quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Da quietude

Não o percebi imediatamente. Quando o cosmos salta da esfera armilar faz-se acompanhar por um ruído impossível de ignorar. Mas quando os astros o devolvem ao seu lugar, há o rumor da folhagem a recolocar-se na direção da luz, que é uma forma extrema de silêncio, e nada mais. 
Um final de tarde em que nenhum facto relevante ocorreu, o corpo e a mente reuniram-se, por fim, no mesmo espaço físico. Então, o tempo verbal presente preencheu todo o cenário, as luzes da cidade reconciliaram-se com o desenho das constelações e eu apreendi a noção da quietude:
É o mais perfeito sinónimo da felicidade.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Bolerinho

Vem miúdo,
desce a rua à esquerda do outono
no passo firme da árvore da vida 
e enlaça-me nesse instante do sono
em que a dois corações uma batida.

Dança comigo de pés torcidos
diz-me a essência dos dias 
dá-me a violência dos tecidos 
conta-me das estórias vadias.

Vem miúdo,
sobe a rua à direita da primavera 
lava-me dos cabelos todo o sal 
manda fechar as portas da guerra
desenha-me um mundo sem mal.

Dança comigo de pés unidos 
alimenta-me a baclava 
faz todos os espaços banidos 
adormece uma rosa brava.

E, miúdo,
Corta do trapézio as cordas.
Ata-as às asas do vento norte,
que, dizem,
– nunca
voar
foi
má-sorte.

Calar o medo

Quis calar o medo com um gesto firme. Dizer-lhe que regressasse ao chão de onde veio. Pisá-lo com as solas de seda dos sapatos de bailarina. Quis levantar o pescoço à altura do arco-íris; habitá-lo por dentro e estender os braços até ao vermelho.
O medo é a neblina que sobe até aos joelhos e submerge o caminho. Tão denso que não nos deixa ver as poças por entre os pés.
Não sei quanto tempo fiquei ali, emudecida, fascinada pelos desenhos que o medo forma quando se levanta do chão.
Ou sei. O tempo que demoram as raízes a chegar ao outro extremo do mundo.

O sentido destas palavras


sábado, 9 de dezembro de 2017

Colonizadores

Enquanto o Chet Baker se estendia ao mais escondido canto da casa e a câmara do tempo filmava em modo lento e a luz da rua morria num amarelo ouro-velho, com as células do coração colonizadas por um olhar oblíquo, tive a esmagadora visão de todas as coisas que sempre deveriam ter sido.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Duas luas

A segunda lua nasceu do asfalto e esperou-me, emboscada, na curva da estrada. Imensa; definitiva; resiliente como as árvores que nascem das sementes caídas dos bicos das aves e fazem o seu caminho nos beirais das casas.
Foi uma lua rosa.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Inveja

De imediato, a deusa vai à mansão da Inveja, imunda 
de negro pus. A casa feia estava escondida no fundo 
de um vale, sempre sem sol, que jamais o vento tocara, 
uma casa triste, toda a abarrotar de um frio entorpecedor, 
onde o lume falta sempre e sempre abunda a escuridão. 
Quando a virgem viril, temível na guerra, ali chegou,
parou diante da casa (nem lhe era permitido na morada 
entrar), e bate à porta com a ponta da lança.
Ao bater, as portas escancaram-se. Lá dentro vê a Inveja,
banqueteando-se com carne de víbora, com que alimenta 
a sua maldade; ao vê-la, desvia o olhar. Esta, por seu lado, 
levanta-se da terra infértil, deixando pelo chão bocados 
de víboras meio-comidas, e avança com passo indolente.
Ao ver a deusa, deslumbrante pela beleza e as armas,
lançou um gemido e contraiu a face, soltando suspiros.
A lividez cobre-lhe o rosto, todo o corpo é escanzelado;
o olhar nunca é frontal, os dentes amarelados de sarro, 
o peito esverdeado de fel, a língua encharcada em veneno.
Jamais um riso, a não ser quando vê alguém sofrendo,
jamais dorme, agitada por angústias que a fazem desperta.
Com desagrado vê os sucessos dos homens, e, ao vê-los, 
definha; e rói os outros e também a si própria se rói,
e este é o seu tormento.

Ovídio, Metamorfoses, Livros Cotovia

O amor é um cão do inferno

Há uma solidão neste mundo tão vasto
que consegues vê-la nos lentos movimentos 
do ponteiro do relógio 

pessoas tão cansadas
mutiladas 
tanto pelo amor como pelo desamor 
as pessoas não são boas umas para as outras 
o próprio para o próprio 

o rico não é bom para o rico
o pobre não é bom para o pobre
nós temos medo

o nosso sistema educativo diz-nos 
que todos podemos ser 
alarves vencedores 

não nos contou 
sobre as sarjetas 
ou sobre os suicídios.

ou sobre o terror de uma pessoa 
agonizando algures
sozinha

intocada
silente 
a regar uma planta. 

