sábado, 21 de maio de 2016

A pantufa desirmanada

Não foi caso único o de Palomar, personagem de Italo Calvino no livro a que deu igual nome, que, de um bazar de pantufas no oriente, regressou à sua terra com uma pantufa maior do que a outra. 
É inevitável, bem o sei, enquanto se coxeia pela rua abaixo, pensar-se naquele que, vítima do mesmo desacerto do grande mercador, noutro lugar do mundo, arrasta consigo um pé apertado pela pantufa que deveria estar calçada no nosso. 
Refletiu Palomar "talvez ele também esteja a pensar em mim neste momento, esperando encontrar-me para proceder à troca. A relação que nos liga é mais concreta e clara do que grande parte das relações que se estabelecem entre os seres humanos. E no entanto nunca nos encontraremos".
Mas ao contrário de Palomar, que continuou a usar as pantufas desirmanadas para manter viva a complementaridade com o seu companheiro de infortúnio, a mim foi-me dada a oportunidade de, fazendo a troca, desfazer o erro. 
Os meus pés estão agora calçados com duas pantufas que me servem e posso também, finalmente, deixar de pensar numa sombra longínqua que, noutra qualquer rua, coxeou a pantufa que me pertence por direito.
Palomar, que tanto pensou sobre este assunto, nada conjeturou, porém, sobre os efeitos da claudicação prolongada na coluna vertebral. 
Há erros do grande mercador que sobrevivem ao milagre da sua própria correção. 

4 comentários:

  1. Para isso chama-se o Reboredo... :)
    Tudo o resto é maravilhoso, tirando a parte que temos sempre um dos pés maior do que o outro, daí que a troca, a ser a certa, parece-me o céu a caminhar sobre a terra, sem outras angústias.

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    1. Realmente, Teresa... Sou uma inepta gestora dos meus recursos! Não me ocorreu chamar Reboredo o ortopedista!!!

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    1. Ah, mas não são umas pantufas quaisquer! São pantufas orientais, daquelas em forma de babucha com pérolas e diamantes e outras coisas finas e brilhantes!

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