terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Neste navio, hoje bebe-se Moet

Está tudo pronto para a festa. Tirámos os cristais da arca, colocámos os tapa-olhos Svarowsky, espalhámos a pólvora para o fogo de artifício, puxámos o lustro às pernas de pau, envergámos as nossas melhores sedas, limpámos o sangue dos sabres e até tomámos banho. 
Atracámos no Mónaco onde passaremos despercebidos no meio de tanto iate de luxo cheio de novos ricos que nos ultrapassam em excentricidade. Contamos aliviá-los desse miserável estatuto social convidando-os para a nossa festa e fazendo-os hóspedes até que as famílias paguem o consumo mínimo. Não precisamos do dinheiro mas cada um diverte-se como quer e nós divertimo-nos a repor a ordem natural da estratificação classista. 

A capitã deste navio, tantas vezes fantasma, mas sempre Pirata, deseja a todos - tripulantes e passageiros - um 2014 cheio de amor e um transbordo feito de passas sem grainhas. 

Da coerência

Nada mais coerente do que passar o dia 31 de dezembro a encaixotar vida para a mudar de sítio no dia 1 de janeiro.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Ainda se matam ou dão em drogados

Tinha mais de setenta e cinco anos, um agasalho dos tempos em que as lojas nesta rua ainda se chamavam modas qualquer coisa, as mangas e os colarinhos da camisa puída, um sorriso divertido e uma haste dos óculos presa por um arame. Ouvia mal e por isso todos ouvíamos a sua conversa ao telefone. Estava atrás de mim na fila do supermercado. Também via mal e perguntou-me quanto custava a embalagem das costeletas. Disse-lhe o preço e agradeceu-me mais satisfeito do que aliviado. Do outro lado do satélite, o outro não deu conta da interrupção e continuou a falar sozinho. Ele voltou a encostar o telefone ao ouvido e, sem esperar pelo contexto da conversa, enquanto olhava para a embalagem das costeletas, explicou:

-Crise? Isso para nós tanto nos dá. Sempre passámos por dificuldades e estamos habituados a viver mal. Temos que nos preocupar é com os jovens. Não sabem sofrer e ainda se matam... Ou dão em drogados.

2013

As revisões anuais são um exercício de frustração ao alcance exclusivo daqueles que devem pouco a si próprios. Nessa matéria, sou uma caloteira prestes a apresentar-se à insolvência. 
Não terminei a Ilíada. Saí do Inferno de Dante mas vagueio algures pelo purgatório. Não subi ao Empire State Building e nem sequer vou ver o ano morrer do cimo da Torre Eiffel. Não escrevi nenhuma boa história. Não comprei uns louboutin. Não visitei amigos distantes. Não aprendi a fazer bolos. Não deixei uma papoila no jazigo onde guardaram o que restou do meu poeta. Não reencontrei o nascer do sol da minha Ilha. Não fui Alice em nenhum momento. Não captei na objetiva uma imagem que me satisfaça o esforço. Não comi castanhas assadas. Não mudei a vida de ninguém com quem me importe. Não escrevi nenhuma canção. Não dancei sob as luzes de um baile de agosto. 
Mas fiz-me Pirata. E tudo o que não fiz é espólio e promessa de um outro ano.


sábado, 28 de dezembro de 2013

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Esperança

"O que é a esperança?
A esperança é uma prostituta
Que a todos engana e todos se oferece.
Até tu lhe sacrificaste o mais valioso
Da tua juventude,
E ela vai-te abandonar."

Sandor Petofi (1823-49), in Lu Xun, Ervas Silvestres, série oriente, Fundação Oriente, Livros Cotovia

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Feliz Natal


A lovely thing about Christmas is that it's compulsory, like a thunderstorm, and we all go through it together.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Diário de Bordo #8

É muito difícil arranjar perus para a ceia de Natal quando se vive num navio Pirata.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013





(...)

No way of recognizing

The cat knows the call

Fair child is rising
There's no mystery at all

It's a strange paradise

It's a strange paradise

You'll be waiting
You'll be waiting

It's a strange paradise

Strange paradise

Estar de novo sentada à mesa de uma vida que foi minha e pensar que entre o antes e o agora nunca houve coisa alguma. Que o lobo das tuas estórias infantis comeu para sempre os últimos cinco natais. Que nunca deixaste aberto o portão da casa da árvore. Que naquela madrugada em que nos perdemos no deserto, voltaste atrás para me resgatar. Passar a língua entre os dentes e nenhuma areia na boca. De tal forma que ontem, ainda ontem, assim como hoje, os dois aqui. 
Sentados nesta vida, a rir debaixo das mesmas luzes de Natal. 


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A Cancão de Amor da Rapariga Louca


A Canção de Amor da Rapariga Louca

Fecho os olhos e o mundo queda-se morto;
Levanto as pálperas e tudo nasce outra vez.
(Penso que fui eu que te criei na minha mente)

As estrelas saem valsando o azul e o vermelho
E o negrume arbitrário entra a galope
Fecho os olhos e o mundo queda-se morto.

Sonhei que me enfeitiçaste até ao leito
E cantaste-me desvairado, beijaste-me insano.
(Penso que fui eu que te criei na minha mente)

Deus tomba do céu, amainam os fogos do inferno,
Vão-se os sarafins e os homens de Satã;
Fecho os olhos e o mundo queda-se morto

Imaginei que voltarias como me disseste,
Mas envelheço e esqueço o teu nome.
(Penso que fui eu que te criei na minha mente)

Deveria antes ter amado um falcão:
Pelo menos regressam com estrondo na primavera;
Fecho os olhos e o mundo queda-se morto.
(Penso que fui eu que te criei na minha mente)

Sylvia Plath, em tradução livre e arriscada (aceitam-se sugestões)



Mad Girl's Love Song

I shut my eyes and all the world drops dead; 
I lift my lids and all is born again. 
(I think I made you up inside my head.) 

The stars go waltzing out in blue and red, 
And arbitrary blackness gallops in: 
I shut my eyes and all the world drops dead. 

I dreamed that you bewitched me into bed 
And sung me moon-struck, kissed me quite insane. 
(I think I made you up inside my head.) 

God topples from the sky, hell's fires fade: 
Exit seraphim and Satan's men: 
I shut my eyes and all the world drops dead. 

I dreamed that you bewitched me into bed 
And sung me moon-struck, kissed me quite insane. 
(I think I made you up inside my head.) 

God topples from the sky, hell's fires fade: 
Exit seraphim and Satan's men: 
I shut my eyes and all the world drops dead. 

I fancied you'd return the way you said, 
But I grow old and I forget your name. 
(I think I made you up inside my head.) 

I should have loved a thunderbird instead; 
At least when spring comes they roar back again. 
I shut my eyes and all the world drops dead. 
(I think I made you up inside my head.)

Sylvia Plath
... e nunca, palavras tão banais como corpo, mãos, boca e pele foram tão pornograficamente dificeis de articular...

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Fazer as malas para o natal

Nunca Lisboa me parece tão perfeita como nas vinte e quatro horas que antecedem a minha chegada.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Tuned



Quando ele disse que apesar da distância ficariam sempre juntos, soou reconfortante, quase simpático.
Mas ao ritmo que o tempo transformou palavras em verdades, a promessa converteu-se numa ameaça.
Há formas terríveis de se ficar sempre junto.
Sentindo-se o outro como uma presença.
Daquelas que se fazem rodear pelo hálito gelado dos fantasmas.
E ferem os ouvidos com um silvo interminável.
E eriçam os pelos da nuca.

Coisas que me deixam zangada por não ter sido eu a escrevê-las

xilre: A proximidade do ar respirado: Chego cedo, antes do Sol, antes de ti. Arrasto a cadeira ferida pelo sal, insuflo de ar quente as mãos, tento segurá-lo, como fazia quando t...

O embuste Kubler-Ross


“It is very important that you only do what you love to do. you may be poor, you may go hungry, you may lose your car, you may have to move into a shabby place to live, but you will totally live. And at the end of your days you will bless your life because you have done what you came here to do. Otherwise, you will live your life as a prostitute, you will do things only for a reason, to please other people, and you will never have lived. and you will not have a pleasant death.” 


