sexta-feira, 26 de maio de 2017

Olá boa noite, sou a Cuca, a Pirata e venho contar-vos coisas da minhavida

Descobri que é muito mais fácil sermos corajosos quando conhecemos o rosto do inimigo.
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Teoria do caos

A oscilação das asas da minha borboleta tem exata correspondência com aquele final de manhã em que nos cruzámos numa das ruas mais movimentadas de Lisboa e, contra todas as probabilidades cósmicas, no espaço de tempo que leva a dizer a frase "dou um estalo na cara a quem me disser que é melhor amar e perder do que nunca ter amado" percebemos o que havia para perceber. 
Então, enquanto ainda o julgava para sempre perdido por entre a multidão, tirei do bolso do casaco o rascunho do destino que tão pacientemente havia desenhado, transformei-o numa inocente bola de papel e atirei-o para o primeiro caixote do lixo que encontrei. 
Quinze anos e dois meses mais tarde, no dia em que ele morreu, já aquele encontro casual tinha mudado profundamente a vida de centenas de pessoas que nunca o viram. 
Ontem, ao ser confrontada com um dos efeitos de longínqua distância do furacão que se seguiu a esse bater de asas, não consegui, inutilmente, evitar perguntar-me se valeu a pena.
Tivesse um dos dois optado por outra rua, ou demorado mais um minuto numa das lojas, ou escolhido o lado da sombra, e o ADN da humanidade seria para sempre outro.
Percebi depois, ou sempre o soube, não sei, que, independentemente dos danos colaterais, a dúvida a respeito desse encontro, encerraria o mesmíssimo grau de estupidez de não saber se valeu a pena conhecer-me a mim própria. 

quinta-feira, 25 de maio de 2017

A noite que nunca acaba

E quando o modo aleatório ignorou o facto de os Cat Empire fazerem parte de uma longa lista de memórias censuradas, estes fizeram-se ouvir no convés do navio com a determinação dos revolucionários, dos loucos e dos piratas.
E todas as células do meu corpo aderiram imediatamente à revolução, impulsionando-o num desarmónico conjunto de saltos  e gestos que, segundo me lembro, constituem aquilo que vulgarmente se designa por dança.
Foram os nove minutos e trinta e cinco segundos em que estive mais viva no último ano.
Mas, de seguida, porque também a música reproduz a história, vieram os Muse com o Space Dementia e sobreveio a mesma velha sensação de queda livre.
No horizonte formou-se, de novo, a noite que nunca acaba.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Formiga

Armazenei-as o mais que soube. Mas, ao entardecer, pendurada no telhado pelos dedos dos pés, vi fugir-me da vista a última das metáforas. 
Este inusitado início de tristeza, bem sei, não é se não o espaço vazio que antecede a chegada da realidade. 
Ninguém precisa da realidade.


quinta-feira, 18 de maio de 2017

Ganhar a perda

Depois de deixar de contar as luas, passaram tantas que já não saberia convertê-las em anos. Escureceram as noites brancas e aprendi o sono. Profundo. Sem sonhos. Sem a sombra dos jaracandás, o cheiro das camélias junto ao lago ou a sensação da montanha nas costas. 
O sono levou tudo: 
a febre do seu corpo na minha pele; o exato peso da mão dele na minha; o jazz no tom da voz. 
Ordenei às células o esquecimento e elas, implacáveis, obedeceram-me, assassinando-o.
Ganhei a guerra do desamor. 
Instalei-me no amplo território das noites escuras e silenciosas onde nenhuma candeia alumia o caminho, nem a rebelião dos sonhos se faz ouvir. 
O diabo a quem vendi a alma cumpriu integralmente a sua parte. 
Ficou este nada, expurgado do que, afinal, era tudo.

terça-feira, 16 de maio de 2017

A papoila

Quando partir, pensei, se alguma vez conseguir partir, pensei, quem reparará naquela única papoila que todos os anos nasce no mesmo canteiro em frente à minha porta? Quando já não estiver aqui para numa qualquer manhã de março ser surpreendida pelo regresso da mesma e única papoila, pensei, como farás para que me lembre que exististe em mim?

sábado, 13 de maio de 2017

Diz Herberto

– A água tem um som.
Mar inesgotável que desliza no silêncio.

Ponho o ouvido à escuta de encontro ao mundo:
ouço-me para dentro. Mal posso
dar no mundo um passo 
sem tremer: sinto-me 
balouçado num sonho imenso, ando
nas pontas dos pés.

E estou só e a noite.

Há palavras que requerem uma pausa e silêncio.
(...)

Herberto Helder, Poemas Completos 

segunda-feira, 1 de maio de 2017

A Senhora dos Papagaios

E então, procurámos Tagik, o berbere contador de estórias, nas portas do deserto. E uma vez mais sentámo-nos no interior de uma tenda feita do azul dos sonhos, por cuja fresta de pano se viam, ao longe, as areias do tempo. E uma vez mais o velho berbere estendeu a mão ressequida para receber as nossas moedas que fez tilintar na mesma taça de prata trabalhada.
E então, Tagik, de voz arrastada, contou-nos da Senhora dos Papagaios:
Existiu no início dos dias, mas Alah é quem mais sabe, uma mulher que desafiou as leis do universo.
Ousou, sob o império do monocromático nude, fazer-se acompanhar por uma mala amarela. E perante o pasmo do povo e a reprovação dos deuses e a revolta dos animais a mulher sentou-se numa praça de pedra branca e abriu a mala e dela retirou mil papagaios, fazendo-os empoleirar-se na palma da mão, primeiro, entre as suas omoplatas, depois, no eixo da lua, por fim. E os papagaios espalharam-se pelo mundo e criaram as florestas e os piratas.
E os velhos deuses, afrontados, castigaram a mulher, tirando-lhe a si a voz que, por vingança, deram aos papagaios; aprisionando-a, muda, no verde imóvel de uma tela; deixando-a para o todo o sempre agarrada à sua mala amarela, fonte de todo o mal.
E ali ficou, para toda a eternidade, o cruel aviso aos homens.
Mas Alah é quem tudo sabe.

N.b. A Senhora dos Papagaios é esta.
E esta.
E esta.
E esta.
E esta.
E esta

terça-feira, 25 de abril de 2017

Adivinhações

Diz-me o facebook, tratando-me pelo primeiro nome e convertido em cartomante de esquina, que aproveite o sol; que as nuvens estão a dissipar-se.

