terça-feira, 22 de agosto de 2017

Colecionismo

As mudanças de casa são uma excelente ocasião para encontrar objetos inúteis que foram, um dia, suficientemente  valiosos para justificarem o incómodo de os desejar, guardar e até esconder. 
Entre o pasmo e a nostalgia - creio até ter descoberto a pasmalgia, um estado de espírito ainda não catalogado  - abri um envelope cujo deslembrado conteúdo é uma vasta coleção de fotografias dos pés de um único homem. Entre muitas outras, dois pés assentes no convés de um barco e uma bandeira em plano de fundo. Um pé num horizonte azul com nuvens brancas. Dois pés submersos na água do mar. Dois pés pousados no mapa de um cartaz a anunciar um rally. Dois pés semienterrados na areia escura. Um pé pousado no braço de um sofá de riscas. Dois pés a tornearem o volante de um carro. Dois pés assentes numa mesa de mistura de som. Um pé junto do que me parece ser a janela de um avião. Outro pé ao lado de um copo de bushmills.  Os mesmos pés novamente submersos na água do mar...
Depois de inspeccionar as fotografias como se as visse pela primeira vez e de fechar o envelope, hesitei no destino a dar a tão bizarra coleção, angariada ao longo de vários meses. 
Os pés retratados há muito que sustiveram os passos da distância e os dias lavraram os vastos quilómetros de um esquecimento semeado.
Teria sido demasiado pragmático atirar o envelope para o lixo; dramático, dirigi-lo à morada do modelo; romântico, guardar as fotografias num álbum apropriado. Optei por devolvê-lo ao caos, enfiando-o ao acaso numa de várias caixas cheias de fotografias. 
É quase, espero, tão improvável reencontrar a minha bizarra coleção de pés, como voltar a amar o suficiente para, sequer, compreender a sua existência. 

sábado, 19 de agosto de 2017

Verão

As gotas de água do verão escorrem apressadas pela garganta da clepsidra. É por ela que meço os dias, contando o tempo do fim para o princípio. As cores começaram a esbater-se a partir do meio do mês de agosto. As manchas de suor e sal nos sofás brancos do lounge contam estórias dos que já partiram. Pelo chão das ruas, à noite, há riachos de gelado derretido e sangria derramada que formam pequenas lagoas nos cantos. Deixam nódoas que durarão até às primeiras chuvas de novembro. Já não há, por esta altura, um único corpo virgem de sol. E até o mar parece exausto, fingindo  expulsar, desesperançadamente, aqueles que lhe colonizam os bancos de areia. 
Este não é um verão igual aos outros na minha estância balnear. 
É aquele verão que não verei morrer. 

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Pinto as unhas dos pés de azul

Pinto as unhas dos pés de azul e penduro-me no trapézio. O sol tirou-me as estrelas mas sei que, se souber esperar, ser-me-ão devolvidas, inteiras, depois do anoitecer. As estrelas são corpos mortos. Tudo o que no mundo é amável já se extinguiu. Tudo o que é detestável também. 
Há o pó. Uma espécie de pó. Uma nuvem de pó.
Dormito de cabeça para baixo, pendurada no trapézio. Sonho um pesadelo com uma criança rechonchuda, a quem querem cortar os braços para a salvar da extinção. É um sonho de inspiração Rafaelita. A criança é, na verdade, um anjo que vi pintado num fresco a precisar de restauração. Creio que salvo os braços da criança antes de decidir, dormindo, que é apenas um pesadelo. Acorda-se, todos o sabemos, quando se identifica a origem do mal. No amor também. A racionalização extingue tudo. Até as estrelas. 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Anedota muçulmana

Vi um homem prestes a saltar de uma ponte.
– Não salte! – disse eu.
– Ninguém me ama – disse ele.
– Deus ama-o. Acredita em Deus? – perguntei.
– Sim – disse ele.
– É muçulmano ou não muçulmano? – perguntei.
– Muçulmano – disse ele.
– Eu também! – disse eu. – Deobando ou barelvi?
– Barelvi – disse ele.
– Eu também! Tanzeehi azmati ou tanzeehi farhati? – perguntei.
– Tanzeehi farhati – disse ele.
– Eu também! Tanzeehi farhati jamia ul uloom ajmer, ou tanzeehi farhati ul noor mewat? – perguntei. 
– tanzeehi farhati ul noor mewat – disse ele.
– Morre, Kafir! – disse eu, e empurrei-o.

