domingo, 25 de setembro de 2016

Essa outra Pirata

A mim não me puxa a compaixão, estou do lado deles, homens ruins de gengivas rotas, sou eu a mulher que têm durante as travessias, mulher incompleta e de pau, a quem entregam todos os terrores,
todos os clamores,
a quem acendem velas e renovam promessas. Sou eu que sei dos seus últimos cuidados, quando perdem um pé neste mundo e entram com o segundo no outro. Homens rudes, que arregaçam as mangas e mostram as cicatrizes, as tatuagens, corpos martirizados, tornam-se outra vez tenros, iniciais, limpos e pequeninos e chamam pela mãe. Ninguém, só eu, os consegue ouvir na transição. 

Ana Margarida de Carvalho, in, Não se pode morar nos olhos de um gato, Teorema

Lago Tanganica - o verdadeiro comunicado

A intrépida tripulação que compõe este navio, zarpou ontem dos mares profundos onde se encontrava, rumando aos bancos de areia do Lago Tanganica, numa inédita operação de resgate dos três habitantes que desapareceram após o anúncio de uma cimeira secreta com vista à resolução do problema criado por aquilo do concurso do melhor blog do ano e, mais especificamente, pelo facto de nenhum dos habitantes do Lago ter sido nomeado.
Chegados ao Lago, embarcámos nos nossos botes insufláveis, aqueles que sobraram dos saldos de verão da loja dos chineses, e seguimos o rasto dos desaparecidos. Pese embora a natural tendência para transformar qualquer ninharia em epopéia, devo aqui admitir que a empresa não foi difícil. Bastou-nos seguir o fumo dos cohibas. 
Fomos dar com os cimeirados, num dos bancos de areia, atrás de uns arbustos, rodeados pelos restos de um festim de Barca Velha, paté de flamingo, estranhos casacos de griffe e dossiers secretos do conselho de ministros. Estavam os três semi inconscientes e num estado absolutamente deplorável, mesmo para os liberais critérios de uma tripulação pirata praticante do relativismo ético.
Recolhidos os organizadores da cimeira, os nossos propósitos humanitários de libertação e salvamento, como, aliás, já é timbre desta tripulação, foram objeto de um ligeiríssimo desvio. 
Vamos manter a Palmier, o Pipoco Mais Salgado e o Senhor Ministro entre nós até que nos rendam a fortuna ou, pelo menos, a glória de uma vitória no dito concurso, para o qual nos autonomeámos, corrigindo assim uma grave injustiça do sistema capitalista que a todos oprime e nem a pirataria deixa incólume.
Ou, pelo menos, até que acordem. 
Tenham medo. 


sábado, 24 de setembro de 2016

Miragem



"O conceito corrige os olhos."

Ortega y Gasset, in A Rebelião das Massas

Tangos


Cuidados continuados

Nós, os de doença de alma crónica, sabemos como é aborrecida a permanente vigilância, o cuidado na recolha da temperatura, o critério na escolha do agasalho certo, a medição programada do tamanho da sombra, a análise química dos poluentes em redor. Às vezes, as pessoas saudáveis dizem-nos que devemos tirar a máscara, molhar os pés nas poças de lama, apanhar a chuva da manhã, correr pelas florestas, fazer amizade com os micróbios. 
Às vezes parece-nos tão verdade que rasgamos as paredes da redoma. 
Mas cedo regressamos ao castigo do quarto asséptico, incapazes de respirar; com os músculos demasiado doridos para nos susterem o esqueleto e os sonhos poluídos pelos germes que trouxemos debaixo das unhas. 

Sombras Chinesas



Levei a Anatomia da Melancolia, de Burton, mas confiscaram-mo juntamente com todas as outras iCoisas. 
Abandonaram-me, durante mais de meia hora, deitada numa cama, num espaço exíguo e quente. Ocupei o improgramado tempo de não existência a projetar sombras chinesas na parede. Quando finalmente se lembraram de mim e me perguntaram se estava pronta, respondi que não, que faltava libertar a princesa. 
Olharam para mim como se estivesse louca.
As pessoas tendem a menosprezar a necessidade de encerrar todas e cada uma das estórias. 