Sonos

A estância balnear que habito acordou da sua triste hibernação. Levou uma inteira quinzena no estremecimento do fim do sono, em pestanejos indecisos, no espreguiçar lento dos músculos entorpecidos e, por fim, veio a manhã em que o verão já se instalara cansado. Parece de sempre o cheiro dos bronzeadores na espuma das ondas; são velhas as bolas encarnadas nas mãos das crianças; estão exaustos os vendedores e cestas que arrastam consigo; comidas do sol as ementas dos gelados. De repente, é verão há muito tempo na estância balnear que habito.
Também eu sinto ter sido arrancada ao sono.
Um sono profundo, vazio, antigo, milenar.
Daqueles em que se acorda com rugas nas mãos e cabelos soltos até aos pés.

domingo, 23 de abril de 2017


morrer

Quando a asa do pássaro metálico se inclinou sobre a minha ilha e do alto das nuvens eu vi a praia, esse estalido involuntário da língua, foi o quebrar de uma das juntas do coração.
E eu morri, morri assim devagar e para sempre e pela última vez.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Regressos

Errada, cuidei que não saberia regressar.
Errada, esqueci-me que aquilo que não sei é partir.

domingo, 9 de abril de 2017

Rastas

Dentro de uma das mangas de renda branca, escondo a alma rastafari. Durante o jantar, escorrega pelo pulso uma madeixa de cabelos enrolados que desce até aos dedos. Sacudo a mão com um único gesto firme, da esquerda para a direita, como quem afasta um mosquito imaginário.
Olho disfarçadamente para o pulso reentregue à decência das rendas brancas.
E quando ele me pergunta qual é meu superpoder, não lhe digo, é claro que não lhe digo, que é a minha ilimitada capacidade de desprezo.

Tortuga


sábado, 8 de abril de 2017

As estórias têm de ser bonitas todos os dias

Na penumbra do céu carregado, ao som de um violino ou de um saxofone solitário, com poemas pousados nos joelhos, a estória, no plano do pensamento, até pode parecer bonita. Mas à luz do sol, com o rio ali por trás, a voz mansa dos amigos, o patético esforço da busca de um sinónimo que poupe a palavra cobarde, a mesma estória, não consegue contar-se de uma maneira que não a faça parecer-se terrivelmente feia.
As estórias, percebi-o finalmente, são aquilo que soam à luz do dia e com ruído ambiente.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Promessa

ofereço-te esta tarde de desvento.
as flores agarradas aos ramos das árvores
e os ramos seguros à seiva do tempo.

o pátio lá fora num silêncio de sesta,
o gato que se estende sobre o calor das pedras
e a imobilidade mágica do sol que resta.

a luz que se aninha nos meus pés descalços,
o lençol; cada um dos eivos do seu vasto deserto
e os espelhos onde se desfazem medos falsos.

nuances de sombra azul que me habitam
um ou outro grito arrancado à carne
penas que compõem as asas ou as imitam.

Ofereço-te o que não pode perdurar:
o olhar líquido que inventa a tarde,
a insídia de um veneno que não arde,
a abstrata, vã, promessa de te amar.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Salvação

Hoje salvou o meu dia o poema que um poeta desinteressadamente partilhou.
Os poetas não sabem que, às vezes, salvam os nossos dias.
Devíamos dizer-lhes mais vezes. 

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Universo paralelo

Num qualquer outro universo paralelo, nas respetivas salas de cortinas arredadas, um homem e uma mulher espiam-se mutuamente.
Poderiam ter sido Adão e Eva antes do paraíso; dois amantes num final de tarde de inusitada chuva; os noivos que trocam votos que desconhecem não saber cumprir; selvagens na densa floresta onde jamais entrou a luz de deus; velhos que esperam a dócil morte de mãos juntas num banco do alpendre.
Conhecem-se as vozes que nunca antes ouviram e sabem que dentro do outro há um compartimento secreto onde se estende o Sahara.
Quando a noite cair, sonharão um corpo que descansa ao seu lado e com ele partilharão a solidão que foi o dia.
Nunca serão nada.

avariada

Esse resto de estórias incompletas é um depósito de brinquedos avariados. Falta a cabeça àquele poema; um guiador a um conto; os braços a um outro texto. Vivo estórias incompletas, sentada num balouço defeituoso, que se move ao ritmo de um coração, também ele, avariado.

domingo, 2 de abril de 2017

Diário de bordo

Com o vento a dançar na tumba fresca da tarde, regressei da guerra, sentada na tábua que sobrou. Apesar de rasgadas e sujas, estas ainda são as vestes de Pirata. Na guerra, perdi quase tudo. Salvei, por ordem de importância, o chapéu, a vida e a dignidade. Enfrentei a a baleia branca que jaz agora no fundo dos tempos e é como se a vida me pertencesse uma vez mais.
A minha ociosa tripulação recebeu-me em festa, de navio engalanado, sunset party e rum à descrição, não por me esperar mas, precisamente, por já não me esperar.
À chegada, comuniquei-lhes a minha irrevogável decisão:
Regressaremos ao nosso porto de origem. Afinal, até os Piratas, mais tarde ou mais cedo, precisam de voltar para casa. 

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sábado, 1 de abril de 2017

Ontem

Deitada na  nuvem apanhei uma gota de água e montei, na palma da mão, o meu próprio Aleph. Vi uns pés que conheço melhor do que os meus deambularem descalços pela penumbra derramada  no chão frio da cozinha; vi as cordas de uma guitarra esquecida atrás da porta; vi o espaço vazio da estante onde viveu o livro que ocupa o espaço antes vazio numa outra estante; vi uma orquídea que desistiu de florir; vi o búzio partido dentro de uma caixa, dentro de outra caixa, dentro de outra casa de penumbra derramada; vi um quadro em tons de cinzento deixado num cavalete; vi num espelho antigo o reflexo de um rosto triste; vi a estrada que vai da montanha até à lua e estava vazia. E então soprei a gota de água e fiquei a vê-la escorrer através dos dedos até ser apenas a chuva dos homens. 

quarta-feira, 29 de março de 2017

Duas viagens e um destino

A Sata oferece-me "uma viagem e dois destinos".
Ocorre-me que a Sata cumpriu a sua promessa comigo vários anos antes de a campanha ser inventada. A última vez que me ofereceu uma viagem, abriram-se imediatamente, no universo, dois destinos.
Compro duas viagens à Sata.

É isto

Tenho umas flores artificiais vagamente parecidas com camélias. Se baixar as luzes e olhar à distância são iguais às camélias. Houve um tempo em que as camélias eram verdadeiras e chegavam à terça-feira. Era o tempo em que o futuro ficava à distância de dois aviões. Depois o futuro chegou. As  camélias são falsificadas. A jarra, pelo menos, é sólida.

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Substituí com considerável êxito a obsessão com a confeção de muffins pela aprendizagem do piano. Sou péssima em ambas e os progressos são igualmente miseráveis. Mas, de uma forma algo incompreensível, tocar piano para afastar a infelicidade faz-me parecer menos louca.

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Abandonei a leitura da Ilíada. Abandonar a leitura da Ilíada é a atividade mais consistente que desempenho nos últimos vinte anos. Já o fiz em dez casas diferentes. Também abandonei a leitura da Ilíada em diversos hotéis e até em casas onde não vivia. Essas não contei. Abandonar a leitura da Ilíada passou a ser um traço de personalidade.

*
Enquanto a senhora da farmácia me entregava o troco, percebi, da forma como se percebem as coisas que são, que nunca conseguirei escolher ir-me embora. O exílio é a oitava costela do Pirata. Esse local mágico onde não esteve o passado, não estará o futuro e o presente está quase a terminar. Até os bêbados, diz-se, sabem sempre o caminho de casa. Mas eu preciso desesperadamente de um GPS.

domingo, 26 de março de 2017

Borboletas

No mar não há borboletas.

