terça-feira, 18 de julho de 2017

Resultados

Maioria A

Seu psicopata! Não há limites para o seu egoísmo. Era capaz de matar a avó por duas bolachas de manteiga; a sua imagem preferida é a que o espelho lhe devolve e o destino de férias que merece é uma ilha deserta. Em suma: um pirata!
Leitura recomendada: o código penal.

Maioria B

Saiba que as pessoas ponderadas e que se pautam sempre por critérios de bom senso são irritantes e incomodam as outras. Aprenda a ser humano. Desenvolva ódios de estimação e parta a baixela da sua avó para saber como soam os pratos de encontro ao soalho. Merece umas férias numa colónia de geriátricos alemães.
Leitura recomendada: O Psicopata Americano.

Maioria C

Se está a ler isto, é improvável que os seus resultados tenham sido maioria C. 
Estas pessoas só fingem existir neste mundo porque, na verdade, vivem noutro lado qualquer. É inútil analisá-los já que jamais alguém os compreenderá. 
Merece umas férias sozinho num hotel com uma cama decente onde, finalmente, consiga dormir.
Leitura recomendada:Heródoto, as Viagens de Marco Polo ou outra bizarria qualquer.

Maioria D

De acordo com um estudo norueguês só dez por cento das pessoas com resultados maioria D responderam com sinceridade às perguntas. Se está incluído nesses, saiba que deve preocupar-se. As boas pessoas morrem antes das más. A sua família e os seus amigos aproveitam-se de si e ainda o convencem que lhe estão a fazer um favor. Merece umas férias para um campo de refugiados.
Leitura recomendada: Lassie Come Home.

Pessoas que responderam com alternativas E

Está na altura de se conformar com as hipóteses apresentadas na ementa e parar de aborrecer os chefes de cozinha com dramas do tipo "quero a salada de gambas mas sem a salada e com molho de gaspacho". O inconformismo é sobrevalorizado e prejudica a hegemonia social. Aproveite as férias para fazer uma daquelas viagens-circuitos organizador das sete da manhã à meia noite que é para se ir habituando a não ter ideias.
Leitura recomendada: manuais de instrução.


Inquérito de verão

1. O cão do vizinho incomoda-te todas as noites, ladrando pela madrugada.
A) desenvolves um plano para assassinar o bicho;
B) vais falar com os donos e ponderas queixar-te à polícia;
C) tomas comprimidos para dormir;
D) aproveitas a oportunidade para leres Proust durante a noite.

2. Pedro Chagas Freitas escreve um novo livro.
A) investigas as livrarias que colocaram o livro nos escaparates e recusas-te a aproximar das mesmas;
B) escreves um email de protesto aos editores e aos livreiros;
C) quem é o Pedro Chagas Freitas?
D) vais a correr comprar o livro.

3. Estás na praia em vias de morrer por inanição. Só vendem bolas de Berlim a €1,20 e dispões de apenas €1.
A) furtas a carteira do banhista mais próximo; 
B) tentas negociar o preço com o vendedor, apelando à tua conjuntura fome versus falta de dinheiro;
C) comes um snack de algas;
D) testas aquela teoria de acordo com a qual é possível alimentar-nos do sol.

4. Como lês os romances.
A) fechados e deitado com a cabeça sobre eles; 
B) do princípio para o fim; 
C) os últimos capítulos antes do princípio;
D) abrindo ao acaso e começando sempre numa página qualquer.

5. As tuas férias de sonho.
A) à aventura num desses sítios cheios de mosquitos e tifo como o Cambodja;
B) um mix quatro dias numa cidade com extensão de cinco a praia exótica; 
C) qualquer sítio onde possas dormir em paz e desligar o cérebro;
D) quando se trabalha naquilo de que se gosta está-se sempre de férias.

6. Estás fechado numa casa com quatro canais nacionais.
A) partes os vidros e saltas do terceiro andar;
B) vês as notícias e fazes zapping na esperança de encontrares um filme que ainda não tenhas visto;
C) vês os desenhos animados e aproveitas para dormir a sesta;
D) encontras uma boa oportunidade para assistires, sem culpa, a telenovelas.

