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sexta-feira, 14 de junho de 2013

publicidade dirigida


Não sei se são os resquícios da misoginia que grassa por aí ou se às minhas qualidades como futura capitã Pirata falta aquela evidência que costuma ter o condão de arrastar massas. A verdade é que já abri o concurso há mais de vinte e quatro horas e ainda não tenho meios humanos suficientes para constituir uma tripulação capaz de espalhar o medo pelos mares e dominar o mundo.
É certo que nada me demoverá e já decidi que, em último caso, sequestrarei voluntários. Ainda assim, conhecendo eu a importância da diplomacia no ambiente de trabalho e tendo um historial maníaco na intransigente defesa dos direitos humanos, preferia que esta empreitada fosse constituída apenas por pessoas mais ou menos livres.


Lamento alguma agressividade no tom, mas hão-de compreender que isto não é coisa para meninos.

domingo, 10 de março de 2013

a água que bebemos


Quando me pediram que o justificasse e eu não quis mentir, só me ocorreu fundamentá-lo numa adolescência emocional tardia. Depois percebi que isso é o mesmo que dizer que tudo não passou de uma inútil tontice. O que, sendo verdade, não deixa de ser triste. 
Mesmo aqueles que não gostam do amor, merecem viver na ilusão de que o mistério está mais nas potencialidades do outro do que nas limitações do próprio.
É, talvez, a diferença entre uma nascente e um charco.

domingo, 27 de janeiro de 2013

E sigo o rumo das papoilas e digo que amo as coisas raras

ACIDENTE I
(helderiana virulenta)   

eu às vezes apetece-me que vocês sejam felizes hoje,
roubando aos bocados. Com gotas de sono a morder alto,
rebentando nas asas.
Às vezes procuro chamar a atenção, isto é, por vezes decido morrer
para sempre. Sem anzóis a cair dos braços movendo o ritmo do ar.
E sem pena, horizontal a tudo. Então costumo ver os amigos encostados
uns aos outros, lavando árvores. Ou entrando pelo sangue, com as mãos
todas a dar olhos.
Lembro-me de vocês quando decido morrer para sempre.
E quando sou eterno, comendo folhas sentado.
Sei que há paredes brancas onde as éguas não entram. Ficamos
às vezes à conversa nos rios infinitos, chorando lentamente
uma felicidade louca. E somos loucos perguntando, chovendo
no coração louco. E nada existe que não seja apavorado e
tremendo.

Mas tu sabes. Eu quero que tu oiças. As nuvens são inteligentes
e é por elas que as nossas mãos recebem. Por tudo quanto não existe,
pondo pedras demoradas junto ao lugar do amor. Tantos mortos,
dizes,
órgãos repartidos por tanta nenhuma coisa. Nada. Tanto.
Eu sou louco e compreendo. Eu tenho o meu orgulho e a minha força.
Canso-me. Uso as minhas mãos. Deixo o coração ser alternado
e comestível. E o vento passa lá fora e eu passo cá dentro e lá fora.
E sigo o rumo das papoilas e digo que amo as coisas raras.
Neste extremo lugar dos homens,
                                                            coroado de tudo.

In As Limitações do Amor são Infinitas - Sombra do Amor - Edições 


FURTADO DAQUI

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

"E ao fim não toquei em nada do que em mim tocou"

E ao fim não toquei em nada do que em mim tocou


Entre partidas e chegadas ouvíamos capitão romance dos ornatos violeta.
Uma manhã, um avião descolou da pista do aeroporto ao mesmo tempo que um barco saiu do porto. A insídia do destino fez com que nos cruzássemos por um instante no oceano. E da minha janela vi-te transformares-te num ponto indistinto enquanto ouvia a mesma música e evitava pensar no vaticínio presente na imagem de duas linhas perpendiculares. Aquelas que se cruzam num ponto e se afastam na eternidade.
Não parti rumo à primavera. Nem sequer à maravilha. Parti rumo ao outono. E não queria navegar.
Mas pelo tamanho das ondas percebi não poder voltar.
Não me esperaram homens daqueles que resistem antes de morrer.
A música fez-se verdade em dois pontos: 
Esqueci tudo o que sou capaz.
E ao fim, percebo-o agora, não toquei em nada do que em mim tocou. 

domingo, 16 de dezembro de 2012

Quero


Quero a mentira nos corpos dos outros
Sal que cai do rebordo de um copo de tequilla
E se espalha dentro de uma chaga aberta
No peito de alguém sem corpo.

Quero a indiferença nos corpos dos outros
Dia que se estende numa sombra fria
E se apaga dentro de uma chaga aberta
No colo de alguém sem corpo

Quero,
A surdez da música.
A cegueira da lua.
A paraplegia das borboletas.
Voltar a ter um corpo.  

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Anymore 2

Sem mãos para agarrar o sol que ontem se pôs sozinho...

sábado, 25 de junho de 2011

lisa ekdahl - l'aurore


À l'aurore, quand le ciel est cousu d'or
Doucement, je me rendors, je veux encore rêver de toi
Rêver que c'est l'aurore, d'un amour qui vient d'éclore.
Les feux multicolores de l'aurore me font rêver de toi.