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Dentro da caverna de Platão

Passámos tanto tempo com as sombras como horizonte que esquecemos que a vida concretiza-se no relevo e no peso. Saberia reconhecer o anti-reflexo do ser em três dimensões distintas. Mas foi o simples toque de uma mão que me encheu de espanto. Um espanto animal. De carne. De coisa viva. E a imensidão das sombras, por um instante, diluiu-se nas veias. 

domingo, 18 de setembro de 2016

À mercê da lua

À grande lua pesaram-lhe todas as histórias de amor do universo. Soltou-se do céu. Encontrei-a caída logo a seguir à primeira curva da auto-estrada. Enorme, de um ouro antigo e muito cansada. 
Lembrei-me do poema que diz que a lua é o teu espelho. 

terça-feira, 13 de setembro de 2016

As lições de vida do facebook

Não basta anular as imagens. 
Se não apagares o facto que documentam, este permanecerá na memória do sistema. Então, será uma memória tão indistintamente partilhável como qualquer outra. E o sistema perguntar-te-á, num qualquer dia de menor atividade, se queres partilhar com mundo a memória do facto, agora devidamente acompanhada pelo quadrado em branco que é o correspetivo da imagem representativa que substitui a que apagaste.
A única coisa que, afinal, conseguiste destruir. 
Nessa altura, poderás ver um bonito coração vermelho; um verso do teu poeta preferido ou, pior ainda, uma frase que não seja falsa, fazer-se acompanhar pelo mais absurdo vazio. 
Se tiveres sorte, essa memória amputada de objeto parecer-te-á uma composição preferível à original. 

Atrofia


Boletim meteorológico

Amanheceu o cheiro da chuva hoje, pela primeira vez em demasiado tempo. 
A pele já havia esquecido como são frias as gotas da chuva quando nos caem entre o pescoço e as omoplatas e deslizam livres pelas costas. É a chuva boa.
A alma, percebi-o, não esqueceu o dia em que a chuva veio e na sua violência afogou as rosas, levou os caminhos, impôs o silêncio ao mar. É a chuva má. 

*E a alma dirigiu-se para o corpo que a feriu de amor*

Methinks I have a mistress yet to come,
And still I seek, I love, I know not whom.

Isto é verdade, sem dúvida, em relação ao amor casto e não natural, mas não em relação à paixão heróica, que é verdadeiramente luxúria ardente e animal, e da qual estamos a tratar. Falamos de olhos delirantes, lascivos, adúlteros, que, segundo diz o autor, "estão sempre à espreita como soldados e, quando notam que um inocente espectador se fixou neles, trespassaram-no com as suas flechas e, nesse preciso instante, enfeitiçam-no. Isto acontece, sobretudo, quando fixam os olhares entre si, como amantes impúdicos que, com essa comprazida disputa de olhos, participam mutuamente das suas almas". Do que foi dito podereis aperceber-vos de como é fácil, e rápido, apaixonar-nos, pois basta uma piscadela de olho para que os espíritos de Fedro contaminem, de maneira tão perniciosa, o sangue de Liceas. "Isto também não é espanto nenhum se consideramos pormenorizadamente quantas doenças se apanham, furtiva e inesperamente, por infeção: peste, icterícia, sarna, cólicas, etc." Desde que os espíritos tenham penetrado, quem os recebeu nunca mais terá descanso, ficando sujeito à irritação causada por eles. Idque petit corpus mens unde est saucia amore*". E podemos aperceber-nos de uma estranha extração dos espíritos, como quando o nariz do morto sangra se o seu assassino estiver presente.

Robert Burton (1577-1640), in Anatomia da Melancolia, Quetzal 

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Espelhos

Encontraram-se na varanda. Ambas empenhadas na observação desse pedaço que falta à lua e que, na incompletude, a faz parecer quase humana. Pendurada, uma, pelos pés descalços no telhado, sentada, a outra, numa cadeira de balouço. Olharam-se demoradamente no silêncio confortável que é exclusivo dos velhos casais e dos eternos inimigos. A que se pendurava na noite foi a primeira a quebrar a harmonia:
- é cedo para ti. Esta lua ainda não é tua. 
A que se balouçava no escuro respondeu-lhe sem a olhar:
- é tarde para ti. Esta lua já não é tua. 
Então, por um momento, coexistiram pacificamente no mesmo espaço, a primeira na saudade da lua que foi, a segunda na expectativa da lua que será. 
E a lua brilhou, na noite, indiferente à cegueira de qualquer uma das duas.