Faz-me falta uma asa colorida,
de patas pousadas no interior do pulso
a medir-me o ritmo da vida.

É assim que as fadas sabem 
se ainda temos coração.

Tilt

Enquanto desabava a matéria da nuvem, sempre a mesma, que até as nuvens são previsivelmente aborrecidas, parei o carro numa estação de serviço e fiquei lá dentro, imóvel e silenciosa, à espera que tudo aquilo acabasse. É uma filosofia de vida tão válida como outra qualquer: ficar dentro de uma redoma de vidro, artificialmente temperada, imóvel e silenciosa, à espera que tudo isto acabe. 

sexta-feira, 24 de março de 2017

A Prova

Tenho irreversivelmente tatuada na retina a fotografia do homem que chora. Não a vejo há vários anos mas conheço de cor cada detalhe. A ruga funda da testa. Uma única lágrima amparada na lente dos óculos. Os cantos dos olhos vermelhos. A pele do rosto manchada. Os cabelos desalinhados pelo vento. O mar ao fundo. A fotografia do homem que chora está guardada dentro de uma pasta, dentro de outra pasta, dentro de uma terceira pasta. Nenhuma tem nome e foram atiradas ao acaso para o interior de um labirinto de memórias inúteis. Mesmo que quisesse, dificilmente a conseguiria encontrar. É a expressão congelada do sofrimento. Um sofrimento que se devolve, como quem estica o braço, abre a palma da mão e diz "Toma. Aqui tens a essência do mal. Agora pertence-te a ti e não mais a mim."
Às vezes sei que essa única imagem que não posso esquecer é a última  que verei na vida. 

quarta-feira, 22 de março de 2017

Eternidade

Daqui, de onde me quis trazer o mar, de costas unidas ao chão do barco que me serve de leito, embalada pelas ondas e pelo som do vento norte, é mais real a noite e são mais próximas as estrelas. Um homem comum, numa noite igual a esta, inventou deus. Outro homem, na mesma noite do futuro, destruirá o tempo. Talvez então um terceiro homem possa encontrar a eternidade. 

terça-feira, 21 de março de 2017

Delete

Não é necessário morrer para ver o passado desfilar em passo apressado, diante dos nossos olhos, rumo ao vazio cósmico. Uma alternativa igualmente definitiva mas menos dramática é carregar no botão delete e ficar-se sentado a ver desaparecer coleções inteiras de sorrisos que já ninguém sabe nem quer saber se foram, ou não, felizes. Algures a meio do processo, a exterminadora que há em mim passou pela sala e decidiu apagar também todas as músicas, todos os vídeos e todos os textos. No final, julgo não ter deixado uma única prova digital de que tive mais passado do que as últimas duas horas. 
Paradoxalmente, ou talvez nem tanto, o computador continuou a avisar que o disco rígido está cheio. 

sexta-feira, 17 de março de 2017

Da Noite

Ah, o alívio de uma noite grave e pesada a abater-se sobre a ligeireza da luz:
"Cantarei a criadora dos homens e deuses — cantarei a Noite", disse Herberto, sem saber, certamente, que é na página do crepúsculo que os deuses esboçam as linhas esquecidas do teu rosto. 

sábado, 11 de março de 2017

Diário de Bordo



Mandei que me aprontassem um escaler, mantimentos para alguns dias e a última edição de bolso da Ilíada, pois, constatei que, entretanto, num dos quatro continentes que lhe dei a conhecer, perdi a minha.
Parto esta noite, sozinha, como deve fazer-se quando se usa com seriedade o verbo partir.
Tal como Ahab, o louco, também eu naveguei os mares à procura da minha baleia branca, decidida a assassiná-la. 
Mas, ao contrário do capitão louco, não apenas não conduzi a minha tripulação à tragédia, como guardo o escrúpulo de travar a solo as batalhas que só a mim estão destinadas.
Encontrei a Moby Dick dos meus pesadelos e é dentro da memória que a aniquilarei. As memórias são o produto do esquartejamento do destino que escolhemos guardar. 
Despedi-me desta intrépida tripulação Pirata com a solenidade daqueles que sabem que nem sempre se regressa a casa. Creio ter visto nos olhos do meu selvagem cozinheiro viking um, tão frágil quanto inusitado, laivo de humanidade. 
Guardo-o. Um resto de humanidade é bússola que sempre nos poderá fazer falta quando se navegam as ondas dos deuses em frágeis botes construídos por homens.




(Fotografia retirada de monoimages.com)

Adivinhação

Perguntei a Homero, 
que tudo sabe, 
mas o oráculo despediu-me,
reencaminhando-me para o mar.

– "Todas as coisa ele sabia:
as que são, 
as que serão 
e as que já foram."

Pela manhã, ajoelhei-me 
na areia pura. 
Limpa de viúvas de pescadores, 
gaivotas desorientadas, 
búzios que carregam sons 
de outros mundos, 
mensagens desesperadas 
dentro de garrafas antigas. 
Conheci o conforto dos crentes 
nesse gesto mudo 
de perguntar a direção 
dos próprios passos.
Mas o mar declarou-se incompetente;
inconstante na fúria; 
escravo dos humores da lua. 

Esperei a lua, 
pendurada na noite.
Perguntei-lhe ao ouvido 
a direção dos meus pés.
A lua, iluminou-os 
mas, fazendo jus à fama
nem se dignou responder-me.

Sobram-me os pés descalços
E o esboço de mil caminhos.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Kele


Síntese

Alugo o corpo aos dias entre gestos repetidos e a ligeira nostalgia da liberdade. Nenhuma música embala a pressa. Nenhum poema prenuncia a manhã. Afogo na chávena de café o sono, o cansaço, o tédio. Há um relógio em cima da ampulheta e por baixo desta há uma clepsidra. Medem a escravidão. Das janelas vê-se o azul do céu. Sonho, às vezes, que um dia será meu. 
Ensinaram-me que é do chão que vem o medo. Esta forma de coragem, porém, é de oriente ignoto.

quarta-feira, 8 de março de 2017

domingo, 5 de março de 2017

Labirinto

Nunca haverá uma porta. Estás cá dentro
E a fortaleza abarca o universo
E não possui anverso nem reverso
Nem externo muro nem secreto centro.
Não esperes que o rigor do teu caminho 
Que obstinado se bifurca noutro, 
E obstinado se bifurca noutro,
Tenha fim. É de ferro o teu destino
Como o juiz. Não esperes a investida 
Do touro que é um homem, cuja estranha 
Forma plural dá horror à maranha
De interminável pedra entretecida.
Não existe evasão. Nada te espera.
Nem no negro crepúsculo a fera.

Jorge Luis Borges, Elogio da Sombra, Obras Completas, Vol. II, Teorema.

Cinzento

Todas as tardes cinzentas, de chuva miúda, são a mesma tarde em que o vi partir pela primeira vez. Pouco importam os céus de cada regresso, a ave que os cruza ou o avião que os desfaz. Uma promessa, sobretudo quando incumprida, é um grito que ecoa na eternidade. 