7. Os teus primos afastados telefonam-te a avisar que vêm passar contigo as suas férias.
A) mudas de cidade nesse mesmo dia;
B) a ideia não te agrada por aí além mas é sempre possível convencê-los a fazer atividades que não te incluam e que te permitam descansar deles;
C) ficas de cama com uma gripe histérica e aproveitas a canja de galinha que te farão;
D) metes férias, compras um novo grelhador e t-shirts iguais para todos.

8. As razões pelas quais respondes a inquéritos imbecis.
A) queres ganhar um prémio. Tem de haver um prémio, certo?
B) não estás a fazer nada de jeito e é uma atividade mais interessante do que ler o blogue do Pipoco Mais Salgado; 
C) qualquer coisa que te afaste dos teus pensamentos é coisa boa.
D) tens pena da pessoa que fez o inquérito e achas que se importa. 

9. Uma personagem que te inspire
A) as personagens infra não inspirariam nem uma lesma;
B) zeus;
C) o gato que ri da Alice no País das Maravilhas;
D) o Dalai Lama.

10. O livro que nunca lerás
A) o livro de S. Cipriano porque suspeitas que não teria nada para te ensinar;
B) qualquer um do Gustavo Santos ou do Chagas Freitas ou daquele brasileiro que agora não recordo o nome mas que todos os meses edita um livro;
C) um livro de culinária porque, no mínimo, provocam queimaduras;
D) não existe livro que não lesses assim estivessem reunidas certas circunstâncias que aqui não temos paciência para enumerar.

(Inquérito inspirado neste aqui do Pipoco Mais Salgado, mas em melhor, é claro)





domingo, 16 de julho de 2017

Fim de ano

Por aqui contamos os dias pelas férias grandes. 
O meu ano chegou ao fim. O balanço, que a cobardia me promete ser inútil, ficará por fazer. Os maus dias não enchem duas mãos e o mar já há muito os levou. Os bons são todos os outros. Na contabilidade dos dias, aqueles em que nada foi são igualmente dias ganhos.
O exílio físico terminou por decreto. Um final de tarde, quando estava na casa de banho, fui informada que Lisboa me aceitou de volta. Assim. Sem o abraço da poesia ou a proteção de um céu azul.
O outro exílio, o da alma, estará muito além de um carimbo no passaporte nas mãos dos burocratas.
Não faço juras de fidelidade a essa puta que é Lisboa. Pago-lhe, como sempre paguei, com a moeda que tenho na mão. 
O coração, ou o que dele resta, deixo-o penhorado ao sul. 
E desta vez não me despeço. Não saberia fazê-lo. 

sábado, 15 de julho de 2017

Vão lá ler, vá

Numa simplificação caricatural, dir-se-á que a nova aproximação ao mundo tem uma fixação afectiva em tudo quanto provenha da Apple e tenta libertar-se do mobiliário IKEA que comprou em jovem. Simpatiza naturalmente bom Barack Obama e vê em Steve Jobs um ícone inspirador ou, melhor dizendo, um modelo de sucesso cool que lhe serve de lenitivo para as frustrações e os desaires do quotidiano. Há muitos anos, excitou-se com o Filofax, mas tudo indicia que estabilizou em definitivo no Moleskine. Desconfia se será aceitável eleger Murakami como um «grande escritor» e, às escondidas, chega a ler Nicholas Sparks, por causa dos «sentimentos». Em matéria de transportes, justifica o recurso à Uber com o argumento da falta de educação e de higiene da comunidade taxista. O uso de relógios Swatch desvaneceu-se há muito, por mais que a marca se tente reinventar. Sobressai uma demanda vertiginosa e sôfrega, quase demencial, de novidades. Sempre que algo se torna demasiado vulgar, sofre uma depreciação abrupta, sendo descartado como banal, popular em excesso.