Passei um ano inteiro aos saltinhos por entre os degraus da escada que esta senhora inventou. Devo ter estado algumas vinte vezes no estágio da aceitação mas, angustiada por ser o último e temerosa do desconhecido - já que a senhora guardou para si a sábia informação do que vem depois da aceitação e eu detesto ser surpreendida pelos meus próprios estados de espírito - atirei-me lá de cima diretamente para a negação e daí para a depressão e só depois para a raiva, de onde saltei para o choque. Onde nunca mais parei foi no degrau da negociação (também conhecido pelos brasileiros pela odiosa palavra barganha). Mas apenas porque da primeira e última vez que por lá andei foi tão mau que, à saída, deitei o fogo ao degrau para eliminar as provas da minha presença. Vá lá que antes de subir a escada de Kubler-Ross tive a lucidez de decidir que seria feita de uma madeira rapidamente combustível. 
Ainda fiquei triste por perceber que nem um percurso catalogado por esses maravilhosos cientistas da precisão, que são os psicólogos, consigo fazer a direito.
Agora que encontrei nessa citação da autora da escada uma das ideias mais estúpidas e simplistas que já li na minha vida,  sinto-me aliviada por me ter desviado do caminho. Depois da aceitação, é agora claro como a água, vem a idiotia pura.

Comunicado

O leitor mais atento já terá reparado que regressou a este blogue uma tal de Estrelita que, agora que também se instalou no navio, adotou o egomaníaco cognome de A Rainha Pirata. 
Desenganem-se os que pensam tratar-se de heteronomia ou manifestação esquizóide.
Trata-se de uma abordagem hostil à qual não posso por cobro já que, além das minhas relações com as autoridades não andarem famosas, Estrelita mantém sobre mim aquela espécie de poder que têm as pessoas que, já lá estando há mais de vinte anos,  sabem muito mais do que deviam sobre muita coisa que não deveria ter acontecido. 
Venho aqui declinar expressamente qualquer responsabilidade pelos seus actos. 

Diário de Bordo # 7

Seria de pensar que, sendo capitã de um navio Pirata - para mais um navio Pirata rico e sofisticado, onde depois da venda do crude roubado pudemos todos regressar ao estado de prodigalidade em que gostamos de viver - tivesse, ao menos, o poder de mandar cancelar o Natal.
Atolada nessa errónea convicção, aos primeiros sinais de tráfico de bolas douradas e folhas de azevinho de aspeto duvidoso, decidi reunir a tripulação no convés para lhes comunicar que, este ano e, pelo menos nos próximos mil, o natal seria temporariamente suspenso.
Em menos de meia hora a minha tripulação organizou-se contra mim, fundou uma associação sindical e, decidida a nem sequer me dirigir a palavra, mandou Polly, o papagaio emprestado, notificar-me do aviso de greve geral e por tempo indeterminado. Até o bicho estava notoriamente zangado comigo e cumprindo com excesso de zelo a missão que lhe acometeram passou vinte minutos contados em rolex de ouro a gritar-me aos ouvidos palavras de ordem como "a luta continua, capitã Cuca para a rua" e versos da Grândola Vila Morena. 
A ameaça de greve não seria suficiente para me demover das minhas intenções, já que, não tendo nós nenhum ataque planeado para esta semana, e sendo certo que neste navio, com exceção de Andhrimnir, o cozinheiro Pirata, ninguém faz rigorosamente nada, a medida pareceu-me vagamente inócua. Aquilo que eu não consegui suportar foi a exclusão social a que me vetaram, recusando-se a sentar na minha mesa, falando mal de mim a toda a hora e na minha presença e fazendo-me sentir tão odiada que quase parecia que estava de volta aos tempos em que ainda era uma cidadã honrada com uma dessas profissões em que ser detestado por toda a gente faz parte de uma tradição milenar.
Ao segundo dia, a angústia do ostracismo, no plano emocional, e o receio de um golpe de estado, no plano racional, fizeram-me meter no bolso a urticária aos barretes vermelhos com pelo branco, anjinhos, pinheiros nórdicos, embrulhos com laços pirosos, cânticos enjoativos, luzes multicolores e subjacente estado geral de despropositada benevolência e lá os chamei outra vez ao convés para lhes comunicar a reposição do natal.
Como nem sequer apareceram tive que mandar recado pelo papagaio que passou as duas horas seguintes plantado no mastro a gritar um nada cristão"É Natal, é Natal, limpa-te ao jornal".
Logo que a notícia se espalhou, sacaram dos baús toda a espécie de tralha que andaram a traficar clandestinamente na última semana e em menos de meia hora transformaram este navio numa odiosa Vila Natal. Ainda tentei fazê-los entender que as luzes de arraial com que forraram o navio inteiro não são apropriadas à discrição que se exige a foragidos da justiça. Não quiseram saber e, como forma de retaliação, depuseram as pernas de pau, ganchos, tapa-olhos e lenços e agora passeiam-se por aí mascarados de duende, rena, pai-natal e - presumo eu, depois de ter visto Gualtiero, o Italiano a tomar o pequeno almoço em pelota - menino jesus.
Num esforço de reconciliação que, ao mesmo tempo, me garante que terei do natal a única coisa que lhe tolero, decidi gastar parte do nosso pecúlio na contratação de uma companhia de ballet russo para que aqui venha encenar o Quebra Nozes.
Os americanos dizem que ninguém escapa à morte e aos impostos. Estão evidentemente enganados. Aquilo a quem ninguém escapa é ao Natal.







sábado, 14 de dezembro de 2013

Jazz embrulhado em aroma de baunilha sobre regaço dividido entre Llosa e cabeça de cão adormecido

O cenário de idílica tranquilidade que vês nesta sala levou infindáveis dias a ser pintado.
E o papel é tão frágil que até a brisa do mar seria suficiente para o destruir.
É por isso que não poderás ultrapassar o limiar daquela porta.

strairway to heaven

Photo by Cuca, a Pirata

disfuncionalidades

O Natal é uma quadra que um grupo de pessoas más inventaram para me fazer sentir disfuncional.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

maldições

A maldição dos que já cá não andam a estrear-se é terem-se já prometido demasiadas coisas. Muitas de sinal contrário...

sábado, 30 de novembro de 2013

pago-te um café, não me contes a história da tua vida



"Pagas-me o café, não te conto a minha vida. Posso cair nesse buraco azul, olhar como quem aspira universos sem ar. Tenho o sapo seco numa estante, encontrei-o na Zambujeira e ele nunca mais se mexeu.

Eu sei que tu precisas de energia, alimenta-te da minha demora - Despe as meias, faz de conta que precisas de estar ao fundo da cozinha, o único enquadramento em que é possível ver-te, - não te esquecerei. Temos vidros, livros, anémonas – podemos fazer um espectáculo só nós dois, mas por favor. Eu sou o eleito, a graça que desceu. Eu tenho braços quase de mulher e sou um mutante poético com orelhas de abano. Tenho uma relação estável com as fadas, matamo-nos compreensivelmente nos dias que expiram o mais sumido suspiro. Já disse que não escrevo romances, já passei essa fase. Como será ter um coração nobre? Como será querer muito uma coisa só, e tê-la? O mesmo de sempre, vitória, sorriso, engano, eternidade. O dia seguinte.

Por favor, pago-te o café. Não me contes a história da tua vida."

Rui Costa

e deus abandonou as cidades


As cidades são os locais adequados para se esconderem os cadáveres e os fantasmas. Por trás das avenidas ficam as ruas e por entre as ruas os becos, com os seus cantos mal iluminados, esquinas e caixotes do lixo a precisarem que os esvaziem. 
Os prédios altos cumprem a função de esconder o céu e os homens vivem como se ele não existisse. Aprendem a olhar para o chão, primeiro à procura dos buracos na calçada de pedra escura, depois à procura dos dejetos dos cães escanzelados e por fim à procura dos próprios pés.
Os corpos adquirem uma posição encolhida, os ombros a apontar na direção das mãos, os olhos sempre rente ao solo, onde estão mais próximos do fim, onde não correm o risco da intrusão de um rosto anónimo que os veja. Talvez com curiosidade pelas olheiras que contam estórias de corpos que se rebolam de insónia. Ou pelo fascínio mórbido daquela linha horizontal que fica na testa das pessoas tristes. 
E os homens aprendem a deixar que os olhem mas a confiar que não os vejam. 
As cidades estão repletas de intangibilidade. São aglomerados de coisas que sabemos que existem mas não conseguimos ver. Sabemos que há-de haver uma lua por cima dos edifícios mas já desistimos de pensar nela. E também sabemos que vivem pessoas por trás das cortinas de linho das portadas das varandas das salas iluminadas, mas já nunca rezamos por elas. Foi por isso que deus abandonou as cidades.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Hey ho!


