Sonhei, ou quis sonhar, que Alah é quem mais sabe, com essa encosta de vinhas que se estende até ao mar. Vi uma vez mais a enorme lua refletida nas águas negras do mar-chão e as mesmas estrelas que guardei tatuadas na íris. Às vezes, num segredo que guardo de mim própria, quando o sono distrai o porteiro deste mundo, regresso à noite que pariu todas as noites que se lhe seguiram. À tarde que a antecedeu, bem sei, nem em sonhos poderei regressar. No instante em que a culpa se forma, perde-se, para todo o sempre, a capacidade de recordar a inocência.
Passei incontáveis minutos a observar o processo de crescimento das raízes no vaso de vidro da planta suspensa em água. A resiliência é o meu milagre preferido. Se fecharmos os olhos e o dia não tiver sido péssimo e tiver feito um pouco de sol e alguém nos tiver oferecido uma música nova ou se tivermos encontrado uma metáfora aceitável num poema, ou num cartaz publicitário, ou mesmo entre duas pedras junto ao rio, se o dia não tiver sido péssimo e fecharmos o olhos, dizia, podemos acreditar na resiliência, essa, que a natureza jura que, estatisticamente, também há em nós.
E então saberemos que as raízes continuarão a crescer mesmo quando ninguém as observa.
E tudo estará bem.
Às 16:15 horas de hoje, mais segundo, menos segundo, decidiram os Homens, chegou a primavera.
Não espanta, por isso, que ainda traga os restos do inverno colados aos ossos.
É preciso fechar as janelas ao vento norte, ajeitar os pés ao raio de sol, sacudir um resto de gelo do coração, deixar secar as gotas de chuva das pestanas, abrir as asas à clepsidra e aceitar a renovação.
Valha-nos as estações para nos lembrarem que o tempo, qualquer forma de tempo, ainda corre.
Como dizer-te dessa estrada secundária por onde só passa quem procura alguma coisa que não sabe o quê; do seu asfalto gasto pelo pó do deserto que vai da berma até ao meio da faixa de direção unívoca; como dizer-te desse café de portas empenadas, por onde já só entra um pouco de vento que se anuncia no abraço do cristal das velhas estrelas penduradas no tecto; do salão vazio onde não se dança ao som da caixa de música avariada. Como dizer-te das cinco da tarde e das janelas de vidros sujos onde a luz dourada assoma à despedida. Das coisas que eram minhas e que foram, uma por uma, abandonadas. Como dizer-te de mim?
Escorreguei uma vez mais pela toca do coelho. Foi difícil encontrá-la na cidade. Entre dois prédios, escondida no chão, disfarçada de conduta de esgoto. Aqui, as portas são todas iguais e umas levam à miséria e outras à maravilha. Só descobres depois de teres descido muitos metros, de costas, com os pés no ar e os cabelos em desalinho.
Caí diretamente na sala grande. A minha pouco discreta chegada não interrompeu a festa. Havia uma harpa que se tocava a si própria. O coelho das pressas dançava um tango melancólico com a lagarta azul e nenhum dos dois olhou na minha direção. O gato que ri mostrou-me os dentes de cima e apontou-me a sombra escondida atrás do reposteiro. Vi-lhe a forma do chapéu alto e lamentei a ausência da matéria. Um dos gémeos gordos veio dizer-me que também no wonderland há sombras vazias. E o outro ecoou vazias vazias vazias até que a palavra ganhou a consistência do gelo e as letras subiram desordenadas e fizeram um looping junto ao lustre de cristal pingado.
Fingi não me importar com o acidente do chapeleiro louco. Perguntei ao vazio onde estava a rainha branca e o gato, rindo-se, disse-me que estava dentro da rainha de copas.
- Nunca saberei se sou Alice ou a rainha de copas e quando ouço o "corteeeem-lhe a cabeça", tanto pode ser uma ordem dada contra mim como por mim.
Então, a lagarta libertou-se das patas do coelho das pressas e instalou-se no meu ombro com o seu cachimbo de ópio.
- Aqui ninguém quer saber quem és; Depois apontou a sombra do chapeleiro louco escondida por trás do reposteiro e disse com um gesto dramático: - A verdade enlouqueceu aquele..
A harpa chorou um novo tango e eu estendi os braços na direção do reposteiro vazio. Ergueu-se a sombra do chapeleiro e enlaçou-me numa dança que durou um tempo que o relógio do coelho apressado se esqueceu de medir.
Mas depois, ouviu-se aquela frase, terrível, cujo som nunca sei se vem de dentro ou de fora e que esvazia o ar e arrefece os dedos e deixa um rasto de dor na garganta.
