sexta-feira, 26 de maio de 2017

Olá boa noite, sou a Cuca, a Pirata e venho contar-vos coisas da minhavida

Descobri que é muito mais fácil sermos corajosos quando conhecemos o rosto do inimigo.
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Teoria do caos

A oscilação das asas da minha borboleta tem exata correspondência com aquele final de manhã em que nos cruzámos numa das ruas mais movimentadas de Lisboa e, contra todas as probabilidades cósmicas, no espaço de tempo que leva a dizer a frase "dou um estalo na cara a quem me disser que é melhor amar e perder do que nunca ter amado" percebemos o que havia para perceber. 
Então, enquanto ainda o julgava para sempre perdido por entre a multidão, tirei do bolso do casaco o rascunho do destino que tão pacientemente havia desenhado, transformei-o numa inocente bola de papel e atirei-o para o primeiro caixote do lixo que encontrei. 
Quinze anos e dois meses mais tarde, no dia em que ele morreu, já aquele encontro casual tinha mudado profundamente a vida de centenas de pessoas que nunca o viram. 
Ontem, ao ser confrontada com um dos efeitos de longínqua distância do furacão que se seguiu a esse bater de asas, não consegui, inutilmente, evitar perguntar-me se valeu a pena.
Tivesse um dos dois optado por outra rua, ou demorado mais um minuto numa das lojas, ou escolhido o lado da sombra, e o ADN da humanidade seria para sempre outro.
Percebi depois, ou sempre o soube, não sei, que, independentemente dos danos colaterais, a dúvida a respeito desse encontro, encerraria o mesmíssimo grau de estupidez de não saber se valeu a pena conhecer-me a mim própria. 

quinta-feira, 25 de maio de 2017

A noite que nunca acaba

E quando o modo aleatório ignorou o facto de os Cat Empire fazerem parte de uma longa lista de memórias censuradas, estes fizeram-se ouvir no convés do navio com a determinação dos revolucionários, dos loucos e dos piratas.
E todas as células do meu corpo aderiram imediatamente à revolução, impulsionando-o num desarmónico conjunto de saltos  e gestos que, segundo me lembro, constituem aquilo que vulgarmente se designa por dança.
Foram os nove minutos e trinta e cinco segundos em que estive mais viva no último ano.
Mas, de seguida, porque também a música reproduz a história, vieram os Muse com o Space Dementia e sobreveio a mesma velha sensação de queda livre.
No horizonte formou-se, de novo, a noite que nunca acaba.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Formiga

Armazenei-as o mais que soube. Mas, ao entardecer, pendurada no telhado pelos dedos dos pés, vi fugir-me da vista a última das metáforas. 
Este inusitado início de tristeza, bem sei, não é se não o espaço vazio que antecede a chegada da realidade. 
Ninguém precisa da realidade.


quinta-feira, 18 de maio de 2017

Ganhar a perda

Depois de deixar de contar as luas, passaram tantas que já não saberia convertê-las em anos. Escureceram as noites brancas e aprendi o sono. Profundo. Sem sonhos. Sem a sombra dos jaracandás, o cheiro das camélias junto ao lago ou a sensação da montanha nas costas. 
O sono levou tudo: 
a febre do seu corpo na minha pele; o exato peso da mão dele na minha; o jazz no tom da voz. 
Ordenei às células o esquecimento e elas, implacáveis, obedeceram-me, assassinando-o.
Ganhei a guerra do desamor. 
Instalei-me no amplo território das noites escuras e silenciosas onde nenhuma candeia alumia o caminho, nem a rebelião dos sonhos se faz ouvir. 
O diabo a quem vendi a alma cumpriu integralmente a sua parte. 
Ficou este nada, expurgado do que, afinal, era tudo.

terça-feira, 16 de maio de 2017

A papoila

Quando partir, pensei, se alguma vez conseguir partir, pensei, quem reparará naquela única papoila que todos os anos nasce no mesmo canteiro em frente à minha porta? Quando já não estiver aqui para numa qualquer manhã de março ser surpreendida pelo regresso da mesma e única papoila, pensei, como farás para que me lembre que exististe em mim?

sábado, 13 de maio de 2017

Diz Herberto

– A água tem um som.
Mar inesgotável que desliza no silêncio.

Ponho o ouvido à escuta de encontro ao mundo:
ouço-me para dentro. Mal posso
dar no mundo um passo 
sem tremer: sinto-me 
balouçado num sonho imenso, ando
nas pontas dos pés.

E estou só e a noite.

Há palavras que requerem uma pausa e silêncio.
(...)

