Olho para ti, aí em pé, e percebo que nada entendes de tudo isto.
Acumulas o balcão da loja com as limpezas num escritório. É a penitência que pagas pelo ímpeto da paixão por um qualquer Leandro que te engravidou antes de tempo. Trocaste a escola por uma tiara de brilhantes tão falsos que nem sequer compensou a falta de cauda no vestido de noiva que te convenceram que deveria ser simples. Uma questão de decoro.
Com o teu novo estado civil de casada adquiriste o estado social de desempregada. Usaste-o o melhor que conseguiste dentro do apartamento suburbano onde uma imobiliária e um banco te convenceram que serias feliz. O teu um qualquer Leandro rapidamente se fartou da falta de sal nos pratos que lhe ias servindo enquanto a tua barriga de grávida ocupava cada vez mais espaço.
Depois de teres parido sozinha e humilhada num hospital público onde as cesarianas são prémio de quarenta e oitos horas de dor animal, pareceu-te inútil chorar por o teu um qualquer Leandro que, antes de ter tempo para montar a cama de grades que pediste emprestada à tua prima professora, bateu com a porta de casa. Outra questão de decoro.
Com o teu novo estado civil de divorciada adquiriste o estatuto económico de pobre. Usaste-o o melhor que conseguiste para vender a tal casa onde já não ias ser feliz e entregares-te a dois trabalhos que te devolveram um qualquer princípio de dignidade. Os mil euros que rendeu a venda da casa, depois de pago o empréstimo ao banco e as custas do divórcio, decidiste investi-los numa carta de condução.
Olhas para mim, aí em pé, e percebes que não entendo nada disto.
Entregas-me todas as lágrimas de revolta que poupaste até chegares aqui. Mas eu não tenho onde as guardar. Não fui eu quem te roubou o destino e esqueceram-se de me dar o poder de to devolver.
Eu também me arrependo da tua decisão de entrares num carro emprestado para treinares estacionamentos na véspera do exame de condução. Eu também não me perdoo por acabares por te confundir entre o acelerador e o travão. Eu também não percebo o que é que uma criança estava ali a fazer.
E confesso tudo. Até o trágico desperdício de dignidade que são as tuas lágrimas choradas aqui, num sítio onde não deverias estar.
Demoro dez minutos a transformar-te em criminosa e não olho para ti quando termino. Uma última questão de decoro.
Acumulas o balcão da loja com as limpezas num escritório. É a penitência que pagas pelo ímpeto da paixão por um qualquer Leandro que te engravidou antes de tempo. Trocaste a escola por uma tiara de brilhantes tão falsos que nem sequer compensou a falta de cauda no vestido de noiva que te convenceram que deveria ser simples. Uma questão de decoro.
Com o teu novo estado civil de casada adquiriste o estado social de desempregada. Usaste-o o melhor que conseguiste dentro do apartamento suburbano onde uma imobiliária e um banco te convenceram que serias feliz. O teu um qualquer Leandro rapidamente se fartou da falta de sal nos pratos que lhe ias servindo enquanto a tua barriga de grávida ocupava cada vez mais espaço.
Depois de teres parido sozinha e humilhada num hospital público onde as cesarianas são prémio de quarenta e oitos horas de dor animal, pareceu-te inútil chorar por o teu um qualquer Leandro que, antes de ter tempo para montar a cama de grades que pediste emprestada à tua prima professora, bateu com a porta de casa. Outra questão de decoro.
Com o teu novo estado civil de divorciada adquiriste o estatuto económico de pobre. Usaste-o o melhor que conseguiste para vender a tal casa onde já não ias ser feliz e entregares-te a dois trabalhos que te devolveram um qualquer princípio de dignidade. Os mil euros que rendeu a venda da casa, depois de pago o empréstimo ao banco e as custas do divórcio, decidiste investi-los numa carta de condução.
Olhas para mim, aí em pé, e percebes que não entendo nada disto.
Entregas-me todas as lágrimas de revolta que poupaste até chegares aqui. Mas eu não tenho onde as guardar. Não fui eu quem te roubou o destino e esqueceram-se de me dar o poder de to devolver.
Eu também me arrependo da tua decisão de entrares num carro emprestado para treinares estacionamentos na véspera do exame de condução. Eu também não me perdoo por acabares por te confundir entre o acelerador e o travão. Eu também não percebo o que é que uma criança estava ali a fazer.
E confesso tudo. Até o trágico desperdício de dignidade que são as tuas lágrimas choradas aqui, num sítio onde não deverias estar.
Demoro dez minutos a transformar-te em criminosa e não olho para ti quando termino. Uma última questão de decoro.