Arundhati Roy, in, O Ministério da Felicidade Suprema.

Eterna fraude

São eternas as mãos do anjo de lata que ao amanhecer nos aponta o rio, ou o céu, consoante a direção que escolhe Eolo. É eterna a inconstância dos deuses e a sua avidez da mortalidade que pertence aos homens. E eterna é ainda esta velha memória das coisas dentro das células: um jardim, um tigre, uma pena, um búzio, certo olhar, uma onda que sempre embala a mesma rocha.

sábado, 5 de agosto de 2017

L-I-S-B-O-A

Deu-me, de presente de boas-vindas, a melhor prata que esconde no rio; três nuvens com o formato das copas das árvores; ruas razoavelmente vazias à hora da sesta. A casa cheirava àquilo que cheiram as nossas casas quando regressamos para as habitarmos: essência de culpa e esperança. Abri as portas devagar. Estive ausente tantos anos que é possível que os fantasmas se tenham cansado de me esperar. 
À noite, bem sei, Lisboa não me embalará o sono. Nunca dormi decentemente nesta cidade. 
Digo-lhe ao ouvido que, desta vez, não a abandonarei. Lisboa volta ao rosto para que não lhe leia o desdém. Mede-me a temperatura dos pés e sabe, como o sabem as mulheres muito velhas e os anjos, que nunca regresso para ficar. 

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Em quantos caixotes cabe a vida?

E uma vez mais, a minha vida útil dentro de caixas de cartão; a inútil em sacos pretos do lixo. E a sensação de que o que fica é o pouco que importaria conservar.

sábado, 22 de julho de 2017

Tangos

Quiseram os deuses, numa noite sem lua, essa frágil sombra projetada nas ruínas daquilo que foi um palácio. Moveu-se ao ritmo do tango, deslizou pelos restos das paredes e desfez-se na aurora.
Quiseram os homens a morte dos amantes. 

terça-feira, 18 de julho de 2017

Resultados

Maioria A

Seu psicopata! Não há limites para o seu egoísmo. Era capaz de matar a avó por duas bolachas de manteiga; a sua imagem preferida é a que o espelho lhe devolve e o destino de férias que merece é uma ilha deserta. Em suma: um pirata!
Leitura recomendada: o código penal.

Maioria B

Saiba que as pessoas ponderadas e que se pautam sempre por critérios de bom senso são irritantes e incomodam as outras. Aprenda a ser humano. Desenvolva ódios de estimação e parta a baixela da sua avó para saber como soam os pratos de encontro ao soalho. Merece umas férias numa colónia de geriátricos alemães.
Leitura recomendada: O Psicopata Americano.

Maioria C

Se está a ler isto, é improvável que os seus resultados tenham sido maioria C. 
Estas pessoas só fingem existir neste mundo porque, na verdade, vivem noutro lado qualquer. É inútil analisá-los já que jamais alguém os compreenderá. 
Merece umas férias sozinho num hotel com uma cama decente onde, finalmente, consiga dormir.
Leitura recomendada:Heródoto, as Viagens de Marco Polo ou outra bizarria qualquer.

Maioria D

De acordo com um estudo norueguês só dez por cento das pessoas com resultados maioria D responderam com sinceridade às perguntas. Se está incluído nesses, saiba que deve preocupar-se. As boas pessoas morrem antes das más. A sua família e os seus amigos aproveitam-se de si e ainda o convencem que lhe estão a fazer um favor. Merece umas férias para um campo de refugiados.
Leitura recomendada: Lassie Come Home.

Pessoas que responderam com alternativas E

Está na altura de se conformar com as hipóteses apresentadas na ementa e parar de aborrecer os chefes de cozinha com dramas do tipo "quero a salada de gambas mas sem a salada e com molho de gaspacho". O inconformismo é sobrevalorizado e prejudica a hegemonia social. Aproveite as férias para fazer uma daquelas viagens-circuitos organizador das sete da manhã à meia noite que é para se ir habituando a não ter ideias.
Leitura recomendada: manuais de instrução.