Herberto Helder, Poemas Completos 

segunda-feira, 1 de maio de 2017

A Senhora dos Papagaios

E então, procurámos Tagik, o berbere contador de estórias, nas portas do deserto. E uma vez mais sentámo-nos no interior de uma tenda feita do azul dos sonhos, por cuja fresta de pano se viam, ao longe, as areias do tempo. E uma vez mais o velho berbere estendeu a mão ressequida para receber as nossas moedas que fez tilintar na mesma taça de prata trabalhada.
E então, Tagik, de voz arrastada, contou-nos da Senhora dos Papagaios:
Existiu no início dos dias, mas Alah é quem mais sabe, uma mulher que desafiou as leis do universo.
Ousou, sob o império do monocromático nude, fazer-se acompanhar por uma mala amarela. E perante o pasmo do povo e a reprovação dos deuses e a revolta dos animais a mulher sentou-se numa praça de pedra branca e abriu a mala e dela retirou mil papagaios, fazendo-os empoleirar-se na palma da mão, primeiro, entre as suas omoplatas, depois, no eixo da lua, por fim. E os papagaios espalharam-se pelo mundo e criaram as florestas e os piratas.
E os velhos deuses, afrontados, castigaram a mulher, tirando-lhe a si a voz que, por vingança, deram aos papagaios; aprisionando-a, muda, no verde imóvel de uma tela; deixando-a para o todo o sempre agarrada à sua mala amarela, fonte de todo o mal.
E ali ficou, para toda a eternidade, o cruel aviso aos homens.
Mas Alah é quem tudo sabe.

N.b. A Senhora dos Papagaios é esta.
E esta.
E esta.
E esta.
E esta.
E esta

terça-feira, 25 de abril de 2017

Adivinhações

Diz-me o facebook, tratando-me pelo primeiro nome e convertido em cartomante de esquina, que aproveite o sol; que as nuvens estão a dissipar-se.

Sonos

A estância balnear que habito acordou da sua triste hibernação. Levou uma inteira quinzena no estremecimento do fim do sono, em pestanejos indecisos, no espreguiçar lento dos músculos entorpecidos e, por fim, veio a manhã em que o verão já se instalara cansado. Parece de sempre o cheiro dos bronzeadores na espuma das ondas; são velhas as bolas encarnadas nas mãos das crianças; estão exaustos os vendedores e cestas que arrastam consigo; comidas do sol as ementas dos gelados. De repente, é verão há muito tempo na estância balnear que habito.
Também eu sinto ter sido arrancada ao sono.
Um sono profundo, vazio, antigo, milenar.
Daqueles em que se acorda com rugas nas mãos e cabelos soltos até aos pés.

domingo, 23 de abril de 2017


morrer

Quando a asa do pássaro metálico se inclinou sobre a minha ilha e do alto das nuvens eu vi a praia, esse estalido involuntário da língua, foi o quebrar de uma das juntas do coração.
E eu morri, morri assim devagar e para sempre e pela última vez.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Regressos

Errada, cuidei que não saberia regressar.
Errada, esqueci-me que aquilo que não sei é partir.

domingo, 9 de abril de 2017

Rastas

Dentro de uma das mangas de renda branca, escondo a alma rastafari. Durante o jantar, escorrega pelo pulso uma madeixa de cabelos enrolados que desce até aos dedos. Sacudo a mão com um único gesto firme, da esquerda para a direita, como quem afasta um mosquito imaginário.
Olho disfarçadamente para o pulso reentregue à decência das rendas brancas.
E quando ele me pergunta qual é meu superpoder, não lhe digo, é claro que não lhe digo, que é a minha ilimitada capacidade de desprezo.

Tortuga


sábado, 8 de abril de 2017

As estórias têm de ser bonitas todos os dias

Na penumbra do céu carregado, ao som de um violino ou de um saxofone solitário, com poemas pousados nos joelhos, a estória, no plano do pensamento, até pode parecer bonita. Mas à luz do sol, com o rio ali por trás, a voz mansa dos amigos, o patético esforço da busca de um sinónimo que poupe a palavra cobarde, a mesma estória, não consegue contar-se de uma maneira que não a faça parecer-se terrivelmente feia.
As estórias, percebi-o finalmente, são aquilo que soam à luz do dia e com ruído ambiente.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Promessa

ofereço-te esta tarde de desvento.
as flores agarradas aos ramos das árvores
e os ramos seguros à seiva do tempo.

o pátio lá fora num silêncio de sesta,
o gato que se estende sobre o calor das pedras
e a imobilidade mágica do sol que resta.

a luz que se aninha nos meus pés descalços,
o lençol; cada um dos eivos do seu vasto deserto
e os espelhos onde se desfazem medos falsos.

nuances de sombra azul que me habitam
um ou outro grito arrancado à carne
penas que compõem as asas ou as imitam.

