domingo, 22 de maio de 2011

últimos dias

Caí de tédio entre as dezanove e as vinte, teletransportando-me para uma soneca deprimida e deprimente no sofá da sala. Não me lembro de ter sonhado – reaprendi a sonhar recentemente, depois da milagrosa e ainda inexplicada cura das insónias – mas aposto o meu polegar direito em como o meu sonho foi aborrecido e pessimista numa estranha mistura de criaturas que, de acordo com qualquer dicionário de sonhos, prenuncia milhões de tragédias.
Acordei com vozes, muitas vozes, demasiadas vozes, em frente à minha janela e devo admitir que pensei imediatamente que eles se tivessem todos revoltado contra mim e se tivessem reunido para me linchar. Ainda fiz um rápido rewind pelas últimas decisões que tomei esta semana, na ânsia de, antes de morrer às mãos do povo, perceber porque é que os irritei. Dizem, nos livros de auto-ajuda, que tudo o que compreendemos não nos faz sofrer. E eu tive uma esperança de última hora que a dor que presumo anteceder qualquer morte por apedrejamento também se pudesse incluir nesse adágio dos vigaristas da auto-ajuda.
Foram conjecturas inúteis. Três minutos depois havia música na Praça e, pela primeira vez desde a minha chegada, não era eu quem a controlava.
Quando saí à rua deparei-me com cinquenta pessoas – todos os homens e mulheres deste lugarejo, velhos e crianças incluídos – a dançar ao som de umas colunas emprestadas pelos Bombeiros.
Segundo me explicaram, e garanto-vos que a explicação era indispensável, aquilo que estavam a dançar eram marchas.
Não se deram ao trabalho de enfeitar com luzinhas as três árvores da praça, de prender fios com papelinhos coloridos, de instalar um holofote. Muito menos de organizar uma quermesse, construir uma barraquinha de farturas ou, ao menos, trazer cervejas de casa.
A festa era só aquilo. Umas colunas de som, uma voz de mulher recambiada dos anos quarenta a cantar músicas com letras que me pareceu me falavam de Alfama e cinquenta pessoas a dançar.
Acabou tudo às vinte e três em ponto. O meu povo insiste em cumprir escrupulosamente a lei, principalmente a do ruído, e sobretudo quando eu estou a ver.
Já em silêncio e com os foliões dispersos, fiquei sentada num dos bancos da praça, ao lado do meu senhorio israelita da Mossad, com a cabeça para trás e os olhos fixos nas estrelas.
- Disseram-me que um dos privilégios de viver no campo é poder olhar o céu e ver estrelas. Mas acho isto muito decepcionante. Estava à espera de melhor…
- Estava à espera de quê? Você pensava que a tinham mandado para o planetário de Lisboa?
Aproveitei logo aquele pequeno momento de hostilidade para tentar resolver o mistério das coisas que neste lugar não são o que parecem.
- agora que me vou embora, podia dizer-me, finalmente, porque é que a sua organização me vigia?
- o quê??
- sim, sim. Qual é o vosso interesse em mim?
- bem… organização não sei… só posso falar por mim.
- deixe-se de coisas. Sei bem para quem trabalha…
Ele pareceu-me genuinamente confuso.
- asseguro-lhe que a câmara municipal não tem nada a ver com a minha vida.
- Ora… Estou a falar da SUA organização. Não do seu emprego de fachada.
- não sou assim tão organizado. E quanto a isso do interesse… eu sou um simples homem, né?
- ah, confessa que há segundas intenções quanto a mim?…
- claro. Se você fosse coxa, marreca e feiosa não lhe trazia peixe fresco.
- explique-me, então, o que é que a sua organização quer de mim!
- organização? Chamam assim, lá em Lisboa?
- não se finja inocente…acabou de dizer que é um mero operacional de uma coisa maior...
- ouça cá…você não namora muito, pois não?

sábado, 21 de maio de 2011

O ímpeto confessório é a mais detestável de todas as manifestações egoístas

- Não tens nada para confessar?
- Absolutamente nada. Tenciono viver emparedada com todos os meus erros.

quadros que também são estados de espírito


Quadro de Jack Vettriano (The Letter)

Levo a planície no coração



A minha missão nesta terra terminou dois meses antes do esperado.


Numa sala escura, três ou quatro homens de gravata sensaborona e corte de cabelo de gosto duvidoso, sentaram-se na frente de uns papéis cheios de números e decidiram que há um outro povo que precisa mais de mim do que este.
Como já começa a ser hábito, a minha nova vida foi-me comunicada através de telefone por uma voz arrastada num falso tom incomodado. Pelo menos, desta vez, pouparam-me ao apresentador de concursos, feliz por ter nascido, que anuncia exílios como quem entrega o primeiro prémio de um tétrico concurso de enciclopédias.
Aqui, na terra, ninguém sabe de nada. Ainda pensei em aparecer ontem, à hora da sueca, para lhes dizer que as nossas soirées culturais terão que prosseguir sem mim. Mas depois limitei-me a acenar-lhes da janela e a gritar-lhes que escondessem as moedas, não fosse a GNR aparecer e descobrir o casino ilegal que instalámos nos bancos da praça.
Afinal, hoje é dia de feira. E não teria sido sensato ensombrar-lhes a felicidade pela antecipação do prazer de comprar baldes de plástico, batas de velha, molhos de couves e selins de bicicleta, tudo devidamente embalado pela apropriadíssima música do Tony Carreira, a vida que eu escolhi.
Decidi que a melhor maneira de lhes dar a notícia é amanhã, na matinée. Vou subir ao palco e fazer um anúncio público. Fiz uma chegada discreta mas exijo uma despedida apoteótica.


O problema dos burocratas que, por decreto, deram a minha missão por cumprida é que, por falta de espaço, nunca tiveram a planície no coração.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Cancelado

Ele era um aeroporto. Nunca me aconteceu nada de bom num aeroporto. Prefiro portos de abrigo.

sábado, 14 de maio de 2011

Madhouse

Uma vez em cada dois anos, ser internada num manicómio transforma-se no sonho da minha vida.


Um jardim grande com grades ao fundo. Um pequeno lago com peixes mortos à dentada. Três limoeiros com loucos pendurados nos ramos. Um banco de madeira verde com enigmas gravados à unha. Meio túnel escavado. Núvens em forma de cães raivosos.


E lá dentro:


Um quarto completamente branco. Pijamas de linho às riscas. Bandejas com comprimidos coloridos. Uma janela que não se consiga abrir. Lençois pregados à cama.


O tempo parado.


Enfim, um sítio em que me pudesse, finalmente, sentir em casa.