Canção da Lua


sábado, 4 de março de 2017

Forgiveness

Não chegou a prometida paz. Ninguém escapou ao tempo mas também ninguém esqueceu. O perdão acenou-nos lá do fundo do seu horizonte sem jamais ser tangido. 
São indispensáveis milhões de anos para limar a aresta de uma rocha. Os homens contam o tempo numa medida menos desesperada: Em crepúsculos, auroras, solstícios, equinócios. É a resiliência das rochas que nos força a encontrar um sentido para tão inútil curta existência. 
Escolhemos o erro e o arrependimento com a displicência com que poderíamos ter escolhido o acerto e a glória. 
Agora a moeda caiu no mar profundo e sobreviver-nos-á. Pertence aos deuses o segredo do rosto da vitória.
Os dias que nos sobram serão de frio ou calor, de nuvens ou de céu, da tristeza que é a nossa pena ou da felicidade que é a nossa evasão à pena. 
Mas não virá nenhuma paz, nenhum perdão. Como o previu o poeta, nenhum outro céu, nenhum outro inferno. 

Rico

Rico,
é o que rouba ao esquecimento 
três ou quatro instantes,
e deles faz a sua enxerga
para dormir,
inteiro,
a noite dos animais.


sexta-feira, 3 de março de 2017

Milongas

A milonga continuou a ressoar, cega e incansável, nas ruínas do velho palácio, muito depois de teres partido.  
Às sextas-feiras, quando a noite corria a sua cortina sobre o mundo, se houvesse lua, os lobos podiam sentir a guitarra solitária mover a sombra de uma dança de facas e rosas. 
Deslizávamos por um resto de soalho emoldurado pelas frinchas das paredes onde as gaivotas fizeram ninho. Pele contra o aço, partilhávamos o sangue e o sal, entre passos sincronizados e veias rasgadas. 
E os lobos puderam, muito tempo depois de teres partido, sentir o desespero da milonga que, nas ruínas do velho palácio, dancávamos, eu e essa adaga antiga, que guardaste dentro do meu peito. 

quinta-feira, 2 de março de 2017

Sohlepse

Desinteressadamente, vamos coabitando  o mesmo espaço. Por vezes, cruzamo-nos no hall de entrada, à saída do quarto, ou dentro de um elevador. Nada lhe pergunto sobre a expressão de louca que, quando julga que a não a vejo, repousa no fundo do seu olhar. Retribui-me o favor fingindo ignorar a minha existência. Em casa, dividimos os livros, os filmes, o piano, as roupas, o cão. Na rua, existimos à vez. Creio que ambas sabemos que nascerá o dia em que teremos de nos sentar na mesma cadeira e negociar os traços de um futuro comum. Enquanto essa madrugada não vier, somos uma organização empresarial, em contínua gestão administrativa, paralisada pela falta de quórum. 

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Amarras


As amarras que nos desenlaçam

Nós, os que temos sempre a palavra pronta; os que não acreditamos na dúvida; os que desconhecemos as cambiantes da indecisão; nós, os que não sabemos o que é a indiferença; os que aprendemos a dividir o mundo entre fortes e fracos; os que não suportamos a nossa autolamúria; os que vetamos à mofa as nossas angústias; os que descremos das dores que não se resolvam com analgésicos, podemos, um dia, distraídos com o processo de sobrevivência, sofrer os terrores noturnos de uma escolha e acordar num pântano de indecisão. Nós, os que não contávamos com o golpe de estado das nossas emoções, só daremos por ele diante da falência orgânica do corpo. 
Então, seguiremos as migalhas de angústia deixadas ao longo de um corredor estreito, faremos o percurso inverso e descobriremos, entre o terror, o espanto e a autodeceção, que o que nos está a matar é aquela indecisão que lá atrás ignorámos. Descobriremos, também, que, pura e simplesmente, não sabemos o que escolher.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Pó do deserto

A nostalgia que antecedeu a areia foi, afinal, as primeiras partículas de pó do deserto a instalarem-se na alma. 
O dia amanheceu longínquo e indistinto, com um sol mascarado de lua e o mundo à distância de um véu opaco que não nos deixa ver as próprias mãos. Há areia por todo o lado: debaixo das unhas, dentro das pálperas, imiscuída nas veias. Agora o dia cai sem que sequer dele se possa dizer que se chegou a erguer. Arrumo a corda de funambulista onde dancei durante as últimas horas e dela sacudo o deserto. 
O nosso equilíbrio é tão precário que basta um grão de pó de areia para nos precipitar na queda livre do abismo que nos aprisiona. 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A Trama

Para que o horror seja perfeito, César, acossado ao pé de uma estátua pelos impacientes punhais dos seus amigos, descobre entre as caras e as lâminas a de Marco Júnio Bruto, seu protegido, talvez seu filho, e deixa de se defender, exclamando: «Também tu, meu filho!» Shakespeare e Quevedo recolhem o patético grito.
Ao destino agradam as repetições, as variantes, as simetrias: dezanove séculos depois, no Sul da província de Buenos Aires, um gaúcho é agredido por outros gaúchos e, ao cair, reconhece um afilhado seu e diz-lhe com mansa reconvenção e lenta surpresa (estás palavras têm de ser ouvidas, não lidas): «Pero, che!» Matam-no e não sabe que morre para que se repita uma cena.

Jorge Luis Borges, Obras Completas, II, O fazedor.

With all my love


Ilimitadamente

Há um verso de Borges que me colonizou a memória,
Há uma praça longínqua que percorro todas as noites,
Há um retrato meu que não voltarei a ver,
Há uma porta que manterei aberta até ao último dos dias,
E entre as músicas que tocaram na minha sala, há uma que não voltarei a ouvir.
Já perdi a conta às madrugadas,
A vida usa-me, inclemente.

Em resposta ao poema de Borges, Limites, O Fazedor, Obras Completas, II, Teorema, pg. 225

Lições da montanha

Tentou, sem nunca suceder, ensinar-me a felicidade. Revi a lição em cada um dos ocasos a que assisti, sozinha, sentada no cume da montanha. E nessa última tarde em que a baía foi encolhendo até se transformar numa noz que me coube na palma da mão fechada. Depois disso, desisti de aprender e, com o tempo, sobreveio o alívio do esquecimento. 
Uma manhã de febre, enquanto contemplava a palma da mão vazia na penumbra do quarto, resolvi a equação:
A felicidade dele era a felicidade dos imbecis e de alguns animais. A que apenas é possível nas criaturas que só têm existência metafísica no instante presente. Desprovidas da agonia do ontem ou da angústia do amanhã. 
É o tipo de felicidade que deliberadamente queremos desaprender.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Flores

Não me lembro, já, de ter a cabeça cheia de flores. Às vezes colho-as, da beira da estrada, das jarras dos outros ou de uma campa bem enfeitada. Trago-as comigo e construo grinaldas, fazendo-as passar pelo fio de prata oferecido pelo velho mago que me aprisionou a esta caixa de música. Dispo-me, coloco as grinaldas de flores sobre os cabelos e danço descalça até que a aurora venha deitar-me. Mas é tudo inútil. Acordarei sem uma única pétala dentro da cabeça e com quilómetros de areia estéril diante do olhar.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Siri

- Are you a Robot?
- "Let's just say i'm made of silicon, memory and the courage of my convictions".