Charles Bukovski, in Love is a Dog from Hell
(Tradução minha)

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Eros

Uma vez a cada cinco anos, nem mais nem menos, deixo sair o deus menor da muito subterrânea cave onde o mantenho aprisionado. Liberto-o das correntes, retiro-lhe a mordaça, escovo-lhe as penas das asas e, desarmado de arco ou flecha, permito-lhe que se passeie pela sala, assome à janela e se sente num canto do sofá. Nåo autorizo que me olhe nos olhos; não o deixo tocar a sua música; não o perco de vista por um inteiro segundo.
As razões pelas quais lhe aligeiro o cárcere não são humanitárias. Eros é um deus, ainda que menor, é culpado e não se lhe aplica a comiseração que é devida aos homens. O ritual é um ato de fé. Se preferirem, de desesperançada esperança na reabilitação do prisioneiro.
Invariavelmente, durante um mais longo pestanejar, o deus menor, sem arma nem munições, ensaia uma tentativa de rebelião e acaba por me destruir a sala inteira.

domingo, 26 de novembro de 2017

Domingo

Depois, afundou-se o dia no rio, sobreveio o cansaço das coisas imóveis e uma réstia de frio dentro do casaco abotoado.

sábado, 25 de novembro de 2017

Música no coração

Noutra noite de fiapo de lua, haverá de trilhar o mesmo caminho com idêntica chuva nos olhos. 
A memória que mora nas células faz dos grãos de areia da ampulheta o mais requintado dos cristais. Ninguém sabe se foi há vinte anos ou se foi ontem. Dizem que, em certas noites, quando desce a tampa do piano, quando o salão se esvazia, quando a porta se fecha, a escuridão liberta a sombra de um homem que procura nas janelas de uma casa há muito vazia o contorno de uma mulher.
Dizem que, nessas noites, por toda a vila, faz-se ouvir uma música de cordas tão tristes, que os gatos vão esconder-se dentro do mar, as gaivotas enterram-se na areia e os homens roem as mãos.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

O aleph

Sei de um Aleph. Vive numa certa página de um certo exemplar de “As Metamorfoses”, de Ovídio. Encontrei-o num sítio que não revelarei, quando, entre paredes forradas a livros e sussurros, esperava, sentada numa pesada cadeira antiga, por um homem que sabia que viria. 
Quando cheguei à décima primeira linha da página, por baixo do nome de Júpiter, surgiu-me a inusitada janela para o universo. Vi um minúsculo olho desenhado a carvão e, com o livro pousado nos joelhos, foi através dele que espreitei. Então foi-me dado ver o universo. Vi cada uma das cores do arco-íris, por ordem inversa à sua. Vi os olhos vermelhos de uma criança albina e a mão despigmentada com que colheu a rosa branca. Vi uma crisálida estremecer lenta na transformação. Vi Hera, sentada à comprida mesa do Olimpo, exercer o arbítrio e a maldade que são a massa dos deuses. Vi homens iguais de distintas fardas matarem-se por razão ignota do alto dos seus cavalos assustados. Vi a escuridão da gruta onde o primeiro homem, a sangue, desenhou o primeiro animal pelo prazer de o rememorar. Vi o mar imenso, cada uma das suas criaturas, e tive saudade e medo. Vi os canhões apontados à praia e depois os mísseis que um dia alcançarão a lua. Vi Homero guiar Dante pelos círculos do Inferno e Beatriz, que estava irremediavelmente morta. Vi Eurídice maldizer Orfeu que não a libertou e o meu próprio Orfeu, para sempre preso no Hades pela minha resolução de não olhar para trás. Vi um diamante no dedo anelar de uma mulher vestida de vermelho e a sua vaga expressão de felicidade. Vi uma criança que fui eu própria e a sua saia de índia. Vi o Ganges, cada um dos seus mortos e todas as viúvas. Vi num teatro desconhecido dois amantes partilharem o mesmo veneno e tornarem-se imortais. Vi a mão de Borges escrever o seu Aleph, de onde este haveria de nascer. Vi o riso dançar dentro dos olhos do homem que esperei sabendo que viria.
Depois fechei o livro e, ao acaso, devolvi-o a uma imensa estante. 
Nem sempre o universo é moeda para um riso que dança dentro dos olhos.



