven stop
you feel the devil's riding crop
Get ready for the future:
it is murder.


There'll be the breaking of the ancient
western code
Your private life will suddenly explode
There'll be phantoms
There'll be fires on the road
and a white man dancing
You'll see a woman
hanging upside down
her features covered by her fallen gown
and all the lousy little poets
coming round
tryin' to sound like Charlie Manson
and the white man dancin'.


Give me back the Berlin wall
Give me Stalin and St Paul
Give me Christ
or give me Hiroshima
Destroy another fetus now
We don't like children anyhow
I've seen the future, baby:
it is murder.

The Future, Leonard Cohen

Momento de pânico facebookiano

Veio o primeiro convite de amizade. Rejeitado em trinta segundos num gesto automático. Passaram-se três meses. Veio o segundo convite de amizade. Rejeitado num minuto após demorada consideração sobre o assunto. Passaram-se outros três meses.
Ontem, finalmente, chegou a mensagem.
Emoldurada por uma fotografia de pai babado com a cria nos braços.
Dizia assim:
Olá. Não apagues esta mensagem antes de a ler. Descobri-te através do facebook e quero muito falar contigo.”
Juro que durante dois minutos fiquei paralisada por este pensamento:
- Será que o puto é meu?
Fui homem durante dois minutos. Não gostei nada. Descobri que se sua muito.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

COULROFOBIA



Calço os meus sapatos de palhaço. Enfeito o rosto com a tinta branca. Disfarço o roxo das olheiras. Da cor dos mortos. Desenho na boca um sorriso vermelho. Invento-o do tamanho do mundo. Abotoo um fato de cetim azul. Da cor do céu. Visto um laço de bolas douradas. Sobre o nó da minha garganta.
Calço os meus sapatos de palhaço. Inspiro os gritos impacientes da multidão. Expiro o ar saturado dos camarins. Deixo cair o espelho no colo. Ensaio uma entrada de artista. Oro a um deus que não paga bilhete nem trouxe convite.

O trapézio foi montado. Os pescoços estão voltados para o céu.
A tenda é grande e é minha. E a plateia ainda não a vê arder.
Calço os meus sapatos de palhaço.

Meninos e Meninas, bem-vindos ao maior espectáculo do mundo.

homenagens destas, atirava-as ao lixo


Só esta noite tive a oportunidade de folhear o último dos quatro livros técnicos que comprei no Domingo. Nome próprio do autor: Salvador.

Achei peculiar que a dedicatória fosse “À Teresa e à Rita, pelo pouco que lhes dei do muito dado ao trabalho.” .

Corrijo: achei repugnante.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Descobertas interiores


Descobri-me um novo estado de espírito:

Cabides vazios.

domingo, 7 de novembro de 2010

Há um hotel dentro de cada um de nós




Às vezes queria ser um simpático e simples parque de campismo.
Mas sou o Ritz...
Não é nada fácil ser-se o Ritz.

sábado, 6 de novembro de 2010

Postal aberto ao Mak, o Mau





Querido Mak,


Um touro marreco; quatro cobardes pendurados em varandas (um deles vestido com um suspeito modelito muito Gaultier); um homem em perseguição aos tipos das varandas e uma velha amuada a assistir à cena, é de uma tal profundidade existencialista que não está ao alcance de qualquer um.
Felizmente para ti, eu li todos os livros daquele tipo dinamarquês cujo apelido acaba em gaard e consegui perceber que, através do postal que generosamente me enviaste, falas da angústia ontológica contida na libertação do viver em confronto com o ser.
Também não me passou despercebida a tua explicação do absurdo da existência através do non sense, o que, terás que concordar comigo, faz de ti um patafísico.
Para te agradecer o facto de me teres livrado de uma existência de trevas, procurei arduamente o postal mais feio alguma vez publicado na net.
Este não é o mais feio, mas é o mais assustador. Evoca um lânguido capuchinho vermelho decidido a tourear o lobo mau, num género “o mundo ao contrário” que acho que vai fazer o teu estilo.
Parabéns pela “iniciativa fantástica” que copiaria, não se desse o caso de ter amor ao dinheiro e crença na ingratidão humana.
Abracinho,
Cuca

tábuas corridas enceradas. sem brilho.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Salas



São nove e cinco da manhã. As portas abriram-se há cinco minutos.

