segunda-feira, 25 de abril de 2016

O que nos salva

Salva-nos uma frase que há muitos anos sublinhámos num livro esquecido; um pedaço da conversa de dois desconhecidos sentados na mesa de trás; um pôr do sol que por nenhuma razão discernível suplanta um outro; uma conta de vidro fosco que deu à costa na praia e a forma perfeita do búzio que lhe serviu de abrigo; a inigualável expressão de sofrimento da viúva do pescador; a imagem congelada daquele céu apocalíptico que é a vitória do sol sobre a chuva torrencial; as boas e as más palavras dos amigos; uma afortunada conjugação de notas que, há muitos séculos, o compositor descobriu no final de uma manhã de tédio; o traço seguro da figura humana desenhada numa gruta do Egipo; o desenho geométrico do pano que o vento balouça num mercado de África; a expressão da mãe que embala a filha; a promessa que reside numa boa manhã de início de verão; um verso de Borges que ficou por decifrar; o parágrafo oculto desse livro que ainda nos falta ler; um diálogo de John Cassavetes; a mais abominável das mentiras, contada debaixo de uma constelação ignota nesta parte do mundo; o poema que um dia conseguiremos escrever e a música que um dia seremos capazes de tocar; esse resto de memória de um amor inútil que nos isenta a ambos do pecado da mediocridade. 

Post sriptum:

E também o que nos condena, pela Flor em A Faca Não Corta o Fogo 

2 comentários:

  1. será que isenta?
    um livro salvou-me, mas antes, uma montanha já o tinha feito...

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    1. É talvez a única coisa que nos salva da banalidade.

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