domingo, 12 de novembro de 2017

Diário de Bordo

Esta intrépida tripulação Pirata e a sua imodesta capitã, enquanto passavam férias estirados nas cadeiras das tabernas de Tortuga, ouviram falar de um tal de Triângulo das Bermudas e da quantidade de navios que para lá estão acompanhados dos respetivos cofres. Fartos de assaltar navios de cruzeiro carregados de velhinhos nórdicos, decidimos imediatamente, por unanimidade menos um voto, rumar ao tal do Triângulo das Bermudas, mergulhar no ouro, na prata e nas pedrarias desaparecidas e retornar, ricos e gloriosos, do fundo dos mares. Os velhos piratas de Tortuga, quando souberam do empreendimento, fizeram umas estranhas expressões com os olhos e gritaram-nos qualquer coisa que se assemelhou vagamente a palavras de aviso. Porém, decididos como somos, por essa altura, já estávamos demasiado longe para ouvir outro som que não o doce chamamento da aventura. É, pois, possível que nada saibam de nós por uns tempos.
O voto contra, é claro, foi o meu.

Enquanto o frio não vem...

... podia ficar aqui, imóvel, debaixo da árvore da vida, durante mais estações do aquelas que soubesse contar.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Bolerinhos

Arrastava na voz a quentura de um lamento apaixonado que foi enchendo a sala.
O sofrimento, quando é fingido, é doce e as suas notas douradas têm a força que aproxima os corpos. As cabeças juntam-se, os corações sincronizam-se.
Tivessem os amantes, como os músicos e os poetas, a capacidade de manter a paixão no plano do fingimento e o mundo seria um sítio perfeito para se viver.


domingo, 5 de novembro de 2017

Asas

Lá no alto,
com o silêncio dentro dos carros a fazer-me cócegas nos pés,
a solidez do ferro e a ponte ao alcance dos meus dedos,
a cabeça dentro de uma nuvem sem forma,
Vi esse anjo de papelão que,
no fim do dia,
espera-me, quieto, à entrada de casa.
E soube, então,
da urgência de lhe consertar as asas.



Recados

Blind Pew

Longe do mar e da formosa guerra,
Que, como o amor, o que perdeu glória,
O bucaneiro cego percorria
Os terrosos caminhos de Inglaterra

Ladrado pelos cães de tantas quintas,
Chacota dos rapazes do povoado, 
Dormia um combalido e tão gretado
Sono em valas de pó negro, retintas.

Sabia que remotas praias de ouro
Era seu recôndito tesouro
Aliviando-lhe a contrária sorte;

Também a ti, mas noutras praias de ouro, 
Te aguarda incorruptível teu tesouro:
A vasta e vaga e necessária morte.

Jorge Luis Borges, in Obras Completas, II, Teorema

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Blimunda

Veio de Blimunda, a melhor prova de amor da literatura ocidental. Também ela, amaldiçoada com o poder de ver os interstícios do mundo em jejum, escolheu comer um pedaço de pão antes de, a cada manhã, olhar na direção do seu amante Baltazar.
A omnisciência retira ao amor aquilo que tem de mais humano: Esse último reduto dos atos de fé.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

New moon

Nasceu da chuva a nova lua que hoje incendeia o rio.
Lá de cima, vê os telhados da cidade velha pela primeira vez.
É uma lua única. Lavada.
A luz trespassa-nos de inocência.
E, por instantes, cega-nos aos vícios dos Homens.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Pontos de não retorno


Piratas mortos não contam estórias

1. Entrei na fábrica de memórias. Procurei o balcão de atendimento. Pedi duas.
Depois sentei-me, aqui, à espera que me entreguem a minha encomenda. Embrulhada em papel celofane e fita azul.  
2. A mulher que limpa o chão passa por mim sem me ver. Tem o coração pesado, a pender-lhe para o bolso da bata, e os sapatos gastos de quem caminhou ruas demasiado compridas. Uma ruga faz-se e desfaz-se à mercê do capricho da nódoa no chão de pedra. 
3. A nódoa está ali desde o tempo em que a fábrica produzia sonhos. Depois as pessoas começaram a queixar-se da qualidade do produto. Havia quem nunca conseguisse sonhar com quem queria e quem sonhasse estórias tão longas que seriam necessários muitos meses de sonho para que chegassem ao fim. Agora já só fabricam memórias. São o sucedâneo inofensivo dos sonhos.
4. Se esperar o suficiente, acabarei por receber das mãos de alguém as duas memórias novas que encomendei. Depois, posso chegar a casa, deixar o Chet Baker embalar-me numa velha música, abrir uma garrafa de vinho e a minha encomenda, e, por fim, injetar na jugular as duas novas menórias que mandei fabricar. 