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Casa-na-árvore

Porque haverias de construir essa sólida casa na árvore; limpar a floresta de tragédias e dores; rodeá-la de muros de mármore do chão até às nuvens; ser o afincado porteiro do mal; forçar-me a crescer na assética atmosfera da felicidade fabril; porque haverias de construir essa sólida casa na árvore se estava escrito que, um dia, acabarias por atear fogo à floresta, trancar os portões e partir? 

Naufrágios

Navegámos 
uma noite escura 
de faróis cegos.
A realidade é escarpa 
assassina 
que se esconde
atrás da sétima onda; 
– A maior.
Naufragámos o medo. 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O amor tem as unhas dos pés sujas



Eurídice, a quem não salvou a incompetência de Orfeu; Orfeu, que não se salvou nem com a clemência de Hades; Inês, morta pelo amor de Pedro; Layla, assassinada de desgosto às mãos do louco Majnun; Sherazade, vítima de violência doméstica de Shariar; Ofélia, afogada pelo desprezo de Hamlet; Teresa e Mariana, que se perderam por Simão; Romeu, tombado por Julieta e Julieta, vítima do equívoco de Romeu; Anna Karenine, que por Vronsky ofereceu o pescoço ao peso do comboio; Medeia, a quem o abandono de Jasão transformou em assassina; Madame Butterfly, forçada ao haraquiri depois de ter sido atraiçoada por um americano da marinha cuja indignidade é condenada com o constante olvido do seu nome; Páris, duas gerações de guerreiros destruídos por uma rameira chamada Helena.
Em cima: Eros, de Caravaggio, onde se comprova, como se a literatura não nos ensinasse quanto baste, que são sujas as unhas do pés do amor.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Serviço Público

Frederico Lourenço traduziu a Odisseia de Homero para a Cotovia. E traduziu-a de uma forma tão divina que qualquer pessoa que consiga perceber a bula da aspirina poderá compreender e, pasme-se, divertir-se, com a leitura da Odisseia. Nós, plural majestático destinado a acentuar o snobismo intelectual de que nunca seremos demasias vezes injustamente acusadas, suspendemos por escassos segundos o habitual revirar de olhos diante do cheiro que antecede a expressão "democratização da cultura" e recomendamos, sem medos, a leitura. 

P.s. Só nos responsabilizamos até ao primeiro terço.
P.s.1 metade.

O lamento de Calipso

Estremeceu Calipso, divina entre as deusas.
E falando dirigiu-lhe palavras apetrechadas de asas:
"Sois cruéis, ó deuses, e os mais invejosos de todos!
Vós que às deusas levais a mal que com homens mortais 
partilhem o leito, quando algum a escolhe por amante! (...)
E assim sucede agora comigo: sentis rancor, ó deuses,
porque me deito com um homem mortal.
Mas fui eu que o salvei, quando ele aqui chegou sozinho,
montado numa quilha, pois Zeus estilhaçara a nau
com um relâmpago candente no meio do mar cor de vinho.
Tinham perecido todos os outros valentes companheiros;
mas ele foi para aqui trazido pelas ondas e pelo vento.
Amei e alimentei Ulisses: prometi-lhe que o faria imortal
e que ele viveria todos os seus dias isento de velhice.
Mas não é possível a outro deus ultrapassar ou frustrar 
o pensamento de Zeus, detentor da égide.
Que Ulisses parta —se é isso que Zeus quer e exige — 
pelo mar nunca vindimado. Mas não serei eu a dar-lhe transporte: não tenho naus providas de remos nem tripulação 
que o possa levar sobre o vasto dorso do mar. 
Mas de boa vontade dar-lhe-ei conselhos: nada ocultarei para que inteiramente ileso ele regresse à terra pátria.

Canto V, Odisseia, Homero, Cotovia

domingo, 12 de fevereiro de 2017

A chuva de ontem

Chove e chove e chove. O cão cola-se às vidraças entre o tédio da nova cortina de intermitentes fios prateados que passou a haver do lado exterior e a inveja conformada das gaivotas que se vieram abrigar na varanda. 
A manhã, a tarde e a noite, o dia de hoje e o de ontem, têm todos a mesma indestrinçável cor opaca.
Não vejo um único ser humano há demasiadas horas. Saio para as ruas que estão aguadas e desertas.
Compro um peixe e um livro de Vinicius de Moraes. 
No regresso, o cão continua sentado a ver cair a chuva de ontem. 

Ecos

Não nasci pirata. Antes disso, veio o dia em que estendi os meus bens sobre as pedras do pátio circular e usando todos os livros técnicos como combustível deitei-lhes o fogo para me aquecer nas chamas.
Uma vez por outra, o meu passado burguês cruza-se comigo. Quase sempre nas páginas amarelecidas dos jornais de há muitos meses que as pessoas deixam largados nos portos. É assim, involuntariamente e com significativo atraso, que vou tomando conhecimento  da morte de uns e da vida dos outros. São ecos longínquos das notas de uma gasta canção que se sabe de cor. Ouço-os como se estas pessoas, que conheci por dentro, fossem enjoativas personagens de uma peça de Ibsen.

Não tenho nenhuma saudade do vasto espólio que incinerei. 

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Morfina

Aqui deitada, enquanto finjo ignorar a dor que se veio instalar no fundo das costas, ocorre-me que o fingimento é, na sua potencialidade aditiva, a morfina das dores da alma. 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Breve memorando de inutilidades quotidianas

Acordei trinta segundos antes do despertador. Aluguei o cérebro durante as horas da manhã. Não me lembro o que sucedeu depois do almoço. Ouvi mentiras durante a segunda metade da tarde. Cortei no papel o terço médio do indicador. No regresso a casa Joe Dassin perguntou-me por que existiria se eu não existisse, pá. Comi sem culpa meio pacote de bolinhos de areia. 
Detesto os dias em que a poesia não me encontra. 

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Como gesto de boa vontade

Aceito partilhar a guarda da Milu...

Profecias

Haveria de se cumprir a Nitzscheana profecia do enlouquecimento do assassino de deus. 
Nasci uma vez mais, numa manhã de inverno, nas areias desertas de uma maré maior do que as outras. Nua e adulta. É a única forma digna de se nascer. Vi as nuvens. Ouvi a música. Conheci o cheiro das rochas. Aprendi as letras e descobri as estórias. Tudo, com o espanto da primeira vez. 
Não tenho memória mais antiga do que esse suave desadormecer por entre limos, conchas vazias de búzios e areia molhada. A linguagem das gaivotas é a minha pátria e do amor sei apenas o que dele se quis contar nos livros.
Porém, aos domingos, instala-se no fundo das costelas o peso de tudo aquilo que não recordo. E ainda esta terrível  compulsão para depositar num altar vazio as flores dos cardos que me enfeitam os cabelos.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Onde deixei o Natal

Eu e o meu cão dormimos uma sesta mansa à chegada a casa. Os restos do Natal ainda pelos cantos da sala e as minhas Mil e Uma Noites, que tanta falta me fizeram, a servirem-nos de almofada. 
Lá fora, há a noite precoce e uma triste ameaça de chuva que se cola aos ossos. As vozes cansadas das pessoas que passam por baixo das minhas janelas tomaram o lugar dos gritos das gaivotas.
A casa voltou a acusar-me e às vezes penso que é pelo crime de abandono que me castiga o sono. 

