quinta-feira, 26 de julho de 2018

Ascensão

Mas depois, afinal, os interstícios da terra eram estéreis.
A aridez do ferro, sob os pés,
deixava feridas por entre os dedos.
E a cada passo surgia uma vala
e um fundo de enxofre atravessado por girinos.
O sol abrasava os ombros dos homens que caminhavam
de cabeça baixa,
como quem protege a fronte dos céus.
As pessoas, na sua fealdade, pareceram-me feitas de medo.
O medo saía-lhes da boca em forma de bolas de sabão
e, pesado, desfazia-se de encontro ao chão.
Perguntei-lhes pela poesia mas
logo percebi que ainda não tinham inventado a metáfora.
Aguentei seis dias estelares.
Ao sétimo,
 subi por aquilo que me pareceu uma árvore
(Mas que também podia ser o fóssil de um sonho)
e ascendi ao espaço em branco
que fica entre dois versos do poema
de onde nunca deveria ter saído.




sábado, 21 de julho de 2018

Tangos

E depois de uma valsa ir-te-ás como uma 
tristeza que atravessa a rua deserta 
e haverá quem fique a olhar a lua
nalguma porta. 

Do poema «Has Vuelto», de Evaristo Carriego, citado por Jorge Luis Borges em O Tango, Quetzal.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Um rato

Na mesma semana desisti de duas coisas que queria fazer apenas para evitar a melancolia que me teriam provocado. Na verdade, desisti da primeira e fugi da segunda. Outras pessoas, mais benevolentes, fariam notar que a maturidade ensina a proteger-nos, a não enfiar os dedos nas tomadas, a recusar os joelhos esfolados. Mas eu não sou outras pessoas e não admito reivindicar para mim a benevolência que não gasto nos outros. Reconheço a cobardia quando a vejo assim de perto,

ouvido no Super Bock Super Rock

«É a única pessoa por quem alguma vez senti nojo efetivo.»
Fiquei a pensar que, talvez, por contraposição ao nojo virtual.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Um monstro, imenso como a noite

FELICE  O medo é um monstro, imenso como a noite...
CLARE. E projecta sombras, tal como o sol.
FELICE  Rápido e imprevisível, rápido como a luz...
CLARE  Desliza sob a pressão do polegar.
FELICE  Ontem à noite fechámo-lo lá fora.
CLARE  Mas já hoje o vimos de relance.
FELICE  Numa esquina, como um rato.
CLARE  A roer, a roer as quatro paredes.

Tennessee Williams, in Peça para Dois Atores, No Bar de Um Hotel de Tóquio e outras peças, Livros Cotovia

Reunion

There's an end to us with someone else inside
You shine your light
There goes that feeling, won't let me see them

Never not ever, never not ever again

Como uma nódoa numa toalha de chá

Encontrei as fotografias daquelas férias e passei largos minutos a apagar todas aquelas em que ele aparecesse. Algumas eram razoáveis e lamentei a perda de uma outra paisagem de enquadramento; de detalhes bizarros ou de felizes momentos de iluminação. Não creio ter olhado para ele uma única vez.  Não com maior atenção, pelo menos, do que a que se dedica à nódoa na toalha de chá. Apenas um breve lamento pelo tecido estragado. Um embaraço social momentâneo. Um incómodo doméstico.
A indiferença é desprezível em todas as suas conjugaçōes: A indiferença que nos guardam; a que nos provocam; a que é a nossa.

terça-feira, 17 de julho de 2018

Fim de ano

O meu ano, esse que se mede do sol de setembro ao sol de julho, terminou.
Foi o primeiro desde o regresso do exílio.
A casa, por fim, perdoou-me os anos de penumbra e abandono. As coisas voltaram a fazer-se minhas.
Também Lisboa já esqueceu a afronta e lá pelo oitavo ou nono mês aligeirou-me a insónia.
Sei agora que não havia quaisquer razões para continuar a fugir.
Os telhados de Lisboa estão isentos de fantasmas.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Das escadas para o céu