terça-feira, 31 de outubro de 2017

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

cair

Antecipo a queda, rápida e inevitável. Um princípio de dor que é o pasmo a dissipar-se. As mãos ainda no chão e o corpo já erguido, a obedecer à lei da gravidade. Reposiciono os ossos e sacudo-me, como se sacodem os cães quando percebem que se magoaram. A queda será mais leve porque a rua estará vazia. Para não escorregar, atiro-me ao chão.

sábado, 28 de outubro de 2017

funambulismo

De joelhos, procurei debaixo da cama a velha caixa de prata. Arrastei-a para o fiapo de luz lunar, retirei-lhe a tampa pesada, reencontrei as minhas velhas cordas de funambulista. 
Passei metade da noite a atá-la entre as estrelas, com nós de marinheiro. Na outra metade, atravessei inteira uma constelação menor. 
Os passos são mais lentos, mas os pés escorregam menos. 
A noite, essa, é tão profunda, assustadora e densa como nos primeiros dias.

domingo, 22 de outubro de 2017

Fábula

que não sabia, noite, o cerne das palavras
rumo ao tempo, dia, quando o que fomos
era um campo resistindo, noite, ao avanço 
da luz pelo ombro do dia, perguntaste, noite,
Porque é que não pode ser sempre assim,
um dia, uma noite, e haver alguma verdade
nisto, Como por exemplo o quê, perguntei-te,
Como por exemplo nós, respondeu alguém,
mas então a noite já se misturava com o dia
e o universo amanhecia num leve tom diferente


Rui Costa, Mike Tyson para Principiantes, Assírio & Alvim

sábado, 21 de outubro de 2017

Ist mir mîn leben getroumet, oder ist es wâr?

Todas as albas trazem a sombra de muitas ausências que são uma única. Ao acordar, se estender os dedos, quase que ainda consigo tocar a água do Nilo, a lama do Assuão, uma concreta palmeira das Caraíbas, um dragão pendurado num prédio de Veneza, o botão do velho elevador a que demos um nome que já esqueci, os pés nus do Eros de Caravaggio, o portão de ferro de um palácio abandonado, o pássaro que veio morrer aos meus pés.
Como no verso de von der Vogelweide, também eu não sei se sonhei a minha vida ou se é verdadeira.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Esta tão doce banalidade

Veio a chuva, veio a noite, veio o tédio na curva da casa que já me pertence. 
O poeta dorme ao lado no livro fechado e gosto sempre de pensar no que diria sobre as porcelanas no armário. Tantos tachos, tantas velas, naperons bordados que são uma estaca espetada no peito de quem tanta diferença esperou de mim.
Não devemos ter vergonha de ser apenas isto. Uma mulher também se mede pelo número de faqueiros que tem à sua disposição. É um critério tão válido como outro qualquer. Acumulo mobiliário com a mesma alegria com que antes acumulei gotas de chuva. Não me interessa a deceção espelhada nos cantos dos lábios do poeta que dorme ao lado no livro fechado. Posso bem ter descoberto a receita para a sobrevivência: esta tão doce banalidade.

Escapar


domingo, 15 de outubro de 2017

Por um ciclone

Não sei, não sei a quem, juraria por deus se fosse de jurar e logo de jurar por deus, não sei a quem, dizia, pode agradar este bizarro outono de folhas que se acamam pelas vielas à miserável temperatura de trinta e três graus.
Preciso de um início de frio que devolva a coerência ao mundo. Ou, em alternativa, que as folhas desistam de vez de cair e declarem suspensa a estação. Preciso de uma rebelião organizada da natureza. De um ciclone que agite a cauda e arraste para o vórtice os restos putrefactos de um verão morto.
Estas folhas que hoje se passeiam sozinhas pelo chão e se enrolam em pés descalços, recebo-as com o asco da cuspidela que insulta a nostalgia.
Todas as noites abro as minhas janelas à espera do frio; pinto-me de índia e danço nua pela chuva, para, depois, acordar neste pesadelo de árvores que se esvaem à temperatura do corpo.
Não sei, juro por deus que não sei, a quem possa agradar tal desarrumação do universo.

