segunda-feira, 28 de março de 2011

Neste blog também se fazem propostas legislativas

O Estado deveria ser chamado a intervir nesse flagelo social que consiste na incompetência generalizada dos cidadãos para manter uma relação amorosa a longo prazo. Além de afectar a produtividade nacional e aumentar o consumo privado, este drama social, pela sua natural susceptibilidade de induzir à depressão, assume contornos de problema de saúde pública. Demonstrado o fracasso geral da auto-regulação, conto com o Estado para nos garantir a todos relações amorosas mais eficazes e sustentáveis. Inspirada no sistema da praxis da minha antiga universidade – onde se publicitavam as relações sérias fazendo um rasgão a meio da capa do traje académico e se anunciava o seu final, cosendo o dito rasgão com linha da cor do curso – burilei um sistema perfeito que nos pode livrar de vários desgostos. Proponho a institucionalização obrigatória de um cadastro público, disponível na internet, dos relacionamentos amorosos de cada um. Uma vez terminada a coisa, o ex casal seria obrigado a preencher um formulário previamente aprovado por uma comissão, do qual constassem, o mais objectivamente possível, além das características do ex-outro, as causas da ruptura. Este sistema teria três inequívocas vantagens: em primeiro lugar, a capacidade de objectividade do outro, com vista a um presumível final e à necessidade de uma justa avaliação, passaria a ser considerada uma virtude indispensável a um relacionamento. Em segundo lugar, todos passaríamos a adoptar o nosso melhor comportamento no decurso da relação em vez de, tal como acontece agora, isso só suceder durante as primeiras duas semanas. Por fim, a disponibilização pública da informação relevante sobre o candidato evitaria esse outro flagelo social que é a publicidade enganosa. Enquanto o Estado se demite da sua função de me garantir uma escolha informada resta-me adoptar uma forma um pouco mais arcaica, mas igualmente eficaz, de despistagem da conversa da treta: a partir de agora só invisto sentimentalmente num homem que esteja disposto a tatuar o meu nome no peito. Assim, por cima do coração.

4 comentários:

  1. Mas exige o nome completo. Nem que tenha que dar a volta ao tronco todo. Para eliminar o risco de depois ele te transformar numa Paracuca ou numa Cucaracha. ;-)

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  2. eheheheheh
    nome e número de passaporte.

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  3. e o sistema quase perfeito da protecção dos 3.ºs de boa-fé para efeitos de registo...

    :)

    um admirável Mundo novo. admirável mas esquizo, não?

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  4. uma garantia bancária first demand também não era mal pensado.

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