sexta-feira, 27 de maio de 2016

Comunicações intergalácticas

És um poeta morto. 
E és um bom poeta mas um péssimo morto. 
Bons mortos são aqueles que disfarçados de vento nos vêm uivar à janela. Os que nos eriçam os pelos do pescoço em anticiclones caseiros que nos gelam momentaneamente. Os que, furiosos, fazem bater as portas em sinal de protesto contra as nossas escolhas de vivos. Os que deitam o fogo à cama. Os que nos escondem os anéis. Os que nos escrevem a sangue nos vestidos de veludo. Nota que nem sequer aspiro a recados no espelho embaciado pelo vapor do banho; velas que se acendem sozinhas; uma papoila a voar debaixo dos meus pés  ou enigmas deixados na areia lisa da maré. Suspeitava que não te resignarias a esse papel pop de fantasma de Hollywood. 
Ainda assim, até para os extremos padrões de tolerância com que sempre me abstive de julgar os teus atos, devo dizer-to, és uma miséria de morto.
Nunca te deste ao incómodo de me aparecer em sonhos com diretrizes inspiradas sobre os intricados caminhos da minha existência. Nas raras noites em te sonhei estavas entretido com uma banalidade qualquer e não te dignaste a uma interação memorável. Não me escreveste mails. Não me enviaste do além um único olhar capaz de me trespassar as costas. 
És um morto que teima num contínuo projeto de inexistência infinita. 
Um dia conheci uma mulher que jurava que cada um de nós traz consigo todos os seus mortos e arrasta-os pelo mundo para onde quer que vá. Tentei levar-te a lugares bonitos. Pensei que gostasses dos arranha céus de Nova Iorque, das vinhas de Chianti, ou que te sentisses confortável nos céus da Capadócia. Evitei, para tua exclusiva comodidade, repartições de finanças, centros médicos, supermercados em horas de ponta. 
A tua ingratidão revelou-se tão definitiva quanto a tua morte. 
És o meu primeiro morto. Até a morte me ensinaste. 
E és um péssimo morto. 

6 comentários:

  1. Desconfio da coexistência de duas Mortes a cuja porventura ilusória aprendizagem nos é permitido aceder: a do outro e a nossa. Daí o enfado aquando da presença daqueles que juram dispor de trunfos para me ensinarem a viver. Procuro, isso sim, que me ensinem a morrer.

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    1. Diz Afonso Cruz na primeira página de As Reencarnações de Pitágoras (comprado hoje): "ANDRONIKOS
      criou uma linha para coser todos os homens uns aos outros, de modo que, quando morresse um, morressem todos.
      E, quando um fosse eterno, vivessem todos.
      Chamou-lhe linha do tempo, e ainda hoje a usamos para coser os nossos destinos"

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  2. Creio que seria de todo útil ressuscitar esse morto e educá-lo na arte da assombração em condições, obrigando-o, de preferência, a observar muitas regras. Depois, dar-lhe ordem de morte, outra vez.

    É inadmissível que desse péssimo morto não se possa dizer que «não nos dá descanso».

    Creio que deixou de pensar nos amigos quando decidiu morrer para sempre.

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    1. Inadmissível, de facto.
      Deve-se estar lá muito bem, onde quer que tenha ido parar...

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