Inquérito de verão

1. O cão do vizinho incomoda-te todas as noites, ladrando pela madrugada.
A) desenvolves um plano para assassinar o bicho;
B) vais falar com os donos e ponderas queixar-te à polícia;
C) tomas comprimidos para dormir;
D) aproveitas a oportunidade para leres Proust durante a noite.

2. Pedro Chagas Freitas escreve um novo livro.
A) investigas as livrarias que colocaram o livro nos escaparates e recusas-te a aproximar das mesmas;
B) escreves um email de protesto aos editores e aos livreiros;
C) quem é o Pedro Chagas Freitas?
D) vais a correr comprar o livro.

3. Estás na praia em vias de morrer por inanição. Só vendem bolas de Berlim a €1,20 e dispões de apenas €1.
A) furtas a carteira do banhista mais próximo; 
B) tentas negociar o preço com o vendedor, apelando à tua conjuntura fome versus falta de dinheiro;
C) comes um snack de algas;
D) testas aquela teoria de acordo com a qual é possível alimentar-nos do sol.

4. Como lês os romances.
A) fechados e deitado com a cabeça sobre eles; 
B) do princípio para o fim; 
C) os últimos capítulos antes do princípio;
D) abrindo ao acaso e começando sempre numa página qualquer.

5. As tuas férias de sonho.
A) à aventura num desses sítios cheios de mosquitos e tifo como o Cambodja;
B) um mix quatro dias numa cidade com extensão de cinco a praia exótica; 
C) qualquer sítio onde possas dormir em paz e desligar o cérebro;
D) quando se trabalha naquilo de que se gosta está-se sempre de férias.

6. Estás fechado numa casa com quatro canais nacionais.
A) partes os vidros e saltas do terceiro andar;
B) vês as notícias e fazes zapping na esperança de encontrares um filme que ainda não tenhas visto;
C) vês os desenhos animados e aproveitas para dormir a sesta;
D) encontras uma boa oportunidade para assistires, sem culpa, a telenovelas.

7. Os teus primos afastados telefonam-te a avisar que vêm passar contigo as suas férias.
A) mudas de cidade nesse mesmo dia;
B) a ideia não te agrada por aí além mas é sempre possível convencê-los a fazer atividades que não te incluam e que te permitam descansar deles;
C) ficas de cama com uma gripe histérica e aproveitas a canja de galinha que te farão;
D) metes férias, compras um novo grelhador e t-shirts iguais para todos.

8. As razões pelas quais respondes a inquéritos imbecis.
A) queres ganhar um prémio. Tem de haver um prémio, certo?
B) não estás a fazer nada de jeito e é uma atividade mais interessante do que ler o blogue do Pipoco Mais Salgado; 
C) qualquer coisa que te afaste dos teus pensamentos é coisa boa.
D) tens pena da pessoa que fez o inquérito e achas que se importa. 

9. Uma personagem que te inspire
A) as personagens infra não inspirariam nem uma lesma;
B) zeus;
C) o gato que ri da Alice no País das Maravilhas;
D) o Dalai Lama.

10. O livro que nunca lerás
A) o livro de S. Cipriano porque suspeitas que não teria nada para te ensinar;
B) qualquer um do Gustavo Santos ou do Chagas Freitas ou daquele brasileiro que agora não recordo o nome mas que todos os meses edita um livro;
C) um livro de culinária porque, no mínimo, provocam queimaduras;
D) não existe livro que não lesses assim estivessem reunidas certas circunstâncias que aqui não temos paciência para enumerar.