Ofereço-te o que não pode perdurar:
o olhar líquido que inventa a tarde,
a insídia de um veneno que não arde,
a abstrata, vã, promessa de te amar.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Salvação

Hoje salvou o meu dia o poema que um poeta desinteressadamente partilhou.
Os poetas não sabem que, às vezes, salvam os nossos dias.
Devíamos dizer-lhes mais vezes. 

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Universo paralelo

Num qualquer outro universo paralelo, nas respetivas salas de cortinas arredadas, um homem e uma mulher espiam-se mutuamente.
Poderiam ter sido Adão e Eva antes do paraíso; dois amantes num final de tarde de inusitada chuva; os noivos que trocam votos que desconhecem não saber cumprir; selvagens na densa floresta onde jamais entrou a luz de deus; velhos que esperam a dócil morte de mãos juntas num banco do alpendre.
Conhecem-se as vozes que nunca antes ouviram e sabem que dentro do outro há um compartimento secreto onde se estende o Sahara.
Quando a noite cair, sonharão um corpo que descansa ao seu lado e com ele partilharão a solidão que foi o dia.
Nunca serão nada.

avariada

Esse resto de estórias incompletas é um depósito de brinquedos avariados. Falta a cabeça àquele poema; um guiador a um conto; os braços a um outro texto. Vivo estórias incompletas, sentada num balouço defeituoso, que se move ao ritmo de um coração, também ele, avariado.

domingo, 2 de abril de 2017

Diário de bordo

Com o vento a dançar na tumba fresca da tarde, regressei da guerra, sentada na tábua que sobrou. Apesar de rasgadas e sujas, estas ainda são as vestes de Pirata. Na guerra, perdi quase tudo. Salvei, por ordem de importância, o chapéu, a vida e a dignidade. Enfrentei a a baleia branca que jaz agora no fundo dos tempos e é como se a vida me pertencesse uma vez mais.
A minha ociosa tripulação recebeu-me em festa, de navio engalanado, sunset party e rum à descrição, não por me esperar mas, precisamente, por já não me esperar.
À chegada, comuniquei-lhes a minha irrevogável decisão:
Regressaremos ao nosso porto de origem. Afinal, até os Piratas, mais tarde ou mais cedo, precisam de voltar para casa. 

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sábado, 1 de abril de 2017

Ontem

Deitada na  nuvem apanhei uma gota de água e montei, na palma da mão, o meu próprio Aleph. Vi uns pés que conheço melhor do que os meus deambularem descalços pela penumbra derramada  no chão frio da cozinha; vi as cordas de uma guitarra esquecida atrás da porta; vi o espaço vazio da estante onde viveu o livro que ocupa o espaço antes vazio numa outra estante; vi uma orquídea que desistiu de florir; vi o búzio partido dentro de uma caixa, dentro de outra caixa, dentro de outra casa de penumbra derramada; vi um quadro em tons de cinzento deixado num cavalete; vi num espelho antigo o reflexo de um rosto triste; vi a estrada que vai da montanha até à lua e estava vazia. E então soprei a gota de água e fiquei a vê-la escorrer através dos dedos até ser apenas a chuva dos homens. 

quarta-feira, 29 de março de 2017

Duas viagens e um destino

A Sata oferece-me "uma viagem e dois destinos".
Ocorre-me que a Sata cumpriu a sua promessa comigo vários anos antes de a campanha ser inventada. A última vez que me ofereceu uma viagem, abriram-se imediatamente, no universo, dois destinos.
Compro duas viagens à Sata.

É isto

Tenho umas flores artificiais vagamente parecidas com camélias. Se baixar as luzes e olhar à distância são iguais às camélias. Houve um tempo em que as camélias eram verdadeiras e chegavam à terça-feira. Era o tempo em que o futuro ficava à distância de dois aviões. Depois o futuro chegou. As  camélias são falsificadas. A jarra, pelo menos, é sólida.

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Substituí com considerável êxito a obsessão com a confeção de muffins pela aprendizagem do piano. Sou péssima em ambas e os progressos são igualmente miseráveis. Mas, de uma forma algo incompreensível, tocar piano para afastar a infelicidade faz-me parecer menos louca.