Estou farta de gente mentirosa

O meu senhorio israelita da Mossad veio sentar-se na minha mesa no restaurante. Como de costume, era a única mesa ocupada.
Deve ter estado à espreita, nas minhas costas, para surgir no exacto momento em que eu enchi a boca com secretos de porco preto.
Também lhes ensinam estas coisas lá nos campos militares onde os treinam.
Incapaz de protestar sem perder a dignidade, acabei por o deixar sentar-se na minha frente e roubar-me uma azeitona.
Ainda fiz um esforço por tentar lembrar-me se lhe teria pago a renda. Antes de conseguir chegar a uma conclusão percebi que vinha em missão social.
Os velhos da praça disseram-lhe que passei a exibir uma expressão carrancuda e zangada. Que já não se ouve música das minhas janelas. Que vou despejar o lixo durante a noite para não ter que passar por eles. Que ganhei a guerra contra as mulheres que me espreitam para a sala condenando-me à bunkerização nas tardes de sábado.
Da vila, chegam-lhes notícias igualmente preocupantes. Diz-se que lá no meu trabalho já não me vêem passar pelos corredores com um sorriso imbecil na cara. Que quando entro na sala grande tenho um ar mal disposto e, por vezes, me esqueço de dizer bom dia. Que, ultimamente, os grandes textos encriptados que assino estão pejados de expressões como “personalidade desconforme às mais elementares regras sociais” e “falta de competências para uma normal vivência numa sociedade que se quer segura” e “imunidade absoluta aos efeitos das penas”.
Acabei de deglutir o porco preto em silêncio e não lhe expliquei que a génese do meu problema se situa algures entre o cansaço e a mentira.
Ele ficou a olhar para mim durante uns minutos e depois disse com um tom grave:
- Nunca serás capaz de nos compreender.
Fingi não reparar na ousadia da despropositada informalidade.
Sem querer, ele diagnosticou a minha doença.
Não se faz verdadeiramente parte de algo que não se apreende e eu nunca conseguirei compreender as infinitas limitações dos seres humanos.

domingo, 8 de maio de 2011

Se a vida te dá limões, faz... Limoncello



Qui saudadjé di ocê

Amigo:
Acho que foi por ter passado por um campo de girassóis no meio do qual havia uma única papoila. Vermelha e não encarnada.
Gostarias de me ver aqui por estas estradas fora a assassinar pássaros e lebres com a determinação de quem nunca fez outra coisa na vida a não ser assistir a matanças de porcos. Ainda não me convidaram para nenhuma. Em substituição vieram-me chamar para presenciar o nascimento de um burro. Não cheguei a tempo. Demorei a encontrar o calçado apropriado.
Gostaria eu, ainda mais, de te ver aí por essas praias fora caminhar em ziguezague com um livro debaixo do braço e outro a gritar-te dentro da cabeça. Aposto que chegas sempre a tempo mas apenas porque vais descalço.
Pedi ao inverno que te abrace por mim. Suponho que já aí tenha chegado. Espero que não exagere nos afectos e te poupe a uma hipotermia.
Em Setembro voltarei a mudar de terra. Estive a analisar o globo terrestre e descobri que estarei uns quilómetros mais perto de ti.
Ocorreu-me que se há catorze anos a World Press Photo só demorasse até Abril para chegar a Lisboa talvez ainda hoje eu fosse uma pevide.

sábado, 7 de maio de 2011

domingo, 1 de maio de 2011




o teu fantasma

Nas noites em que me distraio ainda me assombras os sentidos. Apareces aos pés da cama que há muitos anos nem sequer é minha. Pálido e magro. Olhas-me com a expressão indignada que só adquiriste post mortem e insistes na mesma pergunta.
- o que nos aconteceu?
Às vezes desapareces quando acendo a luz. Ou a vela de baunilha com que afasto o teu cheiro a sabão. Outras vezes sobes a cama e ficas deitado ao meu lado a segurar-me uma mão que gela no contacto com os teus ossos. Transparentes.
O que nos aconteceu foi um homicídio seguido de suicídio.
Pedes esclarecimentos.
Mas nesse mistério de morte nunca conseguiremos perceber, de entre os dois, quem matou e quem se deixou morrer.
É um enigma absurdo.
A mão que tu seguras não consegue sentir a força dos teus dedos. E o rosto em que procuras explicações não se faz reflectir nos espelhos do quarto.
Somos ambos fantasmas.

sábado, 30 de abril de 2011

Repetir Abril

Não se deixem enganar pelo título. Cuca não escreve posts com conotações políticas.
Abril foi um mês perdido num estado comatoso-vegetativo. E é só por isso que era útil repeti-lo.
A minha actividade cerebral limitou-se ao esforço de concentração necessário à tarefa de me manter agarrada às paredes para não cair no meio do chão e correr o risco de me deixar esmagar por pés humanos grandes e desastrados. Daqueles que não sabem dançar.
Abril foi também o mês em que deixei de ser insone.
Embalada por tanta inacção preferi dormir a aturar-me.

Temo que seja o início de uma tendência.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

a candura do folclore ingénuo

saudades lamechas


da Cuca e da Estrelita.
(banda sonora desta declaração à escolha de cada uma)

domingo, 24 de abril de 2011

o cordeiro do sacrifício

No altar da perfeição, enfeitado pelo pragmatismo e mascarado de sucesso, todos os dias se oferecem sacrifícios de inocentes.
Os altares, já se sabe, são locais perigosos e propensos a asneiras diversas.
E, por vezes, sem que demos conta, no afã do afio das facas e dos pescoços cortados em nome do que nada interessa, somos nós que acabamos transformados no cordeiro do dia.


sexta-feira, 22 de abril de 2011

Concerto Pascal

Eles sentaram-se nos bancos da praça, recostaram-se, cruzaram as pernas, deixaram cair o pescoço para o lado em atitude de profunda reflexão e ficaram imóveis, entregues à quietude da noite com os olhos fixos nas estrelas e os espíritos perdidos entre dimensões inatingíveis. Ou isso.


Na dúvida se aquilo que estava a fazer poderia ser considerado difusão de obra alheia, e na falta da respectiva licença, optei por fingir não ter dado conta que, atraída pelo som que saía das minhas janelas, uma modesta multidão transformou-se em plateia de um concerto de jazz.


Quarenta minutos depois, o CD chegou ao fim e eu fechei as janelas.
Os velhos da praça não se foram logo embora.

Ficaram ali a comentar que aquilo do jazz só era pena não ser o Tony Carreira a cantar.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

G.Steiner dizia há dias que todos deveríamos saber de cor passagens inteiras dos livros que mais gostamos.
Porque saber de cor é saborear com o coração.
Já me contentava em conseguir fazê-lo com a minha própria vida.
Conservar a memória do deleite, quero dizer.

dorrr dji cotovêlu



a expressão teve origem nas cenas de pessoas sentadas em bares, com os cotovelos apoiados no balcão bebendo e chorando um amor perdido. então, de tanto ficar naquela posição, as pessoas ficavam com dores no cotovelo. atualmente, é muito comum utilizar essa expressão para designar o despeito provocado pelo ciúme ou a tristeza causada por uma decepção amorosa.


in dicionário brasileiro da língua portuguesa

Deus está nas mais pequenas coisas


esta terceira Páscoa da K. fica marcada por dois grandes acontecimentos: a descoberta do leite com Nesquik pela caneca e o despertar para os dogmas católicos, aquilo a que os mais dramáticos gostam de apelidar de “mistérios da fé”.


pois que Medusa não deixa passar em branco nenhuma ocasião festiva, já que é uma criatura festiva por natureza e adora porque adora ter gente em casa. por mais atarefada que esteja a sua vida. festa é festa. e já começou a incutir na K. o gosto por receber. o animal doméstico que há em Medusa despertou com a fúria de quem anda enjaulado há tempo demais e lá estavam as duas a preparar o centro de mesa e um arranjo para a entrada de casa, tudo alusivo à Páscoa. tratava-se do jantar que a K. oferece aos seus padrinhos de baptismo no Domingo de Ramos.


cola, tesoura, papel de várias cores. ovos de esferovite para pintar. tintas. pintainhos. o resultado foi sendo alcançado ao som da história de Jesus que excluiu as partes ruins, devidamente substituídas por uma tareia de palmadas no rabo. a K. ia ouvindo com atenção e, por vezes, espanto. que asneira terá Jesus feito para levar tanto castigo? apesar das cogitações, o interesse maior pelas tintas era evidente.


arranjo composto, palmas e abracinhos. quem conhece já sabe que lá em casa não há boneco que não tenha nome. e resolveram dar um ao pintainho.




