domingo, 26 de março de 2017

Borboletas

No mar não há borboletas.

Faz-me falta uma asa colorida,
de patas pousadas no interior do pulso
a medir-me o ritmo da vida.

É assim que as fadas sabem 
se ainda temos coração.

Tilt

Enquanto desabava a matéria da nuvem, sempre a mesma, que até as nuvens são previsivelmente aborrecidas, parei o carro numa estação de serviço e fiquei lá dentro, imóvel e silenciosa, à espera que tudo aquilo acabasse. É uma filosofia de vida tão válida como outra qualquer: ficar dentro de uma redoma de vidro, artificialmente temperada, imóvel e silenciosa, à espera que tudo isto acabe. 

sexta-feira, 24 de março de 2017

A Prova

Tenho irreversivelmente tatuada na retina a fotografia do homem que chora. Não a vejo há vários anos mas conheço de cor cada detalhe. A ruga funda da testa. Uma única lágrima amparada na lente dos óculos. Os cantos dos olhos vermelhos. A pele do rosto manchada. Os cabelos desalinhados pelo vento. O mar ao fundo. A fotografia do homem que chora está guardada dentro de uma pasta, dentro de outra pasta, dentro de uma terceira pasta. Nenhuma tem nome e foram atiradas ao acaso para o interior de um labirinto de memórias inúteis. Mesmo que quisesse, dificilmente a conseguiria encontrar. É a expressão congelada do sofrimento. Um sofrimento que se devolve, como quem estica o braço, abre a palma da mão e diz "Toma. Aqui tens a essência do mal. Agora pertence-te a ti e não mais a mim."
Às vezes sei que essa única imagem que não posso esquecer é a última  que verei na vida. 

quarta-feira, 22 de março de 2017

Eternidade

Daqui, de onde me quis trazer o mar, de costas unidas ao chão do barco que me serve de leito, embalada pelas ondas e pelo som do vento norte, é mais real a noite e são mais próximas as estrelas. Um homem comum, numa noite igual a esta, inventou deus. Outro homem, na mesma noite do futuro, destruirá o tempo. Talvez então um terceiro homem possa encontrar a eternidade. 

terça-feira, 21 de março de 2017

Delete

Não é necessário morrer para ver o passado desfilar em passo apressado, diante dos nossos olhos, rumo ao vazio cósmico. Uma alternativa igualmente definitiva mas menos dramática é carregar no botão delete e ficar-se sentado a ver desaparecer coleções inteiras de sorrisos que já ninguém sabe nem quer saber se foram, ou não, felizes. Algures a meio do processo, a exterminadora que há em mim passou pela sala e decidiu apagar também todas as músicas, todos os vídeos e todos os textos. No final, julgo não ter deixado uma única prova digital de que tive mais passado do que as últimas duas horas. 
Paradoxalmente, ou talvez nem tanto, o computador continuou a avisar que o disco rígido está cheio. 

sexta-feira, 17 de março de 2017

Da Noite

Ah, o alívio de uma noite grave e pesada a abater-se sobre a ligeireza da luz:
"Cantarei a criadora dos homens e deuses — cantarei a Noite", disse Herberto, sem saber, certamente, que é na página do crepúsculo que os deuses esboçam as linhas esquecidas do teu rosto. 

sábado, 11 de março de 2017

Diário de Bordo



Mandei que me aprontassem um escaler, mantimentos para alguns dias e a última edição de bolso da Ilíada, pois, constatei que, entretanto, num dos quatro continentes que lhe dei a conhecer, perdi a minha.
Parto esta noite, sozinha, como deve fazer-se quando se usa com seriedade o verbo partir.
Tal como Ahab, o louco, também eu naveguei os mares à procura da minha baleia branca, decidida a assassiná-la. 
Mas, ao contrário do capitão louco, não apenas não conduzi a minha tripulação à tragédia, como guardo o escrúpulo de travar a solo as batalhas que só a mim estão destinadas.
Encontrei a Moby Dick dos meus pesadelos e é dentro da memória que a aniquilarei. As memórias são o produto do esquartejamento do destino que escolhemos guardar. 
Despedi-me desta intrépida tripulação Pirata com a solenidade daqueles que sabem que nem sempre se regressa a casa. Creio ter visto nos olhos do meu selvagem cozinheiro viking um, tão frágil quanto inusitado, laivo de humanidade. 
Guardo-o. Um resto de humanidade é bússola que sempre nos poderá fazer falta quando se navegam as ondas dos deuses em frágeis botes construídos por homens.