There's a sign on the wall
But she wants to be sure
'Cause you know sometimes words have two meanings
In a tree by the brook
There's a songbird who sings
Sometimes all of our thoughts are misgiving

segunda-feira, 9 de julho de 2018

nihil

Abri as mãos para deixar cair a nossa história.
Correram tantos grãos de areia na garganta da ampulheta que já não sei o que é memória, eufemismo, mentira e resto de verdade. Reduzi-te a um esqueleto de factos e presumo que alguns ossos sejam próteses. Falei sobre ti com a emoção da estenógrafa distraída, da má tradutora, do eco na sala vazia. Não houve humilhação nem culpa. Os nossos crimes prescreveram; já não existimos; somos personagens de Ibsen. Trocou-se a história pela estória.
No final, olhei para as mãos abertas e para o chão limpo e fiquei a pensar que talvez te tenha assassinado uma outra vez mais.

domingo, 8 de julho de 2018

Uma vez, a cada lua azul

Cruzo-me pela primeira vez com a expressão “once in a blue moon”. O dicionário, nem seria preciso consultá-lo, ensina que pode ser traduzida por “raramente”. Mas para quem falhou a promessa de um encontro sob uma lua azul, para quem sabe que não haverá outra oportunidade cósmica, para quem viu a lua azul na geografia errada, o único significado admissível é “desesperadamente nunca”. 

sábado, 7 de julho de 2018

Dinossauros e Pokémons

Depois de gastar as impressões digitais do polegar esquerdo a fazer refresh na caixa de mensagens, ouviu-se o aviso sonoro. Mas era apenas a Apple a querer vender-me um jogo sobre Dinossauros e Pokémons.
Li os gregos, os clássicos, os românticos e os contemporâneos. Platão, Plutarco, Petrarca, Herodoto, Homero, Ovídio, Gibbon, Kant, Descartes, Darwin, Nitzche, Kierkegaard, Sartre, Ortega e até o Zizek...
Foram manifestamente insuficientes para me transportar para lá dos doze anos.
Decidi recomeçar tudo. A partir de amanhã só leio Lewis Carrol, Collodi e Mark Twain.

Z, de Zarpar

Com o casco do navio finalmente remendado, sem fissuras nem brechas notórias, que quanto às outras já nada se pode fazer, esta intrépida tripulação Pirata e sua não humilde capitã, zarparam durante a madrugada, rumando aos mares das Caraíbas.
O meu gosto por chegadas e partidas cinematográficas ainda me tentou a espera pela lua cheia, para que o céu estivesse vestido de gala à saída da marina. Mas o mar chamou mais alto do que vaidade. Essa cãibra no músculo do coração que impele à viagem.
Como na canção, “parto rumo à maravilha, rumo à dor que houver para vir, se eu encontrar uma ilha paro para sentir e dar sentido à viagem”.

terça-feira, 3 de julho de 2018

Permutas


trocaria
de bom grado
todo o caudal deste rio
por três gotas do mar salgado.


sábado, 30 de junho de 2018

Ou talvez os poetas tenham todos a mesma expressão

Foi quando deixou de sorrir que o pude ver: o mesmo espelho quebrado; a carótida dispersa em pedaços; a chuva a submergir a alma; o pássaro que lhe há de ter morrido aos pés; a sombra escura do cão doente; essa estranha, íntima, forma de dor.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

No elevador

Inspecionámos mutuamente o interior dos olhos e tomámos o peso à alma uma da outra. À distância de vinte centímetros, sozinhas, fechadas num elevador, só por três segundos fomos duas mulheres que amaram o mesmo homem. Depois, fomos a superfície de um só mar num dia de junho, o espelho manchado pela história de uma casa de praia, o reflexo da lua na areia molhada de uma baía. Quando os nossos olhares, finalmente, se descolaram, foi como se fossem minhas as cicatrizes dela e suas as marcas que escondo debaixo da pele. Moldou-nos a alma o mesmo barro e, afinal, perdemos as duas. Não trocámos uma palavra mas, na despedida, ambas sorrimos de alívio. Tínhamos acabado de ler o coração da outra e creio nada termos encontrado que nos envergonhasse. Ainda mais.
Noutras circunstâncias, percebemo-lo hoje, teríamos sido grandes amigas.