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Abandonei a leitura da Ilíada. Abandonar a leitura da Ilíada é a atividade mais consistente que desempenho nos últimos vinte anos. Já o fiz em dez casas diferentes. Também abandonei a leitura da Ilíada em diversos hotéis e até em casas onde não vivia. Essas não contei. Abandonar a leitura da Ilíada passou a ser um traço de personalidade.

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Enquanto a senhora da farmácia me entregava o troco, percebi, da forma como se percebem as coisas que são, que nunca conseguirei escolher ir-me embora. O exílio é a oitava costela do Pirata. Esse local mágico onde não esteve o passado, não estará o futuro e o presente está quase a terminar. Até os bêbados, diz-se, sabem sempre o caminho de casa. Mas eu preciso desesperadamente de um GPS.

domingo, 26 de março de 2017

Borboletas

No mar não há borboletas.

Faz-me falta uma asa colorida,
de patas pousadas no interior do pulso
a medir-me o ritmo da vida.

É assim que as fadas sabem 
se ainda temos coração.

Tilt

Enquanto desabava a matéria da nuvem, sempre a mesma, que até as nuvens são previsivelmente aborrecidas, parei o carro numa estação de serviço e fiquei lá dentro, imóvel e silenciosa, à espera que tudo aquilo acabasse. É uma filosofia de vida tão válida como outra qualquer: ficar dentro de uma redoma de vidro, artificialmente temperada, imóvel e silenciosa, à espera que tudo isto acabe. 

sexta-feira, 24 de março de 2017

A Prova

Tenho irreversivelmente tatuada na retina a fotografia do homem que chora. Não a vejo há vários anos mas conheço de cor cada detalhe. A ruga funda da testa. Uma única lágrima amparada na lente dos óculos. Os cantos dos olhos vermelhos. A pele do rosto manchada. Os cabelos desalinhados pelo vento. O mar ao fundo. A fotografia do homem que chora está guardada dentro de uma pasta, dentro de outra pasta, dentro de uma terceira pasta. Nenhuma tem nome e foram atiradas ao acaso para o interior de um labirinto de memórias inúteis. Mesmo que quisesse, dificilmente a conseguiria encontrar. É a expressão congelada do sofrimento. Um sofrimento que se devolve, como quem estica o braço, abre a palma da mão e diz "Toma. Aqui tens a essência do mal. Agora pertence-te a ti e não mais a mim."
Às vezes sei que essa única imagem que não posso esquecer é a última  que verei na vida. 

quarta-feira, 22 de março de 2017

Eternidade

Daqui, de onde me quis trazer o mar, de costas unidas ao chão do barco que me serve de leito, embalada pelas ondas e pelo som do vento norte, é mais real a noite e são mais próximas as estrelas. Um homem comum, numa noite igual a esta, inventou deus. Outro homem, na mesma noite do futuro, destruirá o tempo. Talvez então um terceiro homem possa encontrar a eternidade. 

terça-feira, 21 de março de 2017

Delete

Não é necessário morrer para ver o passado desfilar em passo apressado, diante dos nossos olhos, rumo ao vazio cósmico. Uma alternativa igualmente definitiva mas menos dramática é carregar no botão delete e ficar-se sentado a ver desaparecer coleções inteiras de sorrisos que já ninguém sabe nem quer saber se foram, ou não, felizes. Algures a meio do processo, a exterminadora que há em mim passou pela sala e decidiu apagar também todas as músicas, todos os vídeos e todos os textos. No final, julgo não ter deixado uma única prova digital de que tive mais passado do que as últimas duas horas. 
Paradoxalmente, ou talvez nem tanto, o computador continuou a avisar que o disco rígido está cheio. 

sexta-feira, 17 de março de 2017

Da Noite

Ah, o alívio de uma noite grave e pesada a abater-se sobre a ligeireza da luz:
"Cantarei a criadora dos homens e deuses — cantarei a Noite", disse Herberto, sem saber, certamente, que é na página do crepúsculo que os deuses esboçam as linhas esquecidas do teu rosto. 

sábado, 11 de março de 2017

Diário de Bordo



Mandei que me aprontassem um escaler, mantimentos para alguns dias e a última edição de bolso da Ilíada, pois, constatei que, entretanto, num dos quatro continentes que lhe dei a conhecer, perdi a minha.
Parto esta noite, sozinha, como deve fazer-se quando se usa com seriedade o verbo partir.
Tal como Ahab, o louco, também eu naveguei os mares à procura da minha baleia branca, decidida a assassiná-la. 
Mas, ao contrário do capitão louco, não apenas não conduzi a minha tripulação à tragédia, como guardo o escrúpulo de travar a solo as batalhas que só a mim estão destinadas.
Encontrei a Moby Dick dos meus pesadelos e é dentro da memória que a aniquilarei. As memórias são o produto do esquartejamento do destino que escolhemos guardar. 
Despedi-me desta intrépida tripulação Pirata com a solenidade daqueles que sabem que nem sempre se regressa a casa. Creio ter visto nos olhos do meu selvagem cozinheiro viking um, tão frágil quanto inusitado, laivo de humanidade. 
Guardo-o. Um resto de humanidade é bússola que sempre nos poderá fazer falta quando se navegam as ondas dos deuses em frágeis botes construídos por homens.