(Inquérito inspirado neste aqui do Pipoco Mais Salgado, mas em melhor, é claro)





domingo, 16 de julho de 2017

Fim de ano

Por aqui contamos os dias pelas férias grandes. 
O meu ano chegou ao fim. O balanço, que a cobardia me promete ser inútil, ficará por fazer. Os maus dias não enchem duas mãos e o mar já há muito os levou. Os bons são todos os outros. Na contabilidade dos dias, aqueles em que nada foi são igualmente dias ganhos.
O exílio físico terminou por decreto. Um final de tarde, quando estava na casa de banho, fui informada que Lisboa me aceitou de volta. Assim. Sem o abraço da poesia ou a proteção de um céu azul.
O outro exílio, o da alma, estará muito além de um carimbo no passaporte nas mãos dos burocratas.
Não faço juras de fidelidade a essa puta que é Lisboa. Pago-lhe, como sempre paguei, com a moeda que tenho na mão. 
O coração, ou o que dele resta, deixo-o penhorado ao sul. 
E desta vez não me despeço. Não saberia fazê-lo. 

sábado, 15 de julho de 2017

Vão lá ler, vá

Numa simplificação caricatural, dir-se-á que a nova aproximação ao mundo tem uma fixação afectiva em tudo quanto provenha da Apple e tenta libertar-se do mobiliário IKEA que comprou em jovem. Simpatiza naturalmente bom Barack Obama e vê em Steve Jobs um ícone inspirador ou, melhor dizendo, um modelo de sucesso cool que lhe serve de lenitivo para as frustrações e os desaires do quotidiano. Há muitos anos, excitou-se com o Filofax, mas tudo indicia que estabilizou em definitivo no Moleskine. Desconfia se será aceitável eleger Murakami como um «grande escritor» e, às escondidas, chega a ler Nicholas Sparks, por causa dos «sentimentos». Em matéria de transportes, justifica o recurso à Uber com o argumento da falta de educação e de higiene da comunidade taxista. O uso de relógios Swatch desvaneceu-se há muito, por mais que a marca se tente reinventar. Sobressai uma demanda vertiginosa e sôfrega, quase demencial, de novidades. Sempre que algo se torna demasiado vulgar, sofre uma depreciação abrupta, sendo descartado como banal, popular em excesso.

António Araújo, Da Direita à Esquerda, editado por Saída de Emergência 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

A longa noite

Na tão longa noite, além dos gritos das gaivotas, do desconforto do calor, das melgas, de um resto de luz dos faróis de algum carro que passou, veio também o perdão. Às cinco da manhã, último instante da madrugada em que são possíveis ações memoráveis, consegui perdoar-lhe. Creio que se perdoa à velocidade com que se ama e, como diz a canção, quando eu amo é sempre devagar. No dobrar das mil e uma noites, surgiu aquela, maior do que todas as outras, em que veio, finalmente, o perdão.
A manhã ofereceu-me um mundo de aparência igual ao da véspera mas, em tudo, diferente. Como se também a matéria de que são feitas as coisas pudesse depender do peso do coração. 
Saberei um dia aquilo que todos os animais pressentem: que o perdão é a face dourada da moeda do desprezo. 

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Diário de Bordo

A esta intrépida tripulação Pirata, durante dez meses por cada ano, não falha a coragem para o sabre ou a ambição para o saque. Lava os dentes com rum, usa com bravo orgulho o tapa-olhos, cultiva um sem fim de pequenas bizarrias desrazoáveis e mantém o coração colonizado pela arte da boa velha pirataria. 
Porém, logo que vê o mês de julho aparecer na folha do calendário, nasce-lhe das entranhas a pavloviana compulsão para se enfiar numa marina portuguesa, daquelas com lojas onde se vendem galos de Barcelos dourados, Nossas Senhoras de Fátima que adivinhem o tempo, porta-chaves com golfinhos e doces de amêndoa fossilizados.
Já levo desta vida de capitã anos suficientes para saber que há tormentas às quais é inútil apontar a proa.
Percebi que era altura de mudar a rota quando a idiotia me entrou pela escotilha mascarada de encomendas on line: colchões insufláveis em forma de lagosta, patinhos amarelos que boiam, cestas com folhos ridículos, barbatanas rosa-pastilha-elástica, pareos de toda a sorte de floreado e caixas de sardinhas e entremeada gordurosa.
Temendo que a própria da Quarteira fosse comprada na internet e entregue no meu navio, anunciei que aportaremos durante os próximos dois meses na marina mais próxima da dita.
Estamos neste exato momento a poucas milhas da costa, à espera que a lua se apague para que possamos fazer uma discreta entrada.
Estes dez-meses-por-ano-intrépidos-Piratas, aproveitam os dias de espera para encherem os insufláveis, montarem as fiadas de flores que tencionam usar ao pescoço  e desenharem escorpiões e osgas de hena em todas as partes do corpo.
Eu...bem... leio o Livro da Selva, de Kipling, lamento-me por em vez de ter ido para pirata não ter antes seguido a carreira de exploradora de tribos selvagens e sonho com as doces cores do outono.

