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sexta-feira, 26 de abril de 2013

Jazz this if you can



For the moment, the jazz is playing; there is no melody, just notes, a myriad of tiny tremors. The notes know no rest, an inflexible order gives birth to them then destroys them, without ever leaving them the chance to recuperate and exist for themselves.... I would like to hold them back, but I know that, if I succeeded in stopping one, there would only remain in my hand a corrupt and languishing sound. I must accept their death; I must even want that death: I know of few more bitter or intense impressions.

Jean Paul Sartre, Nausea

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Antes rica e com saúde do que pobrezinha e doente


A parte positiva de só ter problemas que não consigo resolver é que a impotência é libertadora.
E foi desonerada da obrigação de continuar às voltas com soluções inexistentes que fui festejar a liberdade para o lounge da praia. 
Deitei-me numa das caminhas fantásticas que eles lá têm e passei a manhã inteira a experimentar os sumos naturais da ementa. Nada como abraçar projectos ao alcance da minha capacidade de resolução.
Reparei então que Lisboa moveu-se para o sul e agora tenho o meu lounge infestado de turistas de fim de semana.
Em mim, o primeiro sinal de aculturação aos sítios faz-se pelo protestos contra a chegada de forasteiros. Costuma acontecer exatamente dois meses antes de ter que mudar de terra. 
Confere.
Estava deitado ao meu lado um interessante casal composto por um executivo com mais de cinquenta anos e uma miúda de vinte e cinco. Houve uma altura em que ele se debruçou sobre ela para lhe explicar que a descida da taxa de juro faria aumentar o emprego. Ainda tive esperança que ela lhe dissesse para se desviar por lhe estar a tapar o sol. Mas em vez disso ficou a repetir no ar a expressão "taxa de juro, taxa de juro, taxa de juro" como se estivesse a tentar decorar a lição de economia. Depois ela tirou a parte de cima do biquini e ele lá se calou com a taxa de juro e o emprego e perguntou-lhe se queria ir para o Lago de Como daqui a quinze dias. Percebi que, afinal, era ela o cérebro da relação.
Ocorreu-me que também eu deveria ir de férias para o Lago de Como. E dei por mim a repetir alto "Lago de Como, Lago de Como, Lago de Como" para tentar aprender a lição.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

A viúva do pescador

O luto colou-se-me à pele como a camisa da viúva do pescador.
Sentámo-nos as duas na areia e senti-lhe os olhos encherem-se de mar por mim.
Ela espera que as ondas lhe devolvam o marido morto.

- Mas o que pode esta mulher esperar?

Pensou a viúva do pescador. 

segunda-feira, 8 de abril de 2013

contabilidades

Se este blogue fosse uma mercearia, eu já nem para os amendoins ganhava.

domingo, 7 de abril de 2013

a vida toda eu hei-de esquecer-me de ti


BREVE

Esta manhã comecei a esquecer-me de ti.
Acordei mais cedo que nos outros dias
e com o mesmo sono.
A tua boca dizia-me "bom dia" mas não:
não o teu corpo todo como nos outros dias.
As sombras por aqui são lentas e hoje não
comprei o jornal: o mundo que se ocupe da
sua própria melancolia.
ontem, há uma semana, há muitos meses.
um ano ensina ao coração o novo ofício:
a vida toda eu hei-de esquecer-me de ti.


Rui Costa, in, A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, Edições Quasi.

sábado, 30 de março de 2013

Postais intergalácticos





Haverias de me odiar hoje pelo peso da nostalgia. Há dois dias que sou atormentada pela tua expressão de placidez etérea estampada na capa de um livro. Acho que o que me perturba é a falta de memória de a ter visto em ti. Talvez seja legítimo photoshopizar os mortos para lhes devolver uma tranquilidade que nunca lhes pertenceu. Fica-te bem. Fez-me pensar que pessoa terias sido se tivesses entrado numa loja dos chineses e comprado aquela expressão. Depois entregavam-ta num saco de plástico azul e irias rua fora a abaná-la ao ritmo de um pensamento mais insistente. Ou talvez a tenha visto e já me tenha esquecido. Dirias que começo a perder o controlo da amnésia e terias a habitual razão. Não sei se o magnésio ainda se vende em ampolas cor-de-rosa pastilha elástica. Se vender, talvez o compre para condizer com as minhas sandálias novas. 
Escrevo-te para te lembrar que é Páscoa porque duvido que haja disso no sítio onde te foste enfiar e não quero que percas hábitos de civilidade para o caso de ter de ter que conviver contigo numa outra vida. Um dia sentámo-nos numa varanda e desembrulhaste um ovo de chocolate gigante que comemos com vinho tinto. Mas também podia já ser Natal. A verdade é que o chocolate sabia a mofo e serviste-me um discurso de uma hora sobre as minhas manias de burguesa. Uma hora depois o chocolate continuava a saber a mofo, o vinho acabou-se e, de acordo com a memória estatística, eu devo ter-me ido embora farta de ti. 
Quanto às minhas manias de burguesa, sobrevieram-te, persistindo até hoje embaladas pelo som da tua voz de censura que por vezes ainda se vem instalar nos meus ouvidos, agora reduzida à triste função de grilo falante de uma consciência carente de apoio em permanência.  
De qualquer forma, acho que atualmente as galinhas já nem sequer põem ovos de chocolate. O mundo parecer-te-ia muito melhor se pudesses voltar. E a convivência com os teus muito mais tolerável. Especialmente agora que nos ensinaste a solidão.
Vê lá isso da Páscoa com cuidado. Ouvi dizer que é boa altura para se ressuscitar. 


