A existência contida numa taça de cristal.
terça-feira, 15 de outubro de 2013
domingo, 13 de outubro de 2013
Num domingo à tarde
Percebo ainda que, numa determinada altura que não interiorizei, o meu fascínio pelo clean minimalista foi-se embora e deu lugar ao gosto pelo vintage industrial.
Percebo, por fim, que esta súbita alteração de tendência na estética decorativa pode muito bem explicar o fracasso da minha vida amorosa.
Lamento por tudo o que realizo.
No primeiro plano, apetece-me mais continuar a ler Borges do que interromper para decorar uma casa. No segundo plano, o minimalismo era uma solução incomparavelmente mais acessível.
E no último, bem... lamento a futilidade do destino.
distrações
A itinerância distrai-nos da obrigação de viver no presente.
O presente, esse, é um carcereiro que nunca se distrai de nós.
O presente, esse, é um carcereiro que nunca se distrai de nós.
sábado, 12 de outubro de 2013
Diário de Bordo #3
À hora que vos escrevo, estão lançados os dados da sorte deste navio e sua tripulação corsária. O ataque secreto ao petroleiro acontecerá amanhã ao raiar do dia. Não há nenhuma razão especial para que a abordagem não se faça lá pelas onze da manhã ou da noite, opção porventura até mais cautelosa e inteligente. A motivação é profundamente egoísta, já que nunca fiz nada ao raiar do dia e, provavelmente por causa disso, tem-me falhado na vida a oportunidade de usar esta expressão que, acabo de o perceber, tanto me agrada. Seja como for, foi assim que combinámos e agora já não poderia voltar atrás mesmo que quisesse, porque se há coisa que mantive dos tempos em que era uma pessoa de bem e tinha um emprego normal, ou mais ou menos isso, é a irrevogabilidade absoluta das decisões comunicadas.
A ideia partiu dos pescadores gregos que fizemos reféns depois de nos terem implorado que não os obrigássemos a regressar às suas mulheres, mas foi imediatamente acolhida pelo resto da tripulação com urras hey ohs e vivas. Álvaro de Campos, o engenheiro naval, depois das reticências iniciais, acabou por ter um contributo válido já que é o único com formação académica em navios e deu-nos uma palestra sobre as fragilidades do petroleiro que amanhã faremos nosso.
Confesso que o meu défice de atenção, que alguns maldosamente insistem em confundir com autismo, fez com que só tenha podido ouvir os primeiros dez minutos. Ainda assim, tenho razões para crer que, sendo eu Pirata e capitã e tendo uma vastíssima experiência profissional em atividades que são obscuras para o comum das pessoas, no momento próprio saberei exatamente o que fazer.
Encarreguei Andhrimnir de nos preparar uma refeição especial já que pode muito bem ser a última. Comeremos hamburguer com trufa, uma coisa muito fina que experimentei num restaurante de Lisboa e que perante o meu ar enjoado me garantiram ser o último grito da gastronomia.
Os bravos Piratas que me acompanham revelam um espírito de tal forma corajoso e desprovido de qualquer receio da negra morte, que uma alma menos crente na natureza humana facilmente poderia pensar tratar-se de inconsciência total.
Neste preciso instante, a bordo do navio, dir-se-ia ser um sábado normal. As bloggers pintam as unhas umas às outras revezando-se entre a fotografia para o instagraam e as últimas novidades de um concurso que corre aí pela blogosfera; os presidiários traficam pósteres de mulheres nuas indiferentes ao facto de este navio estar cheio de gente que passa o dia em biquini; os poetas estão sentados num canto do convés a dizer mal dos críticos e a queixarem-se da comercialização da literatura; Gualtiero, o Italiano, ocupa-se de estar apaixonado já não consigo acompanhar por quem; o gigante repara os danos no mastro deixados pela última tempestade; Álvaro de Campos mergulha num coma alcoólico de absinto…
Quanto a mim, passei as últimas duas horas a olhar para este arsenal de shot guns que encomendei a um amigo que vive em África e sabe onde se arranjam estas coisas e a pensar onde raio estava com a cabeça quando decidi faltar ao curso especial de tiro que o Ministério da Defesa Nacional, sempre oportuno, me ofereceu no ano passado.
Constato, com alguma tristeza, que ainda não tenho o suficiente a perder para ter o privilégio de conhecer essa útil emoção a que chamam medo.
Finais
Naquele duelo delicado, que só alguns íntimos adivinhávamos, não houve derrotas nem vitórias, nem sequer um encontro, nem outras visíveis circunstâncias do que aquelas que procurei registar com a minha caneta respeitosa. Só Deus (cujas preferências estéticas ignoramos) pode outorgar a palma final. A história, que se desenrolou na sombra, para a sombra vai voltar.