domingo, 9 de julho de 2017

No céu de julho

Mas depois anoiteceu e foi o teu nome que apareceu inscrito no céu. Sob as esquinas dos sem abrigo, nas varandas das famílias, nos telhados dos gatos e até nas montanhas desertas. O teu nome desenhado a luz. Graffitti inapagável. Segredo gritado. Mancha insultuosa. 
O teu nome inscrito no céu de julho. 

SG

Subiu toda a avenida, caminhando pelo passeio, sem fazer uso das asas uma única vez. 
Talvez tivesse uma asa ferida, talvez preferisse caminhar, talvez também as gaivotas se esqueçam, por vezes, que as asas existem para voar. 

sábado, 8 de julho de 2017

Inavegável

Pedi um céu apocalítico.
Mas a alta lua 
iluminou,
sem incendiar,
um frágil braço de mar.







quinta-feira, 6 de julho de 2017

Comunicações Intergaláticas

Sobreviver-te é isto:
 A Billie Holiday a espalhar o seu jazz pela sala. O sol a sumir-se devagarinho nas ondas do mar. Uma lua insonsa a erguer-se. Os pratos por lavar na cozinha. O copo meio cheio em cima da mesa. Um locutor a debitar presumíveis desgraças sem som. O cão que comprei para enganar a tua ausência a ladrar na varanda. Livros esquecidos nos sítios onde se esquecem livros. Essa espécie de sobrevida. 
Cinco anos ensinam-nos a morte. Já não me espanto todas as manhãs com a mesma notícia. Não te procuro entre as multidões. Não espero que o telefone toque por ti. Não anseio aparições em sonhos. Não me atormento com a culpa. Não imagino os restos orgânicos daquilo que foste. 
Só a realidade, aquela que só o era depois de te a contar, só a realidade, essa, é que nunca mais regressou.
Sobreviver-te é isto:
Uma interminável sequência de factos banais que não se sucedem realmente porque a tua morte os tornou inconcretizáveis.  

terça-feira, 4 de julho de 2017

Insone

A insónia encontrou a minha cama voltada a sul e ocupou inteiro o espaço do colchão. É uma sombra cinzenta que nasce no chão e vai subindo pelas paredes até submergir o quarto. Não sei durante quantas noites se manterá, assim, colada à pele. É uma febre de ruídos noturno: gritos de zanga, uivos de cães, desespero de gaivotas, rodas de carros, passos alienados. Dói-me o lençol sob a clavícula, sinto crescer as unhas dos pés, ensurdece-me o rumor dos meus cabelos.
Debaixo da mancha cinzenta oprimem-me as pilhas de livros na cabeceira, os cabides no armário fechado, um bilhete dentro do bolso das calças, uma fotografia guardada no telefone e vários emails perdidos no espaço virtual.
À insónia pertence esta culpa sem rosto. A indefinível sensação do crime que julgamos ter cometido mas que não conseguimos recordar. A aceitação do castigo que é a consciência da profunda noite. 
E depois, pousar a cabeça na almofada como quem a oferece ao machado do algoz. 
Essa quase morte. 

sábado, 1 de julho de 2017

Regressos

Um dia perguntaram-me de que fugia.
Agora, nas vésperas do regresso de um longo exílio, sei finalmente a resposta:
Do que sobrou daquilo que perdi. 


sábado, 24 de junho de 2017

35°,5

A metade de mim que tem o outono instalado por debaixo das costelas, rejubilou com os vinte pingos de  chuva que esta tarde conseguiu amparar com o rosto.
A outra metade, trouxe a areia da praia para o chão da sala e, nele, deitou-se de costas à espera de qualquer coisa.