sábado, 23 de junho de 2018

Mudança de estação

Por fim, esquecemo-nos todos uns dos outros. Veio esse doce manto tecido a olvido e cobriu-nos a todos: As noites deixaram de ser perturbadas por mensagens nostálgicas de uns; os dias perderam o aborrecimento dos e-mails passivo-agressivos de outros; calaram-se os dolorosos telefonemas superficiais de terceiros; esfumaram-se as evidências históricas dos primeiros; os poetas deixaram de ser violentados a nosso bel prazer; as músicas perderam a sua função de arma de destruição massiva e até os mortos puderam, finalmente, partir.
Estamos todos prontos para o verão.

Falsificar a história

Uma boa alternativa ao homicídio é a falsificação. A maioria dirá que não devemos matar quem nos desilude. Eu concordo, mas apenas por razões práticas, vagamente relacionadas com a vontade de me manter fisicamente livre. Já a falsificação da nossa própria história, é crime que costuma assegurar uma certa impunidade. Ambas são formas relativamente satisfatórias de eliminação de pessoas e a segunda, em extensão, até é uma amputação mais radical.

domingo, 17 de junho de 2018

Ninguém foge ao seu destino

O Romeu e Julieta de Kleist, são Gustav e Toni em “Noivado em S. Domingo”. Toni, mestiça e assassina de brancos refugiados, apaixona-se por Gustav, Suíço e inocente, e tenta salvá-lo. Mas fruto de uma teia de equívocos, Gustav acaba convencido de que ela faz parte de uma conspiração para o matar a si e à sua família e dispara sobre ela. Toni, antes de sucumbir às balas, acusa: —“Ah, não devias ter desconfiado de mim”. Mas como não desconfiar de uma assassina? Como ver nas cordas que nos amarram a receita para a liberdade? Desfeito o equívoco, Gustav suicida-se com um tiro na boca, fazendo com queToni cumpra na perfeição o seu destino: atrair homens para os assassinar de seguida.
Uma lição de cinismo pelo preço de três euros na Feira do Livro.

sábado, 16 de junho de 2018

Vantagem competitiva

Sentei-me na cadeira de balouço onde já não descanso, no degrau junto à porta por onde já não entro, no cume da montanha que já mal recordo, nesses lugares onde desesperei e que guardei para neles desesperar outras tantas vezes, e esperei pacientemente pela tristeza. Caíram uma e várias noites mas a tristeza nunca veio. O melhor que consegui foi uma ligeira sensação de contrariedade. 
Hoje, num verso de uma música, ouvi a explicação: “you can’t break a broken heart”. Não se pode partir um coração partido. Não podes partir um coração partido. E essa impossibilidade, parecendo que não, é uma vantagem competitiva. 

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Homens a evitar

Mas evitai os homens preocupados com a elegância e a beleza 
e que têm o cabelo bem penteado;
o que vos dizem a vós, disseram-no já a mil mulheres;
vai deambulando e não se fixa em sítio algum o seu amor.
Que há de fazer uma mulher, quando o homem é mais instável do que ela
e pode, até, possuir, quem sabe, mais homens? 
Custa-vos acreditar, mas acreditai: Tróia ter-se-ia aguentado,
se tivesse posto em prática os preceitos de Príamo.
Há os que avançam a coberto de uma espécie enganosa de amor 
e, por tais caminhos, são ganhos indecentes que buscam.
E não vos iluda a cabeleira a brilhar, resplandecente, de perfume de nardo,
nem a pinça elegante a apertar as pregas da roupa,
nem vos engane a toga de um tecido finíssimo, nem os anéis,
por mais e mais que tenha nos dedos.
Talvez o mais elegante de entre todos eles 
seja um ladrão e esteja a arder por amor do que trazes vestido.
“Devolve o que é meu!”, gritam, muitas vezes, depois de roubadas, 
as mulheres; (...)