Tripulação, é só para dizer que cheguei!!!
Cuca, temos que falar.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Tendências

A objetiva capta apenas aquilo que a realidade lhe dá.
O trabalho de edição capta aquilo que nós damos à realidade.
No meu caso, revelou-se a estranha capacidade de transformar em traças borboletas coloridas.

Diário de Bordo #6




Está visto que as notícias bizarras surpreendem-me sempre deitada na chaise long de design com a vista presa na linha do horizonte e a Ilíada adormecida no meu colo. Este facto é alheio à componente estatística vagamente relacionada com o número de horas por dia que passo dedicada a esta atividade.  É tudo explicado por uma questão de estilo individual. Decidi que notícia bizarra alguma me iria apanhar noutra posição que não esta. E as coisas, pelo menos neste navio, pelo menos até agora, acontecem sempre da forma como eu decido que elas devem acontecer. 
Hoje de manhã os céus anunciaram a aproximação da bizarria. Um arco íris duplo é poesia. Mas um arco-íris triplo é, ou alucinação, ou mau presságio. 
E com o problema da venda do crude resolvido, a piscina limpa, a tripulação a ensaiar coreografias para um musical, o Álvaro de Campos calado porque em coma alcoólico, Andhriminir, o cozinheiro Pirata, com os instintos sádicos aplacados por dez frangos assassinados para o jantar, o rum nos barris à temperatura certa, o papagaio de vigia no mastro, enfim, já perceberam a ideia, eu pude, finalmente, fixar os olhos na linha do horizonte, deixar a Ilíada adormecer no meu colo e concentrar-me no significado metafísico desse arco-íris triplo que desde manhã tanta perturbação me trouxe. 
Foi nessa altura que Gualtiero, o Italiano, se aproximou com uma carta suspeita. Ainda mais suspeita do que o incrível facto de continuarmos todos a receber correio em alto mar.
No mesmo instante em que as minhas mãos tocaram o envelope, purpurinas cor-de-rosa pastilha elástica colaram-se-me às unhas e percebi que estava perdida. Nem precisei abrir o envelope para ouvir aquela vozinha jocosa tinir-me no pavilhão auricular. 
Julgava-a desaparecida a esgotar reservas de diamantes da Amazónia, infiltrada numa nave a atazanar o juízo aos marcianos,  num buraco da América do Sul a engendrar uma rebelião, no inferno a fazer um barbecue com o próprio demo...
E foi então que já branca, gelada, em pânico, e ainda sem abrir o envelope, ouvi aquela gargalhada vinda do meu passado negro, seguida da seguinte mensagem:

- Estou aborrecida, soube do pequeno negócio que geres por aí e decidi que também sou Pirata. 

O envelope desfez-se, purpurinas e confetis encheram o chão do convés e eu recolhi-me debaixo da minha cama, de onde vos escrevo, sem saber exatamente o que vai acontecer, mas certa de que se aproxima uma onda maior que um tsunami.


domingo, 24 de novembro de 2013

R.I.P. Cinema King

Sobreviveu à minha fase "cinema de autor" e até àquele que a desencadeou.
Fecha as portas hoje, interditando-me mais um espaço da minha história.

A justiça no Wonderland é simples e perversa. 
As criaturas do mundo mágico sempre punem o crime de intrusão com a mais cruel das penas:
O esquecimento.

E chega.


terça-feira, 19 de novembro de 2013

Dizem

O ar grave e sério que me roubaste no instante em que esqueci estar a ser observada não me pertence mais do que nos podem pertencer as borras do café mal moído que ficam no fundo de uma chávena arrefecida.
Mas dizem que há quem, nesses resquícios, saiba ler as linhas do futuro. 
Dizem que leste o meu. 



Terrible Love


E na próxima quinta-feira lá estarei, sentada, a ouvir, para que me recordem, como um mantra, aquilo que jamais poderei esquecer.

It takes an ocean not to break...
It takes an ocean not to break...
It takes an ocean not to break...

"A degradação das cargas pelo solo"

Aprendi hoje uma expressão nova com a potencialidade de sintetizar os últimos cinco anos da minha existência.
Suspeito que o meu solo está repleto de cargas em processo de degradação.
Dizem-me que, cientificamente falando, é um processo com um final feliz.
Na psique, como na geologia, a cura faz-se pela neutralização.

domingo, 10 de novembro de 2013

Miserere




Do you ever look around
turn your ear to the ground
show your face to the sky
on a night when the skies echoe sounds
from inside of your mind
on the stage that you shone
where the sun did become you
and move with your thoughts
through the sighs and the scenes
of the worlds you have seen
and the sights that have been
your reflection in shadows and dreams?
- your reflection in shadows and dreams

Did you ever see a man
who did walk down the street
white robe with no shoes on his feet
and on top of his head place a box with two slits
and the sign from his neck said
'I do not exist'
or a woman who could not remember her name
did stutter and stutter
again and again
and saw you and called you her son
her eyes said
'my being is gone
but still I'm not dead'?


Miserere

Have you ever seen a sound
have you listened to an image
have you ever touched a thought
have you ever tasted nothing
have you ever told a lie
that was true more than truth
because truth it had lied
all its life when it spoke to you?
And what did it say
it is that it is this
this goes here here is there
it is not yes it is
it was dulling your senses
your eyes they were bound
have you ever my friends
been looking around?
(...)

Miserere

Have you ever
been so happy that you're sad?
that the lights turn to stars
and the stars become eyes
and hello's are goodbye's
and the laughs are the sigh's
and the show disappears with the note
'until next time'

Long live living
if living can be this
(...)





o lado do não coração

- É melhor assim!
Disseram-me todas as pessoas, enquanto descaíam os ombros e encolhiam ligeiramente o pescoço numa unânime inflexão para a direita. 
O lado do não coração.
Ensaiei o gesto em frente ao espelho mil vezes. Dei comigo a murmurar alto a frase, num tom misto de resolução e indiferença. No meio da rua, no carro, na cama, no duche. Para mim própria. Até atingir o ponto da perfeição.
E depois disse-to a ti, preocupada por nem sequer poderes ver a perfeita linguagem corporal que acompanhou a declaração.
- É melhor assim!
Acabaste tu por dizer a uma plateia de ombros descaídos e pescoços ligeiramente encolhidos em unânime inflexão para o lado do não coração.

sábado, 9 de novembro de 2013

cinema paraíso

O cinema está cheio de homens que chegam demasiado tarde, com a cumplicidade silente de mulheres que se deixam sacrificar em nome de interesses superiores.
A vida também.
É um inferno.


chuva de magnólias

Na falta da ansiada chuva de sapos fui ouvir a Aimee Mann.
Não foi um sucedâneo. Nem sequer "faz as mesmas vezes". 
Quem só chegou depois de o Magnólia ter acabado não pode perceber isto. Quem só chegou depois do Magnólia ter acabado não pode perceber nada. 
O filme representou o fim de um ciclo. Mas para acabar com este - para acabar com isto - nada menos que uma chuva de sapos.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O disco está cheio

Damien Rice pergunta na música que se ouve até à náusea se "it is there all right?".
O portátil insiste em fazer saber que o disco está cheio e uma campainha no forno informa que, de acordo com as instruções da embalagem, a lasanha ficou pronta.
"And it is there all right"
"Yeah"
Está tudo bem debaixo desta existência espacio-temporal congelada por alertas mecânicos e rigorosas instruções escritas em embalagens convenientemente recicláveis. 
Mas o início do verso de um poema soltou-se do livro e voou pela sala intersetando a traça que o cão acabará por comer mais tarde. 
E nesse ligeiro desvio, início de vida e morte, talvez esteja a única verdade do dia.
O cantor avisa que "i give my gun away when it´s loaded". 
E nós sabemos que there is not all right.