- e então meu amor, que nome vamos dar ao pintainho…?

- é o pintainho Jesus.



…


em tempo, o risoto a la parmigiana ficou divino.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Haja critério!


- E foi vinho que o sr. ingeriu?
- Sim, sim, vinho tinto. É a bebida que eu gasto. Que eu não bebo aguardentes, nem café, nem essas coisas.
- ...

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Love issues




(...) I'll see you in the sunlight
I'll hear your voice everywhere
I'll run to tenderly hold you
But, Darlin' you won't be there


I don't wanna say good-bye
For the summer
Knowing the love we'll miss
Let us make a pledge
To meet in September
And seal it with a kiss

Haverá, talvez, uma coisa ainda mais ridícula que as promessas dos amantes:

O esforço que fazem os amantes para não cairem no ridículo de fazer promessas.

terça-feira, 12 de abril de 2011

perder a cabeça ::: pelo olhar de um príncipe












“… não sentirás. quase nada.


que darei ao carrasco uma moeda de ouro para que afie meticulosamente a espada e o faça de um golpe só.

mmmmmmm… a linda santinha cefalofore que tu serás.”

Até vem no Nietzsche e tudo

OS SAPATINHOS SÃO JIMMY CHOO, primavera de 2011


Finalmente, consideremos quão ingénuo é dizer: “O homem deveria ser de tal ou de tal modo!” A realidade nos mostra uma encantadora riqueza de tipos, uma abundante profusão de jogos e mudanças de forma – e um miserável serviçal de um moralista comenta: “Não! O homem deveria ser diferente.” Esse beato pedante até sabe como o homem deveria ser: ele pinta seu retrato na parede e diz: “Ecce homo!”[ Mas mesmo quando o moralista dirige-se a apenas um indivíduo e diz “você deveria ser de tal e de tal modo!”, ainda não deixa de ser ridículo. O ser humano, visto pela frente ou por trás, é um pedaço de destino, uma lei a mais, uma necessidade a mais para tudo que há de vir e será. Dizer-lhe “muda-te” é exigir que tudo seja mudado, mesmo retroactivamente. E realmente houve moralistas consequentes que desejavam tornar o homem diferente, isto é, virtuoso – desejavam-no reformado à sua própria imagem, como pedante: e, para tal fim, negavam o mundo! Nenhuma pequena loucura! Nenhum modesto tipo de imodéstia! A moral, à medida que condena por sua própria causa, e não a partir dos interesses, considerações e pontos de vista da vida, é um erro específico pelo qual não se deve ter compaixão – uma idiossincrasia de degenerados que causou danos imensuráveis. Nós outros, nós imoralistas, pelo contrário, fizemos de nosso coração uma morada para todo tipo de entendimento, compreensão e aprovação. Não negamos facilmente; encontramos honra no fato de sermos afirmativos. Cada vez mais, nossos olhos se abrem a uma economia que necessita e sabe utilizar tudo que a sagrada insensatez do padre, a doentia razão do padre, rejeita – aquela economia na lei da vida que encontra alguma vantagem mesmo nas espécies mais repulsivas de pedantes, padres e virtuosos. Que vantagem? Mas nós mesmos, nós imoralistas, somos a resposta.


In Friedrich Nietzsche, Moral Como Antinatureza


Com trÊs filhas pequenas em casa, tomara que esta verdade nunca seja a nossa.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

o teu fantasma







ela estava em pé, em frente à janela da minha sala, em carne e osso. como Flaubert a descreveu: vestido, pele branca, quase pálida, grandes olhos castanhos directos. os lábios eram mais carnudos do que me lembrava, mas a boca era pouco desenhada. os cabelos, antes escuros, deveriam ser longos. “linda Bovary” – pensava, enquanto ela se voltou para mim. “estás à procura de alguma coisa?” – ao ouvi-la, apavorei-me. estou louco.

o vulto também falava, era ela, e como nunca tinha existido, não estava morta. “o que queres?” – perguntou novamente, caminhando na minha direcção – deixei de raciocinar.

repetiu a pergunta, olhou em volta e sentou-se no meu sofá. ao fim de alguns minutos, conversávamos. contei-lhe em que ano estávamos, país, cidade, dia. respondi a cada pergunta que me fez, tentando ser engraçado. “queres comer alguma coisa?”

“sim, estou com fome.”

enquanto comíamos, eu no chão, ela estendida, não parei de falar. contei-lhe em resumo sobre guerras, arte, música, coisas que pensei que lhe interessariam. ela me olhava atenta – “continua", dizia-me, quando eu fazia alguma pausa; mas eu não podia mais. não podia mais com a ideia de estar louco a falar com o vazio da minha sala.

“gostaria de continuar, mas tu precisas de ir embora.” – disse-lhe gravemente.

“não… fala-me do amor …”

“bem – comecei um discurso – o único direito que temos é a morte, e em alguns países, a matar. a liberdade é um bêbado equilibrando-se numa corda bamba. ser jovem é a única religião; a beleza, a única virtude; o amor é uma doença curada com antidepressivos. não podemos caminhar nas ruas à noite, e durante o dia fazêmo-lo com medo; estamos enjaulados e devidamente anestesiados”.

(pausa).

“no mais, minha querida, todos nós fazemos uns jogos, às vezes somos peões, rainhas, reis, dependendo das posições… e tu, ainda serias considerada louca. temos a loucura toda classificada em termos e analogias mitológicas, que nos dizem o que está certo, o que está errado, quem está triste ou angustiado. e disso tu não escaparias, com certeza. tu e toda a maioria não batem bem, estão insanos por causa de neuroses e porque sonham demais ou de menos”.

(ataque).

“e tu continuarias a ser considerada uma puta, uma messalina, uma vadia… sinto muito dizer-te”. ela só me olhou com ar de quem tinha dado o melhor que podia a quem não lhe reconhecia qualquer valor à oferta.

(desistência).

beijei-a e não senti culpa.

Deficiências


A capacidade de ultrapassar as perdas é uma característica inata nos seres humanos. Infelizmente, alguns nascem com uma deficiência na alma que os torna absolutamente imunes aos efeitos da passagem do tempo na intensidade do desgosto.

Como quem nasce sem audição ou sem olfacto eu nasci amputada na possibilidade de ultrapassar as minhas perdas.


Não há imagem de pinhal que não me retorne a angústia de ter perdido a boneca Clara na sombra de um pinheiro. Trinta anos.

As castanhas assadas no S. Martinho sabem-me, todas, à morte do meu avô. Vinte e um anos.

Qualquer passagem por prateleiras de supermercado com latas de comida de animal seca-me a garganta na memória do gato Óscar. Catorze anos.

Acordar todas as manhãs continua a ser uma bofetada diária feita de cinco dedos de ausência daquele que foi toda a minha vida futura. Três anos.