António Araújo, Da Direita à Esquerda, editado por Saída de Emergência 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

A longa noite

Na tão longa noite, além dos gritos das gaivotas, do desconforto do calor, das melgas, de um resto de luz dos faróis de algum carro que passou, veio também o perdão. Às cinco da manhã, último instante da madrugada em que são possíveis ações memoráveis, consegui perdoar-lhe. Creio que se perdoa à velocidade com que se ama e, como diz a canção, quando eu amo é sempre devagar. No dobrar das mil e uma noites, surgiu aquela, maior do que todas as outras, em que veio, finalmente, o perdão.
A manhã ofereceu-me um mundo de aparência igual ao da véspera mas, em tudo, diferente. Como se também a matéria de que são feitas as coisas pudesse depender do peso do coração. 
Saberei um dia aquilo que todos os animais pressentem: que o perdão é a face dourada da moeda do desprezo. 

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Diário de Bordo

A esta intrépida tripulação Pirata, durante dez meses por cada ano, não falha a coragem para o sabre ou a ambição para o saque. Lava os dentes com rum, usa com bravo orgulho o tapa-olhos, cultiva um sem fim de pequenas bizarrias desrazoáveis e mantém o coração colonizado pela arte da boa velha pirataria. 
Porém, logo que vê o mês de julho aparecer na folha do calendário, nasce-lhe das entranhas a pavloviana compulsão para se enfiar numa marina portuguesa, daquelas com lojas onde se vendem galos de Barcelos dourados, Nossas Senhoras de Fátima que adivinhem o tempo, porta-chaves com golfinhos e doces de amêndoa fossilizados.
Já levo desta vida de capitã anos suficientes para saber que há tormentas às quais é inútil apontar a proa.
Percebi que era altura de mudar a rota quando a idiotia me entrou pela escotilha mascarada de encomendas on line: colchões insufláveis em forma de lagosta, patinhos amarelos que boiam, cestas com folhos ridículos, barbatanas rosa-pastilha-elástica, pareos de toda a sorte de floreado e caixas de sardinhas e entremeada gordurosa.
Temendo que a própria da Quarteira fosse comprada na internet e entregue no meu navio, anunciei que aportaremos durante os próximos dois meses na marina mais próxima da dita.
Estamos neste exato momento a poucas milhas da costa, à espera que a lua se apague para que possamos fazer uma discreta entrada.
Estes dez-meses-por-ano-intrépidos-Piratas, aproveitam os dias de espera para encherem os insufláveis, montarem as fiadas de flores que tencionam usar ao pescoço  e desenharem escorpiões e osgas de hena em todas as partes do corpo.
Eu...bem... leio o Livro da Selva, de Kipling, lamento-me por em vez de ter ido para pirata não ter antes seguido a carreira de exploradora de tribos selvagens e sonho com as doces cores do outono.

domingo, 9 de julho de 2017

No céu de julho

Mas depois anoiteceu e foi o teu nome que apareceu inscrito no céu. Sob as esquinas dos sem abrigo, nas varandas das famílias, nos telhados dos gatos e até nas montanhas desertas. O teu nome desenhado a luz. Graffitti inapagável. Segredo gritado. Mancha insultuosa. 
O teu nome inscrito no céu de julho. 

SG

Subiu toda a avenida, caminhando pelo passeio, sem fazer uso das asas uma única vez. 
Talvez tivesse uma asa ferida, talvez preferisse caminhar, talvez também as gaivotas se esqueçam, por vezes, que as asas existem para voar. 

sábado, 8 de julho de 2017

Inavegável

Pedi um céu apocalítico.
Mas a alta lua 
iluminou,
sem incendiar,
um frágil braço de mar.







quinta-feira, 6 de julho de 2017

Comunicações Intergaláticas

Sobreviver-te é isto:
 A Billie Holiday a espalhar o seu jazz pela sala. O sol a sumir-se devagarinho nas ondas do mar. Uma lua insonsa a erguer-se. Os pratos por lavar na cozinha. O copo meio cheio em cima da mesa. Um locutor a debitar presumíveis desgraças sem som. O cão que comprei para enganar a tua ausência a ladrar na varanda. Livros esquecidos nos sítios onde se esquecem livros. Essa espécie de sobrevida. 
Cinco anos ensinam-nos a morte. Já não me espanto todas as manhãs com a mesma notícia. Não te procuro entre as multidões. Não espero que o telefone toque por ti. Não anseio aparições em sonhos. Não me atormento com a culpa. Não imagino os restos orgânicos daquilo que foste. 
Só a realidade, aquela que só o era depois de te a contar, só a realidade, essa, é que nunca mais regressou.
Sobreviver-te é isto:
Uma interminável sequência de factos banais que não se sucedem realmente porque a tua morte os tornou inconcretizáveis.  

