A mais perfeita figuração de Eros, o meu arqui-inimigo, veio do pincel de Caravaggio. É na Gemaldegalerie, em Berlim, que, com aquele irritante e tétrico sorriso de quem acaba de destruir mais uma vida, vive o pequeno malfeitor.
Numa cinzenta manhã de frio decidi matá-lo. Com um x-acto.
(Para dar um efeito mais dramático podemos agora imaginar que o x-acto tinha um cabo de madrepérola.)
À porta da galeria não estavam simples seguranças mas guardiães de formação militarizada especialmente treinados para o defender.
Apesar de ter feito o meu melhor ar inocente disseram-me logo que só me deixavam entrar sem a mala. E sem o casaco. E sem o cachecol. Foi assim que me vi obrigada a caminhar, descalça e praticamente nua, com o x-acto de cabo de madrepérola guardado no soutien e a minha determinação assassina na alma, pelos corredores da galeria.
Três anos de guerra apuraram os meus instintos localizadores a tal ponto que um minuto depois de ter enganado a segurança, já os meus olhos se cruzavam com o insuportável sorriso de Eros. Nem o facto de estar pregado numa parede, mudo e indefeso, sozinho com os meus intentos revanchistas lhe atenuou o sorriso de moca. Não é coragem. É psicopatia.
Foi então que, com a sala completamente vazia, me aproximei de Eros e tirei do peito a arma com que tencionava destruir a figuração do meu mais poderoso inimigo. Examinei-o de perto com o olhar do falcão prestes a devorar a presa.
Mas ali, sozinha com Eros, com os pés dele ao nível do meu mais directo olhar, apercebi-me de uma coisa:
Eros tem as unhas dos pés sujas.
Caravaggio sabia muito bem o que fazia.
Não é um enaltecimento. É um aviso. Um aviso contra o amor.
Só por isso, poupei o quadro.
(O facto de o quadro estar protegido por um vidro e eu não ter levado nenhuma picareta nada teve a ver com a minha desistência).
(O facto de o quadro estar protegido por um vidro e eu não ter levado nenhuma picareta nada teve a ver com a minha desistência).