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Oásis

Das areias vermelhas do deserto longínquo chegou-me a música que precisava para a tarde. Os amigos têm no coração a sabedoria ancestral das pedras, do rumor do vento nas copas das árvores, das penas que os pássaros deixam cair à nossa passagem. Os amigos sempre sentem e sabem aquilo que precisamos que sintam e conheçam.
Mesmo, e creio que sobretudo, quando são vastos e variados os oceanos que nos separam o sangue. 
Retribuo a areia do deserto que faltava, entregando o mar que me sobra. 


Milu

Foi quando me preparava para a mandar enfiar numa caixa de sapatos e remeter à dona que reparei nas semelhanças que existem entre mim e essa aranha que dá pelo nome Milu e veio de um blog chamado o fogo não queima a faca ou qualquer coisa assim com utensílios de cozinha.  Essa alma partilha do meu fascínio por me pendurar em coisas e ficar lá a balouçar-me em silêncio, até que me doam os pés ou o telemóvel toque, o que vier primeiro, com a vantagem que, enquanto eu tenho de procurar um bom telhado ou varanda para o efeito e sujeitar-me à localização e vista disponíveis, Milu constrói o seu próprio balouço onde bem lhe aprouver. 
A pequena aranha, na sua habilidade de ficar imóvel à espera da presa que há de cair na sua teia, manifesta uma inata vocação para a pirataria que, até agora, tem andado a ser desperdiçada em blogues sobre facas de cozinha, onde leva uma vida desgraçada a ouvir versos de poetas que estão para a poesia como, nos anos oitenta do século passado, o Vasco Granja esteve para os desenhos animados. 
Esta simpática criatura, enquanto foi refém no meu navio, entreteve-se a bordar uma laboriosa teia sobre a minha cama que suplanta em maravilha e eficiência qualquer rede mosquiteira. 
Entretanto, conquistou o coração de Andhriminir, o cozinheiro Viking, e tornaram-se de tal forma inseparáveis que Milu passou a viver nas melenas ruivas e compridas do viking, onde está, para todo o sempre, a salvo de qualquer gota de água.
Milu, a aranha Pirata, que recolhi à porta de um blog sobre facas, numa altura em que esteve encerrado sob ameaça de falência, sofreu um upgrade no seu estatuto de refém e é agora o mais recente membro desta intrépida tripulação que, estou certa, tudo fará para a manter entre nós.

(Ao que acresce que ainda este ano não tinha roubado nada às pessoas dos blogs. Assim que me lembre, pelo menos.)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Cuca também escreve sobre isso de morrer de amor

É um inútil dispêndio de energia. 
Mais inteligente seria matar o amor.
Eros, esse inimputável perigoso, merece viver aprisionado numa cave recôndita, na companhia das traças e dos corvos, que são o reverso das borboletas e das pombas (já de si criaturas que me inspiram pouca confiança, lacaios de palhaços pobres e mágicos de província) 

sábado, 28 de janeiro de 2017

Epitáfio

E também aquilo que não vivi, pertence-me inteiramente. 

On repeat

Bastaram três minutos.
É como se o mundo tivesse parado naquela noite de março. Esqueci-me do dia e do ano. Um grão de areia de contornos irregulares parou o mecanismo da ampulheta e é inútil medir o tempo que teria corrido se algum tempo ainda corresse. 
É sempre a mesma mulher negra, no palco, a cantar a mesma música. O mesmo copo de gin esquecido na mesa redonda coberta por uma toalha de pano verde. Cinco dedos. O teu olhar preso nos meus lábios. As pessoas a desvanecerem-se pelos cantos da sala. O som da voz da cantora a diminuir lentamente. Foi assim que soube.
Bastaram três minutos. 

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

O pescador

Vesti a camisa de dormir branca, comprida, de louca, e segui, descalça, por dentro da chuva, até à praia. A lua não veio e o mar engoliu toda a areia. Aninhei-me na escuridão da última rocha, de costas voltadas para as luzes da cidade e pensei que ali, finalmente, poderia dormir.
Mas o velho pescador veio roubar-me o sono, tocando-me no ombro e recitando a sua oração de conjuro de fantasmas.
Amanhã, bem sei, acordarei na minha cama. Limos  enrolados nos fios de cabelo. Areia entre os dedos dos pés feridos. Unhas gastas pelo esforço de me manter presa a esta rocha. 
Hoje, só quero adormecer de olhos postos na noite funda que pertence ao mar.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

À atenção da Flor

Era uma vez uma aranha que vivia feliz dentro de um blogue. Aranhava de manhã à noite num canto escuro, balouçando-se na sua antiga teia. 
Num dia igual aos outros, mas mais frio, a autora do blog onde vivia, decidiu partir de férias para parte incerta, fechando o blog e condenando a pobre aranha a uma cruel existência de sem-abrigo. A aranha aranhou perdida por campos e asfaltos, largada à inclemência do frio e da chuva... 



quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Basalto negro



Ocasionalmente, quando é sexta-feira, ou quando os níveis de humidade estão elevados, ou acontece a faixa 11 ser a melhor de um álbum, ou uma gaivota atravessar a estrada na passadeira, ou o arco-íris ser duplo, ou acordar de noite com a zanga do vento e não saber onde estou, ou ouvir muito ao longe os sinos de uma igreja, ocasionalmente, mesmo quando ainda não é seja sexta-feira, abro as veias e, do sangue, depuro os resíduos do basalto.
Tenho, aos pés da cama, uma taça de prata cheia de basalto negro. 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Escapar da mente


Ligeiras nuances de significância

A felicidade não sei o que seja. Tenho perante o conceito a mesma reação emocional que me provocam as pessoas difíceis: um profundo desinteresse.
Já a alegria, essa, disponível, tangível, colorida, ali a chamar por nós, é estado que me parece muito conservável.
A alegria é um rafeiro que, à mínima interação, corre na nossa direção, a abanar a cauda. Encontro-a nos sítios mais insuspeitos, como as gargalhadas dos outros; um poema de Pavese; dentro de uma frase de Borges; a fotografia de um sítio que nunca vi; um desenho a carvão; uma decente tarte de maçã com gelado de baunilha, ou o formato de uma nuvem.
Este final de tarde, encontrei-a, dentro do piano, enquanto me esforçava por aprender esta música:


sábado, 21 de janeiro de 2017

Diário de Bordo

A tripulação reuniu-se no convés para o motim anual e, por respeito à revolução, retirei-me para os meus aposentos. Trouxe comigo a bíblia, não por razões de fé, que é semente que não medra neste tipo de solo, mas por ter muitas páginas e não saber quanto tempo terei de ficar aqui enclausurada, fingindo ignorar um pequeno motim com vista à minha destituição. 
O exercício do poder faz-se de subtilezas e ignorar as transgressões é infinitamente menos trabalhoso e pelo menos tão inútil como puni-las. 
Uma vez por ano esta intrépida tripulação Pirata rebela-se contra mim. O pretexto é irrelevante. Tanto pode ser um assalto mal sucedido, como a fraca qualidade de um barril de rum, a desastrosa ementa de Andrhiminiir, o cozinheiro viking, ou mesmo o inexplicável e injustíssimo facto de já não conseguirem suportar os meus estudos de piano. Disse-me o papagaio Polly que, desta vez, foi o piano.
- noturnos, noturnos, noturnos. Grunhiu.
- bem, se é só isso diga-lhes que posso tocar apenas de dia.
- os de Chopin! Chopin! Chopin! 