domingo, 3 de novembro de 2013

Pragmatismos

Não foi o único pôr-do-sol da minha vida.
Não foi o maior, o mais límpido, o mais deslumbrante e nem sequer foi, em absoluto, o mais puro.
Foi apenas o mais lento. E foi apenas o último.
E é só por isso que ainda o trago tatuado na retina. E é só por isso que ainda guardo na pele o frio que fica imediatamente a seguir a um pôr-do-sol.


de leitura obrigatória a espíritos inquietos

"Depois num registo apaixonado, porém amargo:

Da tua vida, Ofélia, basta-me o brilho da felicidade: o desejo insensato de haver alguém que me ama. Pequenas são as coisas que sentimos quando possuímos mais capacidade para as rejeitarmos. Este bom homem que julgas que eu sou não é senão um silêncio infantil que apenas deixou escapar um rumor dilacerado. Por ti não reflicto em nada, e todas as minhas palavras se destinam ao fogo dos teus lábios. Aceitar-te é confessar que estou perdido e que estranhos caminhos procuram os meus passos. A vida e o amor, o leito bem aconchegado, a postura mais natural para logo depois ser um pecado, o chapéu fora do lugar, o defeito e a virtude, na alegria e na tristeza e na palavra nunca eu haveria de ser perfeito, continuamente digno da tua companhia, e na ausência de entendimento, também solitária seria a tua vida. Hoje sonhei-te saída dum jardim artificial e casamenteiro, trazias o alimento que dava sede ao meu fruto, e a tua voz soluçava tanto como o meu íntimo nocturno.
Em que risíveis criaturas, tu e eu, nos transformámos? Podia a vida ter mais juízo e não me despedaçar tanto? Não, Ofélia! A vida continua, é deixá-la seguir, só as crianças se comprometem com o que dá gozo nelas e protegem com um tal sentido encantador os seus objectos de brincar.
Nenhum amor é mais que um desespero, Ofélia. Não temo tanto que o teu amor não seja para sempre quanto temo que ele permaneça planeado e insensível debaixo do mesmo tecto".

Fernando Esteves Pinto, in O Carteiro de Fernando Pessoa, Parsifal,


terça-feira, 29 de outubro de 2013

Ballerina



"but what´s a memory without a life
it doesn't fill her empty side"

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

breve descida ao mundo real

No meu caso, o acto de fé na natureza humana é menos uma crença ou uma opção do que uma necessidade profissional. No dia em que deixar de ver as potencialidades da natureza humana terei que encontrar outra forma de ganhar a vida ou resignar-me a viver na hipocrisia. 
Notícias sobre mães que, durante dois anos, escondem bebés nus numa mala de um carro levam aos limites a minha construída capacidade de acreditar que em todas as pessoas, em todas sem exceção, há uma centelha de humanidade. 

domingo, 27 de outubro de 2013

we were pilots watching the stars


Armoured cars sail the sky
They're pink at dawn
If I lived forever, you just wouldn't be
So beautiful, as the sun
When it shines all over the world

We're pilots watching the stars
The world pre-occupied
We're pilots watching the stars
Who do we think we are?

Ice and clouds, shimmer outside
Rain just falls, at magic hour
It's just the sound of you and me
Time twitching
Murmurs of our friendly machine

We're pilots watching the stars
The world pre-occupied
We're pilots watching the stars
Who do we think we are?
(Yes, who do...)

There's just the sound
Of you and me

Diário de Bordo # 5


Somos oficialmente fugitivos...
Depois daquela brincadeira com o petroleiro, conseguimos atrair a atenção das autoridades marítimas e devo dizer que fugir da polícia é menos divertido do que inicialmente se poderia pensar. 
Não gosto de dizer mal da minha classe e até cultivo um certo corporativismo sadio, mas há que reconhecer que o índice de cobardia na classe dos capitães de navios é qualquer coisa de assustador. O intriguista não teve coragem de assumir que nos entregou o comando do petroleiro dois minutos e meio depois da nossa abordagem e sem oferecer outra resistência que não fosse soltar brados aterrorizados que ainda ecoam nos ouvidos mais sensíveis de alguns dos meus tripulantes. Foi fazer queixinhas às autoridades, dizendo que tínhamos mísseis a bordo, o que, por enquanto, ainda é uma aleivosa mentira. Já mandei vir uns quantos pela internet mas parece que estas coisas demoram a chegar e devido à incompreensível burocracia italiana, em cujas águas nos encontramos outra vez, não podem ser remetidos por correio. 
Seja como for, o mentiroso pintou um tal quadro terrorista que temo que os italianos enviem o exército no nosso encalce e tudo por causa de um petroleirozito de nada, cheio de um inútil crude, que só agora me dizem nem sequer servir para abastecer os nossos depósitos e do qual não há meio de me conseguir livrar, apesar dos anúncios que coloquei no olx e no jornal ocasião. 
Como se não bastasse, a minha tripulação está revoltada comigo por ter perdido a comodidade da piscina, transformada em temporário depósito de crude. São tão teimosos que nos primeiros dias ainda insistiam em levar a sua parafernália de bóias, patinhos, crocodilos e colchões de ar para dentro da piscina e banhavam-se no crude. Houve quem aventasse que a espessura do substância era benéfica ao exercício da natação. Por fim, já com o deck cheio de nódoas irreversíveis, fui obrigada a fechar o acesso à zona da piscina. Também tive que encomendar um sabão especial que lhes voltasse a restituir o seu aspecto natural porque, no negrume, já não são se conseguiam distinguir uns dos outros e havia quem não se distinguisse a si próprio. Além disso, as provas do crime estavam à vista de toda a gente.
O plano é simples. Recolhemos a bandeira Pirata e substituímo-la pela bandeira de um daqueles países off-shore onde os burgueses registam os barcos de recreio. Escondemos as vestes Pirata num dos barris de rum, livrámo-nos do papagaio Polly, e agora navegamos disfarçados de turistas veraneantes. Em boa verdade, manter este disfarce só nos custa não alterar rigorosamente nada naquela que é a nossa rotina habitual.
Para melhor treinar o disfarce e porque sabemos estar a ser observados por satélite, ontem sentámos-nos todos nas espreguiçadeiras do convés a ver as estrelas e a beber uns insuspeitos gin tónicos. Álvaro de Campos, o engenheiro naval, disse ter em tempos conhecido um tal de Pessoa que lhe ensinou umas coisas sobre astronomia. Concordámos em receber uma lição sob condição de não falar em verso durante pelo menos dois dias. Tudo correu mais ou menos bem até que começou a falar de Orion. Por razões cá minhas, Orion é uma constelação que me faz alterar o sistema nervoso e o motivo pelo qual uso tapa-olho quando vou à rua em noites estreladas, é para o poder ir desviando por forma a nunca ser obrigada a vê-la. 
Cometi o meu primeiro acto de arbitrariedade enquanto capitã e despedi-o imediatamente, apodando-o de psicopata torturador. 
Acho que o poder me está a corromper a alma.


Jacques Brel, esse Pirata

sábado, 26 de outubro de 2013

A quimera da felicidade

Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que se passava diante de mim, - flagelos e delícias, - desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enchada e a pena úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com agulha da imaginação; e essa figura, - nada menos que a quimera da felicidade, - ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão.


Machado de Assis, in Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Tivesse Brás Cubas logrado obter sucesso na invenção e comercialização do emplastro destinado a "aliviar a nossa melancólica humanidade" e não estaríamos condicionados a escolher aplacar a dor na indiferença, que é "um sono sem sonhos" ou no prazer, que é "uma dor bastarda".
Também existem os outros. Aqueles que nasceram de coração emplastrado na pomada que anestesia a melancólica humanidade. 
Mas esses, é claro, nem merecem que se fale deles...