(Fotografia retirada de monoimages.com)

Adivinhação

Perguntei a Homero, 
que tudo sabe, 
mas o oráculo despediu-me,
reencaminhando-me para o mar.

– "Todas as coisa ele sabia:
as que são, 
as que serão 
e as que já foram."

Pela manhã, ajoelhei-me 
na areia pura. 
Limpa de viúvas de pescadores, 
gaivotas desorientadas, 
búzios que carregam sons 
de outros mundos, 
mensagens desesperadas 
dentro de garrafas antigas. 
Conheci o conforto dos crentes 
nesse gesto mudo 
de perguntar a direção 
dos próprios passos.
Mas o mar declarou-se incompetente;
inconstante na fúria; 
escravo dos humores da lua. 

Esperei a lua, 
pendurada na noite.
Perguntei-lhe ao ouvido 
a direção dos meus pés.
A lua, iluminou-os 
mas, fazendo jus à fama
nem se dignou responder-me.

Sobram-me os pés descalços
E o esboço de mil caminhos.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Kele


Síntese

Alugo o corpo aos dias entre gestos repetidos e a ligeira nostalgia da liberdade. Nenhuma música embala a pressa. Nenhum poema prenuncia a manhã. Afogo na chávena de café o sono, o cansaço, o tédio. Há um relógio em cima da ampulheta e por baixo desta há uma clepsidra. Medem a escravidão. Das janelas vê-se o azul do céu. Sonho, às vezes, que um dia será meu. 
Ensinaram-me que é do chão que vem o medo. Esta forma de coragem, porém, é de oriente ignoto.

quarta-feira, 8 de março de 2017

domingo, 5 de março de 2017

Labirinto

Nunca haverá uma porta. Estás cá dentro
E a fortaleza abarca o universo
E não possui anverso nem reverso
Nem externo muro nem secreto centro.
Não esperes que o rigor do teu caminho 
Que obstinado se bifurca noutro, 
E obstinado se bifurca noutro,
Tenha fim. É de ferro o teu destino
Como o juiz. Não esperes a investida 
Do touro que é um homem, cuja estranha 
Forma plural dá horror à maranha
De interminável pedra entretecida.
Não existe evasão. Nada te espera.
Nem no negro crepúsculo a fera.

Jorge Luis Borges, Elogio da Sombra, Obras Completas, Vol. II, Teorema.

Cinzento

Todas as tardes cinzentas, de chuva miúda, são a mesma tarde em que o vi partir pela primeira vez. Pouco importam os céus de cada regresso, a ave que os cruza ou o avião que os desfaz. Uma promessa, sobretudo quando incumprida, é um grito que ecoa na eternidade. 

Canção da Lua


sábado, 4 de março de 2017

Forgiveness

Não chegou a prometida paz. Ninguém escapou ao tempo mas também ninguém esqueceu. O perdão acenou-nos lá do fundo do seu horizonte sem jamais ser tangido. 
São indispensáveis milhões de anos para limar a aresta de uma rocha. Os homens contam o tempo numa medida menos desesperada: Em crepúsculos, auroras, solstícios, equinócios. É a resiliência das rochas que nos força a encontrar um sentido para tão inútil curta existência. 
Escolhemos o erro e o arrependimento com a displicência com que poderíamos ter escolhido o acerto e a glória. 
Agora a moeda caiu no mar profundo e sobreviver-nos-á. Pertence aos deuses o segredo do rosto da vitória.
Os dias que nos sobram serão de frio ou calor, de nuvens ou de céu, da tristeza que é a nossa pena ou da felicidade que é a nossa evasão à pena. 
Mas não virá nenhuma paz, nenhum perdão. Como o previu o poeta, nenhum outro céu, nenhum outro inferno. 