O método tem poucas variantes: durante dois dias seguidos andam pelo navio a soltar imprecações contra a minha pessoa e a dizer alto frases como "isto tem de mudar"; "assim não pode ser", "ai se nós mandássemos" e por aí em diante. Ao terceiro dia abandonam as suas rotineiras atividade ociosas, anunciando que deixaram de trabalhar, munem-se de umas bandeirinhas negras que agitam nas minhas costas enquanto gritam, quando pensam que já os não ouço, "liberdade ou morte", "o povo unido jamais será vencido" e "há sol e há lua, capitã cuca para a rua". 
Por fim, há sempre um deles que tem a inovadora ideia de organizar um comício clandestino. Juntam-se num canto do convés e fazem uma coisa semelhante ao que julgo ser uma reunião dos alcoólicos anónimos (mas em que servem muito rum) levantando-se à vez e dizendo mal de mim. É bonito de se ver já que é a única ocasião em que se comportam de forma ordeira e entre todos reina a concórdia e a harmonia.
No final da reunião, depois de muitas palmas e grandoladas decidem destituir-me do poder. É nessa altura que é conveniente fazer a minha aparição. 
Não há revolução que resista à pergunta: 
"O que é que se está aqui a passar?"





Um resto de frio

Deitada no cesto da gávea estendo a mão para colher um resto de frio. Fecho-a para que não se escape por entre os dedos. Guardo-o, com cuidado, dentro de um dos bolsos do vestido. É um frio bom. Do azul infinito que antecede as estrelas. Da leveza da caxemira enrolada ao pescoço. Do cheiro do lume nas lareiras. Deitada no cesto da gávea antecipo o calor dos telhados de Lisboa. E guardo, para então, este resto de frio azul.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Inocência

Cuidámos, durante um minuto, que seria possível, apesar do mundo. Nunca é possível quando se trata de sê-lo apesar do mundo. Descobrimo-lo um minuto depois. Mas durante sessenta segundos cósmicos fomos os deuses de um Olimpo esquecido; Adão e Eva antes do Éden; aves, ou anjos, de asas abertas no azul do céu de um domingo de verão. 
E um único minuto contado do cimo do mundo, digo-vos, é quanto basta para validar uma vida inteira. 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Pactos

No mercado das almas não encontro diabo que ofereça preço pela minha. Vale pouco, bem sei. É uma alma negligenciada pela sua proprietária. Trato todos os meus bens, sem distinção, de acordo com o princípio de que a sua existência se justifica pelo serviço que me prestam. Poderia ter investido na minha alma; mandá-la estudar espiritualidade para um colégio privado na Europa desenvolvida ou, pelo menos, financiar-lhe uma pós graduação em teoria da teologia. Ao invés, à falta de qualquer préstimo imediato, deixei-a por sua conta e risco na divisão menos frequentada da casa. Cresceu desregrada e voluntariosa, esquiva às visitas, desobediente, despenteada e deseducada. Arrastei-a a custo por todas as casas onde vivi. Por vezes, chegou depois de mim, demorando-se onde não a quis deixar. Suponho que em tempos haja sido uma alma de bom trato, mas não posso jurá-lo pois essa memória não me foi concedida. 
A minha alma estorva-me tanto como os caixotes cheios de tralha inútil que carrego atrás de mim pela vida fora. 
A solução evidente é desfazer-me dela prescindindo do lucro e preservando-me do prejuízo. 
Enganar um diabo que a faça sua. Estabelecer um pacto sem cláusula de reversão. 
Em suma, ver-me livre dela. 

sábado, 14 de janeiro de 2017

Boleros de sábado à tarde


Black Moon

No instante em que sintonizei a rádio, a voz masculina anunciou a lua negra. 
Foi o que restou: uma lua enlutada sobre a montanha; uma qualquer voz masculina. 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Metáforas sobre o apego

Deixei em Lisboa, propositadamente, os meus maravilhosos seis volumes das Mil e Uma Noites. A separação era para ser breve, mas a realidade arranja sempre uma forma de me destruir os sonhos. Agora sofro com saudades deles. Abro e fecho outros livros, mas é-me impossível o apego a algum. Imagino-os, sozinhos e infelizes, no canto escuro onde os larguei. As livrarias estão cheias de livros igualmente bons e bem assim a estante, ali, ao alcance da minha mão esquerda. Mas qualquer hipotético prazer na leitura desses bons livros é imediatamente ensombrado pela consciência de que o contexto, injusto, faria deles fracos substitutos. 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Depósitos

Esse conceito de tempo que, enquanto estamos a dormir ou distraídos no espaço em branco entre dois versos, nos rasga os forros dos bolsos dos casacos, desintegrou-te do meu acordar.
Não consegui cumprir a promessa de guardar o teu coração. O problema é que ele era demasiado etéreo e eu nunca sabia onde o tinha pousado. É possível que o tenha deixado na mesa de um restaurante, à saída de um jantar. Talvez até lá estivesses.
O meu, ainda não consegui perdê-lo. Pesa-me demasiado para que o largue, esquecido. 

sábado, 7 de janeiro de 2017

Morrer de falta de futilidade

Salva-nos, sobretudo, a futilidade. Aquele homem não teria morrido se tivesse sabido encher de futilidade cada uma das suas células. 
Salva-nos o feng shui das salas brancas, a induzir falsa pureza. A sensação que fica entre os dedos que passam na camisa de seda fina. O peso do ouro velho rente ao pescoço distraído. O design perfeito dos sapatos que vemos quando a tristeza nos faz olhar a ponta dos pés. Salvam-nos as tardes de sol em que nos deitamos na areia branca do ócio coletivo. Os ruidosos brindes à vida em mesas sorridentes. O som da boa música executada em espaços esmagados pelo peso da beleza. Uma história perfeita; uma metáfora nova; um quadro que nos traga azul. 
Salva-nos o processo de futilização. A disponibilidade da mente ao serviço da obtenção da pequena beleza. Aquela que, ao menos, sabemos existir e nos acena de perto com a sua redentora tangibilidade. 
Há pessoas que morrem de falta de futilidade. Sufocadas num poço profundo, escuro e demasiado feio para que até uma avenca escolha habitá-lo. E há outras que o mobilam com brilhos fazendo dele o mais bizarro dos lares. 

Espaços vazios

Mesmo os lugares mais rarefeitos, como o espaço sideral e a estupidez humana, são preenchidos por alguma coisa: luz, metais leves, preconceitos, partículas e subparticulas dos átomos, radiações, chavões e telenovelas. A natureza enche chouriços, não há espaço vazio nas suas tripas. Um homem olha à sua volta e não encontra nada que não esteja já ocupado. Assim pensam os homens com a razão e a lógica que se passeia nos interstícios dos seus cérebros cinzentos, nessas dobras confusas que se assemelham a um intestino redondo ou a uma noz. Mas os homens que pensam com os sentimentos, têm outra lógica a nadar-lhes nas veias e artérias. Esses acreditam no vazio porque o vêem a toda a hora dentro de si. 