terça-feira, 4 de julho de 2017

Insone

A insónia encontrou a minha cama voltada a sul e ocupou inteiro o espaço do colchão. É uma sombra cinzenta que nasce no chão e vai subindo pelas paredes até submergir o quarto. Não sei durante quantas noites se manterá, assim, colada à pele. É uma febre de ruídos noturno: gritos de zanga, uivos de cães, desespero de gaivotas, rodas de carros, passos alienados. Dói-me o lençol sob a clavícula, sinto crescer as unhas dos pés, ensurdece-me o rumor dos meus cabelos.
Debaixo da mancha cinzenta oprimem-me as pilhas de livros na cabeceira, os cabides no armário fechado, um bilhete dentro do bolso das calças, uma fotografia guardada no telefone e vários emails perdidos no espaço virtual.
À insónia pertence esta culpa sem rosto. A indefinível sensação do crime que julgamos ter cometido mas que não conseguimos recordar. A aceitação do castigo que é a consciência da profunda noite. 
E depois, pousar a cabeça na almofada como quem a oferece ao machado do algoz. 
Essa quase morte. 

sábado, 1 de julho de 2017

Regressos

Um dia perguntaram-me de que fugia.
Agora, nas vésperas do regresso de um longo exílio, sei finalmente a resposta:
Do que sobrou daquilo que perdi. 


sábado, 24 de junho de 2017

35°,5

A metade de mim que tem o outono instalado por debaixo das costelas, rejubilou com os vinte pingos de  chuva que esta tarde conseguiu amparar com o rosto.
A outra metade, trouxe a areia da praia para o chão da sala e, nele, deitou-se de costas à espera de qualquer coisa.

domingo, 18 de junho de 2017

Fotografia de uma manhã II

Para todos os outros é apenas a fotografia de um pátio, captada de um plano inferior. Para lá da mancha de sombra, vê-se um caminho de terra vermelha e depois dele os canteiros das flores e a seguir as árvores de fruto e, muito ao fundo, a baixa cerca branca por trás da qual se estende o mar infinito.
Há, ainda, no canto superior direito, um rasgo do céu azul da manhã. 
Para um único homem, porém, será  a forma que o abandono lhe deixou tatuada na íris; o registo exato da sua perspetiva do mundo na manhã em que uma espera se tornou vã.
Para mim, é o que não se pode ver: 
O degrau de pedra antiga, por trás da imagem. E sobre ele, pousada, uma mão aberta, a suster o frágil equilíbrio do corpo. 
E, nesse gesto, também do mundo. 


Fotografia de uma manhã I

Qualquer destino, por mais longo e complicado que seja, na realidade consta de um só momento: o momento em que o homem fica a saber para sempre quem é.

Jorge Luis Borges, in Biografia de Tadeo Isidoro Cruz, O Aleph.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Dois loucos

Quando a guerra chegou e as gentes partiram com a triste roupa no corpo, quando os pianos e os lustres e os espelhos foram abandonados ao pó e ao saque, quando os invasores encheram as ruas e acenderam fogueiras no soalho das salas, quando as colunas de fumo afugentaram as últimas aves, quando as bombas destruíram todos os muros e o sol foi oculto por milhões de partículas de caos, sobraram, ainda, uns metros do jardim de laranjeiras no cimo do monte. 
E nós permanecemos deitados, na imobilidade eterna de uma cama de balouço de seda branca, sob a sombra das duas ou três árvores sobejantes, distraídos do ruído dos homens pelas notas do jazz, concentrados na métrica do poema do fim de tarde, alheados da destruição pela beleza das asas de uma borboleta, protegidos do horror pela incapacidade de o representarmos. 
E enquanto a guerra nos lambia os pés, espantava-nos o assombro dessa aurora lilás que sonhávamos ter nascido apenas para nós. 
Foi assim que nos tornámos imortais. 

