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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

2,700 kg de terapia eficaz

Não desprezando a utilidade da extenuação pelo trabalho na arte de controlar o cérebro, a verdade é que existem outros processos igualmente eficazes e menos penosos. Estou de férias há oito dias e ainda não enlouqueci. O potencial antimetafísico que existe num cachorro de dois meses deveria ser transformado em fórmula química e vendido em comprimidos.
Agora vou ali ver se as orelhinhas de morcego do meu frenchie já levantaram. 

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Meninas de cabelos azuis e seus irmãozinhos de nariz comprido

"Então teve uma espécie de triste pressentimento e pôs-se a correr com todas as forças que lhe restavam nas pernas, e viu-se daí a poucos minutos no meio do prado onde estava dantes a Casinha branca. Mas já não existia a Casinha branca. No lugar dela havia uma pequena lápide de mármore onde se liam em caracteres de imprensa estas dolorosas palavras:
AQUI JAZ A MENINA DOS CABELOS AZUIS MORTA DE DOR POR TER SIDO ABANDONADA PELO SEU IRMÃOZINHO PINÓQUIO”.




in, As Aventuras de Pinóquio, Carlo Collodi.


Passei o dia deitada num relvado da minha Lisboa, aquela que tem vista privilegiada para a ponte Vasco da Gama, com duas crianças que, em turnos rotativos de meia hora, me leram as aventuras do Pinóquio, de Collodi.
Esta discreta exploração da mão-de-obra infantil, além de ser uma razoável e económica alternativa ao áudio livro – só custa o preço de duas pizzas, alguns gelados e umas quantas garrafas de água – tem a vantagem de trazer incorporada, além da mais honesta e perspicaz crítica literária, a análise do perfil psicológico do autor.
Nenhum outro método de leitura me teria feito perceber que a dado passo Collodi se engana, e depois de explicar que o burro foi atirado ao mar preso por uma pata, refere que o mesmo asno havia sido preso pelo pescoço.
Por outro lado, a cerca de dois terços do livro já os meus pequenos leitores estavam em condições de concluir que Collodi era, de acordo com a de doze anos, um psicopata reprimido e, na visão do de nove, um tarado violento.
A melhor qualidade das crianças é a sua desassombrada lucidez.
Pensando nisto, parece-me que deve ser qualquer coisa que se perde quando a menina de cabelos azuis é abandonada pelo seu irmãozinho Pinóquio e a tal da Casinha branca dá lugar à lápide de mármore.

domingo, 19 de junho de 2011

don´t burn it

"O fumo contém benzeno, nitrosaminas, formaldeído e cianeto de hidrogénio"...
... E, ainda assim, o amor parece-me muito mais perigoso.



sábado, 14 de maio de 2011

Estou farta de gente mentirosa

O meu senhorio israelita da Mossad veio sentar-se na minha mesa no restaurante. Como de costume, era a única mesa ocupada.
Deve ter estado à espreita, nas minhas costas, para surgir no exacto momento em que eu enchi a boca com secretos de porco preto.
Também lhes ensinam estas coisas lá nos campos militares onde os treinam.
Incapaz de protestar sem perder a dignidade, acabei por o deixar sentar-se na minha frente e roubar-me uma azeitona.
Ainda fiz um esforço por tentar lembrar-me se lhe teria pago a renda. Antes de conseguir chegar a uma conclusão percebi que vinha em missão social.
Os velhos da praça disseram-lhe que passei a exibir uma expressão carrancuda e zangada. Que já não se ouve música das minhas janelas. Que vou despejar o lixo durante a noite para não ter que passar por eles. Que ganhei a guerra contra as mulheres que me espreitam para a sala condenando-me à bunkerização nas tardes de sábado.
Da vila, chegam-lhes notícias igualmente preocupantes. Diz-se que lá no meu trabalho já não me vêem passar pelos corredores com um sorriso imbecil na cara. Que quando entro na sala grande tenho um ar mal disposto e, por vezes, me esqueço de dizer bom dia. Que, ultimamente, os grandes textos encriptados que assino estão pejados de expressões como “personalidade desconforme às mais elementares regras sociais” e “falta de competências para uma normal vivência numa sociedade que se quer segura” e “imunidade absoluta aos efeitos das penas”.
Acabei de deglutir o porco preto em silêncio e não lhe expliquei que a génese do meu problema se situa algures entre o cansaço e a mentira.
Ele ficou a olhar para mim durante uns minutos e depois disse com um tom grave:
- Nunca serás capaz de nos compreender.
Fingi não reparar na ousadia da despropositada informalidade.
Sem querer, ele diagnosticou a minha doença.
Não se faz verdadeiramente parte de algo que não se apreende e eu nunca conseguirei compreender as infinitas limitações dos seres humanos.