Afonso Cruz, Jesus Cristo Bebia Cerveja, Alfaguara. 

Um verso

Ele disse: 
—"A noite é mais quente à luz do teu olhar".
Havia uma borboleta pousada no parapeito da varanda que se aproximou para ouvi-lo. Era laranja e castanha. Fotografei-a de asas estendidas. 
Mas foi apenas o verso de uma música. E a fotografia, revelada a preto a branco, exibe uma traça de asas assustadas. 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Corte de energia

Uma noite, falhou a luz e a sala ficou subitamente escura e silenciosa. Quedaram-se no sofá, envoltos em escuridão, silêncio e consciência do outro. E uma hora depois, quando a luz foi reposta, era já demasiado tarde. Tinham-se, entretanto, olhado de uma forma como nunca antes se haviam visto. 

Quando uma manhã

Quando finalmente chega o dia pelo qual tanto esperaste e numa manhã igual a todas as outras olhas para a pessoa que o espelho te mostra e só vês a pessoa que o espelho te mostra e depois sais para a rua e o céu é azul e cinzento e só vês aquilo que o céu é e entras no carro e ouves uma música mas só ouves as notas de que a música é feita e chegas ao destino e ligas-te à terra e recebes palavras que foram escritas para ti mas só lês as palavras que lá estão escritas, quando finalmente chega o dia pelo qual tanto esperaste e acordas numa manhã igual a todas as outras e vês o mundo da janela que fica fora de ti e sabes que àquela hora há alguém que navega dentro de um barco que é apenas alguém que navega dentro de um barco e tem o rosto tisnado pelo sol e rugas nos olhos pousados num qualquer pensamento comezinho e não é melhor nem pior nem diferente de todas as outras pessoas, quando finalmente acordas no dia pelo qual tanto esperaste e vês e ouves o que há para ver e ouvir, dizia, percebes que te fizeste livre.
Então, sentirás, por um breve mas inesquecível instante, a infinita tristeza do eco nihilista; a sombra escura do profundo desapego; o coração conservado em vácuo esterilizado. Em suma, o acre sabor da mais pura liberdade. 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Ensinamentos póstumos

A morte é a melhor lição de vida:
Ensina-nos a não deixar nada por fazer.

1826 dias


ACIDENTE I 
(helderiana virulenta)     

eu às vezes apetece-me que vocês sejam felizes hoje, 
roubando aos bocados. Com gotas de sono a morder alto, 
rebentando nas asas. 
Às vezes procuro chamar a atenção, isto é, por vezes decido morrer 
para sempre. Sem anzóis a cair dos braços movendo o ritmo do ar. 
E sem pena, horizontal a tudo. Então costumo ver os amigos encostados 
uns aos outros, lavando árvores. Ou entrando pelo sangue, com as mãos 
todas a dar olhos. 
Lembro-me de vocês quando decido morrer para sempre. 
E quando sou eterno, comendo folhas sentado. 
Sei que há paredes brancas onde as éguas não entram. Ficamos 
às vezes à conversa nos rios infinitos, chorando lentamente 
uma felicidade louca. E somos loucos perguntando, chovendo 
no coração louco. E nada existe que não seja apavorado e 
tremendo. 

Mas tu sabes. Eu quero que tu oiças. As nuvens são inteligentes 
e é por elas que as nossas mãos recebem. Por tudo quanto não existe, 
pondo pedras demoradas junto ao lugar do amor. Tantos mortos, 
dizes, 
órgãos repartidos por tanta nenhuma coisa. Nada. Tanto. 
Eu sou louco e compreendo. Eu tenho o meu orgulho e a minha força. 
Canso-me. Uso as minhas mãos. Deixo o coração ser alternado 
e comestível. E o vento passa lá fora e eu passo cá dentro e lá fora. 
E sigo o rumo das papoilas e digo que amo as coisas raras. 
Neste extremo lugar dos homens, 
                                                            coroado de tudo.

Rui Costa, In As Limitações do Amor são Infinitas- Sombra do Amor - Edições


J C, esse sádico

Se o teu olho direito te escandaliza, arranca-o e atira-o para longe de ti. Pois é-te benéfico que pereça um dos teus membros e que não seja o teu corpo inteiro atirado para a geena. E se a tua mão direita te escandaliza, corta-a e atira-a para longe de ti. Pois é-te benéfico que pereça um dos teus membros e que não vá o teu corpo inteiro para a geena.

O Sermão na Montanha, Evangelho Segundo Mateus, Bíblia, Volume I, tradução de Frederico Lourenço. 

Dos canhotos, presumo, é o reino dos céus.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Feliz 2018

O Manel Mau-Tempo roubou, só para ele, 365 dias.

Da ordem das coisas

Entre as três e as cinco da manhã partilhamos o exíguo espaço de um pesadelo revisto. Sempre que me deixo deslizar para a beira da cama caio no precipício de uma praia, velha conhecida. Nada mudou no banco de madeira que plantaram em frente ao mar, promontório de gaivotas aterradas. Ainda lá está a farpa que enterrei no dedo anelar direito. Posso senti-la quando escondo as mãos debaixo das pernas, como me disseram  que fazem as pessoas ansiosas. Esperamos um por do sol que já veio, sentados, lado a lado, com o olhar fixo na linha do horizonte que, a esta hora, é uma lâmina prateada a oscilar ao ritmo do vento norte. 
Tenho a vida suspensa pela desesperança que digas uma frase capaz de mudar a minha vida. Ouço o mar, o vento, os gritos das gaivotas, vejo a areia que dança em nosso redor, a sombra de um barco lá muito longe, a tua expressão de enigmática felicidade e, como sempre, a tua boca pronunciando palavras que não consigo ouvir. 
Mas depois, no pesadelo, passo o polegar pelo anelar e sinto a cicatriz de uma farpa que já o habitou e dele já foi extraída e percebo que aquele banco, aquela praia, aquela espera, pertencem a uma dimensão que já se fechou. 
E então reposiciono-me no colchão, no sentido do centro, e tu desvaneces-te no caminho do mar e é noite escura, sem lua nem estrelas, e é a minha cama, esterilizada de areia e de sal. 
E, assim, regressada, lembro-me que não há frase que te coubesse capaz de mudar a minha vida. 

Urgências

Há um silêncio que circula nas veias, que se concentra na garganta, que se faz ouvir por trás dos olhos. 
É um silêncio que só pode ser quebrado pela poesia. Uma nuvem inesperada sobre um azul matutino, a sombra de uma mão projetada na parede da sala, o vermelho de uma papoila extemporânea, o desenho da linha perfeita das costas de uma bailarina, ou, até, um verso. Qualquer forma de poesia. Tanto faz. 
É um silêncio que pesa dentro dos ossos, que queima as palmas das mãos, que escurece o olhar. Um silêncio que é urgente quebrar.