domingo, 11 de junho de 2017

Mercados

Deu-me meia dúzia de estórias, a música e uma constelação que não se pode ver daqui. 
Com a infâmia, paguei-lhe até ao último cêntimo.
A música que ainda me dá, recebo-a a crédito.
A infâmia não é moeda de troca. É penhor eterno. 


sexta-feira, 9 de junho de 2017

A invenção do amor

Quando o nevoeiro se adensou e o interior da montanha ficou submerso e as nossas mãos deixaram de encontrar as respetivas bocas, 
para nos salvar da banalidade
inventei o amor. 

Na palma da tua mão aberta pousei o engenho de asas sobredimensionadas.
 
Mas vi a sua sombra cruzar a lua 
e não sei se a vertigem  
foi perda 
ou 
foi orgulho.
O amor, dizes-me, não nos salvou.

Pequenas são sempre as mãos para as asas, 
penso, 
quando o amor é ave 
que se inventa 
a lápis azul.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Outras coisas

Os três volumes de Sophia, recusados com desdém pelo meu poeta morto.
O anel de flores-do-lis incrustadas que, talvez sem ilusão, vai atravessando três gerações.
Os sapatos prateados que, numa tarde de chuva, um homem calçou nos meus pés nus.
A algema que durante dez anos trouxe o pulso direito preso ao coração.
O quadro onde pintei a felicidade e que é hoje mera prova de cronologia factual.
Uma boneca de sabão esquecida na estante dessa casa na planície cuja rua tinha um nome que já esqueci. 
O bilhete de um concerto a que fui sem assistir e aquele outro bilhete de uma viagem a que assisti sem ir. 
São os objetos que me sobreviverão. 

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Decoração de interiores

Respondi-lhe, mentindo, que faz parte dos meus pensamentos. 
Os pensamentos são feitos da matéria do amanhã: infinidade existencial que se renova diariamente e se autojustifica.
Aquilo de que faz parte é das minhas memórias: Presunçoso cemitério de insignificâncias, decorado por anjos graníticos com lodo entre os dedos dos pés. 

Sinerman


Sinerwoman

O anjo negro que me vela a espertina, tenho a certeza, folheia os livros na minha ausência. Pretendo recorrer à insídia que há na literatura para educar esse fantasma. É para que os leia que finjo esquecer na mesa de prata folhada As Mil e Uma Noites, a Ilíada e a Osisseia, um livro de poemas de Borges, outro de Herberto, todos os contos de Nabokov e o Novo Testamento do Lourenço. São as bases da civilização e, tanto quanto me parece, são suficientes para que um anjo, ainda que negro, apreenda as noções básicas de humanidade. Uma vez educado, conto que o anjo que me calhou em má sorte encontre o caminho de regresso à luz, esqueça por inteiro a sua função de me proteger e, finalmente, abrace uma profissão capaz de exercer.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Porteiros do Neverland

Não os amei por razão menos interesseira do que o acesso às chaves do Neverland. 
É um mundo de céus azuis, pássaros coloridos, borboletas sem lagarta, cascatas de água morna que terminam em arco-íris que terminam em potes de ouro guardados por duendes de chapéu verde com uma pena no topo. Um mundo sem estações através do qual se caminha voando e onde a noite nos é leve porque chega e parte enquanto dormimos nas ervas altas da planície. Não existem o ontem e o amanhã. Ninguém nasce e ninguém morre. Falamos todos uma língua única. Desconhecem-se a dor, a fome, o frio, a falta. Não possuímos coisas. Quando nos aborrecemos, mudamos para a outra margem do rio; fazemos de uma árvore a nossa casa ou escavamos um castelo na areia. É-nos indiferente outra música, outra poesia, outra beleza que não aquela que carregamos dentro de nós ou conseguimos aprender nas flores.
Os homens que amei eram porteiros e zeladores do Neverland. Amei-os pelas suas funções e ninguém em sã consciência pode censurar-me por isso.