domingo, 11 de setembro de 2016

Uma espécie de felicidade

Não sei dizer o que veio primeiro: Se as áridas noites que agora durmo abandonadas pelos sonhos que não me dou ao incómodo de sonhar; se a sucessão de dias que agora vivo despovoados de objetivos longínquos que não me dou ao incómodo de traçar. Sei que há uma espécie de felicidade nesta coerência de imbecilidades. Como se, por fim, tivesse chegado o momento em que já não preciso de mentir a mim própria. 
Por vezes, acordo durante a noite e observo o meu cão enquanto sonha. 
É uma criatura mais complexa do que eu. 

sábado, 10 de setembro de 2016

Cinzas

Choveram cinzas durante três dias. 
E agora que a estranha chuva finalmente parou, ainda nos vamos descobrindo, distraídos, a olhar para o céu ou para as costas da mão, à procura do pó que nos serviu de oráculo. 
Depois, retomamos a expressão grave, adequada a quem regressa da incineração dos anjos. 

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Desconstrução da felicidade

A melhor desconstrução do mito da felicidade, encontrei-a em Italo Calvino, em As Cidades Invisíveis, a propósito da sua imaginada cidade de Zenóbia, mas, sobretudo, válida para os seres humanos: "Dito isto, não vale a pena determinar se de deve classificar Zenóbia entre as cidades felizes ou entre as infelizes. Não é nestas duas espécies que faz sentido dividir a cidade, mas noutras duas: as que continuam através dos anos e das mutações a dar forma aos desejos e aquelas em que os desejos ou conseguem aniquilar a cidade  ou são eles aniquilados."
É substituir cidade por pessoa. 

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Esmola

Como o mendigo cego de Borges, antes de partir e levar na palma da mão as minhas últimas pedras, sem que também eu lhe tenha ouvido os passos ou me haja voltado para o ver perder-se ao alvorecer,  igualmente poderia ele ter dito:

– "Não sei qual é a tua esmola, mas a minha é espantosa. Ficas com os dias e as noites, com o siso, com os hábitos, com o mundo."

O preço, sei-o agora, foi bagatelar. 


Dia de citar Borges

P.S. 1924 – Já sou um homem entre os homens. Na vigília sou o emérito Hermann Soergel, que mexo num ficheiro e que redijo trivialidades eruditas, mas ao amanhecer sei, por vezes, que o que sonha é o outro. De tarde em tarde surpreendem-me pequenas e fugazes memórias, que porventura são autênticas. 