(Fotografia retirada de monoimages.com)

Adivinhação

Perguntei a Homero, 
que tudo sabe, 
mas o oráculo despediu-me,
reencaminhando-me para o mar.

– "Todas as coisa ele sabia:
as que são, 
as que serão 
e as que já foram."

Pela manhã, ajoelhei-me 
na areia pura. 
Limpa de viúvas de pescadores, 
gaivotas desorientadas, 
búzios que carregam sons 
de outros mundos, 
mensagens desesperadas 
dentro de garrafas antigas. 
Conheci o conforto dos crentes 
nesse gesto mudo 
de perguntar a direção 
dos próprios passos.
Mas o mar declarou-se incompetente;
inconstante na fúria; 
escravo dos humores da lua. 

Esperei a lua, 
pendurada na noite.
Perguntei-lhe ao ouvido 
a direção dos meus pés.
A lua, iluminou-os 
mas, fazendo jus à fama
nem se dignou responder-me.

Sobram-me os pés descalços
E o esboço de mil caminhos.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Kele


Síntese

Alugo o corpo aos dias entre gestos repetidos e a ligeira nostalgia da liberdade. Nenhuma música embala a pressa. Nenhum poema prenuncia a manhã. Afogo na chávena de café o sono, o cansaço, o tédio. Há um relógio em cima da ampulheta e por baixo desta há uma clepsidra. Medem a escravidão. Das janelas vê-se o azul do céu. Sonho, às vezes, que um dia será meu. 
Ensinaram-me que é do chão que vem o medo. Esta forma de coragem, porém, é de oriente ignoto.

quarta-feira, 8 de março de 2017

domingo, 5 de março de 2017

Labirinto

Nunca haverá uma porta. Estás cá dentro
E a fortaleza abarca o universo
E não possui anverso nem reverso
Nem externo muro nem secreto centro.
Não esperes que o rigor do teu caminho 
Que obstinado se bifurca noutro, 
E obstinado se bifurca noutro,
Tenha fim. É de ferro o teu destino
Como o juiz. Não esperes a investida 
Do touro que é um homem, cuja estranha 
Forma plural dá horror à maranha
De interminável pedra entretecida.
Não existe evasão. Nada te espera.
Nem no negro crepúsculo a fera.

Jorge Luis Borges, Elogio da Sombra, Obras Completas, Vol. II, Teorema.

Cinzento

Todas as tardes cinzentas, de chuva miúda, são a mesma tarde em que o vi partir pela primeira vez. Pouco importam os céus de cada regresso, a ave que os cruza ou o avião que os desfaz. Uma promessa, sobretudo quando incumprida, é um grito que ecoa na eternidade. 

Canção da Lua


sábado, 4 de março de 2017

Forgiveness

Não chegou a prometida paz. Ninguém escapou ao tempo mas também ninguém esqueceu. O perdão acenou-nos lá do fundo do seu horizonte sem jamais ser tangido. 
São indispensáveis milhões de anos para limar a aresta de uma rocha. Os homens contam o tempo numa medida menos desesperada: Em crepúsculos, auroras, solstícios, equinócios. É a resiliência das rochas que nos força a encontrar um sentido para tão inútil curta existência. 
Escolhemos o erro e o arrependimento com a displicência com que poderíamos ter escolhido o acerto e a glória. 
Agora a moeda caiu no mar profundo e sobreviver-nos-á. Pertence aos deuses o segredo do rosto da vitória.
Os dias que nos sobram serão de frio ou calor, de nuvens ou de céu, da tristeza que é a nossa pena ou da felicidade que é a nossa evasão à pena. 
Mas não virá nenhuma paz, nenhum perdão. Como o previu o poeta, nenhum outro céu, nenhum outro inferno. 

Rico

Rico,
é o que rouba ao esquecimento 
três ou quatro instantes,
e deles faz a sua enxerga
para dormir,
inteiro,
a noite dos animais.