Ridículos são os que as recebem


Muito depois de o amor ter sido declarado extinto, naquela estação de rádio perdida nos confins do mundo, na sala à esquerda de tudo o resto, continuaram a escrever-se as mesmas cartas de amor.
Mensagens sobre luas cheias e homens vazios aprisionados no terror do esquecimento.
Pareceram-me tão sinceras como antes. 
As ondas hertzianas facilitam no momento de rasurar o nome no envelope. 
E as boas cartas de amor, já se sabe, são aquelas que se podem enviar a mil pessoas diferentes fazendo com que todas se sintam únicas.

domingo, 24 de março de 2013

Que o maior dos dedos do pé seja o segundo


Disseram-me que era uma festa, coisa que eu teria sido incapaz de perceber se não me tivessem avisado. Talvez as mesas enfeitadas de toalhas de alga e as estrelas-do-mar penduradas nas nuvens tivessem sido uma boa pista se não se desse o caso, que se dá, de eu agora já só compreender as coisas quando alguém as explica. O coelho do relógio passou por mim a correr, deu um gritinho despropositado e fez de conta que não me viu. Não ter percebido poupou-me o embaraço. A lagartixa aproximou-se do meu ouvido para se queixar que, no wonderland, já só se fuma tabaco de água. Aceitei o cachimbo sem fazer perguntas e partilhei o ar enojado do Ás de ouros que se sentou na minha frente. Uma abelha levantou-se do lugar para trocar impressões com o meu cão sobre a vida íntima da rainha branca. O cão mordeu-a e uivou entediado. Duas chávenas de chá mais tarde vi um cardume de peixes seguir uma lagosta até ao palco improvisado onde tocaram um blues que não envergonharia em New Orleans. E foi só quando o som do saxofone se calou que dei pela falta do chapeleiro louco. Fiz um gesto na direção do coelho para lhe perguntar por ele. Mas depois, por não saber se hoje sou Alice ou a rainha de copas, calei-me a tempo de evitar a exposição pública do logro que sou. A rainha de copas saberia do chapeleiro. Alice não quereria saber. Eu não deveria estar aqui.
Dei dois cubos de queijo azul ao cão antes de comer os meus. Tornei-me desconfiada depois da minha última passagem pelo wonderland. Ou talvez apenas não me possa dar ao luxo de encolher nem mais um centímetro. É ténue, a linha de fronteira entre a mesquinhez e o instinto de sobrevivência. O gato que ri tirou-me a língua em sinal de discordância e desapareceu devagarinho.
Logo que começou a chover, a festa desfez-se numa bolha que eclodiu em pequenos confettis que caíram sobre dois pés descalços subitamente plantados ao lado dos meus. Dei um salto na cadeira ao reparar que, naqueles pés, o segundo dedo era o maior de todos. Foi assim que reconheci o chapeleiro louco. Mas, nesse instante, o sol eclipsou-se e mergulhámos todos numa escuridão que seria silenciosa se o meu coração não tivesse começado a bater em stereo.
Quando o negrume se dissipou e eu ouvi-me a mim própria gritar “cortem-lhe a cabeça” “cortem-lhe a cabeça”, percebi que, afinal, ainda sou a rainha de copas. 
E nem sequer foi necessário explicarem-me.

sábado, 23 de março de 2013

Excesso de bagagem


Acontece-me com frequência encontrar as melhores respostas nos objetos.
A etiqueta cor-de-laranja, ainda presa à mala que escondo debaixo da cama, cospe-me um “Heavy” acusador.
Fui catalogada há sete meses atrás por alguém que talvez nem sequer tenha precisado de me pesar a bagagem para perceber que o seu peso excede os padrões estabelecidos. 
Perco a paciência comigo própria e livro-me da etiqueta num raro acesso de auto-censura pelo meu próprio desleixo.
Mas do peso, esse, não tenho como me livrar.
Heavy, diz-me o silêncio.

terça-feira, 19 de março de 2013

Constatação do óbvio


1. Quando nos comportamos como loucos, os outros tendem a tratar-nos como loucos.
2. Em geral, os loucos são maltratados.
3. Ser tratado como louco enlouquece qualquer um.

