quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Diário de bordo

Os meus problemas existenciais, não necessariamente novos mas invariavelmente cíclicos, estão a afetar o desempenho da missão que recai sobre os ombros encorpados desta brava tripulação pirata. 
Tudo começou com a chegada de outono que, de acordo com o calendário oficial da somatização, é a época da nostalgia. 
Dei por mim a substituir o reggae por aquelas musiquinhas nerd que o iTunes classifica como alternativas; a adormecer  mais vezes ao lado de Kafka do que de Borges; a preferir o vinho tinto ao gin tónico e, com a aproximação do pico da estação, a passar mais horas pendurada no convés, com um olhar estrelido e demente, do que no topo da mesa de reuniões a planear ataques a navios de cruzeiro cheios de velhinhos nórdicos.
Num micro cosmos com as potencialidades absorventes deste navio, a osmose é um facto mais científico do que as leis da Murphy. (Dirão que essas não são científicas mas experimentei todas e posso assegurar que estão enganados).
Foi assim que, quando dei conta, tinha a tripulação inteira no limiar da depressão clínica. 
O primeiro a fazer-me notá-lo foi o papagaio Polly que, por passar demasiado tempo com Álvaro de Campos, começou a esvoaçar pelo navio enquanto gritava 

"Não sou nada. 

Nunca serei nada. 
Não posso querer ser nada. 
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."
Foi então que reparei que o grupo dos poetas produziu tanto nas últimas semanas que o stock de papel higiénico ameaça ruptura. 
Os bloggers residentes, por seu turno, atacados pela nostalgia, começaram a escrever post fofinhos e a acumular um perigoso banco de imagens de gatinhos de olhos tristes. 
Os ex-presidiários estão há dias encerrados nas suas camaratas, a reviver os tempos de reclusão.
Andhriminir, o cozinheiro pirata, parece ter perdido todo o interesse pelo sadismo e serve-nos saladas com bagas de gojji, ou lá como se diz, porque diz que leu um dos meus livros de ética e descobriu que os animais são pessoas não humanas.
Gualtiero, o Italiano, que está neste navio em representação dos amantes abandonados, passa as horas a jogar candy crush e não tenta conquistar ninguém há mais de vinte e quatro horas.
Em suma, a nostalgia atacou-nos pelas costas com efeitos mais dramáticos do que o temido escorbuto ou a febre dos mares. 
O culpado é o outono e é minha intenção  combater o mal de forma drástica:
Amanhã rumaremos às Caraíbas.

14 comentários:

  1. Ensadeceste. No teu caso, aguardaria por uma valente tormenta ou lançar-me-ia borda fora num bote, rumo a sabe-se lá o quê.

    (um dia ainda coloco na hospedaria que dirijo com mão de ferro aquela foto - que o meu pai tirou de um valente tornado em alto mar - desconheço, e a minha mãe também, única e última fonte válida de informação nesta matéria das augas pordecimaepordebaixo se foi a causa de o terem dado como morto, e à tripulação, por uns meses)

    por outro lado, diz o Lobo Antunes que a culpa é de as pessoas não foderem, mas continua a parecer-me que isto das fodas ainda anda mal explicado, que as pessoas têm sexo, dizqueatécomumbeijo. E eu acredito.

    em jeito de conclusão: difícil, difícil, é achar o culpado e, porra, não é tão fácil assim, nestes dias, encontrar um mordomo, vejamos.

    hic.

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    1. Sabia que eras filha de um Pirata! Nunca me enganaste...

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  2. Ah, bom. Se rumam às Caraíbas, retiro o boné (boné?) pirata que tinha aqui do último natal em família e deixo de me sentir toda condoída por vós tripulação à beira dessa estirpe depressiva muito fashion. Centro a minha atenção nas Leis de Murphy e, claro, no jogo candy crush que muito me surpreende prender assim animais humanos. Ou pessoas. E penso que era isto. (mas boné?... como se chama esse vosso chapéu, bolas?...)

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    1. Tss... Tss... O nome técnico é chapéu de pirata! :)

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  3. Fundeemos nas Caraíbas, Pirata.

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    1. Caríssimo anónimo mauzão, pode escolher as coordenadas!
      Heyye oh...

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  4. Eh pah... estou atrasada em tudo, até na nostalgia e na depressão. É o que faz ter perdido o barco no último porto e tentar acompanhar a expedição num barco a remos. Como a expedição tem andado à deriva, derivei para um estágio de infantilidade regressiva e tenho em mim toda a ternura do mundo e pouco tempo para a osmose da distribuição.
    Talvez consiga a proeza de embarcar nas Caraibas, se fundearem por algum tempo. Levo bagaço, Bolo Rei e uma tonelada de favas !

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    1. Bolo rei? Vou já mandar os ex presidiários buscá-la num bote de design ultramoderno.

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    2. Os ex presidiários não, que ainda me ficam com a fava, Capitã!

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    3. Hummm não sei se os poetas sobreviveriam no bote. Além disso, a querida MD está a ser preconceituosa com o grupo ex prisa. A maior parte deles até parecem relativamente ressocializados ...:)

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    4. Ah, Capitã, preconceituosa, eu, que tenho um T0 com vista para o Linhó ?
      Pois que venham os ex cons todos a jacto, ora essa ! :)

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    1. Queres ser Pirata, Mau-Tempo? Podemos recrutar-te em part time para esta aliciante carreira de aterrorizador dos mares. Já és mau de nome. Isso qualifica-te logo.

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  6. oh! sim sim! gostava muito, para onde envio o cv? também tenho alguma experiência em artilharia... e quilhas... e virar omeletes...

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