sábado, 6 de abril de 2013

O fim do inverno





Não sei em que dia ou mês estamos (retomei o pleno do meu snobismo existencialista e os calendários voltaram a parecer-me coisa própria de gente sem densidade espiritual. Repare-se que até os maias, essa civilização horrenda, tinham um), ainda assim, desconfio que o inverno deve ter acabado, já que o lounge da praia reabriu.
Eu e o meu cão estreámos os novos sofás brancos, almoçando um temaki não completamente péssimo, com um sumo de morango natural que eles continuam a saber fazer razoavelmente, embora já fosse sendo altura de alguém lhes dizer que os sumos de morango devem ser servidos com palhinhas largas ou sem palhinhas. Isto, disse-me o cão que eu não penso em detalhes tão miseráveis.
Como o mundo nem sempre pode estar contra mim, a música era jazz e não passaram nem uma vez a música da Erykah Badu, oh i´m so in love with you, i don´t care what people says, que no outono passado me teria levado ao suicídio se não fosse a dificuldade de arranjar lâminas de jeito nesta estância balnear (agora já menos abandonada) que desconfio ser uma medida municipal para evitar o suicídio em massa dos mais impacientes velhinhos nórdicos que por aqui pululam, fazendo desta terra um local de transição entre a vida e a morte. De tal forma que, de mim própria, às vezes parece-me que, não estando ainda morta, seria um exagero dizer-se que estou viva.
Estava eu absorta nestes e noutros temas de profundidade existencialista (que eu agora, depois da constatação da crise da psicologia com aquele embuste de Kubler-ross, decidi dedicar-me à filosofia) quando reparei que o meu cão corria alegremente na direção de duas inglesas, mãe e filha, que desataram a berrar histericamente, "i don´t like you", "take it from here". O cão interpretou aquele conjunto de exclamações musicadas e saltinhos como sincero entusiasmo pela sua presença e, educado na generosidade, retribuiu como pode, investindo contra elas. 
Permaneci sentada, decidida a não fazer rigorosamente nada para salvar as inglesas dos ataques ferozes do meu bulldog francês de cinco meses, enquanto refletia sobre o facto de o cão partilhar com a sua dona a trágica incapacidade de admitir como possível que haja no mundo criatura viva que não o ame profundamente. 
E embora me tenha imediatamente consolado com a ideia de que eu, pelo menos, não lambo pessoas que me odeiam, ainda o cão não tinha desistido das inglesas, já eu desenvolvia as mais sérias dúvidas sobre esta minha última assunção.
Depois viemos os dois para casa ouvir a Erykah Badu.

5 comentários:

  1. Adoro as tuas histórias com o cão :D
    (Aqui são permitidos Smileys?)

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    1. aqui somos smile free :)
      Não tem o charme da tua pequena cutxi mas é um cão cheio de estilo. adora ópera e até ao final do ano conto conseguir ensiná-lo a dizer kierkgaard...

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    2. Acho muito bem! Já o meu sonho é, até ao final do ano, conseguir ensinar pequena Cutxi a dizer Zara! :DDD

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    3. Não se serás bem sucedida. Ouvi dizer que eles têm dificuldades em aprender o som zzzz :))
      (só por isso, claro)

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