Jorge Luis Borges, A Memória de Shakespeare e Nove Ensaios Dantescos, Quetzal

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Autorizada memória

São fragmentos indistintos que nem sequer a ordem que pertence ao tempo sabem respeitar: 
os primeiros sapatos, vermelhos, com franjas caídas sobre os tornozelos escanzelados; um balão que se desenrolou do pulso, perdendo-se para sempre no azul do céu de agosto; um edifício em ruínas sobre o mar por cujas janelas sem vidros entraram as silvas, a manhã e o amor; o jardim de laranjeiras onde uma inusitada cama de rede ainda balouça ao ritmo do vento norte; o sol a apagar-se no pó da interminável pista de um aeroporto esquecido; as fotografias antigas nas paredes de um quarto que cheirava a restos de praia; uma goma em forma de ovo estrelado sobre a almofada de um hotel madrileno e o chapéu alto do seu porteiro; o corredor estreito de um outro hotel que a ânsia de um abraço tornou interminável; o rasto de sangue que ficou na palma da mão aberta; as cortinas com desenhos de laranjas, pêras e bananas penduradas na janela de uma cozinha; a expressão da morte nos olhos de um homem exposta na capa de uma revista antiga; o único juramento sentido; o teor de uma mensagem escrita que não me era dirigida; a sombra das omoplatas na penumbra de uma sesta tropical; quatro versos de Borges; o assombro do amanhecer veneziano numa praça vazia; a lua cheia sobre as vinhas e o seu mesmo reflexo nas águas do mar; um copo de vodka numa tarde de início de novembro nos anos noventa; dois faróis separados por vinte anos e pela inocência; o meu primeiro Nabokov; a sensação deixada pelo pesadelo recorrente de um cão cego a atravessar uma rua de moradias baixas; o sorriso triste de acrílico que pintaram no meu retrato e o sofá onde se formou; os caixotes espalhados no chão de uma sala que nunca fiz minha; uma noite de febre nuns lençóis amarelos e a varanda com vista para Monsanto; o frio do deserto que se encapsulou na medula e se tornou permanente; a primeira letra do meu nome bordada num bibe de riscas verticais; a carta que destruí antes de ler e aquela outra que não deveria ter escrito; a terceira bandeira de uma praia de nevoeiro; o som do último bater da porta que sabia bater pela última vez; o cais das colunas numa madrugada de chuva; o anel que perdi propositadamente; esse abraço indesculpado que só eu sabia não ser o último; os nomes que demos aos objetos de uma casa com rosas gravadas nas paredes; a sonoridade do meu nome em sotaques diferentes; a memória da marca eterna de uma clavícula partida; o instante em que fui atingida pela evidência da minha própria falibilidade; os poemas inéditos de um poeta morto que rasguei num dia de raiva; aquelas duas horas em que conheci os cambiantes do medo; os pés do Eros de Caravaggio num museu de Berlim e dois outros pares de pés em duas outras ignotas partes do mundo; Adagio for Strings, de Bernstein e o Clair de Lune de Debussy; o sabor a romã na boca de um homem; o mergulho no mar de esta manhã.
E a tão pouco se pode resumir a autorizada memória de uma existência. 


sábado, 27 de agosto de 2016

prazo de validade

Foram tantos os regressos e tantas as partidas que a bagagem minimizou-se ao que coubesse em duas mãos cheias. Agora estás na minha frente e tudo o que consigo pensar é como foi possivel esquecer-me que és tão alto. Espreitamo-nos no fundo dos olhos mas só vislumbramos o que já trazíamos dentro de nós. Entretanto, correu um rio inteiro e as margens alargaram-se ao limite do intangível. Ouço-te falar sobre o tom do meu cabelo com o olhar de quem conta estórias sobre reinos longínquos de gigantes e unicórnios alados. Comovo-me com o equívoco. Estendo um braço mas não toco coisa alguma. Não te digo que já não existimos. O regresso é breve, a partida longa e um dia acabaremos por morrer.
Até a verdade tem um prazo de validade.

Funambulismo

Dentro de uma dessas caixas de papelão seladas por fita de seda cor-de-rosa está enrolada e arrumada a velha corda de funambulista por onde correram os meus pés descalços nas viagens entre os terraços dos arranha-céus da cidade.
O tempo limou dos pés as marcas desse vício mais antigo do que eu e o rasto que agora se cola à areia mostra um negativo igual ao de todos os outros. 
Não foi por medo de morrer que desisti de unir o cimo da cidade com as minhas cordas e fazer delas o caminho das estrelas. 
Foi por ter engolido a vertigem. 


sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Diário de Bordo

Quando a minha tripulação vê o mês de agosto formar-se no horizonte, deixa de ser intrépida e valorosa e entrega-se à compulsão nacional burguesa que consiste num irresistível impulso para se enfiarem todos dentro de uma marina algarvia.
Foi assim que há cerca de 15 dias, rumando eu na direção da Noruega,  reparei que sempre que me afastava do leme, o navio, como se com foros de vontade sua, assumia imediatamente a rota algarvia. 
Uma noite, o Garcia Márquez e o seu livro de contos aliaram-se a esta tripulação viciada e viciosa, fazendo com que me distraísse no convés por largas horas. 
Adormeci com os pés civilizadamente frios, enrolados numa manta de arminho, e tive um pesadelo com mares sem cheiro.
Acordei afogada num charco de calor africano; mordeduras de melgas entre os dedos; pregões de bolinhas com e sem creme; a costa do Algarve, que estaria à vista, se não estivesse coberta por gente estendida nos areais... 
A minha tripulação, é claro, já se havia disperso por creparias, italianos, lojas de quinquilharia recordacional, saltitando feliz e veraneante entre as ondas e os pés do vizinho. 




