Enrolavam écharpes a la Yasser Arafat à volta do pescoço, usavam uma invariável barba mal semeada, os jeans eram Levi´s 501 (com a desculpa que não simbolizavam capitalismo porque historicamente eram o traje dos trabalhadores fabris), e as t-shirts, pretas, de algodão manhoso. Rematavam com um livro debaixo do braço onde quer que estivessem.Só bebiam cerveja sagres ou vodka pura e, por insondáveis razões, nunca tinham carta, quanto mais carro.
Eram os rapazes de esquerda. Tão facilmente identificáveis como se andassem com um exemplar do Avante, em forma de néon, sobre as suas cabeças.
Os rapazes de esquerda são um sintoma enervante do aumento da complexidade social.
Descobriram as gillettes, continuam a usar t-shirts pretas mas compram-nas na Calvin Klein, são fanáticos por gadgets e lêm os livros no I-Pad. Renderam-se ao automobilismo, embora continuem a preferir supostos veículos ecológicos.
Quando as écharpes foram adoptadas pelos outros enfiaram as deles na gaveta.
Ainda têm a nostalgia da vodka mas aprenderam a apreciar vinhos tintos.
Assim, disfarçados, até o espírito mais atento corre o risco de não suspeitar de rigorosamente nada. Até ao momento, claro, em que ele pergunta se queremos ir ao cinema King ver um filme.
Devia ser proibido!