E por fim…

…Um mês.


Se ao menos hoje eu conseguisse passar por um pinhal sem reviver o desgosto da perda da boneca Clara, ainda poderia ter esperança. Esperança que daqui a trinta anos menos um mês, a minha última perda – e a maior de todas elas – pudesse, finalmente, ser ultrapassada.

domingo, 10 de abril de 2011

Artistas circenses

Sobre as pessoas que não podemos ter, aprendi algo muito importante:
Não existem.

Inspeccionada

Esperou três semanas pelo convite que não chegou. À quarta semana veio sem ser convidada. Encontrou uma casa sem número de porta, numa rua que não vem no mapa e no meio de uma localidade sem placas que a denunciem. A mesma eficácia germânica fez com que também descobrisse a identidade da única pessoa que, para além de mim própria, possuía uma chave. Instalou-se antes de eu chegar. Mudou a disposição dos móveis. Atirou as minhas refeições pré-cozinhadas para o lixo. Reorganizou-me o roupeiro. Disciplinou a empregada. Desceu de Lisboa ao inferno com a finalidade de inspeccionar as minhas novas condições de vida. Durante três dias – ou terão sido três anos? – fiscalizou tudo. Desde o número de curvas que faço no percurso de quinze quilómetros de casa para o trabalho, à qualidade da carne do único supermercado disponível, aos níveis de sal do pão que me vendem, ao grão de areia das praias mais próximas, à árvore genealógica do meu senhorio israelita.

No final, porque o pragmatismo é hereditário e o meu tem fonte conhecida, concluiu da seguinte forma:


- Bem, o melhor que se pode dizer é que quem consegue viver aqui, consegue viver em qualquer lugar.

amor e uma cabana

Portugal


quinta-feira, 7 de abril de 2011

Gente que sabe que o mais importante é manter o estilo em qualquer ocasião



Com a mudança livrei-me dos gritos irritantes das gaivotas que entravam pela janela do meu antigo gabinete. O facto fez parte de uma lista manuscrita onde rabisquei as vantagens de ter sido obrigada a mudar de sítio. A lista fez parte de um processo de convencimento tão desesperado quanto ineficaz. Mas a primavera chegou à minha nova terra. E com ela as andorinhas. E a vantagem do silêncio foi rapidamente anulada pela azáfama destas criaturas esvoaçantes que afinal até são muito mais estúpidas do que aquilo que se pensa. Agora sou distraída pelas permanentes tentativas de suicídio de aves negras que se atiram em voo picado contra a janela fechada do meu novo gabinete. Além disso, quando não estão desmaiadas pela violência do embate contra os vidros, fazem barulho. Um barulho infinitamente mais irritante do que os mios das gaivotas. Um barulho que me faz sentir saudades dos dias em que imaginava várias formas de assassinar gaivotas e vivia confrontada com o problema de saber se, no que respeita ao acompanhamento enológico, gaivota deve ser tratada como carne ou como peixe. As andorinhas não me suscitam esse dilema. Suponho que o mais correcto será acompanhá-las com vinho tinto.

Sem uma perna, com uma muleta, cruzando a ponte

Foi através da inserção destas palavras num motor de busca, vírgulas à parte, que alguém veio ter a este blog. Parece-me uma descrição adequadíssima para me encontrar.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

coretos e altares

… e no coreto que inauguravam naquela tarde de fim de Julho, um conjunto de músicos vestidos de branco tocava um chorinho fresco que lhe sabia a hortelã. gosto que se entrosava na limonada com cacos de gelo disformes servida pelo homem do carrinho quadrado com rodas de bicicleta. o som do pica-gelo contra a pedra gigante que derretia devagar e encharcava o saibro à volta. foi aí que sujou os seus sapatos de sola, que eram novos. já não tinha idade para ir brincar com o irmão e os primos, mas ainda só assistia aos beijos escondidos que o magala dava na sopeira lá de casa. Domingo.

e foi estranho porque, no meio daquela gente toda, apareceu-lhe um rapaz de casaco azul e nariz comprido que, alegando agoniante sede, lhe pediu para partilhar a limonada. no copo, uma só palhinha.

e ela aceitou.

Do merecimento


Há uma amiga que, quando colocada perante os ataques de mau feitio que volta e meia assolam aqui a Estrelita, costuma alertar para a necessidade de cautela quando se pragueja, especialmente envolvendo terceiros.
“Ah e tal, e porque o mal que se deseja pode reverter contra nós. E em dobro.”
“Tudo na vida é uma questão de merecimento.”

Coisas da sua bela avó cabo verdiana.
Coisa para demover qualquer mente temente ao destino, ao karma, à purificação da alma e quejandos.

A Estrelita, sendo uma alma liberta dessa coisa da causa/consequência, quando invadida por uma dessas ondas, deixa-se ir. E tal como as bolhas da tradicional água do vimeiro das garrafinhas verdes, explode e faz arder a língua.
Isto posto, é só para dizer que há por aí umas quantas criaturas que mais podiam era estoirar-se, à séria, e para o resto da vida, de forma lenta e penosa – de maneira a compensar o Universo das alegrias e momentos de felicidade que alguma vez tenham tido.
Apenas, e só, porque é só isso que merecem.
Pronto, `tá dito.

E agora pergunto:
A Estrelita é má e mesquinha? Não, não é.
A Estrelita é vulgar e ordinária? Não, não é.
A Estrelita é invejosa e rancorosa? Não, não é.

A Estrelita acredita no equilíbrio do Universo e gostava de viver numa sociedade verdadeiramente Justa, onde o que se faz, e o que se é, custa a vida que se tem.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

soft & sweet ::: suicide note

o sorriso de um coração sem dono é infinitamente mais triste que a tristeza de um coração viúvo. há uma histeria gritante no segundo de que a serenidade surda do primeiro sente cobiça dolorida.


matei todos os sonhos que tiveram para mim – tenho a casa vazia, deitei-me com mais homens do que aqueles que amei e o que amei de verdade nunca acordou comigo num dia feriado.


eu quero ir-me embora.


os beijos azedam na minha boca. desta vez não chames pelo meu nome, não me peças que fique. esperei a vida inteira por quem nunca me amou e perdi tudo, até o medo.

a esta hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.

para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas essa voz, tu sabes, não é a tua.



os dias foram sempre tão compridos.

e a solidão tão grande.

domingo, 3 de abril de 2011

um progresso é um progresso...