Rico

Rico,
é o que rouba ao esquecimento 
três ou quatro instantes,
e deles faz a sua enxerga
para dormir,
inteiro,
a noite dos animais.


sexta-feira, 3 de março de 2017

Milongas

A milonga continuou a ressoar, cega e incansável, nas ruínas do velho palácio, muito depois de teres partido.  
Às sextas-feiras, quando a noite corria a sua cortina sobre o mundo, se houvesse lua, os lobos podiam sentir a guitarra solitária mover a sombra de uma dança de facas e rosas. 
Deslizávamos por um resto de soalho emoldurado pelas frinchas das paredes onde as gaivotas fizeram ninho. Pele contra o aço, partilhávamos o sangue e o sal, entre passos sincronizados e veias rasgadas. 
E os lobos puderam, muito tempo depois de teres partido, sentir o desespero da milonga que, nas ruínas do velho palácio, dancávamos, eu e essa adaga antiga, que guardaste dentro do meu peito. 

quinta-feira, 2 de março de 2017

Sohlepse

Desinteressadamente, vamos coabitando  o mesmo espaço. Por vezes, cruzamo-nos no hall de entrada, à saída do quarto, ou dentro de um elevador. Nada lhe pergunto sobre a expressão de louca que, quando julga que a não a vejo, repousa no fundo do seu olhar. Retribui-me o favor fingindo ignorar a minha existência. Em casa, dividimos os livros, os filmes, o piano, as roupas, o cão. Na rua, existimos à vez. Creio que ambas sabemos que nascerá o dia em que teremos de nos sentar na mesma cadeira e negociar os traços de um futuro comum. Enquanto essa madrugada não vier, somos uma organização empresarial, em contínua gestão administrativa, paralisada pela falta de quórum. 

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Amarras


As amarras que nos desenlaçam

Nós, os que temos sempre a palavra pronta; os que não acreditamos na dúvida; os que desconhecemos as cambiantes da indecisão; nós, os que não sabemos o que é a indiferença; os que aprendemos a dividir o mundo entre fortes e fracos; os que não suportamos a nossa autolamúria; os que vetamos à mofa as nossas angústias; os que descremos das dores que não se resolvam com analgésicos, podemos, um dia, distraídos com o processo de sobrevivência, sofrer os terrores noturnos de uma escolha e acordar num pântano de indecisão. Nós, os que não contávamos com o golpe de estado das nossas emoções, só daremos por ele diante da falência orgânica do corpo. 
Então, seguiremos as migalhas de angústia deixadas ao longo de um corredor estreito, faremos o percurso inverso e descobriremos, entre o terror, o espanto e a autodeceção, que o que nos está a matar é aquela indecisão que lá atrás ignorámos. Descobriremos, também, que, pura e simplesmente, não sabemos o que escolher.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Pó do deserto

A nostalgia que antecedeu a areia foi, afinal, as primeiras partículas de pó do deserto a instalarem-se na alma. 
O dia amanheceu longínquo e indistinto, com um sol mascarado de lua e o mundo à distância de um véu opaco que não nos deixa ver as próprias mãos. Há areia por todo o lado: debaixo das unhas, dentro das pálperas, imiscuída nas veias. Agora o dia cai sem que sequer dele se possa dizer que se chegou a erguer. Arrumo a corda de funambulista onde dancei durante as últimas horas e dela sacudo o deserto. 
O nosso equilíbrio é tão precário que basta um grão de pó de areia para nos precipitar na queda livre do abismo que nos aprisiona. 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A Trama

Para que o horror seja perfeito, César, acossado ao pé de uma estátua pelos impacientes punhais dos seus amigos, descobre entre as caras e as lâminas a de Marco Júnio Bruto, seu protegido, talvez seu filho, e deixa de se defender, exclamando: «Também tu, meu filho!» Shakespeare e Quevedo recolhem o patético grito.
Ao destino agradam as repetições, as variantes, as simetrias: dezanove séculos depois, no Sul da província de Buenos Aires, um gaúcho é agredido por outros gaúchos e, ao cair, reconhece um afilhado seu e diz-lhe com mansa reconvenção e lenta surpresa (estás palavras têm de ser ouvidas, não lidas): «Pero, che!» Matam-no e não sabe que morre para que se repita uma cena.

Jorge Luis Borges, Obras Completas, II, O fazedor.

With all my love


Ilimitadamente

Há um verso de Borges que me colonizou a memória,
Há uma praça longínqua que percorro todas as noites,
Há um retrato meu que não voltarei a ver,
Há uma porta que manterei aberta até ao último dos dias,
E entre as músicas que tocaram na minha sala, há uma que não voltarei a ouvir.
Já perdi a conta às madrugadas,
A vida usa-me, inclemente.