A sala ainda não tem o ar esgotado que terá no final da tarde. O chão ainda está limpo. E uma criança vê-se ao espelho nele. Baloiçando o corpo na direcção do seu reflexo cor-de-rosa-pastilha-elástica. Há uma mulher negra e decidida que será a mãe da criança. Ou a tia. Porque a mãe da criança há-de ter partido para um lugar qualquer. Normalmente é assim.
A tia e a miúda esforçam-se por não ver a cigana, pesadamente, sentada ao lado. Tem o percurso das lágrimas vincado num rosto enrugado e, esta sim, seguramente é uma mãe. Mãe de um filho que está fechado numa outra ala do edifício. Onde o chão nunca está limpo, nem sequer de manhã. E onde nunca ninguém se consegue ver ao espelho. A mãe não veio ali fazer nada. Nada que não seja olhar para o seu filho que, de costas para ela, optará pelo silêncio. Por entre a silhueta escura do filho rogará pragas àqueles que, na sua percepção, são os algozes de um inocente que só vendia uns produtos que dizem que é droga mas que também pode não ser e que nunca fez mal a ninguém e que um homem tem que fazer pela vida.
Por ora, a cigana espera.
Todos eles esperam.
A quatro metros de distância, um homem de quarenta anos e fato italiano desespera-se ao telemóvel com uma secretária que não consegue encontrar qualquer coisa dento de uma pasta que é azul escura e tem na lombada o nome do cliente com letras gordas. Ele desliga a chamada anunciando que tem a mulher em linha. Mas trinta segundos depois, percebe-se que, com as mulheres, nunca se fala assim.
Passa um indiano com ar de quem começou o dia de madrugada, arrastando um carrinho carregado de sandes de plástico e chocolates fora do prazo de validade. Exibe orgulhosamente a chave com que abrirá a máquina onde colocará o veneno que alimentará todas as esperas do edifício.
Instala-se em frente da máquina, aberta e indisponível, com gestos lentos. Encontra a glória do dia no momento em que os outros têm que esperar que ele acabe o seu trabalho para poderem sacar alguma coisa da máquina em troca de uma moeda.
Ri-se para mim com ar satisfeito. Retarda os gestos.
Hoje tem uma vítima especial.
Enquanto a criança continua a fazer-se atrair pelo seu reflexo, aparece um funcionário que faz voz de soprano ao pronunciar, alto, nomes incompreensíveis. Algumas pessoas avisam que existem. A atenção da sala concentra-se nele por um curto instante.
A excepção é o indiano. A gozar o seu pequeno momento de vingança social.
Depois, o funcionário cala-se. A criança volta a tingir o chão de pequenas manchas cor-de-rosa-pastilha-elástica. A tia negra afaga o seu próprio pescoço. A cigana dirige rezas contra uma sala, por enquanto, ainda vazia. O advogado desliga o telefone. Quinze outras pessoas passam em três sentido diferentes.
Finalmente, o indiano devolve-me a máquina que me cospe um café de péssima qualidade.
Uma mulher aparece e cumprimenta efusivamente o homem do fato italiano. Queixam-se do sistema que os deixa à espera. E ainda só passaram cinco minutos desde que as portas abriram. Esperarão muitas horas.
Dois polícias entram pela porta principal aos empurrões a um miúdo. O miúdo olha para mim com ar ameaçador. Eu não me lembro dele. Mas ele lembra-se de me odiar. Um atento segurança passa pela criança, pela tia, pela cigana, pelo advogado, pela conhecida do advogado e pelo carrinho vazio de comida do indiano e pergunta-me se preciso de alguma coisa.
Ele sabe que eu só preciso do café que já tenho na mão. Mas foi a forma que encontrou para me dizer que não devo estar ali. As portas já estão abertas. Os actores não se sentam na assistência. São os procedimentos. Tenta empurrar-me com o olhar, devolvendo-me àquela parte do edifício onde só entra quem souber o código.
Podia perguntar-lhe se me querem esconder deles, ou se os querem esconder a eles de mim. Mas ele limitar-se-ia a responder-me que não quer é problemas.
Ninguém quer problemas. O miúdo escoltado pelos polícias também não queria problemas. Só queria espetar uma faca nos pulmões de outro miúdo.

Eu levo o meu café, digito o código e devolvo a normalidade ao mundo com o gesto de fazer de conta que não faço parte dele.

Daqui a oito horas voltarei a esta sala para retirar o meu último café do dia.
Estará vazia. E, no entanto, repleta com os despojos celulares de um dia de confissões e arrependimentos, acusações e ameaças, ódios, raiva, dor e medo. Muito medo.
A criança terá voltado para casa com a tia e não será institucionalizada se uma assistente social se convencer que a tia tem competências de parentalidade. A cigana terá sido expulsa da sala por incomodar os trabalhos com os seus soluços demasiado altos. A secretária do advogado encontrará a pasta azul. Ele fará um acordo, a tempo de uma sobremesa com a amante do telefonema. O indiano terá voltado para o sítio de onde veio, esquecido que hoje teve uma vítima especial. O filho da cigana foi recolhido da civilização humana e é como se já não existisse, agora que não o podemos ver.
O miúdo escoltado pela polícia estratificará o ódio a um nível superior ao medo.
Logo que possa, matar-me-á.

Na sala vazia, enquanto me vê brigar com a máquina do café, fechada e disponível, o segurança da manhã aproxima-se. Controla a genuína vontade de me fazer uma festa na cabeça e deseja-me uma boa noite com o ar do marido que pergunta:
“Querida, como foi o teu dia?”.

a arte

"se os soldados forem punidos antes de se terem afeiçoado a si não lhe serão obedientes e, se não forem obedientes, serão praticamente inúteis.
se, uma vez ganha a afeição, os castigos não forem impostos, eles continuarão a ser inúteis."

"deste modo, num primeiro momento, os soldados deverão ser tratados humanamente mas controlados com uma disciplina de ferro.

este é o caminho certo para a vitória."

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Desire-Cemeteries-Elysian?

Eunice – what´s de matter honey? Are you lost?
Blanche – They told me to take a street car named Desire, and then transfer to one called Cemeteries and ride six blocks and get of at – Elysian Fields.


A Streetcar Named Desire, Tennessee Williams

Love is a disaster waiting to happen