sábado, 14 de outubro de 2017

Finalistas

Recebi dois ou três recados do além em formato de poesia póstuma.
Antes de fechar o livro, marquei-o com um anjo, de olhos abertos, preso por um fio dourado. Pendurado no poema, o anjo de olhos abertos afasta os cães cegos pendurados no tecto que afligiam o poeta nas noites de febre.
O anjo zela o sono eterno do poeta que zelou pelos olhos abertos dos anjos.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

a língua das aves


Ouvi-o o mais atentamente que consegui. Compreendi todos os seus estados: o entusiasmo disfarçado; uma felicidade infantil; o medo animal e, por fim, a esperança no fundo da caixa. 
Porém, ocorre-me agora que não percebi uma única frase das que me dirigiu. 
Talvez, com o tempo, tenhamos aprendido a língua das aves. 
É supérfluo o vocabulário dos homens quando é sabido que lhes sobreviveremos muitos milénios e tudo o que precisamos ouvir é um fio de voz, preso ao coração. 

sábado, 7 de outubro de 2017

Late for the moon

Ia alta a lua.
Demasiado para se fazer espelhar
Na água que escapou do rio.

Uma lua inatingível 
Sobre um leito de lama.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Caderno de encargos

Exigir-lhe-ei a lua, plena, a nascer sobre os velhos telhados da Lisboa nova. E a luz que têm as tardes que terminam no exato instante de um começo. Nem vento, nem brisa do deserto, nem um resto de areia entre os dentes. Exigir-lhe-ei o jardim de laranjeiras; a sombra ardente do início dos sonhos; a casa na árvore no cimo da avenida de tílias. Exigir-lhe-ei as linhas da mão; o mapa dos dias que não chegaram; a bússola que esconde dentro de peito. 
Tenho os dedos vazios, mas pagarei a crédito. 

sábado, 30 de setembro de 2017

Espólio

Não sei quantas daquelas palavras me pertencem. Quantas me foram roubadas. Quantas ofereci. Quantas me acertam e quantas me falham. Quantas erradamente faço minhas. Quantas são oferenda que rejeito. 
Não sei e já não resta quem me possa ensiná-lo. 

sábado, 23 de setembro de 2017

Diário de Bordo

No final de agosto, soltámos amarras e navegámos os últimos dias da canícula em direção ao mar das Caraíbas. 
Diz-se que fugimos de um saque mal sucedido, mas, como sempre, há mais poesia na verdade. 
Esta intrépida tripulação pirata e a sua capitã, que suportam os círculos do inferno de Dante desde que nisso alguma vantagem imaginem, são incapazes de sofrer a nostalgia de um início de outono. 
Foi do abrupto anoitecer de setembro, das folhas das árvores na calçada, da chuva mansa que perfura os corações, do vento que corta noites sem lua, do definhamento que preenche o outono, que fugimos. 
Roubámos de manhã, gastámos pela tardinha, navegámos de noite e  chegámos a Tortuga a tempo dos festejos da reentrée.
Ainda as amarras não estavam presas, já polly, o papagaio pirata, guinchava recados da terra: 
Jack está cá.
Passaremos os próximos dias no conforto deste porto que sempre nos recebe com o morno abraço da normalidade. 
E não sei se já tinha dito, mas Jack está cá.

Uma marca no espaço

No universo já não havia um incluente e um incluído, mas apenas uma espessura geral de sinais sobrepostos e aglutinados que ocupava todo o volume do espaço, era um borrifo contínuo, densíssimo, um reticulado de linhas e traços e relevos e incisões, o universo estava rabiscado por todos os lados, ao longo de todas as dimensões. Já não havia maneira de fixar um ponto de referência: a galáxia continuava a dar voltas mas eu já não conseguia contá-las, qualquer ponto poderia ser o de partida, qualquer sinal em cima dos outros poderia ser o meu, mas descobri-lo não serviria de nada, de tal modo era claro que independentemente dos sinais o espaço não existia e se calhar nunca tinha existido. 

Todas as Cosmicómicas, Italo Calvino, Teorema. 

O princípio do fim

A primeira folha que se solta da árvore e é guiada pelo vento à esquina do outono.  Um cabelo branco que uma manhã brilha mais do que o espelho que o revela. O pelotão das aves que se atrasam no caminho do sol sobre uma ceara madura. A má palavra que se formou na boca amarga de um amante. O virar da página que antecede as letras do título do último capítulo. Sessenta segundos para a meia na noite nas vésperas de um solstício. A primeira madrugada de chuva de agosto. A nota inicial do compasso lento na tecla do piano. A nódoa que alastra no pano de puro branco. O roçar das asas da mosca na prata metálica da teia. 
Esse instante de indiferença em que esqueci o teu nome. 

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Lua Nova

Até o rio, cujo leito não lhe permite perder-se, procura na noite escura a sua lua. 
E é esta a minha frágil alegação de defesa.