Ovídio, A Arte de Amar, Livros Cotovia 
No século I ac,  assim como hoje. 

Daquela situação de ser a única blogger que não acorda com o som dos passarinhos felizes e bonitos



terça-feira, 12 de junho de 2018

Como o azeite na água benta

Fingi-me civilizada. Cobri-me de rendas e enfeitei as cicatrizes com pérolas roubadas. Usei tiaras das inocentes flores do campo. Sentei-me direita e de pernas juntas. Calei o medo, a raiva e a loucura. Pintei um inteiro portofólio em tons rosa, pêssego e lavanda. Sei os gestos. Consigo reproduzi-los ao som do mais falso sorriso beatífico. Fomos quase felizes. Mas depois a lua mudou. As rendas comicharam-me as veias. As pérolas arrefeceram-me os pés. O pólen entrou-me pelas narinas. Os músculos do pescoço paralisaram. E então, com o metal do veneno já espalhado na boca, obedeci ao chamamento do sangue e revelei-me a bárbara que sou. Creio que ainda tinha o meu falso sorriso colado à cara quando lhe enterrei a espada no peito.
Foi um alívio e uma felicidade. 

Processo de evaporação

Como no verso de Al Berto, “evapora-se o coração do amigo morto”.
Antes não compreendia por que razão não deixavam os vivos os mortos em paz.
Agora sei que não os largamos por ser a última forma de cuidado ao nosso acesso. Por temermos que se os largarmos caiam numa eternidade de olvido. Temos os mortos presos com molas da roupa, a secar nos estendais da memória e se os espanamos, e se não os deixamos cair, é por não os querermos por aí ao “Deus dará”, tristes panos enrolados numa esquina da rua. E quando se lhes evapora o coração assustamo-nos, porque sabemos, sabemos apesar de tudo, que é o nosso o único coração que ainda pode desidratar.

domingo, 10 de junho de 2018

La Traviata

Violeta é uma jovem feliz e desempoeirada que faz grandes festas em casa e tem um Barão que lhe paga as contas. Só quer ser livre e divertir-se. Um dia cai na cantiga de um poeta que lhe promete amor eterno. Então desenvolve um estranho sentido moral e começa a fazer coisas sem nexo como pagar as contas do poeta e acreditar que lhe é inferior. No instante em que acredita que um dia foi uma mulher perdida, perde-se. O poeta humilha-a publicamente e vai para o estrangeiro e Violeta deita-se numa cama para morrer. 
Antes, para que a ninguém falte a redenção, Alfredo regressa e Violeta perdoa-lhe.
Quando ambos gritam “nem homem, nem diabo, meu anjo, vão poder voltar a separar-nos” faltam exatamente quinze dolorosos minutos para Violeta morrer. Se se perderem na contagem, podem contar cinco segundos depois de Violeta dizer “desapareceram os espasmos da dor. Em mim renasce, agita-se um vigor insólito! Mas... eu regresso à vida!! Oh alegria!”.
Não sabemos se o poeta cumpre a promessa do amor eterno, aquele que suplanta a morte, mas posso garantir-vos que há um instante em que tememos que nos obriguem a ficar lá para ver.

Há quanto tempo é nenhum dos responsáveis pelo Teatro Nacional de São Carlos fica três horas e vinte minutos sentado naquelas cadeiras?

sábado, 9 de junho de 2018

A gentileza de não me amares

– Sabe por que razão estou hoje tão contente – perguntou –, tão contente por o ver? Por que gosto tanto de si hoje?
– Diga lá – pedi, e o meu coração batia descompassadamente.
– Gosto de si porque o senhor não se apaixonou por mim. Outro, no seu lugar, importunar-me-ia, insistiria, suspiraria, desfaleceria; o senhor, pelo contrário, é tão gentil...