Comunicações inter-galácticas

Ontem vi-te na rua, dois quarteirões a sul da porta onde nunca passo para evitar o teu reflexo no vidro grande da entrada. 
Era o teu andar desengonçado, esse jeito de voltar o pescoço para as nuvens, uma mão com a palma para cima, o sorriso trocista de quem acabou de relevar a última asneira que fez, o cabelo há três semanas a implorar por um corte e os passos como que demasiado pequenos para pernas tão altas.
Vi-te atravessar a dez metros da passadeira e quase ser atropelado e fiquei aliviada por teres sobrevivido.
Percebi que a tua morte foi um embuste. Uma paródia da qual todos os dias te ris de boca aberta sentado no sofá verde (era verde não era?) da casa a cuja porta nunca passo para evitar o teu reflexo no vidro grande da entrada.
Percebi que passaste os últimos quase dois anos a rir de nós, a espreitar-nos das esquinas, distraído com as passadeiras, quase a ser atropelado, a observar as nossas vidas, a ler as nossas palavras, a reprovar as minhas olheiras, a gozar  a nossa dor. A escrever os teus poemas.
Dizem-me que era outra pessoa. Um homem parecido com o que te parecerias hoje se hoje ainda te parecesses com alguma coisa. Dizem-me que morreste e que foi o teu corpo que o rio vomitou numa manhã mais fria do que todas as outras. Dizem-me que desapareceu para sempre o teu reflexo do vidro grande da entrada da porta onde nunca passo. Que se te acabaram os poemas.
Mas ontem vi-te e sei que a tua morte foi um embuste e só espero que não sejas atropelado. 
E que cortes esse cabelo.



Não sei nem quero saber

Apenas não tenho raiva a quem sabe.
Dominei os dois estádios mais úteis desse adágio infantil da inocência arrogante.
Vivo no alheamento das coisas, de todas as coisas e não me sinto culpada por isso.
A arte da eremitagem aprende-se em módulos, como os cursos de fotografia.
No fim, ganha-se a habilidade de suspender a indignação. Não é nada comigo, porque só é comigo aquilo que ocorre a menos de cinco centímetros do meu umbigo. 
O que me interessa são as metáforas de um texto, as curvas de uma frase, a melodia de uma música, o movimento de uma fotografia, a luz de uma pintura e, ocasionalmente, a sombra de uma ponte. Tudo o resto só existe como suporte das coisas que me interessam.
Os homens inventaram a arte por pressentirem que o mundo era um sítio demasiado inóspito para se viver. E a arte é um jardim de entrada livre onde podemos permanecer durante todo o tempo que quisermos.
Para lá destes muros de ferro forjado, o mundo continuou igual a si próprio. Não houve mais guerras, mais mortos, mais pobres, mais dor, maldade ou solidão pelo facto de eu ter deixado de querer saber das coisas. 
Começo a acreditar que é possível uma existência assim. 
E como é doce, esse estágio humano em que apenas um verso mal construído tem a capacidade de me estragar a manhã. 




domingo, 20 de outubro de 2013

caleidoscópios

Foi há muitos anos, num telhado de Lisboa.
Estavam sentados na beira, com os pés descalços, a abanar sobre o abismo. Ele tirou-lhe o copo da mão e entregou-lhe o telescópio. 
Enquanto ela apontava à lua, ele disparou:
- há muito anos que te amo.
Por trás do telescópio ela ficou calada a assistir às imagens da existência que teriam tido se fosse verdade e se o tivesse percebido a tempo.
Quando o olhar dela tombou sobre o dele o silêncio iluminou uma estrela que nasceu morta.
Se ele se tivesse achado digno de ser aceite por ela há muitos anos atrás, talvez ela, muitos anos à frente,  ainda tivesse dignidade suficiente para o poder aceitar.
Foi há muitos anos. 
Antes de terem demolido os telhados de Lisboa.

Céus

Colecionar céus, foi a desculpa mais discreta que encontrei para não ser obrigada a olhar em frente.

"apenas bolsos cheios de pedras"

Os repórteres de guerra estão demasiado ocupados com os seus heróis e nós estamos suficientemente desocupados deles para não nos ocuparmos com as suas ocupações. Ela era uma figura, uma imagem que apetece ouvir como um beijo na boca. Ela não precisava de ter cuidados, apenas bolsos cheias de pedras, ela dispensava conselhos, ela não se deixava embalar pelo sorriso dos amigos que nos desejam a morte, ela era apenas uma velha solitária, sentada no meio do fumo como uma estátua de pedra rodeada de nevoeiro, ela era em silêncio como o homem que fala alto por não temer que o ouçam, ela era o derradeiro adeus daqueles que acabam de chegar com uma ideia na cabeça: construir diariamente a casa que entra pelo mar.



Henrique Bento Fialho, (a pretexto de Virgínia Wolf), in Suicidas, Deriva Editores.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Preçários

São infindáveis as dificuldades daqueles que oferecem resistência a viver no mundo real.
Podemos ignorar os avisos da EPAL sobre cortarem-nos a água se  não os deixarmos entrar em casa para nos ler o contador. Mas não podemos esperar que os senhores da EPAL façam algo tão simples e justo como devolver-nos o desprezo. 

...

Antes que o copo ficasse vazio, já não estava lá. Aprendi a mover-me no tempo sem sair do espaço. Os meus momentos são capítulos cruzados de vários livros incompatíveis. Do final de um Tolstoi apreendo o início de um verso de Dante e perco-me numa tragédia de Shakespeare. O riso que te entrego não é teu e o meu gesto dirige-se a um morto. Talvez ainda regresse antes de nos levantarmos da mesa. Se estiver a chover numa rua de Paris. Se já não houver bazares abertos em Istambul. Se na penumbra do quarto a lua me devolver a imagem de um amante adormecido. Talvez até venha a ser para ti o comentário que farei sobre a intensidade do ar condicionado. Ou aquela marca desagradável que alguns vinhos deixam nos lábios. Mas nunca poderei ficar por mais que um instante. E essa é a minha secreta tragédia. 

Aridez

Foi preciso apagar o mundo. 
Desligar as estrelas. Ensurdecer à música. Tirar a voz aos poetas. Despir a beleza.  
Foi preciso asfaltar o chão.
A aridez é uma forma de desesperada sobrevivência. 
Onde nada medra, a tua alma descansa.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

give (for) not



In dark times when no one wants to
I will give you me


terça-feira, 15 de outubro de 2013

Aquários

A existência contida numa taça de cristal.

domingo, 13 de outubro de 2013

Diário de Bordo #4

VENDE-SE CRUDE!

Num domingo à tarde



Percebo que a leitura de Borges e a escolha de mobiliário são uma péssima combinação.
Percebo ainda que, numa determinada altura que não interiorizei, o meu fascínio pelo clean minimalista foi-se embora e deu lugar ao gosto pelo vintage industrial. 
Percebo, por fim, que esta súbita alteração de tendência na estética decorativa pode muito bem explicar o fracasso da minha vida amorosa.
Lamento por tudo o que realizo. 
No primeiro plano, apetece-me mais continuar a ler Borges do que interromper para decorar uma casa. No segundo plano, o minimalismo era uma solução incomparavelmente mais acessível.
E no último, bem... lamento a futilidade do destino. 


distrações

A itinerância distrai-nos da obrigação de viver no presente.
O presente, esse, é um carcereiro que nunca se distrai de nós.