Jorge Luis Borges, O relalório de Brodie, Quetzal
E por fim, sepultar-nos na sombra.
Porque a parte de nós que se tornou cadáver merece a paz do esquecimento.
E porque é uma questão de higiene pública.
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
voucher para o dia seguinte
A minha caixa de correio eletrónico anda a ficar estranha. Tudo começou com uma seguradora de que nunca tinha ouvido falar a ameaçar-me que posso ter uma tragédia amanhã; seguiu-se uma vidente chamada Maria a perguntar se "você sonha com isso?" e uma marca de roupas a avisar-me que "É tudo uma questão de poder".
E finalmente, quando começo a ficar preocupada com tanto agouro maligno para o dia de amanhã, uma agência de viagens vem em meu socorro oferecendo-me a solução evidente: promete que me deixa dormir duas noites pelo preço de uma.
Seguidas, espero eu.
À espera
Preciso que o verão abandone a minha estância balnear e me devolva o abandono. Todas as tardes me sento no areal a vê-lo partir. Cada dia está mais longe mas ainda paira suspenso na linha do horizonte num risco laranja vivo em combustão acusadora. Preciso que vá. Que leve com ele os cabelos molhados e as toalhas enroladas aos corpos e os chapéus dos ingleses e os barcos que brilham ao fundo. Que sejam banidas as havaianas do chão, fechadas a cadeado as gelatarias, recolhidas as esplanadas, desmontados os estrados, escondidas as bolas. Preciso desta estância balnear deserta. Do frio húmido das manhãs, do ruído perturbador do vento na minha sala, da aflição das gaivotas pela noite dentro. Preciso que parta e me devolva o alívio de um cenário de inverno.
O cenário onde as ausências se confundem, se atenuam e por fim se anulam.
Todas as tardes me sento no areal à espera. À espera que se vá.
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
the sound of silence
No final do espetáculo, quando as luzes se acenderam e todos me disseram que a cantora foi maravilhosa, percebi que durante uma hora e meia só ouvi o som do baixo.
Já consigo suportar o som do baixo, mas ainda não consigo ouvir mais nada a não ser o som do baixo.
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
O Barquinho foi
E o barquinho a deslizar
No macio azul do mar
Tudo é verão, o amor se faz
Num barquinho pelo mar
Desliza sem parar
Sem intenção, nossa canção
Vai saindo desse mar e o sol
Beija o barco e luz
Dias tão azuis
Beija o barco e luz
Dias tão azuis
Volta do mar, desmaia o sol
E o barquinho a deslizar
E a vontade é de cantar
Céu tão azul, ilhas do sul
O barquinho é o coração
Deslizando na canção
Tudo isso é paz
Tudo isso traz
Uma calma de verão
E então
O barquinho vai
A tardinha cai
O barquinho vai
A tardinha cai
O plano
Contrariamente ao que acontece com as coisas que se me impõem, que integram uma errata maior que o livro, nunca me engano nas minhas escolhas. Foi essa segurança estatística que me fez continuar a acreditar na minha tripulação tão criteriosamente escolhida, mesmo quando parecia evidente que não havia nada que se pudesse fazer por esta gente para lhes despertar o instinto sanguinário que é essencial numa carreira de Pirata.
Finalmente, ou porque se aborreceram das férias náuticas, ou porque o rum lá lhes chegou ao sangue, decidiram-se a fazer jus à minha fé.
Esta manhã, quando desci para o pequeno almoço, estavam todos reunidos à volta da mesa, equipados com lenços, brincos, ganchos e sabres e comunicaram-me que estavam prontos para a ação.
Sem plano de ataque ainda definido, sugeri que fossemos atrás de um iate de espanhóis que nos irritaram numa marina de Kos e lhes roubássemos a embarcação.
Os bloggers rapidamente se lançaram numa discussão sobre a ética do ataque aos hispânicos, os poetas protestaram com Cervantes, os ex-presidiários tinham feitos amigos entre etarras durante a reclusão, Gualtiero votou contra com o pretexto de uma amante espanhola e foi quando eu já estava em vias de me conformar com mais um projeto de ação transformado em "vamos mas é antes fazer uma sunset party de margaritas" que os pescadores acolhidos a bordo tiveram uma ideia que nos projetará para o mundo da fama e da riqueza.
Vamos assaltar um petroleiro.