Fedor Dostoiévski, in, Noites Brancas

A farsa do amado

É talvez abusivo, esse ato involuntário de trazermos as pessoas no coração, arrastando-as por aí, para onde quer que vamos, decidindo que estão junto de nós onde mais nos apetecem, fazendo-as presentes onde não decidiram ir, obrigando-as a partilhar connosco músicas que não ouvem e instantes que não sentem, forçando-as a personagens de uma história que afinal é apenas nossa. 
A tragédia do amante é a farsa do amado.
E bem sei que ninguém pensa nisto mas, na verdade, transportar pessoas no coração é uma terrível falta de ética. 

A lei do retorno


quinta-feira, 7 de junho de 2018

Traças

Há uma traça no ninho de borboletas. Um bater de asas desenfreado, nervoso. Os tecidos do estômago consumidos na avidez do verme. A picada inconfundível de uma pata que se estica e demora a encolher-se. O sintoma não me é estranho. Conhecemo-nos dos espelhos altos. Dos finais de tarde de chuva morrinha. Das notas agudas do piano. É o princípio do fim.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Um coração como o dele

UM CORAÇÃO COMO O MEU

Leio que Dostoiévski, quando se viu abandonado pela amante Apollinaria Souslova, lhe caiu aos pés e disse «Nunca mais encontrarás um coração como o meu.» Quase me cai aos pés o livro em que leio isto. Usei uma vez uma frase quase assim, nada sofistificada, lamechas, feita pânico e súplica. E fui atacado como nunca tinha sido. Toda a gente me chamou terrorista e mentiroso. Mas eu nunca disse nada tão pacífico na vida. E nunca disse nada tão verdadeiro. Disse e digo: «Nunca mais encontrarás um coração como o meu.» (e agora cito Dostoiévski).


Pedro Mexia, in, Estado Civil, Tinta da China 

Património é património

Tenho mais estima pelo erro do que pelo acerto. Ao segundo considero-o sempre filho do acaso e só o primeiro sou capaz de perfilhar. Além disso, conheço-o melhor. Temos uma relação íntima. Quando me perguntaram qual dos meus erros gostaria de ver emendado - e são tantos - descobri-me incapaz de me livrar de um único que fosse. Não é que tenha orgulho nos erros. É que são meus.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Da série o melhor conselho do ano

— “deixa as Louis Vuitton em casa. Vai à Natura e compra um daqueles vestidos. Mas, cuidado... não compres o urso.”

segunda-feira, 4 de junho de 2018

O erro de Rabindranath

Rabindranath diz “Em amor, Deus beija o finito, e o homem, o infinito”.
Mas é ao contrário. O Homem ama na medida da sua miserável finitude e os deuses só beijam aquilo que é infinito, pois só na eternidade residem. A cada um, o seu código genético.

Epitáfios possíveis (II)

Não sei por que se perde este coração no silêncio.
Mas creio que é por pequeninas coisas que não pede, nem entende, nem se lembra bem.


Rabindranath Tagore, A Asa e a Luz, Assírio & Alvim

sábado, 2 de junho de 2018

Epitáfios possíveis (I)

Falhou melhor pela última vez.

Ne bis in idem

Abri a carta dele no convés, sentada na minha cadeira de pensar, essa, que já foi mais vezes penhorada e recuperada do que a minha própria alma. 
A carta era uma acusação. Os factos e a culpa. Se ainda acreditasse em defesas, dir-lhe-ia que pelo mesmo crime já fui julgada, condenada e cumpro pena. Mas a única lei que conheço de cor é a espada. E a única defesa que pratico, o silêncio. 

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Vem na psicanálise

A fascinação do nada, da destruição — é o desejo de retomar a criação na sua origem. Só se pode recriar começando por destruir.

