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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Marmelada de banana e sacis com próteses

Um dia houve espelhos. Mobílias trabalhadas. Veludos encarnados. O peito nu da dona da casa emoldurado em talha dourada. As tais das tábuas de madeira verdadeira. Janelas que dão para o rio. Uma cozinha com bancadas de mármore. Branco. O cheiro de compota na cozinha. O cheiro de rosas na sala. O cheiro da manhã no quarto. Todas as coisas nos seus precisos lugares. A dona da casa de vestido de seda verde e bracelete com flores de ouro desenhadas. Cabelos escorridos enfeitados por fitas estreitas. Umas mãos enormes a segurar um jornal e uma chávena de chá de frutos silvestres. A voz do homem da casa a declamar notícias como quem anuncia Byron. Um braço que se deixa cair sobre um pé descalço e lhe toma a temperatura. Cenas domésticas de perturbadora felicidade feita das harmonias impossíveis.
Mas uma manhã chegou a guerra.
E uma bomba fez estilhaçar os espelhos e quebrar as mobílias e arrancar as tábuas e cobrir de negro o óleo dos quadros e substituir todos os cheiros da casa por um omnipresente cheiro a pólvora e a carne queimada.
A casa abateu-se numa cratera. O rio secou de tristeza. Os donos foram cuspidos por um fragmento de bomba.
Ficou o fumo negro que suja e, por baixo do fumo, um imenso deserto poluído onde nenhum ser vivo conseguirá medrar.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Os malefícios do ego

Dois vale mais do que um. Um é melhor do que quatro. Três pode ser demasiado ou o bastante. Cinco é levar as coisas demasiado longe. Seis é delírio.
Avança agora, viaja cada vez mais fundo nos subterrâneos do seu próprio nada, o lugar nela coincide com tudo o que ela não é. O céu por cima dela é cinzento ou azul ou branco, por vezes amarelo ou vermelho, outras vezes roxo. A terra sob os pés dela é verde ou castanha. O corpo dela situa-se no ponto de junção entre a terra e o céu, e pertence-lhe apenas a ela e a mais ninguém. Os pensamentos dela pertencem-lhe a ela. Os desejos dela pertencem-lhe a ela. Encalhada no reino do um, invoca o dois e o três e o quatro e o cinco. Por vezes o seis. Por vezes mesmo o sessenta.”

Paul Auster in Sunset Park, Asa

Terminei o livro ontem à noite e a dificuldade que tive em encontrar um trecho que gostasse o suficiente para colocar aqui demonstra que não foi ainda neste livro que me reconciliei com Paul Auster.
Paul Auster sempre me fascinou pela capacidade de criar personagens enclausuradas dentro de si próprias, a bater com a cabeça de encontro às paredes do labirinto que é a vida real. Apesar de Sunset Park manter esse registo, Auster tem a infeliz ideia de nos explicar a fórmula. Não gosto de narradores transformados em tradutores de angústias a retirar-nos a possibilidade de uma identificação directa. Já não temos que apanhar com a história da sua vida, mas continuamos a ter que apanhar com ele no livro, a contar a história.
O que aconteceu ao génio de Mr. Vertigo e In The Country of Last Things? Aconteceu-lhe o ego, suspeito.
Perguntam vocês: Cuca, se ficaste decepcionada com o livro porque escreves sobre ele? Para que a Estrelita saiba que já o li e não me ofereça. Evidentemente.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Entre Dickens e Andersen

Às vezes penso que se a vida fosse um conto de Charles Dickens eu seria a pobre rapariguinha gelada com os joelhos assentes na neve, colada à janela de uma casa de brilhos e veludos a ver dançar uma mulher inteira que um dia foi o seu passado.

Mas depois lá me abrem a porta e o calor é irrespirável, o cheiro das flores enjoativo, a música um piano desafinado e a mulher…bem, a mulher olha para mim incapaz de se reconhecer.