Selinho Blog em Bom


Discurso de vitória:
Minhas senhoras, meus senhores, indecisos, indefinidos, indiferentes, habitantes do Lago Tanganita, visitantes, observadores sociais e pessoas que vieram ao engano:
Em meu nome e em nome desta intrépida tripulação pirata, agradeço este prémio maravilhoso à Palmier Encoberto, a quem desde já congratulo publicamente pelo seu irrepreensível gosto em matéria de blogues. A ela e ao Pipoco Mais Salgado devo os meus dez leitores. Há mais um, que é a minha irmã, mas até ela só me descobriu através do PMS e só por aqui passa uma vez por mês. 
Poderia dedicar este selinho à memória de Borges, a quem roubei 70% do conteúdo dos posts, ou a alguns bloggers a quem roubei os restantes 30%. Mas dado que isso implicaria um exercício de modéstia que, Ala é grande, nunca experimentei, decidi dedicá-lo à Cláudia Filipa em representação de todas as pessoas que, não sendo suficientemente egomaníacas para alimentarem um blogue, têm a misteriosa paciência de os lerem, assim viabilizando a sua existência. 
Ah... e também agradeço à imprensa estrangeira. 

P.S. Tenho de colar isto na lateral direita? 






terça-feira, 30 de maio de 2017

Dos afetos

Os afetos são a motriz invisível, inodora, inaudível, que os pragmáticos gostam de ignorar. Até vinte e quatro horas antes do fim do prazo de escolha. A partir da vigésima  terceira hora somos todos sentimentais. 

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Ciclo de vida dos jaracandás

Enquanto dormias, as flores dos jaracandás amanheciam mortas e as ruas, ainda ontem tapetes liláses, iam-se cobrindo de um ouro decrépito, resinoso,  agarrado à sola dos pés. 
Colou-se-me a putrefação dos jaracandás e a imagem da boneca, meia despida, abandonada por entre as ervas. Os olhos grandes, azuis, acusadores, erguidos para o primeiro céu da manhã.
Enquanto dormias, desintegrava-se, alheia à tua inocência, a beleza das coisas.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Olá boa noite, sou a Cuca, a Pirata e venho contar-vos coisas da minhavida

Descobri que é muito mais fácil sermos corajosos quando conhecemos o rosto do inimigo.
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Teoria do caos

A oscilação das asas da minha borboleta tem exata correspondência com aquele final de manhã em que nos cruzámos numa das ruas mais movimentadas de Lisboa e, contra todas as probabilidades cósmicas, no espaço de tempo que leva a dizer a frase "dou um estalo na cara a quem me disser que é melhor amar e perder do que nunca ter amado" percebemos o que havia para perceber. 
Então, enquanto ainda o julgava para sempre perdido por entre a multidão, tirei do bolso do casaco o rascunho do destino que tão pacientemente havia desenhado, transformei-o numa inocente bola de papel e atirei-o para o primeiro caixote do lixo que encontrei. 
Quinze anos e dois meses mais tarde, no dia em que ele morreu, já aquele encontro casual tinha mudado profundamente a vida de centenas de pessoas que nunca o viram. 
Ontem, ao ser confrontada com um dos efeitos de longínqua distância do furacão que se seguiu a esse bater de asas, não consegui, inutilmente, evitar perguntar-me se valeu a pena.
Tivesse um dos dois optado por outra rua, ou demorado mais um minuto numa das lojas, ou escolhido o lado da sombra, e o ADN da humanidade seria para sempre outro.
Percebi depois, ou sempre o soube, não sei, que, independentemente dos danos colaterais, a dúvida a respeito desse encontro, encerraria o mesmíssimo grau de estupidez de não saber se valeu a pena conhecer-me a mim própria. 

quinta-feira, 25 de maio de 2017

A noite que nunca acaba

E quando o modo aleatório ignorou o facto de os Cat Empire fazerem parte de uma longa lista de memórias censuradas, estes fizeram-se ouvir no convés do navio com a determinação dos revolucionários, dos loucos e dos piratas.
E todas as células do meu corpo aderiram imediatamente à revolução, impulsionando-o num desarmónico conjunto de saltos  e gestos que, segundo me lembro, constituem aquilo que vulgarmente se designa por dança.
Foram os nove minutos e trinta e cinco segundos em que estive mais viva no último ano.
Mas, de seguida, porque também a música reproduz a história, vieram os Muse com o Space Dementia e sobreveio a mesma velha sensação de queda livre.
No horizonte formou-se, de novo, a noite que nunca acaba.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Formiga