sábado, 12 de outubro de 2013

Diário de Bordo #3


À hora que vos escrevo, estão lançados os dados da sorte deste navio e sua tripulação corsária. O ataque secreto ao petroleiro acontecerá amanhã ao raiar do dia. Não há nenhuma razão especial para que a abordagem não se faça lá pelas onze da manhã ou da noite, opção porventura até mais cautelosa e inteligente. A motivação é profundamente egoísta, já que nunca fiz nada ao raiar do dia e, provavelmente por causa disso, tem-me falhado na vida a oportunidade de usar esta expressão que, acabo de o perceber, tanto me agrada. Seja como for, foi assim que combinámos e agora já não poderia voltar atrás mesmo que quisesse, porque se há coisa que mantive dos tempos em que era uma pessoa de bem e tinha um emprego normal, ou mais ou menos isso, é a irrevogabilidade absoluta das decisões comunicadas. 
A ideia partiu dos pescadores gregos que fizemos reféns depois de nos terem implorado que não os obrigássemos a regressar às suas mulheres, mas foi imediatamente acolhida pelo resto da tripulação com urras hey ohs e vivas. Álvaro de Campos, o engenheiro naval, depois das reticências iniciais, acabou por ter um contributo válido já que é o único com formação académica em navios e deu-nos uma palestra sobre as fragilidades do petroleiro que amanhã faremos nosso.
Confesso que o meu défice de atenção, que alguns maldosamente insistem em confundir com autismo, fez com que só tenha podido ouvir os primeiros dez minutos. Ainda assim, tenho razões para crer que, sendo eu Pirata e capitã e tendo uma vastíssima experiência profissional em atividades que são obscuras para o comum das pessoas, no momento próprio saberei exatamente o que fazer.
Encarreguei Andhrimnir de nos preparar uma refeição especial já que pode muito bem ser a última. Comeremos hamburguer com trufa, uma coisa muito fina que experimentei num restaurante de Lisboa e que perante o meu ar enjoado me garantiram ser o último grito da gastronomia. 
Os bravos Piratas que me acompanham revelam um espírito de tal forma corajoso e desprovido de qualquer receio da negra morte, que uma alma menos crente na natureza humana facilmente poderia pensar tratar-se de inconsciência total.
Neste preciso instante, a bordo do navio, dir-se-ia ser um sábado normal. As bloggers pintam as unhas umas às outras revezando-se entre a fotografia para o instagraam e as últimas novidades de um concurso que corre aí pela blogosfera; os presidiários traficam pósteres de mulheres nuas indiferentes ao facto de este navio estar cheio de gente que passa o dia em biquini; os poetas estão sentados num canto do convés a dizer mal dos críticos e a queixarem-se da comercialização da literatura; Gualtiero, o Italiano, ocupa-se de estar apaixonado já não consigo acompanhar por quem; o gigante repara os danos no mastro deixados pela última tempestade; Álvaro de Campos mergulha num coma alcoólico de absinto…
Quanto a mim, passei as últimas duas horas a olhar para este arsenal de shot guns que encomendei a um amigo que vive em África e sabe onde se arranjam estas coisas e a pensar onde raio estava com a cabeça quando decidi faltar ao curso especial de tiro que o Ministério da Defesa Nacional, sempre oportuno, me ofereceu no ano passado.
Constato, com alguma tristeza, que ainda não tenho o suficiente a perder para ter o privilégio de conhecer essa útil emoção a que chamam medo.

Finais

Naquele duelo delicado, que só alguns íntimos adivinhávamos, não houve derrotas nem vitórias, nem sequer um encontro, nem outras visíveis circunstâncias do que aquelas que procurei registar com a minha caneta respeitosa. Só Deus (cujas preferências estéticas ignoramos) pode outorgar a palma final. A história, que se desenrolou na sombra, para a sombra vai voltar.

Jorge Luis Borges, O relalório de Brodie, Quetzal

E por fim, sepultar-nos na sombra. 
Porque a parte de nós que se tornou cadáver merece a paz do esquecimento. 
E porque é uma questão de higiene pública.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

pós-modernos

quadro do grande Marc Desgrandchamps

voucher para o dia seguinte

A minha caixa de correio eletrónico anda a ficar estranha. Tudo começou com uma seguradora de que nunca tinha ouvido falar a ameaçar-me que posso ter uma tragédia amanhã; seguiu-se uma vidente chamada Maria a perguntar se "você sonha com isso?" e uma marca de roupas a avisar-me que "É tudo uma questão de poder". 
E finalmente, quando começo a ficar preocupada com tanto agouro maligno para o dia de amanhã, uma agência de viagens vem em meu socorro oferecendo-me a solução evidente: promete que me deixa dormir duas noites pelo preço de uma. 
Seguidas, espero eu.

À espera

Preciso que o verão abandone a minha estância balnear e me devolva o abandono. Todas as tardes me sento no areal a vê-lo partir. Cada dia está mais longe mas ainda paira suspenso na linha do horizonte num risco laranja vivo em combustão acusadora. Preciso que vá. Que leve com ele os cabelos molhados e as toalhas enroladas aos corpos e os chapéus dos ingleses e os barcos que brilham ao fundo. Que sejam banidas as havaianas do chão, fechadas a cadeado as gelatarias, recolhidas as esplanadas, desmontados os estrados, escondidas as bolas. Preciso desta estância balnear deserta. Do frio húmido das manhãs, do ruído perturbador do vento na minha sala, da aflição das gaivotas pela noite dentro.  Preciso que parta e me devolva o alívio de um cenário de inverno. 
O cenário onde as ausências se confundem, se atenuam e por fim se anulam. 
Todas as tardes me sento no areal à espera. À espera que se vá.  

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

the sound of silence

No final do espetáculo, quando as luzes se acenderam e todos me disseram que a cantora foi maravilhosa, percebi que durante uma hora e meia só ouvi o som do baixo.
Já consigo suportar o som do baixo, mas ainda não consigo ouvir mais nada a não ser o som do baixo.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O Barquinho foi


E o barquinho a deslizar
No macio azul do mar
Tudo é verão, o amor se faz
Num barquinho pelo mar
Desliza sem parar
Sem intenção, nossa canção
Vai saindo desse mar e o sol
Beija o barco e luz
Dias tão azuis
Beija o barco e luz
Dias tão azuis

Volta do mar, desmaia o sol
E o barquinho a deslizar
E a vontade é de cantar
Céu tão azul, ilhas do sul
O barquinho é o coração
Deslizando na canção
Tudo isso é paz
Tudo isso traz
Uma calma de verão
E então
O barquinho vai
A tardinha cai
O barquinho vai
A tardinha cai

O plano

Contrariamente ao que acontece com as coisas que se me impõem, que integram uma errata maior que o livro, nunca me engano nas minhas escolhas. Foi essa segurança estatística que me fez continuar a acreditar na minha tripulação tão criteriosamente escolhida, mesmo quando parecia evidente que não havia nada que se pudesse fazer por esta gente para lhes despertar o instinto sanguinário que é essencial numa carreira de Pirata.  
Finalmente, ou porque se aborreceram das férias náuticas, ou porque o rum lá lhes chegou ao sangue, decidiram-se a fazer jus à minha fé.
Esta manhã, quando desci para o pequeno almoço, estavam todos reunidos à volta da mesa, equipados com lenços, brincos, ganchos e sabres e comunicaram-me que estavam prontos para a ação. 
Sem plano de ataque ainda definido, sugeri que fossemos atrás de um iate de espanhóis que nos irritaram numa marina de Kos e lhes roubássemos a embarcação.
Os bloggers rapidamente se lançaram numa discussão sobre a ética do ataque aos hispânicos, os poetas protestaram com Cervantes, os ex-presidiários tinham feitos amigos entre etarras durante a reclusão, Gualtiero votou contra com o pretexto de uma amante espanhola e foi quando eu já estava em vias de me conformar com mais um projeto de ação transformado em "vamos mas é antes fazer uma sunset party de margaritas" que os pescadores acolhidos a bordo tiveram uma ideia que nos projetará para o mundo da fama e da riqueza.
Vamos assaltar um petroleiro.
A esta hora tardia, o navio ainda fervilha de excitação. Estudam-se as rotas dos petroleiros mais apetecíveis, afiam-se os sabres comprados nas lojas dos trezentos, ensaiam-se saltos sobre o inimigo, afinam-se as bússolas dos devices, compram-se armas no ebay, desenham-se fatos para o ataque...
Assaltaremos um petroleiro. 
Álvaro de Campos, esse chato, perguntou-me o que faríamos depois do ataque e onde guardaremos o petróleo, ou lá o que eles trazem dentro dos petroleiros.
Expliquei-lhe que não viemos para esta vida para nos preocuparmos com detalhes e que se insistir em chatear-nos com insignificâncias terei que o mandar amarrar no mastro.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Em tempo pré real


Em tempo real...