A esta hora tardia, o navio ainda fervilha de excitação. Estudam-se as rotas dos petroleiros mais apetecíveis, afiam-se os sabres comprados nas lojas dos trezentos, ensaiam-se saltos sobre o inimigo, afinam-se as bússolas dos devices, compram-se armas no ebay, desenham-se fatos para o ataque...
Assaltaremos um petroleiro.
Álvaro de Campos, esse chato, perguntou-me o que faríamos depois do ataque e onde guardaremos o petróleo, ou lá o que eles trazem dentro dos petroleiros.
Expliquei-lhe que não viemos para esta vida para nos preocuparmos com detalhes e que se insistir em chatear-nos com insignificâncias terei que o mandar amarrar no mastro.
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
radiografias instantâneas
Para nós, os racionais, o despropósito de uma emoção é a chancela da sua autenticidade.
É por isso que nós, os racionais, não gostamos mesmo nada de ser surpreendidos por emoções despropositadas.
Por mais leve que seja, ficamos para ali a olhar para dentro, desconfiados, sem perceber bem de onde veio, o que estávamos a fazer quando se instalou e como escapou ao filtro da generalizada indiferença.
Depois percebemos que perdemos quarenta minutos à procura de uma fotografia com a virtualidade de ilustrar um sentimento e até nisso conseguimos confirmar um sintoma.
Nós, os racionais, temos muita inveja das pessoas que se limitam a existir em vez de passar o tempo a autopsiar a existência.
e no pôr do sol e na lua e na sombra e na chuva, encontro-me sempre a mim própria
Siddhartha learned a lot when he was with the Samanas, many ways leading away from the self he learned to go. He went the way of self-denial by means of pain, through voluntarily suffering and overcoming pain, hunger,thirst, tiredness. He went the way of self-denial by means of meditation, through imagining the mind to be void of all conceptions.These and other ways he learned to go, a thousand times he left his self, for hours and days he remained in the non-self. But though the ways led away from the self, their end nevertheless always led back to the self. Though Siddhartha fled from the self a thousand times, stayed in nothingness, stayed in the animal, in the stone, the return was inevitable, inescapable was the hour, when he found himself back in the sunshine or in the moonlight, in the shade or in the rain, and was once again his self and Siddhartha, and again felt the agony of the cycle which had been forced upon him.In Siddartha, Hermann Hesse
domingo, 6 de outubro de 2013
sábado, 5 de outubro de 2013
Notícias da terra
Estávamos sentados à mesa no convés quando Polly, o papagaio emprestado (que certamente por não ser nosso é o único animal que ainda alguma utilidade vai tendo neste navio), deixou cair no meu colo um sobrescrito com um logotipo familiar, em todos os sentidos do termo.
A minha gente, decorridos três meses desde que me tornei pirata, começou a desconfiar que aquela história da licença sabática para fazer um doutoramento sobre a organização política dos povos do reino de prestes joão talvez não faça muito sentido. Dizem-me que os almoços de domingo têm andado empobrecidos com a monocromática orientação política das conversas, que não há quem coma a morcela do cozido à portuguesa e que à falta de terem alguém a quem mandar endireitar as costas de dois em dois minutos tiveram que começar a tomar as refeições de televisão ligada. Pedem-me que volte e prometem-me que não me obrigarão a regressar ao trabalho, a que eles insistem em referir-se como "a função", para fazer com que pareça mais importante do que é.
Não me deixarei enganar. Tenho um considerável histórico de fugas de casa. Desde os quatro anos que ando nisto e a única coisa que mudou foi o objeto da promessa daquilo que não me obrigarão a fazer. Além disso, mesmo que quisesse voltar não podia. Eu e esta brava tripulação ainda só roubámos uma velha traineira de pescadores e, tendo jantado o espólio, o lucro da empreitada não chegaria para pagar a conta do leasing do navio.
Pese embora a carta não tenha beliscado a minha firme de convicção de morrer Pirata, deixou-me submersa na nostalgia dos tempos em que em que era uma cidadã exemplar e me levantava todos os dias às sete e meia da manhã para ir praticar o bem.
Mas meio minuto depois passou-me. Agora que sou terrorista dos mares, faço parte do mal. E se há coisa que sempre gostei é de pertencer a equipas com alguma possibilidade de ganhar.
terça-feira, 1 de outubro de 2013
freedom song
Something simple is the key
Only love will set us free
it´s so far, it´s so near
Almost close, almost here
Um duplo erro.
Nem o amor é uma coisa simples, nem tem qualquer capacidade libertadora.
Aliás, se o produto fosse bom, não era necessária tanta publicidade para o vender.
Subscrever:
Mensagens (Atom)