domingo, 18 de junho de 2017

Fotografia de uma manhã II

Para todos os outros é apenas a fotografia de um pátio, captada de um plano inferior. Para lá da mancha de sombra, vê-se um caminho de terra vermelha e depois dele os canteiros das flores e a seguir as árvores de fruto e, muito ao fundo, a baixa cerca branca por trás da qual se estende o mar infinito.
Há, ainda, no canto superior direito, um rasgo do céu azul da manhã. 
Para um único homem, porém, será  a forma que o abandono lhe deixou tatuada na íris; o registo exato da sua perspetiva do mundo na manhã em que uma espera se tornou vã.
Para mim, é o que não se pode ver: 
O degrau de pedra antiga, por trás da imagem. E sobre ele, pousada, uma mão aberta, a suster o frágil equilíbrio do corpo. 
E, nesse gesto, também do mundo. 


Fotografia de uma manhã I

Qualquer destino, por mais longo e complicado que seja, na realidade consta de um só momento: o momento em que o homem fica a saber para sempre quem é.

Jorge Luis Borges, in Biografia de Tadeo Isidoro Cruz, O Aleph.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Dois loucos

Quando a guerra chegou e as gentes partiram com a triste roupa no corpo, quando os pianos e os lustres e os espelhos foram abandonados ao pó e ao saque, quando os invasores encheram as ruas e acenderam fogueiras no soalho das salas, quando as colunas de fumo afugentaram as últimas aves, quando as bombas destruíram todos os muros e o sol foi oculto por milhões de partículas de caos, sobraram, ainda, uns metros do jardim de laranjeiras no cimo do monte. 
E nós permanecemos deitados, na imobilidade eterna de uma cama de balouço de seda branca, sob a sombra das duas ou três árvores sobejantes, distraídos do ruído dos homens pelas notas do jazz, concentrados na métrica do poema do fim de tarde, alheados da destruição pela beleza das asas de uma borboleta, protegidos do horror pela incapacidade de o representarmos. 
E enquanto a guerra nos lambia os pés, espantava-nos o assombro dessa aurora lilás que sonhávamos ter nascido apenas para nós. 
Foi assim que nos tornámos imortais. 

domingo, 11 de junho de 2017

Mercados

Deu-me meia dúzia de estórias, a música e uma constelação que não se pode ver daqui. 
Com a infâmia, paguei-lhe até ao último cêntimo.
A música que ainda me dá, recebo-a a crédito.
A infâmia não é moeda de troca. É penhor eterno. 


sexta-feira, 9 de junho de 2017

A invenção do amor

Quando o nevoeiro se adensou e o interior da montanha ficou submerso e as nossas mãos deixaram de encontrar as respetivas bocas, 
para nos salvar da banalidade
inventei o amor. 

Na palma da tua mão aberta pousei o engenho de asas sobredimensionadas.
 
Mas vi a sua sombra cruzar a lua 
e não sei se a vertigem  
foi perda 
ou 
foi orgulho.
O amor, dizes-me, não nos salvou.

Pequenas são sempre as mãos para as asas, 
penso, 
quando o amor é ave 
que se inventa 
a lápis azul.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Outras coisas

Os três volumes de Sophia, recusados com desdém pelo meu poeta morto.
O anel de flores-do-lis incrustadas que, talvez sem ilusão, vai atravessando três gerações.
Os sapatos prateados que, numa tarde de chuva, um homem calçou nos meus pés nus.
A algema que durante dez anos trouxe o pulso direito preso ao coração.
O quadro onde pintei a felicidade e que é hoje mera prova de cronologia factual.
Uma boneca de sabão esquecida na estante dessa casa na planície cuja rua tinha um nome que já esqueci. 
O bilhete de um concerto a que fui sem assistir e aquele outro bilhete de uma viagem a que assisti sem ir. 
São os objetos que me sobreviverão. 

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Decoração de interiores

Respondi-lhe, mentindo, que faz parte dos meus pensamentos. 
Os pensamentos são feitos da matéria do amanhã: infinidade existencial que se renova diariamente e se autojustifica.
Aquilo de que faz parte é das minhas memórias: Presunçoso cemitério de insignificâncias, decorado por anjos graníticos com lodo entre os dedos dos pés. 