segunda-feira, 8 de agosto de 2016

domingo, 7 de agosto de 2016

Éramos felizes e não sabíamos

Acordar com os gritos de Adhriminir, o cozinheiro pirata, a tentar apanhar o papagaio Polly para podermos ter carne ao almoço. Subir ao convés e tomar um brunch de panquecas de alga e ovos de gaivota. Escolher todos os dias uma peça de design nova para vender no OLX e garantir orçamento para livros. Usar tapa-olhos e chapéus comprados nos saldos de carnaval das lojas de chineses. Sentarmo-nos todos em frente ao espaço vazio onde antes foi a mesa de reuniões para planearmos um golpe exequível sem as armas que a nossa pobreza já não podia pagar. Assaltarmos botes de turistas pé descalço e no final do dia lutarmos uns contra os outros pelos três euros do saque. O cheiro da sopa de búzio e o sabor dos restos de rum diluídos em água do mar. 
Ah, a nostalgia dos dias em que ainda não não tínhamos aprendido a assaltar petroleiros...

sábado, 6 de agosto de 2016

Houve aquela tarde

Nunca consegui ensiná-lo a ver, não para além, mas através do aparato. 
Sentados no chão de terra batida, joelhos nus, mãos sujas, olhos límpidos, o sol a esvair-se para lá da montanha, eu a afiançar que podia ser apenas aquilo e ele ensurdecido pelo inoportuno tilintar das minhas pulseiras. 
Demorei muito tempo a perceber quão escura e densa é a cortina do aparato. Depois aprendi a amá-la. Daquela maneira como se ama a pequena cicatriz que se trouxe de lembrança de uma guerra que não foi ganha nem perdida. 

domingo, 31 de julho de 2016

Deslucidez

Como o padre António Isabel do conto de Gabriel Garcia Márquez, "Um Dia depois do sábado", também eu acredito, em momentos de menor lucidez, que é possível alcançar a felicidade na terra, quando não está muito calor. 

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Gaiolas

Pendurados na grande gaiola de grades da cor do falso ouro, despedimo-nos o número de vezes suficiente para entreter uma plateia de deuses entediada até à crueldade. 
Despedir-nos para sempre foi o número circense em que nos tornámos exímios. Creio que vieram de longe, deixando um rasto de pó de estrelas, antes de se sentarem em apinhadas nuvens a ver-nos dançar tangos últimos, uns atrás dos outros. 
Da última vez substituíram-nos o mar por um rio. Há qualquer coisa de definitivo nos rios que não se pressente na infinitude de um oceano único. 
Veio uma noite maior do que as outras e os deuses cobriram a gaiola com um pano de seda azul e esqueceram-se de nós, aqui presos, ao som de uma milena desafinada e sem outro ofício que não seja o de nos despedirmos para sempre. 

Hearts


quinta-feira, 28 de julho de 2016

Palavras

A bem da libertação das palavras, queimou todas as cartas físicas e apagou as eletrónicas. Então as palavras soltaram-se da triste prisão da sua história e voaram livres pelos céus, em bandos migratórios, na busca de um reino onde um resto de verdade lhes restituísse o sentido da sua existência. Da varanda do convés, vi-as passar esta manhã. Voavam demasiado alto para que as pudesse alcançar com os braços erguidos. E, de uma forma ou de outra, nenhuma delas me pertenceu de verdade.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Diário de Bordo

O mundo todo

O adágio chegou ao fim e eu recebi o silêncio sem leve sombra de comoção. Não me soube comover a música, ou a lua, ou um verso, ou qualquer uma das auroras que se seguiram. 
É assim que deve ser.
O mundo encolheu até ao absurdo tamanho de um berlinde de vidro colorido.
Pode ver-se através dele.
Essa pequena esfera que transporto junto ao corpo e que há de ficar esquecida na areia da praia, dentro de um dos bolsos dos calções, é o mundo todo. 