Em resposta ao poema de Borges, Limites, O Fazedor, Obras Completas, II, Teorema, pg. 225

Lições da montanha

Tentou, sem nunca suceder, ensinar-me a felicidade. Revi a lição em cada um dos ocasos a que assisti, sozinha, sentada no cume da montanha. E nessa última tarde em que a baía foi encolhendo até se transformar numa noz que me coube na palma da mão fechada. Depois disso, desisti de aprender e, com o tempo, sobreveio o alívio do esquecimento. 
Uma manhã de febre, enquanto contemplava a palma da mão vazia na penumbra do quarto, resolvi a equação:
A felicidade dele era a felicidade dos imbecis e de alguns animais. A que apenas é possível nas criaturas que só têm existência metafísica no instante presente. Desprovidas da agonia do ontem ou da angústia do amanhã. 
É o tipo de felicidade que deliberadamente queremos desaprender.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Flores

Não me lembro, já, de ter a cabeça cheia de flores. Às vezes colho-as, da beira da estrada, das jarras dos outros ou de uma campa bem enfeitada. Trago-as comigo e construo grinaldas, fazendo-as passar pelo fio de prata oferecido pelo velho mago que me aprisionou a esta caixa de música. Dispo-me, coloco as grinaldas de flores sobre os cabelos e danço descalça até que a aurora venha deitar-me. Mas é tudo inútil. Acordarei sem uma única pétala dentro da cabeça e com quilómetros de areia estéril diante do olhar.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Siri

- Are you a Robot?
- "Let's just say i'm made of silicon, memory and the courage of my convictions".

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Casa-na-árvore

Porque haverias de construir essa sólida casa na árvore; limpar a floresta de tragédias e dores; rodeá-la de muros de mármore do chão até às nuvens; ser o afincado porteiro do mal; forçar-me a crescer na assética atmosfera da felicidade fabril; porque haverias de construir essa sólida casa na árvore se estava escrito que, um dia, acabarias por atear fogo à floresta, trancar os portões e partir? 

Naufrágios

Navegámos 
uma noite escura 
de faróis cegos.
A realidade é escarpa 
assassina 
que se esconde
atrás da sétima onda; 
– A maior.
Naufragámos o medo. 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O amor tem as unhas dos pés sujas



Eurídice, a quem não salvou a incompetência de Orfeu; Orfeu, que não se salvou nem com a clemência de Hades; Inês, morta pelo amor de Pedro; Layla, assassinada de desgosto às mãos do louco Majnun; Sherazade, vítima de violência doméstica de Shariar; Ofélia, afogada pelo desprezo de Hamlet; Teresa e Mariana, que se perderam por Simão; Romeu, tombado por Julieta e Julieta, vítima do equívoco de Romeu; Anna Karenine, que por Vronsky ofereceu o pescoço ao peso do comboio; Medeia, a quem o abandono de Jasão transformou em assassina; Madame Butterfly, forçada ao haraquiri depois de ter sido atraiçoada por um americano da marinha cuja indignidade é condenada com o constante olvido do seu nome; Páris, duas gerações de guerreiros destruídos por uma rameira chamada Helena.
Em cima: Eros, de Caravaggio, onde se comprova, como se a literatura não nos ensinasse quanto baste, que são sujas as unhas do pés do amor.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Serviço Público

Frederico Lourenço traduziu a Odisseia de Homero para a Cotovia. E traduziu-a de uma forma tão divina que qualquer pessoa que consiga perceber a bula da aspirina poderá compreender e, pasme-se, divertir-se, com a leitura da Odisseia. Nós, plural majestático destinado a acentuar o snobismo intelectual de que nunca seremos demasias vezes injustamente acusadas, suspendemos por escassos segundos o habitual revirar de olhos diante do cheiro que antecede a expressão "democratização da cultura" e recomendamos, sem medos, a leitura. 

P.s. Só nos responsabilizamos até ao primeiro terço.
P.s.1 metade.