Sinerman


Sinerwoman

O anjo negro que me vela a espertina, tenho a certeza, folheia os livros na minha ausência. Pretendo recorrer à insídia que há na literatura para educar esse fantasma. É para que os leia que finjo esquecer na mesa de prata folhada As Mil e Uma Noites, a Ilíada e a Osisseia, um livro de poemas de Borges, outro de Herberto, todos os contos de Nabokov e o Novo Testamento do Lourenço. São as bases da civilização e, tanto quanto me parece, são suficientes para que um anjo, ainda que negro, apreenda as noções básicas de humanidade. Uma vez educado, conto que o anjo que me calhou em má sorte encontre o caminho de regresso à luz, esqueça por inteiro a sua função de me proteger e, finalmente, abrace uma profissão capaz de exercer.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Porteiros do Neverland

Não os amei por razão menos interesseira do que o acesso às chaves do Neverland. 
É um mundo de céus azuis, pássaros coloridos, borboletas sem lagarta, cascatas de água morna que terminam em arco-íris que terminam em potes de ouro guardados por duendes de chapéu verde com uma pena no topo. Um mundo sem estações através do qual se caminha voando e onde a noite nos é leve porque chega e parte enquanto dormimos nas ervas altas da planície. Não existem o ontem e o amanhã. Ninguém nasce e ninguém morre. Falamos todos uma língua única. Desconhecem-se a dor, a fome, o frio, a falta. Não possuímos coisas. Quando nos aborrecemos, mudamos para a outra margem do rio; fazemos de uma árvore a nossa casa ou escavamos um castelo na areia. É-nos indiferente outra música, outra poesia, outra beleza que não aquela que carregamos dentro de nós ou conseguimos aprender nas flores.
Os homens que amei eram porteiros e zeladores do Neverland. Amei-os pelas suas funções e ninguém em sã consciência pode censurar-me por isso.

Selinho Blog em Bom


Discurso de vitória:
Minhas senhoras, meus senhores, indecisos, indefinidos, indiferentes, habitantes do Lago Tanganita, visitantes, observadores sociais e pessoas que vieram ao engano:
Em meu nome e em nome desta intrépida tripulação pirata, agradeço este prémio maravilhoso à Palmier Encoberto, a quem desde já congratulo publicamente pelo seu irrepreensível gosto em matéria de blogues. A ela e ao Pipoco Mais Salgado devo os meus dez leitores. Há mais um, que é a minha irmã, mas até ela só me descobriu através do PMS e só por aqui passa uma vez por mês. 
Poderia dedicar este selinho à memória de Borges, a quem roubei 70% do conteúdo dos posts, ou a alguns bloggers a quem roubei os restantes 30%. Mas dado que isso implicaria um exercício de modéstia que, Ala é grande, nunca experimentei, decidi dedicá-lo à Cláudia Filipa em representação de todas as pessoas que, não sendo suficientemente egomaníacas para alimentarem um blogue, têm a misteriosa paciência de os lerem, assim viabilizando a sua existência. 
Ah... e também agradeço à imprensa estrangeira. 

P.S. Tenho de colar isto na lateral direita? 






terça-feira, 30 de maio de 2017

Dos afetos

Os afetos são a motriz invisível, inodora, inaudível, que os pragmáticos gostam de ignorar. Até vinte e quatro horas antes do fim do prazo de escolha. A partir da vigésima  terceira hora somos todos sentimentais. 

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Ciclo de vida dos jaracandás

Enquanto dormias, as flores dos jaracandás amanheciam mortas e as ruas, ainda ontem tapetes liláses, iam-se cobrindo de um ouro decrépito, resinoso,  agarrado à sola dos pés. 
Colou-se-me a putrefação dos jaracandás e a imagem da boneca, meia despida, abandonada por entre as ervas. Os olhos grandes, azuis, acusadores, erguidos para o primeiro céu da manhã.
Enquanto dormias, desintegrava-se, alheia à tua inocência, a beleza das coisas.