domingo, 17 de março de 2013

Diálogos com deus


- Oláaaaa….
- Adeus.
- Literalmente?
- Não abuses da minha paciência.
- Minha filha, vim dar-te mais uma oportunidade para alcançares a verdadeira felicidade. Aquela que nos espera no topo da montanha da redenção.
- hum… obrigada mas não. No meu caso seria necessário material de alpinismo profissional. E deve estar frio lá tão em cima.
- Filha, passaram-se muitos meses desde a última vez. Não é possível que ainda me detestes.
- Sabes o que estava aqui a pensar? Acho-te a menos interessante e mais previsível de todas as criaturas mitológicas.
- Se eu fosse um mito não poderias estar a falar comigo.
- Não me menosprezes. Estamos a falar de mim. A que fala com mortos e já amou criaturas que nunca existiram.
- Dá-me a mão e fica na minha companhia. Aceita que te guie pelo teu destino.
- Nada disso. Além do mais, o destino é meu e decidi não ir a lado nenhum.
- Como assim? Já não vais ao teatro? Por causa desta chuvinha de nada?
- És tão idiota. Queria dizer que decidi ficar plantada neste estádio de evolução. Não vou fazer rigorosamente nada com a minha existência. Apenas gastá-la.
- Mas este é o estádio do egoísmo, da frustração, da agonia, não podes querer realmente permanecer aqui.
- hum… também andaste a ler aquela cena dos estádios kubler-Ross? Conseguiste perceber o que acontece depois de se chegar ao último?
- Começo a fartar-me de ti.
- Ainda bem. A reciprocidade é o equilíbrio de qualquer relação.
- … talvez nem sequer te volte a visitar.
- Isso seria bom sinal. O avanço das ciências da psiquiatria é uma coisa importante para a humanidade.
- Alguma pergunta que me queiras fazer?
- Sabes o número de telefone do take away do sushi? 

sábado, 16 de março de 2013

De dentro da caixa de música


Continuas a arrancar os dias ao ritmo das notas do mesmo contra-baixo. A música colou-se aos teus batimentos cardíacos e talvez morras quando as cordas da guitarra se partirem. Os pés afogados pelas folhas de calendário que fazes cair, há muito que se esqueceram que servem para andar. Giras cimentada na rotação perpétua de uma plataforma. Habitas o espaço da própria ampulheta. Onde já nem o tempo conta.
E se não há marcas a giz nas paredes cinzentas é porque isso ainda seria um sinal de esperança.
Dizem-te que o céu está a cair aos pedaços.
Acreditas, mas não te dás ao trabalho de levantar os olhos.
Além do mais, duvidas que deste lado do mundo também existam estrelas.  

segunda-feira, 11 de março de 2013

homens sem sombra


Há sombras que devoram os homens em noites sem lua
Afogam-nos com a escuridão que os olhos engolem
E regurgitam-nos em corpos invólucro de alma nua

Há homens que se entregam às sombras que os colhem

E há piratas que rasgam as sombras
E incendeiam-nas com luas roubadas
Antes de partirem no rasto das madrugadas

Há piratas que destroem as sombras que lhes fogem

E eu observo-os daqui, do cimo das estrelas
E eu observo-os daqui, da cauda do cometa

E sei que são faces da mesma velha moeda
de latão.
Uns sem corpo e outros sem sombra
E na boca sempre o mesmo gosto
De vazio de alcatrão

E eu vejo-os daqui do cimo das estrelas
E eu vejo-os daqui da cauda do cometa

E choro os homens que se entregam às sombras que os colhem
E choro os piratas que destroem as sombras que lhes fogem
De vazio de coração

O maior erro que existe.


domingo, 10 de março de 2013

Puccini foi readmitido aqui em casa

Ninguém me convence que o que nos afasta da barbárie é a sensibilidade à arte. Tolero com dificuldades crescentes o convívio com criaturas que passam por um Caravaggio com o mesmo ar com que olham para o quadro do menino da lágrima, nunca se comoveram com um poema e pensam que o interesse do bailado está nas pernas das bailarinas.
Mas aqueles que verdadeiramente me assustam são os revelam indiferença perante a música. A música faz um caminho tão direto para o espírito que, de todas as artes, é aquela que menos necessita de educação.
Foi por isso que, desconfiada do meu cão, decidi testá-lo. 
Fiquei verdadeiramente aliviada por perceber que é menos bárbaro do que alguns humanos que conheço. Por exemplo, o mio bambino caro do Puccini, adormece-o em vinte segundos cronometrados. 
Mas só se for cantado pela Callas.


segunda-feira, 4 de março de 2013

partidas

A porta por onde se vai em dobro, aquilo que só me chega pela metade.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Bens essenciais

Também fica bem com tudo e já tenho as coisas que a outra menina queria.

Da vergonha

O reverso da paixão não é ódio nem a indiferença. É a vergonha.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Tabu, ainda.

Tabu, o filme, ensina-nos algumas coisas úteis.
A primeira e mais óbvia é que à fase do "Paraíso" sucederá sempre o "Paraíso Perdido".
A segunda é que os filhos por quem abandonámos a paixão das nossas vidas, nos abandonarão a nós para que nos arrependamos na solidão do leito de morte.
A terceira e, porventura mais triste, é que um amor perdido no tempo nunca chegará em tempo útil.

O mais importante é, tendo-se vivido como Aurora, evitar morrer como Aurora.

há menos peixinhos a nadar no mar do que os beijinhos que darei na sua boca


Chega de saudade porque a vida também se faz de alguns regressos.