O lamento de Calipso

Estremeceu Calipso, divina entre as deusas.
E falando dirigiu-lhe palavras apetrechadas de asas:
"Sois cruéis, ó deuses, e os mais invejosos de todos!
Vós que às deusas levais a mal que com homens mortais 
partilhem o leito, quando algum a escolhe por amante! (...)
E assim sucede agora comigo: sentis rancor, ó deuses,
porque me deito com um homem mortal.
Mas fui eu que o salvei, quando ele aqui chegou sozinho,
montado numa quilha, pois Zeus estilhaçara a nau
com um relâmpago candente no meio do mar cor de vinho.
Tinham perecido todos os outros valentes companheiros;
mas ele foi para aqui trazido pelas ondas e pelo vento.
Amei e alimentei Ulisses: prometi-lhe que o faria imortal
e que ele viveria todos os seus dias isento de velhice.
Mas não é possível a outro deus ultrapassar ou frustrar 
o pensamento de Zeus, detentor da égide.
Que Ulisses parta —se é isso que Zeus quer e exige — 
pelo mar nunca vindimado. Mas não serei eu a dar-lhe transporte: não tenho naus providas de remos nem tripulação 
que o possa levar sobre o vasto dorso do mar. 
Mas de boa vontade dar-lhe-ei conselhos: nada ocultarei para que inteiramente ileso ele regresse à terra pátria.

Canto V, Odisseia, Homero, Cotovia

domingo, 12 de fevereiro de 2017

A chuva de ontem

Chove e chove e chove. O cão cola-se às vidraças entre o tédio da nova cortina de intermitentes fios prateados que passou a haver do lado exterior e a inveja conformada das gaivotas que se vieram abrigar na varanda. 
A manhã, a tarde e a noite, o dia de hoje e o de ontem, têm todos a mesma indestrinçável cor opaca.
Não vejo um único ser humano há demasiadas horas. Saio para as ruas que estão aguadas e desertas.
Compro um peixe e um livro de Vinicius de Moraes. 
No regresso, o cão continua sentado a ver cair a chuva de ontem. 

Ecos

Não nasci pirata. Antes disso, veio o dia em que estendi os meus bens sobre as pedras do pátio circular e usando todos os livros técnicos como combustível deitei-lhes o fogo para me aquecer nas chamas.
Uma vez por outra, o meu passado burguês cruza-se comigo. Quase sempre nas páginas amarelecidas dos jornais de há muitos meses que as pessoas deixam largados nos portos. É assim, involuntariamente e com significativo atraso, que vou tomando conhecimento  da morte de uns e da vida dos outros. São ecos longínquos das notas de uma gasta canção que se sabe de cor. Ouço-os como se estas pessoas, que conheci por dentro, fossem enjoativas personagens de uma peça de Ibsen.

Não tenho nenhuma saudade do vasto espólio que incinerei. 

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Morfina

Aqui deitada, enquanto finjo ignorar a dor que se veio instalar no fundo das costas, ocorre-me que o fingimento é, na sua potencialidade aditiva, a morfina das dores da alma. 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Breve memorando de inutilidades quotidianas

Acordei trinta segundos antes do despertador. Aluguei o cérebro durante as horas da manhã. Não me lembro o que sucedeu depois do almoço. Ouvi mentiras durante a segunda metade da tarde. Cortei no papel o terço médio do indicador. No regresso a casa Joe Dassin perguntou-me por que existiria se eu não existisse, pá. Comi sem culpa meio pacote de bolinhos de areia. 
Detesto os dias em que a poesia não me encontra. 

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Como gesto de boa vontade

Aceito partilhar a guarda da Milu...

Profecias

Haveria de se cumprir a Nitzscheana profecia do enlouquecimento do assassino de deus. 
Nasci uma vez mais, numa manhã de inverno, nas areias desertas de uma maré maior do que as outras. Nua e adulta. É a única forma digna de se nascer. Vi as nuvens. Ouvi a música. Conheci o cheiro das rochas. Aprendi as letras e descobri as estórias. Tudo, com o espanto da primeira vez. 
Não tenho memória mais antiga do que esse suave desadormecer por entre limos, conchas vazias de búzios e areia molhada. A linguagem das gaivotas é a minha pátria e do amor sei apenas o que dele se quis contar nos livros.
Porém, aos domingos, instala-se no fundo das costelas o peso de tudo aquilo que não recordo. E ainda esta terrível  compulsão para depositar num altar vazio as flores dos cardos que me enfeitam os cabelos.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Onde deixei o Natal

Eu e o meu cão dormimos uma sesta mansa à chegada a casa. Os restos do Natal ainda pelos cantos da sala e as minhas Mil e Uma Noites, que tanta falta me fizeram, a servirem-nos de almofada. 
Lá fora, há a noite precoce e uma triste ameaça de chuva que se cola aos ossos. As vozes cansadas das pessoas que passam por baixo das minhas janelas tomaram o lugar dos gritos das gaivotas.
A casa voltou a acusar-me e às vezes penso que é pelo crime de abandono que me castiga o sono. 