Le ciel flamboie et c'est le ciel qui t'envoie jusqu'à moi
Car l'aurore, chaque jour, m'apporte un trésor.
Les feux multicolores de l'aurore me font rêver de toi.

Car l'aurore, chaque jour, m'apporte un trésor.
Les feux multicolores de l'aurore me font rêver de toi.
Et j'aime rêver de toi.

domingo, 8 de maio de 2011

Qui saudadjé di ocê

Amigo:
Acho que foi por ter passado por um campo de girassóis no meio do qual havia uma única papoila. Vermelha e não encarnada.
Gostarias de me ver aqui por estas estradas fora a assassinar pássaros e lebres com a determinação de quem nunca fez outra coisa na vida a não ser assistir a matanças de porcos. Ainda não me convidaram para nenhuma. Em substituição vieram-me chamar para presenciar o nascimento de um burro. Não cheguei a tempo. Demorei a encontrar o calçado apropriado.
Gostaria eu, ainda mais, de te ver aí por essas praias fora caminhar em ziguezague com um livro debaixo do braço e outro a gritar-te dentro da cabeça. Aposto que chegas sempre a tempo mas apenas porque vais descalço.
Pedi ao inverno que te abrace por mim. Suponho que já aí tenha chegado. Espero que não exagere nos afectos e te poupe a uma hipotermia.
Em Setembro voltarei a mudar de terra. Estive a analisar o globo terrestre e descobri que estarei uns quilómetros mais perto de ti.
Ocorreu-me que se há catorze anos a World Press Photo só demorasse até Abril para chegar a Lisboa talvez ainda hoje eu fosse uma pevide.

domingo, 1 de maio de 2011

quarta-feira, 27 de abril de 2011

saudades lamechas


da Cuca e da Estrelita.
(banda sonora desta declaração à escolha de cada uma)

domingo, 10 de abril de 2011

Inspeccionada

Esperou três semanas pelo convite que não chegou. À quarta semana veio sem ser convidada. Encontrou uma casa sem número de porta, numa rua que não vem no mapa e no meio de uma localidade sem placas que a denunciem. A mesma eficácia germânica fez com que também descobrisse a identidade da única pessoa que, para além de mim própria, possuía uma chave. Instalou-se antes de eu chegar. Mudou a disposição dos móveis. Atirou as minhas refeições pré-cozinhadas para o lixo. Reorganizou-me o roupeiro. Disciplinou a empregada. Desceu de Lisboa ao inferno com a finalidade de inspeccionar as minhas novas condições de vida. Durante três dias – ou terão sido três anos? – fiscalizou tudo. Desde o número de curvas que faço no percurso de quinze quilómetros de casa para o trabalho, à qualidade da carne do único supermercado disponível, aos níveis de sal do pão que me vendem, ao grão de areia das praias mais próximas, à árvore genealógica do meu senhorio israelita.

No final, porque o pragmatismo é hereditário e o meu tem fonte conhecida, concluiu da seguinte forma:


- Bem, o melhor que se pode dizer é que quem consegue viver aqui, consegue viver em qualquer lugar.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Sem uma perna, com uma muleta, cruzando a ponte

Foi através da inserção destas palavras num motor de busca, vírgulas à parte, que alguém veio ter a este blog. Parece-me uma descrição adequadíssima para me encontrar.

sábado, 19 de março de 2011

Nothing, ever, was good enough

Percebe-se que se perdeu toda a capacidade de criar quando se começa a reciclar as nossas próprias estórias.

quarta-feira, 2 de março de 2011

novo conceito de degredo: precisa-se.


nós as duas, metidas num barco,
dávamos cabo de qualquer Austrália.


domingo, 6 de fevereiro de 2011

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Grandes Filósofos


Now that I've met you, would you object to never seeing me again?
Claudia Wilson Gator, in Magnolia

domingo, 9 de janeiro de 2011

Não olhes para mim dessa maneira

Bem sei o que dirias se não te tivesse calado. Lembro-me da arrogância com que apregoavas que o destino é o pretexto dos fracos. Que a vida é um mapa para se traçar a régua e esquadro e com sublinhados cor-de-rosa a realçar o plano afectivo. Lembro-me da implacabilidade com que corrigiste todos os desvios. Dos castigos auto-infligidos nas falhas descobertas no processo de construção da personalidade. Da tua eficácia de bulldozer a consumires os russos e os franceses com uma determinação autodidacta. Do verão longínquo em te proibiste a televisão, substituindo-a pelos poetas. Lembro-me de ti, demasiado ocupada a traçar a próxima meta para festejares o romper da última. Bem sei que neste estabelecimento comercial que é a vida serias capaz de te ter despedido a ti própria de gerência se tivesses descoberto os cofres neste estado. Foi para não ter que te ouvir que despachei pela conduta do lixo os dez cadernos de argolas que encheste com recados para ti própria. E todas as cartas que sobraram do teu reinado de sensatez. Não sei o que andaste a fazer nos últimos 15 anos. Mas é bom que percebas que enquanto dormias aconteceu-te a vida e com ela cheguei eu. There´s a new kid in town, miúda.
Por isso, não olhes para mim dessa maneira.