Sonhei que atravessava o deserto sob o sol do meio dia. É a hora em que o inferno engole as sombras e regurgita o desespero. Do horizonte, não veio miragem que aliviasse a sede. Éramos o sol, a areia e os meus pés nus.
A chuva da madrugada e da manhã e da tarde e do anoitecer não chegou para me salvar do destino.
Há um deserto intransponível que todas as noites me espera. Tem a languidez do cão que sabe que o dono virá.
Cioran disse que o limite de cada dor é uma dor maior.
Não é verdade. Só se sente uma grande dor. Todas as outras são tristes revisitações da primeira. É sempre a mesma, uma dor única, passada, revivida em réplicas imperfeitas.
Depois da primeira dor, todas as outras são mera candonga.
Zarpámos, eu e esta intrépida tripulação Pirata, há vários meses atrás, na direção do triângulo das Bermudas. Por lá navegámos durante muitos dias à procura dos tesouros que os outros perderam quando cruzaram esse espaço maldito onde o nada reina e nenhum homem sobrevive. (Houve quem aventasse que procurávamos o amor, mas não nos pronunciamos sobre o sentido das metáforas).
Não nos perdemos em nihil. Não ouvimos cantos mágicos de sereias assassinas. Não fomos arrastados para as profundezas do mar pelos ávidos braços de Kraken. Não conhecemos, tão pouco, a fúria de um Eolo insultado pela nossa presença.
Atravessámos o triângulo das Bermudas - várias e vezes e em diferentes direções - e concluímos que não há lá nada.
Não o nada que promete o início de todas as coisas; não o nada que atemoriza pela eternidade do vazio. Nem sequer o nada que é o desolo das nuas paredes na alma. Apenas o nada, o velho nada que é dos pragmáticos e entedia até aos ossos. Nihil ao espelho.
Um vazio tão profundo e concreto como o das nossas barricas de rum.
O que mais me faz falta é o vento dos loucos. De tempos a tempos acordava com areia nos dentes, feridas nas plantas dos pés e a camisa de dormir salgada. Sabia, então, que, enquanto dormia, tinha chegado o sueste, o vento dos loucos. Durante três dias enlouquecíamos todos e o remoínho de lixo plástico que se arrastava nas ruas era o reflexo da reciclagem das nossas memórias. Durante três dias levantávamo-nos e adormecíamos com a alma a gritar em sintonia com os uivos do vento, de tal forma que, na sua partida, já não sabíamos o que era uma e outra coisa.
Aqui não há vento. A temperatura, o ar e até as horas de luz, são rigorosamente controladas pelos burocratas que há muito descobriram que a melhor forma de nos controlar é eliminar a sensação do tempo. Aqui a loucura não é trazida pelo vento. Existe no asfalto e cola-se-nos às solas dos sapatos. Quando damos conta já se agarrou às nossas pernas. As pessoas sacodem-na com força porque, aqui, ninguém aceita a loucura, ainda que temporária, como uma inevitabilidade da natureza. Aqui não há natureza. Há um ecosistema definido por decreto-lei. E um dia, também eu deixarei de contar o tempo. E de enlouquecer.
Tenho enterrado no fundo do mar, em lugar ignoto, um baú de chaves perdidas. Não fiz mapa do sítio nem guardei cópias das chaves. Nunca ninguém o encontrará, jamais o seu conteúdo verá a luz do dia. Segui esse critério ancestral que ordena que se enterre o que é indestrutível mas incómodo.
Na maioria das vezes o meu tesouro, que é também o meu crime, castigo e vergonha, é uma dor surda que o ruído dos dias disfarça. Uma manhã por outra, porém, liberta-se do baú o espírito do seu conteúdo e espera-me aos pés da cama, para me surpreender logo que abro os olhos, atacando-me, à traição, antes que tenha tempo de desviar o olhar.
A condição humana é de uma fragilidade insuportável.
Não interessam os poemas que sabemos com o coração, os livros que lemos ou as músicas que conhecemos ao terceiro acorde, quando se está dentro de uma máquina, numa sala gelada e tudo o que reconhecemos como próprio é um par de meias tingidas que nos rouba a última réstia de dignidade.
O dia pariu uma noite instantânea, africana.
Não sei de onde veio a pedra que atingiu a lâmpada.
Vi os cambiantes do dourado enegrecerem na sombra das minhas próprias mãos.
Não há dor mais inoportuna do que aquela que é de causa ignota. Essa dor traiçoeira que é uma traça de asas abertas pousada no vison que nos cobre o peito.
Quando abri os olhos havia, sob a noite densa, um buraco de malhas roídas.