Há motivos racionais e objectivos para a sensação de optimismo que tomou conta de mim. É verdade que ainda não aprendi a fazer bolos. Daqueles grandes, bonitos, deliciosos. Ainda nem sequer tive coragem para comprar farinha e uma batedeira, que presumo essenciais à realização do meu pequeno sonho doméstico. Ainda assim, esta tarde fui dar por mim, feliz e extraordinariamente satisfeita comigo própria, a escolher chávenas de café. Para cúmulo, nem sequer comprei as pretas. Consegui regressar a casa com umas chávenas de flores coloridas. Com a mesma satisfação inimputável, ignorei as coisas importantes que tinha para fazer e destruí duas horas da minha vida, em estado semi-psicopatológico, a desembrulhar as ditas chávenas e a arrancar-lhes os auto-colantes. Por fim, cheguei mesmo ao extremo de fazer um café e de o beber na chávena nova, sentadinha no sofá, a pensar como deve ser bom ser-se uma pessoa normal.

duelos

E na noite em que finalmente tudo acabou, não se tinham passado três mas trinta anos. Eles eram dois velhos. Debruçados sobre uma mesa de jogo. De feltro verde carcomido pelo tempo e pelas traças. Dois velhos. De mãos trémulas em redor de dados de faces gastas. Quem os visse assim curvados, já não saberia dizer, entre o bluff e a batota, qual dos dois tinha marcado mais pontos. Em tempos houve um quadro de scores apontados a giz branco. Mas depois, sem apagador, o quadro acabou por se transformar num caos de vitórias e derrotas de saldo nulo. A uma determinada altura da noite, ela juntou os dados na sua mão, despejou-os na dele e, fazendo um gesto de desistência com os ombros, iniciou os pesados movimentos que anunciavam a sua retirada. O vício, apenas o vício, ainda o levou a ele a puxar de um velho baralho de cartas e a iniciar uma lenta distribuição do jogo pelos dois. Mas ela sabia que, também naquele baralho de cantos desfeitos, há muito que não restava nenhuma dama. Saiu da mesa, condenando-o a uma insonsa vitória por desistência do adversário. Na noite em que finalmente tudo acabou, ela deitou-se, dormiu e fez aquilo que já não fazia há muitos anos.

Sonhou.

No seu sonho, ainda não tinha mãos de velha.

sábado, 2 de abril de 2011

compatibilização de sistemas operativos

Enquanto o computador me transmitia a mensagem “a verificar o software do iphone actualizado” ocorreu-me que poderia igualmente ser o vaticínio de um daqueles bolinhos da sorte chineses. Foi assim que encontrei a tradução do meu próprio estado de espírito. Também eu tenho o raciocínio momentaneamente bloqueado pela necessidade de actualização de software. São os incómodos de se ter uma mente incomparavelmente mais lenta que o coração.

quarta-feira, 30 de março de 2011

dos bichos que não podes ter

vais à praia e vês o peixinho. o peixinho se encanta de ti, num bronzeado dourado, cabelo molhado e pele a cheirar a fruta dos trópicos. pede comida. e tu dás. o peixinho fica contente, faz mais umas acrobacias e pede mais. e tu dás. muito riso. escutam-se hulahulas e o sch-sch-sch das folhagens. coqueiros e palmeiras.


o sol esconde-se, a brisa levanta e o dia acaba. arrumas as tuas coisas, vens para casa. insólito: o peixinho segue-te. mais: até se adianta! quando começas a sacudir a areia dos pés olhas e está sentado no capacho de entrada, com cara de quem está fora de água. tu o acolhes, não sem antes o mandares embora, ainda com convicção. é só esta noite – dizes a cantar –; amanhã, voltas para o mar. num aquário improvisado, finge que dorme todo contente, mas está a magicar agrados.


a manhã seguinte é de nevoeiro, desculpa cúmplice. então vamos passear e vais amanhã, que é Domingo. corda à volta do aquário. passeio. conversa. quotidiano de Sábado. frutaria, florista… peixaria não, seria de muito mau gosto. hoje vamos ao talho!, escarnece o peixinho. quotidiano de sábado – um perigo para a sedução. tarde de jardinagem. o peixinho assiste os teus trabalhos do aquário suspenso no ramo de uma camélia a rebentar de verdes folhas lustrosas. as pétalas já se tinham ido todas. duram tão pouco… gostava de as ver, diz o peixinho. olhas de soslaio – bem sabes, peixinho, que só aparecem no fim do Inverno e que os primeiros mornos da Primavera levam os últimos botões... o peixinho sabe que tu sabes que ele sabe. aliás, tu sabes que ele sabe que tu sabes. sorriem. prossegues na jardinagem.


o peixinho vai ficando, sempre com as desculpas cúmplices da natureza. acaba por conhecer as camélias, que até o desiludem. tanta expectativa…


acabas por enxotar oficialmente o gato que costumava fazer umas visitas surpresa. para o efeito, recorres a bombinhas de Carnaval do stock da mercearia ao fundo da rua. na mesma leva, assustas definitivamente os pombos e outros, como as gaivotas que em dias de tempestade no mar vinham passear até à colina da tua casa. ultrapassas vários incómodos. até gente de quem gostas mas que não gosta de peixe.


numa manhã de Junho desaparece sem deixar bilhete. nem uma escama azul marinha de recordação. ainda tentas ligar-lhe pelo búzio que ambos apanharam no Outono passado. sem resposta.


o peixinho é um bicho que não podes ter. ouve bem o que te digo. tem a tendência de voltar para o mar. e deixa-te uma espinha atravessada na garganta que pica para sempre.


terça-feira, 29 de março de 2011

segunda-feira, 28 de março de 2011

Farois


Todos os fins-de-semana, na minha ausência, aparecem coisas em casa que não estavam aqui antes. E não estou a falar das melgas gigantescas que tomaram conta do meu lugar no sofá. Tudo começou na primeira semana com a materialização de uma cama no quarto de hóspedes. Na segunda semana, quando cheguei a casa, havia um espelho na casa de banho e toalheiros pregados na parede. Desta vez fui surpreendida por um gradeamento no primeiro andar. Alguém descobriu e arruinou o meu plano de me suicidar dentro de casa, atirando-me em voo picado da mezzanine para a sala de estar. Acho que estas aparições não se dão de repente, quando não estou. A casa está viva e prenhe de benfeitorias. Todos os dias cresce. Simplesmente, como o crescimento é lento e eu distraída, só me apercebo quando estou uns dias fora. Ainda pensei que o responsável fosse o suspeito do costume. O meu senhorio, encapotado agente da Mossad. Encontrei uns rastos de sola de ténis à volta da minha casa de banho e tirei-lhe imediatamente as medidas. Com a intenção de o confrontar com as minhas suspeitas inventei um pretexto para o chamar. Apareceu três minutos depois vestido com um daqueles fatos que se usam na caça submarina. Apesar de se ter recusado a tirar as barbatanas consegui calcular-lhe o tamanho do pé e percebi logo que os rastos são demasiado pequenos para terem sido feitos por ele. As minhas suspeitas recaem agora sobre o faroleiro. O homem que, apesar das minhas vigilâncias nocturnas em redor do farol, jamais consegui ver. Abordei o assunto do misterioso faroleiro com o agente da Mossad que se limitou a olhar em redor, fazendo um gesto de silêncio com o dedo sobre os lábios, enquanto deu uma cambalhota no ar e apontou o buraco da salamandra que ainda não existe e que temo que seja a próxima coisa a aparecer no primeiro fim-de-semana em que me apanharem fora de casa. Encolhi os ombros e acompanhei-o à rua onde fiquei a vê-lo afastar-se, caminhando de costas, daquela maneira profissional como se caminha quando se estão a usar barbatanas. Os velhos da praça, logo que me viram à porta, vieram convidar-me para uma jogatana. Tal como previsto, a Vanity Fair que fingi esquecer no tasco local já está a dar os seus frutos. Fartaram-se da bisca. Estavam a jogar xadrez enquanto discutiam a crise política nacional. Um deles disse-me que no tempo do Salazar não tinham que aturar isto porque nunca havia eleições antecipadas. Voltei para casa com uma dívida de jogo e uma inquietação na alma. Aqui ou em Lisboa, as saudades nunca me largam.

volta ao dia em 80 Mundos


não se prende o amor com pregos, ao coração. não é assim que funciona.