Armazenei-as o mais que soube. Mas, ao entardecer, pendurada no telhado pelos dedos dos pés, vi fugir-me da vista a última das metáforas. 
Este inusitado início de tristeza, bem sei, não é se não o espaço vazio que antecede a chegada da realidade. 
Ninguém precisa da realidade.


quinta-feira, 18 de maio de 2017

Ganhar a perda

Depois de deixar de contar as luas, passaram tantas que já não saberia convertê-las em anos. Escureceram as noites brancas e aprendi o sono. Profundo. Sem sonhos. Sem a sombra dos jaracandás, o cheiro das camélias junto ao lago ou a sensação da montanha nas costas. 
O sono levou tudo: 
a febre do seu corpo na minha pele; o exato peso da mão dele na minha; o jazz no tom da voz. 
Ordenei às células o esquecimento e elas, implacáveis, obedeceram-me, assassinando-o.
Ganhei a guerra do desamor. 
Instalei-me no amplo território das noites escuras e silenciosas onde nenhuma candeia alumia o caminho, nem a rebelião dos sonhos se faz ouvir. 
O diabo a quem vendi a alma cumpriu integralmente a sua parte. 
Ficou este nada, expurgado do que, afinal, era tudo.

terça-feira, 16 de maio de 2017

A papoila

Quando partir, pensei, se alguma vez conseguir partir, pensei, quem reparará naquela única papoila que todos os anos nasce no mesmo canteiro em frente à minha porta? Quando já não estiver aqui para numa qualquer manhã de março ser surpreendida pelo regresso da mesma e única papoila, pensei, como farás para que me lembre que exististe em mim?

sábado, 13 de maio de 2017

Diz Herberto

– A água tem um som.
Mar inesgotável que desliza no silêncio.

Ponho o ouvido à escuta de encontro ao mundo:
ouço-me para dentro. Mal posso
dar no mundo um passo 
sem tremer: sinto-me 
balouçado num sonho imenso, ando
nas pontas dos pés.

E estou só e a noite.

Há palavras que requerem uma pausa e silêncio.
(...)

Herberto Helder, Poemas Completos 

segunda-feira, 1 de maio de 2017

A Senhora dos Papagaios

E então, procurámos Tagik, o berbere contador de estórias, nas portas do deserto. E uma vez mais sentámo-nos no interior de uma tenda feita do azul dos sonhos, por cuja fresta de pano se viam, ao longe, as areias do tempo. E uma vez mais o velho berbere estendeu a mão ressequida para receber as nossas moedas que fez tilintar na mesma taça de prata trabalhada.
E então, Tagik, de voz arrastada, contou-nos da Senhora dos Papagaios:
Existiu no início dos dias, mas Alah é quem mais sabe, uma mulher que desafiou as leis do universo.
Ousou, sob o império do monocromático nude, fazer-se acompanhar por uma mala amarela. E perante o pasmo do povo e a reprovação dos deuses e a revolta dos animais a mulher sentou-se numa praça de pedra branca e abriu a mala e dela retirou mil papagaios, fazendo-os empoleirar-se na palma da mão, primeiro, entre as suas omoplatas, depois, no eixo da lua, por fim. E os papagaios espalharam-se pelo mundo e criaram as florestas e os piratas.
E os velhos deuses, afrontados, castigaram a mulher, tirando-lhe a si a voz que, por vingança, deram aos papagaios; aprisionando-a, muda, no verde imóvel de uma tela; deixando-a para o todo o sempre agarrada à sua mala amarela, fonte de todo o mal.
E ali ficou, para toda a eternidade, o cruel aviso aos homens.
Mas Alah é quem tudo sabe.

N.b. A Senhora dos Papagaios é esta.
E esta.
E esta.
E esta.
E esta.
E esta