Eliade

Dia mundial da criança

Há de haver algum lugar,
um confuso casarão, 
onde os sonhos são reais
e a vida não.
(...) 
um lugar deve existir, 
uma espécie de bazar 
onde os sonhos extraviados vão parar. 

As escadas que fogem dos pés 
e relógios que rodam para trás.
Se eu pudesse encontrar meu amor 
não voltava jamais.

Chico Buarque, A Moça do Sonho 

Piratas, ogres, fadas, tritões, elfos, trolls, musas de vária ordem, ninfas, górgonas, génios, poetas, confraria de desgraçados que recusais as leis dos homens no fervor do garoto que cerra os dentes ao xarope para a garganta, vós que não fazeis cama na terra, que não sabeis ler as horas, que sois banhados pelo pó das estrelas, que tendes o futuro pelas costas e o presente nos dedos dos pés, vós que escondeis um sorriso secreto, desajustado, inconformado, alegrai-vos que hoje o dia pertence-nos (e o de amanhã também).

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Das leis

Todos deverão obedecer às ordens dadas de forma cortês; o capitão terá uma parte e meia de todas as presas; o patrão, o carpinteiro, o mestre de equipagem e o canhoneiro uma parte e um quatro.
Todos os que procurarem desertar ou esconder seja o que for à confraria serão abandonados em terra com uma medida de  pólvora, uma garrafa de água, uma arma pequena e munições.
Todos os que roubarem seja o que for à confraria ou que apostarem um valor superior a uma piastra serão abandonados em terra ou fuzilados.
Sempre que encontrarmos outro Pirata, quem consignar estes artigos sem o consentimento da nossa confraria sofrerá a punição que o capitão e a confraria julgarem conveniente.
A todos que agredirem outros enquanto os presentes artigos estiverem em vigor será aplicada a lei de Moisés (isto é, quarenta golpes menos um) nas costas nuas.
Todos os que inutilizarem as suas armas, ou fumarem tabaco no porão sem ter posto um resguardo no cachimbo ou que andarem com uma candeia alumiada fora de uma lanterna serão submetidos ao tratamento previsto no artigo anterior.
Todos os que não tiverem as suas armas prontas a servir, ou que não comparecerem no seu posto, serão privados da sua parte e sofrerão o castigo que o capitão e a confraria julguem convenientes.
Todos os que perderem uma articulação nos combates, receberão quatrocentas piastras. Se for um membro, oitocentas. 
Se em qualquer momento nos encontrarmos em presença de uma mulher honesta, todos os que quiserem apoderar-se dela serão imediatamente mortos.


As leis do navio pirata Revenge, segundo Gilles Lapouge, in, Os Piratas. 

41 ladrões

Diz-se pelas ruas de Medina, mas Alá tudo vê e é quem mais sabe, que a história de Ali Babá e os 40 ladrões nos foi mal contada. Diz-se que, quando Ali chegou à gruta e se escondeu nas sombras para aprender dos lábios dos ladrões a frase mágica, que quando depois de cada um dos ladrões sair e os ter contado repetiu as palavras, que quando a porta se abriu a na sua frente se estendeu uma ampla e vasta gruta, Ali não encontrou se não o vazio e o eco da sua desilusão. Não havia uma única moeda, pérola, pedra preciosa, bago de ouro ou lágrima de prata. Não havia nada. As grutas frequentadas por ladrões, tal como sucede com alguns corações, tendem a ser meras câmaras de ecos desiludidos. Esta versão da história satisfaz-me mais. Por um lado, os bons ladroes, já se sabe, não deixam nada à sua passagem. Por outro, o justo prémio para o ladrão que chega em quadragésimo primeiro lugar e aspira ao tesouro dos outros é ficar trancado numa gruta a ouvir perpetuamente os ecos da sua desilusão.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Tua cantiga


Se o teu vigia se alvoroçar 
E estrada fora te conduzir 
Basta soprar meu nome 
com teu perfume
Para me atrair