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Disso, da magia dos blogues


Outro Entre, in, TalqualmenteOutro 

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Desertos


A mim, que sou do mar, não sei de onde me vem esta saudade do deserto. Uma aurora feita de pó, o sabor da areia na boca, a recordação de um fio de azul a reaparecer por entre as dunas, o cheiro da gruta onde desenhámos o que talvez fosse o futuro. 
Essa noite feita de estrelas e de frio à qual sempre regresso quando adormeço. 

sábado, 16 de julho de 2016

Outros ciganos


Olhar para trás

A propósito de passagem sobre a mulher de Lot, em Caim (de José Saramago), lembro-me de Orfeu e Eurídice, esses desgraçados, e pergunto-me o que tanto enfurece os deuses nas pessoas que olham para trás. A mulher de Lot, transformada em estátua de sal por ter ousado voltar o rosto para as chamas que, nas suas costas, consumiam sodoma e gomorra. Eurídice, devolvida às profundezas do reino dos mortos, pela indiscrição ansiosa de Orfeu, que olhou para trás, para avistar a amada.
Olhar para trás não é apenas uma forma de evitar os espelhos, é a única maneira de compreender o seu reflexo. Talvez os deuses incriminem a autoconsciência. Essa empresa concorrente no negócio monopolista do destino. 

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Resumo do dia

Mas em mau.

Filhos de deus

Pela fé, Abel ofereceu a Deus um sacrifício melhor do que o de Caim. Por causa da sua fé, Deus considerou-o seu amigo e aceitou com agrado as suas ofertas. E é pela fé que Abel, embora tenha morrido, ainda fala.
(Hebreus, 11, 4)
LIVRO DOS DISPARATES

Citação retirada de Caim, José Saramago. 

Todos os homicídios têm dezenas de justificações possíveis. É inútil tentar compreendê-las. 

Das férias grandes

Como as crianças, conto os anos começando pelo mês de setembro. 
Este ano termina hoje. 
Teve horas a mais. Vivi ocasos a menos. Perdi duas ou três luas. Esqueci alguns encontros com o mar. Não colecionei todos os céus. Dei mais aos livros do que às pessoas. Recebi incomparavelmente mais das pessoas do que dos livros. Descobri que a música é uma obsessão de eficácia superior à compulsão para fazer muffins. Renovei o exílio por outro ano. Talvez seja a minha pátria. Continuei a falhar, mas falhei melhor. 



quinta-feira, 14 de julho de 2016

terça-feira, 12 de julho de 2016

uma música para a noite


LEBENSWEISHEITSPIELEREI

A enfraquecer, cai a luz do sol
Na tarde. Os orgulhoso e os fortes
Já partiram.

Aqueles que restaram são os incompletos,
Os finalmentemente humanos,
Nativos de uma esfera diminuída 

A sua indigência é uma indigência 
Que é a indigência da luz 
Uma palidez estelar pendurada nos fios

Aos poucos, a pobreza 
do vazio outonal transforma-se
Num olhar, em poucas palavras ditas.

Cada pessoa toca-nos por completo 
Com aquilo que é e como é, 
Na estéril grandeza da anulação.  

Wallace Stevens, traduzido do inglês por Cuca, a Pirata


Weaker and weaker, the sunlight falls
In the afternoon. The proud and the strong
Have departed.

Those that are left are the unaccomplished,

The finally human,
Natives of a dwindled sphere.

Their indigence is an indigence

That is an indigence of the light,
A stellar pallor that hangs on the threads.

Little by little, the poverty

Of autumnal space becomes
A look, a few words spoken.

Each person completely touches us

With what he is and as he is,
In the stale grandeur of annihilation.

(Versão original)

Poemness

À tardinha, naquela hora definitiva que precede o esmorecer do dia, quando a casa parece subitamente mais vazia e se repara no ondular embalado das cortinas de linho e não há jazz que encha o espaço e os miúdos que brincam na rua já recolheram ao banho e sabemos que nada poderemos fazer para agarrar o dia que começa a dissolver-se na noite, preciso, às vezes, de um poema. Então procuro-o na estante e em folhas soltas e em cadernos de notas, e acontece-me, às vezes, não o encontrar em Fiama, em Stevens e nem sequer nos vários volumes de Borges. E então esqueço o Globo, que fica, assim, suspenso, a ondular ao ritmo das cortinas, que é também o ritmo do vento e do mar, e procuro melhor o poema que me falta.
E, às vezes, sabes, não consigo encontrá-lo em canto em canto algum, porque o poema que me falta pertence à superfície plana que é o teu espólio dos poemas que me faltam, à tardinha, naquela hora que precede o esmorecer do dia, quando a casa parece subitamente mais vazia, e apenas tu o podes encontrar por, para, mim. Às vezes.