sábado, 12 de março de 2011

carpinteiros de casas nas árvores

Era como se vivêssemos dentro de uma casa na árvore.
Especializámo-nos na arte da construção de um mundo imaginário que pudesse ser o eterno playground do outro. Os brinquedos eram sempre novos e brilhantes. A mesquinhez tinha sido erradicada. Todos nos ríamos muito. Não havia velhos nem doentes nem pobres. E as únicas crianças da casa éramos nós.
Mas um dia esqueceste-te do portão do jardim aberto. O teu desleixo fez entrar a realidade que submergiu o nosso reino de fantasia e me trepou pelos pés descalços. Até ao lábio inferior.
Não cheguei a deixar-me afogar. E se é verdade que perdi o meu lar, também é verdade que aquela nem sequer era uma casa a sério.
E sei isto tudo.
Só não me peçam que à realidade que me violou a consciência ainda entregue, de prémio, o meu apego ao sonho.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

descubra as diferenças*

obsessão
s. f.
1. Importunação perseverante.
2. Perseguição diabólica.
3. Ideia fixa.
4. Preocupação contínua.
Confrontar: obcecação.

paixão
s. f.
1. Impressão viva.
2. Perturbação ou movimento desordenado do ânimo.
3. Grande inclinação ou predilecção!predileção.
4. Afecto!Afeto violento, amor ardente.
5. O objecto!objeto desse amor.
6. Pena, cuidado, trabalho.
7. Grande desgosto, grande pesar.
8. Parcialidade.
9. Sofrimento ou martírio (falando-se de Cristo ou dos santos martirizados).
10. Parte do Evangelho que narra a Paixão de Cristo.
11. Filos. Impressão recebida de um agente.
12. Aveiro Cada uma das estacas em que se arma o botirão.


In Dicionário Primberam da Língua Portuguesa

* E depois descreva-mas.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Excesso de bagagem

Se eu traçasse o mapa de todos os meus sítios e tu traçasses o mapa de todos os teus sítios e juntássemos os dois para, assim, obter um mapa mundi ocupado por forças alienígenas, ainda haveria uma Suíça onde nos pudéssemos exilar?
E se houvesse essa Suiça e se nos deixassem viver nela e se nos exilássemos um no outro, o que faríamos das histórias que não poderíamos levar connosco por pertencerem a outras pessoas?

sábado, 22 de janeiro de 2011

Versões melhoradas

O problema das versões melhoradas é que tendem a defraudar as expectativas dos puristas.

domingo, 16 de janeiro de 2011

é preciso regressar a Paris


Viens, fais la fête
Viens dancer toujour
Célébrer l'amour

Séche tes larmes
Regarde autour de toi
Souris a n'importe quois

Il faut toucher les choses
Bois ton vin
Sens tes roses

Suis les mots, du poète
Prends la vie
Fais la fête

Viens, vis la valse
Vis l'éclat des jours
Viens chanter l'amour

Ouvre tes portes
Reçois la vie chez toi
Gonfle ton coeur de joie

Il faut toucher les choses
Bois ton vin
Sens tes roses

Suis les mots, du poète
Prends la vie
Fais la fête

sábado, 1 de janeiro de 2011

Clientela exigente

Este blogue lamenta a decepção provocada à pessoa que aqui chegou através da pesquisa no google "Gajas taradas no skype" e deseja-lhe que em 2011 encontre aquilo que mais procura.

domingo, 28 de novembro de 2010

A honestidade compulsiva tem como efeito colateral o cinismo

Roubado sem permissão, daqui, ao maravilhoso Ouriquense, provavelmente o melhor Blog português:
A honestidade como insídia
Sábado, 20 de Junho, 2009
Quem foi traído ou se atraiçoou tem duas evoluções possíveis: ou se torna cínico ou fica possuído por uma honestidade compulsiva. O cínico não é interessante. Por outro lado, o honesto compulsivo é uma figura muito curiosa e a situação do casal composto por dois honestos compulsivos deveras peculiar. Para o leitor inexperiente, este parece ser um cenário idílico. Na verdade, é um inferno. O casal estável ideal faz-se de um honesto compulsivo e de um mentiroso de talento, pois o segundo sabe abortar a escalada de honestidade sem que o primeiro se aperceba. Com dois honestos compulsivos não existe este mecanismo regulador. Cada um conta tudo ao outro, dos segredos mais inconfessáveis às dúvidas mais irrelevantes. A honestidade é vivida com fanatismo. Mais vezes juram um ao outro que jamais mentirão do que trocam juras de amor. E na exposição daquilo que lhes é mais íntimo são implacáveis. Cruéis. Como se na privacidade não houvesse direito à privacidade. Tudo em nome da honestidade que julgam ser a salvação, mas que irremediavelmente os afastará.

sábado, 9 de outubro de 2010

Neutralizações

Passei a semana sentada numa sala a ouvir descrições bárbaras, capazes de fazer vomitar de nojo o mais empedernido dos pais de família. No final, tinha um papel branco com rabiscos cheios de fórmulas matemáticas. Dividi a culpa por trezentos e sobrou mais um. Toda a gente se comportou como se fizesse sentido traduzir o horror num número.
Saí da sala com o mesmo estado de espírito com que entrei.
À força de tanto o ouvir, também neutralizei Puccini.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Grandes Filósofos

I think you're obstipated... in your fucking soul... I think you might have a really big load of grumpy petrified poop up your soul's ass.


Penelope Stamp, in Os Irmãos Bloom