Neste blog também se fazem propostas legislativas

O Estado deveria ser chamado a intervir nesse flagelo social que consiste na incompetência generalizada dos cidadãos para manter uma relação amorosa a longo prazo. Além de afectar a produtividade nacional e aumentar o consumo privado, este drama social, pela sua natural susceptibilidade de induzir à depressão, assume contornos de problema de saúde pública. Demonstrado o fracasso geral da auto-regulação, conto com o Estado para nos garantir a todos relações amorosas mais eficazes e sustentáveis. Inspirada no sistema da praxis da minha antiga universidade – onde se publicitavam as relações sérias fazendo um rasgão a meio da capa do traje académico e se anunciava o seu final, cosendo o dito rasgão com linha da cor do curso – burilei um sistema perfeito que nos pode livrar de vários desgostos. Proponho a institucionalização obrigatória de um cadastro público, disponível na internet, dos relacionamentos amorosos de cada um. Uma vez terminada a coisa, o ex casal seria obrigado a preencher um formulário previamente aprovado por uma comissão, do qual constassem, o mais objectivamente possível, além das características do ex-outro, as causas da ruptura. Este sistema teria três inequívocas vantagens: em primeiro lugar, a capacidade de objectividade do outro, com vista a um presumível final e à necessidade de uma justa avaliação, passaria a ser considerada uma virtude indispensável a um relacionamento. Em segundo lugar, todos passaríamos a adoptar o nosso melhor comportamento no decurso da relação em vez de, tal como acontece agora, isso só suceder durante as primeiras duas semanas. Por fim, a disponibilização pública da informação relevante sobre o candidato evitaria esse outro flagelo social que é a publicidade enganosa. Enquanto o Estado se demite da sua função de me garantir uma escolha informada resta-me adoptar uma forma um pouco mais arcaica, mas igualmente eficaz, de despistagem da conversa da treta: a partir de agora só invisto sentimentalmente num homem que esteja disposto a tatuar o meu nome no peito. Assim, por cima do coração.

domingo, 27 de março de 2011

domingo

- é o rali de Portugal… - onde? - ai isso não sei… aquilo parecem as Beiras - o Guilherme e o Bernardo foram - mas vão sempre - o Bernardo não, não foi uns tempos, por causa da menina - ah pois - não, é Alentejo… - com aquela vegetação toda…? não pode ser… só se for mais cá para cima... - não que essa terra Santana-Não-Sei-Das-Quantas é das primeiras que se vê depois de se sair do Algarve - ai não pode ser… que estranho, tanta árvore - olha, passa-me a travessa - queres que te sirva? - o Alentejo não é o Sahara… e de onde pensas que vem a cortiça? - não, passa-me… e então as obras na casa do tio Belchior… aquilo nunca mais acaba… - ah, e agora é que vai durar, fase de acabamentos – toda a gente já sabe como é e aquilo ficou tudo esventrado, tudo - então mas e os tectos, aquilo eram tectos lindíssimos, tudo trabalhado - ah, agora fazem uns moldes, é um espectáculo, fazem uns moldes e quando refazem o tecto fica igualzinho ao que estava - ai sim? - ui haviam de ver o entusiasmo do Alexandre com aquilo tudo, estava muito entusiasmado… - como é que…? - Contralex (risos) - contra a lei, que nome mais parvo - então: é de construções Alexandre… (risos) - mas parece que têm que ter um alvará específico, para fazer restauros… - oh pai, mas isso só é preciso se forem monumentos ou... - não não, que eu sei que ele tem esse alvará, filho - acho que estás a confundir - estou-te a dizer… - ai eu tenho pena daquele rapaz, o Tomás - sim, é uma pena, é um tó-tó - a culpa é do pai! vai ser outra história como a da Teresinha - que acabou na desgraça que se vê… agora meteu-se na bebida, não a deixaram seguir filosofia, era a vida dela, a filosofia, a mania que ela fosse para o Conservatório, e depois ficou na Academia, mas que vida triste… - ai sim? não conheço… - ah pois foi! então não sabes quem é…? é a filha da D. Gilberta! foi tanto estudo, para nada, ficou na Academia e não fez nada da vida. vocês nem imaginam a figureta que ela fazia para atravessar a rua, vejam bem, atravessar a rua! parecia uma tolinha! - pois… o menino, ai menino, qual menino qual quê, que aquilo é um homem, ele está no 12,º ano, não teve infância… - é incrível, noutro dia fomos jantar lá a baixo, ficámos ao pé deles, estava a família toda, e o miúdo passou o tempo todo a contar anedotas sobre a União Soviética… que palhaçada - mas a culpa é do pai, que meteu na cabeça que ele ia ser um Nigel Kennedy - a mãe também se calou - a mãe…? oh coitada, tu bem sabes como ele é… - agora tudo que é concerto lá está o miúdo e francamente… - eles ficaram na direcção da Academia para poder exibir o miúdo, quase se mataram… - e é um virtuosismo que nem existe, eu não posso falar muito mas… - ai pois é, o miúdo não é assim tão bom , pois não… - noutro dia… - que dia? - quando estávamos a jantar e tu até disseste dos sinos, que estava a ser um exagero - ah pois foi… e já tinha 84 anos - o da Clara? já? - ah pois... mas tanta doença… sempre me lembro dele já doente - pois - mas porque é que tens que ir agora para Vale de Cambra? - porque é assim… - ai menina, que estupidez, ficavas em Espinho - eu bem queria… - já não basta o que andas a passar… agora para Vale de Cambra, aquilo Deus me livre - ...e fomos ontem - lá ao Porto? - sim, muito bom, um bocado caro mas… - ah mas vale a pena, de vez em quando - é, tem que ser - é ao pé do Ferreira Borges, num Palácio das Artes que nem sabia que existia… - é o mesmo do DOC, aquele no Douro, acho que é em Armamar - eh pá, muito bom mesmo - e cheio! não percebo onde esta a crise - andava a ligar desde 4.ª feira, tudo cheio, chegaram a perguntar-me se queria mesa para a uma da manhã… - é tem sido assim, ou ligas antes de 4.ª ou não tens hipótese - mas hoje vêm jantar lá a casa… - sim sim - queres que leve uma sobremesa? - raios partam a mudança da hora, detesto isto

ritmos

sexta-feira, 25 de março de 2011

cursos de auto-defesa


por vezes preciso que me esfreguem um espelho no focinho

naquilo que faço é egoísmo gostar ou não gostar de uma terra.
todos os lugares são “gostáveis” desde que se assuma o seu “povo”.
desterrada tantas vezes, eu já devia saber isto bem.
como me disseram esta manhã, eu não sou de lado nenhum e ando sempre a tentar pertencer. ora, isso nunca vai acontecer.
pode ser que eu consiga ser adoptada por um “povo” qualquer, que precise de mim.
e, assim, possa ser de algum lado. afinal, a orfandade é minha.






quinta-feira, 24 de março de 2011

preferia uma coisa destas do que um ram... não. preferia uma coisa destas com o ramo de camélias

