sábado, 19 de dezembro de 2015

Com margem de erro de onze dias

Foi o melhor ano da minha vida. Como nada aconteceu, aconteci-me eu mesma. 
A indigência sentimental é o fértil solo da pacificação do espírito. Creio nem uma única vez ter-me angustiado mais do que o estritamente necessário à minha própria sobrevivência. O resto foram amanheceres azuis, inícios de tarde de sol a pique, finais de dia submersos por fios de ouro, noites de estrelas brilhantes vigiadas por superluas várias. Umas azuis, outras de sangue, tanto faz. As manhãs cinzentas e as noites brancas que suponho também terem existido, já esqueci. Se a indigência sentimental traz a pacificação do espirito, a segunda traz a aprendizagem do esquecimento.
Tive menos saudades.
Reencontrei Nabokov e Montesquieu e Melville e Kafka e Ruy Belo. Terminei todos os Borges e Ibsen, o David Foster Wallace, alguns Machado de Assis. Por razões de estética circular, guardei para os últimos dias do ano o grande Herberto com que o comecei. São estas pequenas coisas que nos mantêm a vida penhorada e eu creio mesmo ser impossível morrer-se a meio de um poeta. Não descobri nenhum escritor novo. Fazem-me mais falta aqueles que já conheço.
Passei muitas horas a ouvir Flora Purim, Rodrigo Leão, Sakamoto, Ketil Bjornstad, Alt-J, Muse, The Antlers, Damien Rice, Dhafer Youssef, koop, Leonard Bernstein, Low Roar, Melanie de Biasio, Volcano Choir e Patrick Watson. Mas também Edith Piaf e Nina Simone e ainda e já sem dor, Ornatos Violeta. 
Fui ao teatro menos do que podia e muito menos do que devia. Mas salvei o ano com a Madama Butterfly e não o terminarei sem o Lago dos Cisnes. 
Vi muitos filmes, quase todos maus.
Fotografei insuficientemente e não foi ainda este ano que consegui uma fotografia de que me orgulhe. 
Acompanhei os mesmos blogues e estão todos melhores porque nenhum dos meus bloggers desaprendeu a escrita nem delapidou o génio. Sobretudo, mantiveram, durante mais um ano, essa misteriosa insistência em roubar horas si próprios, às famílias e às coisas que as pessoas fazem quando não estão a escrever posts, para nos dar a nós. Às vezes penso que uma certa parte da blogosfera pode bem ser o último reduto da generosidade evidente. 
Falhei menos. Muito menos.
Nada importa que os dados estatísticos hajam sido deturpados pela deliberada diminuição das expectativas e pela manipulação do palco do erro. Uma mulher faz o que tem de fazer para cumprir as suas metas. 
Especialmente, quando a meta é apenas falhar menos e a mulher é Pirata.



10 comentários:

  1. e uma Pirata, é sempre e inegavelmente, uma bela Pirata!

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  2. Todo o post me soube a refeição completa, taninos de todas as cores e os aromas mais extremos parecem não faltar, um dos valores que costumo colher neste blogue orientado por uma bússola de norte disperso mas não perdido, isto tudo para dizer, um, que me lembro perfeitamente de estares a ler Herberto (já foi há um ano?) e do consequente impacto que partilhaste connosco e, dois, para te dizer que o naco suculento que mais me maravilhou foi este: "... e eu creio mesmo ser impossível morrer-se a meio de um poeta".
    Feliz Natal, Cuca.

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    1. Foi há um ano e foi ainda hoje! Obrigada, Susana.

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  3. É muito bonita essa sua ideia de os nossos bloggers poderem ser o último reduto da generosidade evidente.

    O resto do post também está bastante razoável.

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    1. Sobretudo aqueles que sonham com carros desportivos roxos.

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  4. É tão ler-te!
    Especialmente quando dizes assim coisas bonitas da gente. ;)

    Um beijo, querida Cuca (e um abraço apertadinho)

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  5. A blogosfera agradece a tua generosidade de pirata sem perna de pau, olho de vidro ou cara de má! :)

    Uma boa tarde, Cuca.:)

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