Sinas



Cá dentro inquietação, inquietação, inquietação ...

radiografias instantâneas

Para nós, os racionais, o despropósito de uma emoção é a chancela da sua autenticidade.
É por isso que nós, os racionais, não gostamos mesmo nada de ser surpreendidos por emoções despropositadas. 
Por mais leve que seja, ficamos para ali a olhar para dentro, desconfiados, sem perceber bem de onde veio, o que estávamos a fazer quando se instalou e como escapou ao filtro da generalizada indiferença. 
Depois percebemos que perdemos quarenta minutos à procura de uma fotografia com a virtualidade de ilustrar um sentimento e até nisso conseguimos confirmar um sintoma.
Nós, os racionais, temos muita inveja das pessoas que se limitam a existir em vez de passar o tempo a autopsiar a existência.



e no pôr do sol e na lua e na sombra e na chuva, encontro-me sempre a mim própria

Siddhartha learned a lot when he was with the Samanas, many ways leading away from the self he learned to go.  He went the way of self-denial by means of pain, through voluntarily suffering and overcoming pain, hunger,thirst, tiredness.  He went the way of self-denial by means of meditation, through imagining the mind to be void of all conceptions.
These and other ways he learned to go, a thousand times he left his self, for hours and days he remained in the non-self.  But though the ways led away from the self, their end nevertheless always led back to the self.  Though Siddhartha fled from the self a thousand times, stayed in nothingness, stayed in the animal, in the stone, the return was inevitable, inescapable was the hour, when he found himself back in the sunshine or in the moonlight, in the shade or in the rain, and was once again his self and Siddhartha, and again felt the agony of the cycle which had been forced upon him.
In Siddartha, Hermann Hesse

domingo, 6 de outubro de 2013

Implantações

De qualquer forma, nunca teria sido possível. Ele é monárquico e eu republicana...


sábado, 5 de outubro de 2013

Notícias da terra


 Estávamos sentados à mesa no convés quando Polly, o papagaio emprestado (que certamente por não ser nosso é o único animal que ainda alguma utilidade vai tendo neste navio), deixou cair no meu colo um sobrescrito com um logotipo familiar, em todos os sentidos do termo. 
A minha gente, decorridos três meses desde que me tornei pirata, começou a desconfiar que aquela  história da licença sabática para fazer um doutoramento sobre a organização política dos povos do reino de prestes joão talvez não faça muito sentido. Dizem-me que os almoços de domingo têm andado empobrecidos com a monocromática orientação política das conversas, que não há quem coma a morcela do cozido à portuguesa e que à falta de terem alguém a quem mandar endireitar as costas de dois em dois minutos tiveram que começar a tomar as refeições de televisão ligada. Pedem-me que volte e prometem-me que não me obrigarão a regressar ao trabalho, a que eles insistem em referir-se como "a função", para fazer com que pareça mais importante do que é. 
Não me deixarei enganar. Tenho um considerável histórico de fugas de casa. Desde os quatro anos que ando nisto e a única coisa que mudou foi o objeto da promessa daquilo que não me obrigarão a fazer. Além disso, mesmo que quisesse voltar não podia. Eu e esta brava tripulação ainda só roubámos uma velha traineira de pescadores e, tendo jantado o espólio, o lucro da empreitada não chegaria para pagar a conta do leasing do navio. 
Pese embora a carta não tenha beliscado a minha firme de convicção de morrer Pirata, deixou-me submersa na nostalgia dos tempos em que em que era uma cidadã exemplar e me levantava todos os dias às sete e meia da manhã para ir praticar o bem. 
Mas meio minuto depois passou-me. Agora que sou terrorista dos mares, faço parte do mal. E se há coisa que sempre gostei é de pertencer a equipas com alguma possibilidade de ganhar.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

freedom song


Something simple is the key
Only love will set us free
it´s so far, it´s so near
Almost close, almost here

Um duplo erro. 
Nem o amor é uma coisa simples, nem tem qualquer capacidade libertadora. 

Aliás, se o produto fosse bom, não era necessária tanta publicidade para o vender.

domingo, 29 de setembro de 2013

Piratas, mas limpinhos


No sofá da sala

Um dos maiores inconvenientes das redes sociais é tornarem impossível o exercício do direito ao esquecimento. O esquecimento, na sua mais doce obliteração absoluta da nossa memória. Aquele esquecimento tão completo que ficamos de de boca ligeiramente aberta e olhar espantado quando dois ou três anos depois a televisão, um amigo, uma fotografia esquecida, nos lembra que no mundo, para além das outras de que nos lembramos, também existe aquela pessoa.
As redes sociais roubam-nos o exercício desse direito sadio. As pessoas saem das nossas vidas mas  continuam a ocupar espaço no nosso computador. São músicas cheias de sentidos equívocos em que o you tanto podemos ser nós, como a anterior, a próxima ou oneself; são frases enigmáticas a denunciar estados de espírito misteriosos; são comentários idiotas que nos fazem perguntar se a pessoa está drogada ou se nós é que em tempos estivemos drogados; são rostos espalhados por toda a parte; o perfil do lado direito com uma praia conhecida em plano de fundo; o perfil do lado esquerdo com uma estante onde reparamos num livro novo.
É a brutal exibição pública dos detalhes da felicidade doméstica a afrontar o nosso direito de querer que o outro desapareça. 
Uma pequena morte, uma morte privada, uma morte só nossa...
É o direito a essa forma de morte do outro que as redes sociais nos tiram. Não podemos ignorar quem continua a respirar a vinte centímetros do nosso pescoço. E não podemos desamigá-los porque isso seria uma declaração pública de não indiferença. Seria uma ainda forma de comunicação. Uma cobarde confissão de incómodo.  
Eles estão ali e é como se tivéssemos que viver com eles para sempre sentados no sofá da sala. 

sábado, 28 de setembro de 2013

Dos julgamentos de carácter

Uma verdade que estará algures entre a injustiça de esperarmos dos outros as nossas deficiências morais e a inocência de acreditarmos que serão melhores do que nós.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

o mistério dos sentimentos puros


vem no Wallace


“The so-called ‘psychotically depressed’ person who tries to kill herself doesn’t do so out of quote ‘hopelessness’ or any abstract conviction that life’s assets and debits do not square. And surely not because death seems suddenly appealing. The person in whom Its invisible agony reaches a certain unendurable level will kill herself the same way a trapped person will eventually jump from the window of a burning high-rise. Make no mistake about people who leap from burning windows. Their terror of falling from a great height is still just as great as it would be for you or me standing speculatively at the same window just checking out the view; i.e. the fear of falling remains a constant. The variable here is the other terror, the fire’s flames: when the flames get close enough, falling to death becomes the slightly less terrible of two terrors. It’s not desiring the fall; it’s terror of the flames. And yet nobody down on the sidewalk, looking up and yelling ‘Don’t!’ and ‘Hang on!’, can understand the jump. Not really. You’d have to have personally been trapped and felt flames to really understand a terror way beyond falling.” 

David Foster Wallace, Infinite Jest

Perigo de Derrocada

Ali. Hoje. À entrada da minha praia.
E nunca um aviso me pareceu tão sério ou oportuno.
"Perigo de Derrocada"

domingo, 22 de setembro de 2013

Opening outono...



É com verdadeiro alívio e exultante alegria que comunico a chegada do Outono.