Cada memória apaixonada tem suas madalenas e a minha -saiba disso, onde quer que você estiver- é o perfume do tabaco claro que me devolve à tua noite espigada, à lufada da tua pele mais profunda. Não o tabaco que se aspira, a fumaça que reveste as gargantas, e sim aquela vaga equívoca fragrância que o cachimbo deixa nos dedos e que em algum momento, em algum gesto despercebido, sobe com seu látego de delícias para encabritar a lembrança que tenho de ti, a sombra das tuas costas contra o branco velame dos lençóis. Não me olhes aí da tua ausência com essa gravidade um tanto infantil que fazia do teu rosto uma máscara de jovem faraó núbio. Acho que sempre ficou bem entendido que nós só daríamos um ao outro o prazer e as festas leves do álcool e das ruas vazias da meia-noite. De ti não tenho mais do que isso, mas na lembrança me voltas nua e derramada, nosso planeta mais preciso foi a cama em que lentas, imperiosas geografias iam nascendo das nossas viagens, de tantos desembarques amáveis ou resistidos, de comitivas com cestas de frutas ou flecheiros à espreita, e ganhamos cada poço, cada rio, cada colina e cada planície em noites extenuantes, em meio a obscuros parlatórios de aliados ou inimigos. Oh, viajante de ti mesma, máquina de esquecimento! E então passo a mão pela cara num gesto distraído e o perfume do tabaco em meus dedos te traz para me arrancar outra vez desse presente costumeiro, te projeta antílope na tela desse leito onde vivemos os intermináveis caminhos de um efêmero encontro...

CORTÁZAR, Julio ::: Último Round*1969

quarta-feira, 23 de março de 2011

processos de afasia

Acordámos no deserto. Tínhamos areia debaixo das unhas, dentro dos ouvidos e nas narinas. Não nos dentes. Não, ainda, nessa altura. Não no deserto daquela noite.
Ficámos deitados nas almofadas de veludo da tenda berbere a beber chá de menta enquanto ouvíamos o barulho que faz a noite quando se levanta sobre o deserto sem fim. Com os olhos postos na aurora e as mãos esquecidas nos meus joelhos gelados prometeste-me uma existência sem dor. Ofereceste como testemunhas da tua verdade as cobras, escorpiões, escaravelhos e todas as criaturas rastejantes que conseguiste manter longe dos meus pés nus. Eu não precisava de testemunhas. Nunca duvidei de ti.
Nem quando no dia seguinte os camelos foram incapazes de encontrar as margens do rio e os guias insistiram numa direcção que não era a da tua bússola. Nem aí duvidei de ti.
A promessa daquela noite haverias de a repetir à exaustão. Em cenários dispersos por vários continentes. Sempre com as mãos pousadas sobre os meus joelhos. Aquecidos.
Cumpriste-a postumamente.
Cauterizou-me os nervos o sol desse outro deserto em que acabaste por me abandonar.
Deixei de sentir dor.
Mas nessa altura passei a duvidar. De mim.

À Estrelita


E ainda assim, encontraste tempo para ler uma revista inteira, de fio a pavio.
Na tarde em que paraste o tempo para fazer o que fazes melhor.
Tomar conta de todos nós...
Sempre.

linda


uma vida de paixões.

terça-feira, 22 de março de 2011

CXX


"Cento e quatro dias
que fazem as férias
e a escola acaba com elas.
mas o grande problema
que todos vivemos
é saber como aproveitá-las
..."

Assim começa a canção de abertura de uma das séries de desenhos animados preferidos das minhas filhas mais velhas retratando o dilema que eu supunha ter de enfrentar nos últimos cento e vinte dias.
Puro engano.
Em boa verdade, nos últimos cento e vinte dias, o dilema que se me apresentou foi sempre o de decidir que tarefa realizar em primeiro lugar por forma a que o equilibrio da gestão da vida familiar não fosse perturbado.
Tarefa àrdua, como é bem sabido, numa familia recentemente alargada.
Devo ainda confessar que, neste período, mantive ao serviço a empregada doméstica a quem demovi de se reformar há seis meses atrás, alegando ser-me impossível ficar de licença de maternidade sem os seus serviços. A contragosto lá se comprometeu a ficar até eu regressar ao trabalho.
Agora anda a instruir a empregada nova.

Assim, aos cento e vinte dias já o tempo os levou (felizmente os de Inverno) e eu nada fiz.
Não li um livro, nem uma revista de fio a pavio.
Não li o jornal diariamente. Acumulei semanários sem tocar em muitos dos cadernos e lambi "as gordas" dos restantes.
Não ouvi um album completo, só os hits do momento, no rádio do carro furtuitamente sintonizado.
Não escrevi um post. Não tive uma ideia nem condições de abrir o portátil (a não ser às onze da noite, quando o marido reclamava a minha companhia).
Fui três vezes ao cinema, duas delas para ver desenhos animados.
Continuei sem ver televisão, à excepção dos canais Panda, Disney e Nickelodeon, como, aliás, desde há quase quatro anos.
Fui uma vez ao teatro. Ver a "Mãe Coragem e Seus Filhos" (foi o que se arranjou).
Dormi alguma coisa.
Não apanhei chuva, nem suportei o frio.

Tive uma existência profunda como uma lente de contacto.
Mas passei horas perdida nos olhos da minha bébé.

Amanhã vou voltar ao trabalho.
Hoje fui almoçar à praia. E o sol apiedou-se de mim, e escondeu-se atrás das nuvens.

A Música

A MÚSICA

A música partilha com a flor
a carne que se alaga como um copo.
A música é um rizoma atómico
cheia de sílabas grossas e finas
no peito maduro da onda.

Por isso a onda cai e a flor
também. E se te digo sei que ficas
triste e é quando substituis essa
geração de força por dois pequenos
vasos à entrada do teu dorso (e qual
és tu e qual sou eu é uma haste subindo)

Do teu lado esquerdo é dia.
O vestido é branco e aponta
a cidade a que chegas com os
dedos, rodando os ombros mas
não a cabeça. O teu olhar
é uma ferida musical sem verbo fixo:
a penumbra bate às vezes na
pálpebra, outras na imaginação.

A queda gera o seu próprio
impulso, como se fosse o preen-
chimento de uma forma: chama-se amor
e serve para os ouvintes ouvirem o esbracejar
do desejo, esses versos de asa silenciosa-
ouves?

Há poetas azuis que julgam que a
coerência é um pardal azul (da goela
até aos pés). Normalmente limpam os óculos
com coerência, em vez de com (enfim)
e depois vêem o mesmo pardal, a todas
as horas do dia e da noite, sentado azul-
mente sobre o seu nariz azul.

Pela direita, dizes que os versos
não caem se mudares constantemente
o chão. Mas os sonhos sim, e que a transla-
ção do vento sabe do remorso dos bichos mais
pequenos: procura as palavras junto ao chão
e se não me vires,
é porque o silêncio é também a música
e canto-a sem nome
para ti

Rui Costa
in Um poema para Fiama
Labirinto
2007

birra


segunda-feira, 21 de março de 2011

Full moon party


Pelas mesmas razões que me desfiz do CD dos boleros, não quis ver a lua cheia.
Para evitar o risco do vislumbre fechei as portadas às seis da tarde e recusei-me a sair de casa até o sol da manhã garantir um céu isento de luas traiçoeiras a despoletar pensamentos proibidos.
A culpa é da música da Rosana que a Estrelita me ofereceu há muitas luas atrás.
Consta que há uma relação entre a lua e os amantes.
Talvez fechando os olhos à primeira se consigam apagar os segundos.

handicaps


descobri que, apesar de míope com dioptrias de - 2,75 e - 3,25 – e sem lentes me considerar amblíope, reconheço melhor pessoas que não vejo há 20 anos do que pessoas que não vejo há 20 kgs.