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Oásis

Das areias vermelhas do deserto longínquo chegou-me a música que precisava para a tarde. Os amigos têm no coração a sabedoria ancestral das pedras, do rumor do vento nas copas das árvores, das penas que os pássaros deixam cair à nossa passagem. Os amigos sempre sentem e sabem aquilo que precisamos que sintam e conheçam.
Mesmo, e creio que sobretudo, quando são vastos e variados os oceanos que nos separam o sangue. 
Retribuo a areia do deserto que faltava, entregando o mar que me sobra. 


Milu

Foi quando me preparava para a mandar enfiar numa caixa de sapatos e remeter à dona que reparei nas semelhanças que existem entre mim e essa aranha que dá pelo nome Milu e veio de um blog chamado o fogo não queima a faca ou qualquer coisa assim com utensílios de cozinha.  Essa alma partilha do meu fascínio por me pendurar em coisas e ficar lá a balouçar-me em silêncio, até que me doam os pés ou o telemóvel toque, o que vier primeiro, com a vantagem que, enquanto eu tenho de procurar um bom telhado ou varanda para o efeito e sujeitar-me à localização e vista disponíveis, Milu constrói o seu próprio balouço onde bem lhe aprouver. 
A pequena aranha, na sua habilidade de ficar imóvel à espera da presa que há de cair na sua teia, manifesta uma inata vocação para a pirataria que, até agora, tem andado a ser desperdiçada em blogues sobre facas de cozinha, onde leva uma vida desgraçada a ouvir versos de poetas que estão para a poesia como, nos anos oitenta do século passado, o Vasco Granja esteve para os desenhos animados. 
Esta simpática criatura, enquanto foi refém no meu navio, entreteve-se a bordar uma laboriosa teia sobre a minha cama que suplanta em maravilha e eficiência qualquer rede mosquiteira. 
Entretanto, conquistou o coração de Andhriminir, o cozinheiro Viking, e tornaram-se de tal forma inseparáveis que Milu passou a viver nas melenas ruivas e compridas do viking, onde está, para todo o sempre, a salvo de qualquer gota de água.
Milu, a aranha Pirata, que recolhi à porta de um blog sobre facas, numa altura em que esteve encerrado sob ameaça de falência, sofreu um upgrade no seu estatuto de refém e é agora o mais recente membro desta intrépida tripulação que, estou certa, tudo fará para a manter entre nós.

(Ao que acresce que ainda este ano não tinha roubado nada às pessoas dos blogs. Assim que me lembre, pelo menos.)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Cuca também escreve sobre isso de morrer de amor

É um inútil dispêndio de energia. 
Mais inteligente seria matar o amor.
Eros, esse inimputável perigoso, merece viver aprisionado numa cave recôndita, na companhia das traças e dos corvos, que são o reverso das borboletas e das pombas (já de si criaturas que me inspiram pouca confiança, lacaios de palhaços pobres e mágicos de província) 

sábado, 28 de janeiro de 2017

Epitáfio

E também aquilo que não vivi, pertence-me inteiramente. 

On repeat

Bastaram três minutos.
É como se o mundo tivesse parado naquela noite de março. Esqueci-me do dia e do ano. Um grão de areia de contornos irregulares parou o mecanismo da ampulheta e é inútil medir o tempo que teria corrido se algum tempo ainda corresse. 
É sempre a mesma mulher negra, no palco, a cantar a mesma música. O mesmo copo de gin esquecido na mesa redonda coberta por uma toalha de pano verde. Cinco dedos. O teu olhar preso nos meus lábios. As pessoas a desvanecerem-se pelos cantos da sala. O som da voz da cantora a diminuir lentamente. Foi assim que soube.
Bastaram três minutos.