Akira II


II


Akira era uma esteta. Escolheu para morrer uma linda noite de lua cheia com a neblina zero a garantir a consagração da mais bonita tela que pintou na vida. Durante muitas horas o seu corpo branco emoldurado por um kimono vermelho sangue, jazeu deitado e perfeito naquele banco de jardim. O braço nu que pendia sem que a mão chegasse a tocar no solo. O joelho direito ligeiramente mais elevado que o esquerdo. A cabeça voltada sobre o ombro, afundada no ombro, a tornar impossível não evocar a metáfora de Leda, presa num cisne para toda a eternidade. É inviável que a combinação destes elementos tenha sido obra do acaso. 
A lua há-de ter iluminado o brilhante cenário de si própria, na solidão de um corpo abandonado pela alma, desertado da própria mente, num banco de um dos jardins de Tóquio. 
E se nos tivesse sido possível surpreender Akira morta debaixo da quietude da lua cheia a tingir de azul a alvura da pele de Akira morta saberíamos que a beleza, a inusitada beleza das coisas, aquela beleza que nos ataca a curva das pernas quando somos surpreendidos por um Caravaggio ao dobrar da esquina, não só pode ter lugar num cenário de tragédia, como, porventura, até nele terá a sua morada privilegiada. 
Foi isto que viu o casal de corujas que se abrigou na árvore da frente.
Porque o guarda que, na manhã seguinte, sacou do seu bastão para enxotar outra vadia, adormecida sobre a propriedade pública, ao tocar na perdida, recebeu apenas por resposta um olhar verde, fixo num universo cheio de nada. E o olhar de Akira morta foi de tal forma impressivo que o guarda que a encontrou durante muito tempo não viu mais nada. 

Space dementia in your eyes...

...peace will arise and tear us apart
and make us meaningless again.

Cuca, apesar de Pirata, também é fofinha


http://www.audepicault.com/fanfare/fanfare.htm


sábado, 21 de setembro de 2013

das assombrações

A primeira notificação do Facebook, alerta-me para uma fotografia, ainda tirada nos meus dias, em que  um ignorante das nossas regras de queima de arquivos cometeu a gaffe de te identificar numa expressão de felicidade histérica.
A segunda notificação, refere-se a um comentário feito por alguém que não nos conhece e é a citação de uma frase de David Foster Wallace, em The Pale King:
"Every love story is a ghost story."
O meu cérebro processou as duas informações em simultâneo. 

jazz it all

terça-feira, 17 de setembro de 2013

the message in a bottle


Em tempos conheci um homem cujo maior sonho era encontrar uma mensagem dentro de uma garrafa.
Vi-o navegar de olhos postos na superfície da água, desviar-se da rota para recolher qualquer objeto que brilhasse e desfazer-se numa expressão de deceção diante de mais uma garrafa vazia. 
No dia seguinte haveria de continuar e tenho a certeza que ainda hoje por lá anda. Há muitos anos que revista o mar à procura da sua mensagem dentro de uma garrafa. 

Foi a segunda pessoa que conheci na vida com maior desatenção às garrafas cheias de mensagens que, em terra, aqueles que nos são próximos atiram de encontro aos nossos pés.
Falta-me a legitimidade para a censura, pois a primeira sou eu própria.

Mar a dentro


SEM MAR DENTRO

O mar está sobreavaliado. Não me fascina o seu ruído constante, que para mim é a marca evidente da sua servidão. O mar não deixa de ser mar, apesar das mudanças de cor, da ondulação que embala ou que mata. Oscila entre marés e tem correntes, mas até os peixes, que são estúpidos, as conhecem. Eu sei que a matéria dos peixes os protege e mantém, e que isso é uma forma de inteligência, mas se os peixes têm inteligência é uma inteligência que é igual à do mar, porque é feita de mar, e o mar é apenas o mar, e por isso os peixes são bichos torpes e tu não sais com eles para jantar. São as coisas que não são do mar que o tornam suportável: um barco que naufraga, um polícia marítimo que olha os traficantes de droga e dá ordens e respira apressado. Por isso as ilhas são os lugares mais infelizes do mundo. Por causa do mar. Ela chegou de avião para ser juíza na ilha e ainda trazia um pouco de terra nos sapatos. Ele, polícia marítimo, prendeu-a por toda a vida num barquinho salgado, raspou-lhe as escamas, e o vulcão subiu do mar e sacudiu a água e eles ficaram lá em cima, na lavoura arcaica dos filhos e das sopas, dos sonhos, dos remédios, dos armários, no trabalho dos dias. 

Rui Costa, in Implantes de Ciclone, 10 de novembro de 2011



domingo, 15 de setembro de 2013

Diário de Bordo #2





Latitude 36º 53' 35 N
Longitude 27º 17' 20 E

Deixámos a Sardenha para trás há várias semanas. Só foi possível largar aquela estância turística decadente porque, desta vez, não caí na asneira de levar a partida a referendo. A minha experiência de capitã pirata tem-me ensinado que, em geral, a democracia é uma coisa má e a ditadura infinitamente mais prática. Concedo-lhe alguma eficácia nos estados europeus, onde um grupo de pessoas a que se convencionou chamar o legislador, se encarrega de neutralizar os efeitos da democracia reduzindo-a a uma mera sensação psicológica, ao nível dos fenómenos da alucinação coletiva. Mas nós, dentro deste navio, não temos leis, paciência para as fazer, ou moral para as aplicar. Para evitar confusões, decidi reduzir a fórmula de organização política a duas variáveis da mesma equação: eu mando, os outros obedecem.
Antevendo contestações, com a ajuda do Viking psicopata Adhriminir, o cozinheiro pirata e de Álvaro de Campos, o engenheiro naval, organizei uma festa na véspera da partida. Anunciámos uma happy hour de Margaritas entre a uma e as duas manhã e a minha tripulação, apesar de aqui no navio nunca ter pago por coisa alguma, ainda está de tal forma condicionada pelos efeitos da sociedade mercantilista de que fugimos, que, perante a publicidade de uma borla, não pensa duas vezes antes de se embebedar até cair para o lado.
Acordámos já ao largo do mediterrâneo com os gritos histéricos de Gualtiero, o Italiano, que, vendo-se sequestrado, percebeu que iria faltar ao encontro com uma tal de Anna Belle que tinha conhecido num bar resmenga cheio de turistas franceses. Lembrei-lhe que todos nós temos uma sina e a dele é o azar ao amor e recorri a um ou dois ensinamentos do tempo em que fui budista para o convencer que é melhor entregar-se ao fado do que resistir-lhe e vê-lo exponenciado em fardo nas próximas mil reencarnações. Convenceu-se quando invoquei o argumento experiência própria.
No segundo dia de navegação, depois de debelada a ressaca, a tripulação estava tão furiosa com aquilo do sequestro, que decidi canalizar a energia destrutiva para o treino na atividade que, afinal, é o centro da nossa missão. Pilhar, roubar, aterrorizar pessoas e dominar os mares e o mundo. 
Cruzámo-nos, entre o final das águas italianas e o início das gregas, com um barquinho de pescadores chamado Helenis e eu logo aproveitei a oportunidade para introduzir neste grupo o prazer pela vitória. 
Em cinco minutos burilámos um esquema maligno e muito original que passou por irmos todos para o convés, pedir socorro, fingindo um início de naufrágio. Os pescadores aproximaram-se, uma equipa constituída pelos presidiários e liderada por Gualtiero, o Italiano, saltou para a barcaça e, aproveitando o pasmo com as nossas vestes carnavalescas, apoderámo-nos de pescadores e pescado. 
Comemorámos com um magnífico jantar de sargo grelhado, regado com Soalheiro Alvarinho Primeiras Vinhas 2011, servido pelos pescadores que fizemos nossos escravos. Os ânimos acalmaram-se e a paz voltou a instalar-se neste navio. Os bloggers tiraram fotografias ao peixe para colocarem na internet, os poetas declamaram umas coisas sobre escamas translúcidas sob o luar do sal, os românticos concentraram a sua sina de desgosto em novos objetos, os ex presidiários ficaram quietos a contemplar o calendário com mulheres nuas que roubaram aos pescadores…
Quanto a estes últimos, contava restituí-los à liberdade no dia seguinte, amarrados aos restos da barcaça, depois de me prometerem que iriam à televisão pública contar que tinham sido barbaramente torturados e mentir sobe um arsenal de armas químicas a bordo.
Mas quando os pobres diabos me imploraram que os deixasse ficar, argumentando com a exibição das fotografias das suas mulheres por comparação com a beleza sofisticada das nossas bloggers, a comiseração apoderou-se de mim e faltou-me a coragem para os devolver àquela vida de miséria estética.
Ficámos com mais três inúteis tripulantes e largámos no mar os restos do Helenis, onde cosemos uma réplica da nossa bandeira, na esperança que sobre nós venha a recair a acusação de homicídio dos pescadores.