Pagã até à medula

you must believe in spring

duas cervejas e um ginger ale
duas tostas mistas
tremoços

em brasa, um rosto feliz
Domingo
já não me lembrava de estar a contar as ondas do mar e a ver as que vem atrás ultrapassarem, mesmo antes de morrer na praia, as que vinham mais à frente. maré a encher.

o carreiro no mar, sob o sol, é de ouro
trinco um PernaDePau por saudosismo
e, ao longe, o barco pirata aparece e desaparece. viaja lento.
veio ver-me sorrir.

*

acabo o dia na urgência pediátrica. regresso a casa com um pacote de fármacos para sete dias.

lua cheíssima. o equinócio da Primavera ocorreu às 23h21m e vão ser 92,79 dias até ao próximo Solstício.
grata pelos começos.



domingo, 20 de março de 2011

água mole em pedra dura

Compraz-me saber que com paciência e humildade é possível civilizar as pessoas.
Desde que eu cheguei, a vil…er… aldei…er… povoaç…, digo, estas vinte criaturas de deus, estão a ficar muito mais urbanas.
A frequência com enfiam a cabeça dentro das minhas janelas para ver o que se passa aqui dentro tem diminuído diariamente. Também começo a deixar de ver mulheres na rua com rolos na cabeça e meias de malha por cima dos collants.
O primeiro sinal de progresso ficou a dever-se ao meu senhorio. Depois do ataque de histeria que tive no dia em que acordei da minha sesta no sofá com uns olhos vesgos a velarem-me o sono, ele interveio em minha defesa e informou-os que se me for embora por me sentir acossada lhes vai passar a extorquir a eles o dinheiro da renda.
O segundo é fruto de uma agressiva estratégia que consistiu em passar a olhá-las de alto a baixo com o sobrolho direito erguido, cada vez que as encontro por aí nessas figuras inestéticas.
Hoje, no café da praça, digo praceta, digo aqueles dois bancos onde os velhos jogam à bisca, havia pessoas a tomar o pequeno-almoço fora de casa enquanto liam o jornal. Claro que o pequeno-almoço era aguardente, o jornal era o correio da manhã e a leitura era a secção dos anúncios eróticos. Ainda assim, encorajada pelo potencial que detectei, perdi o amor a dez euros e fiz de conta que me esqueci da minha Vanity Fair em cima da mesa. Para ver se os vicio. Tenho esperança que daqui a um mês nos possamos reunir todos na minha sala para discutir, preferencialmente em inglês, a política externa dos Estados Unidos da América relativamente à Líbia.
O maior progresso em matéria civilizacional foi aquele que tive oportunidade de observar da minha janela há apenas meia hora: um táxi. Ainda pensei que fosse uma miragem mas depois aproximei-me, toquei-lhe e constatei que, desta vez, não se tratou de uma armadilha do meu cérebro.
Foi o primeiro táxi que vi desde a minha chegada.
Infelizmente, a pessoa urbana e civilizada que se desloca de táxi não faz parte do meu povo. Vieram três almas aqui a casa informar-me que a utente é uma senhora que veio ao bailarico do “centro cultural” (Não se deixem enganar pela megalomania dos autarcas nacionais. Já basta a triste figura que fiz quando lá fui perguntar se tinham exposições de pintura).
Com grande pena minha, uma certa timidez natural aliada à incompletude do meu processo de inserção social, ainda não me permite aceitar convites para a matinée e passar a tarde de Domingo a dançar lambada com os velhos da bisca.
Mas para a semana cá estaremos…

p.s. A partir de agora retomo a minha normal emissão de posts carregados de dor de corno e lmito-me a fazer-vos um relatório semanal sobre a mnha nova terra.

Porque o Domingo é um bom dia para treinar a elevação espiritual e eu não quero que nada vos falte

sábado, 19 de março de 2011

Do sofrimento

Não sei de onde veio a hedionda ideia de que o sofrimento é um processo necessário na elevação humana. Dir-me-ão que são resquícios de moral judaico cristã mas não me parece que possa concordar. Também há disso nas outras religiões e filosofias. O budismo, por exemplo, está impregnado dessa ideia criminosa. E nem a amoral mitologia grega conseguiu escapar ao facilitismo de justificar a tragédia com a prossecução de um bem maior.
O sofrimento como factor de edificação da alma é uma mentira tão velha quanto cruel.
A maior parte das genuinamente boas pessoas que conheci na vida tiveram existências absolutamente virgens de dor e contrariedade.
Em contrapartida, não me lembro de ter analisado nenhuma atitude monstruosa que não tivesse sido antecedida por um rol de desgraças.
O mal - de que o sofrimento é mera subespécie - é melhor catalisador na deformação do carácter do que na purificação da alma.
A mim, que nasci com a generosidade indexada ao nível de satisfação pessoal, nunca nenhum sofrimento produziu o efeito secundário de me tornar uma pessoa melhor.
E aviso já que, nem que seja apenas para demonstrar a minha tese, enquanto durar esta crise, tenciono manter-me o mais detestável de que for capaz.

Comunicação por omissão


Lamento o fim dos dias em que não havia telemóveis, nem internet, nem redes sociais, nem SMS.
O silêncio deveria ter continuado a ser uma acção. Não esta omissão, insuportavelmente eloquente.

Não é que eu esteja a ficar paranóica...

Não sei se é do excesso de oxigenação, do sindroma de privação por falta do monóxido de carbono ou de uma outra qualquer desorientação química.
Sei é que o meu cérebro começa a desenvolver a convicção de que nesta terra nada é o que parece.
A velhinha estrábica que me espreita pela janela, subitamente, parece-me uma espia comunista e quase a consigo ouvir praguejar num russo com sotaque de montanha.
A insólita tabacaria do lado, muito provavelmente, será um negócio de fachada que encobre um entreposto de tráfico de droga.
O pássaro que me entrou em casa, na verdade, talvez fosse um evoluído mecanismo robótico que andou a filmar os meus movimentos e a fotografar os documentos secretos que não guardo aqui.
E o meu senhorio…esse, desde aquela conversa sobre o curso de segurança pessoal em Israel, ninguém me tira da cabeça que é um agente da Mossad.
Ontem à noite, com cinco graus na rua, apareceu-me à porta de t-shirt, shorts e cabelo molhado. Estendeu-me uma bacia cheia de calhaus e limos que, percebi depois, eram percebes. Olhei para aquilo desconfiada enquanto ele me dava precisas instruções técnicas sobre a arte da cozedura dos calhaus. Não tive coragem para lhe dizer que não tenho sal em casa.
Mesmo assim, não ficaram mal. Comi-os acompanhados de duas cervejas e fui para a cama embriagada. Acordei com uma dor de cabeça insuportável e com o plano secreto de vigiar de perto o faroleiro. Pressinto ser essa a chave para a resolução do mistério das coisas que não são o que parecem.
Esta tarde vou pescar sargos com o israelita da Mossad.
Felizmente, trouxe comigo os meus botins da Burberry.

Nothing, ever, was good enough

Percebe-se que se perdeu toda a capacidade de criar quando se começa a reciclar as nossas próprias estórias.