domingo, 24 de janeiro de 2016

Da Paris Review 3

"Então qual será o melhor ambiente para um escritor?"
A arte também não se preocupa com o ambiente circundante; não lhe interessa onde está. Se está a referir-se a mim, o melhor emprego que já me ofereceram foi o de gerente de um bordel. Na minha opinião é o ambiente perfeito para um artista poder trabalhar. Dá-lhe a liberdade económica ideal; liberta-o do medo e da fome; ele tem um tecto sobre a cabeça e nada para fazer excepto manter em dia uma contabilidade simples e ir uma vez por mês fazer o pagamento à polícia. O lugar é tranquilo durante a manhã, que é o melhor momento do dia para trabalhar. Há bastante vida social ao fim do dia, se ele quiser participar nela, o que lhe permite não se aborrecer; dá-lhe um certo estatuto social; ele não tem nada fazer porque a madame trata da escrita da casa; todos os habitantes da casa são mulheres e tratam-no com deferência, chamando-lhe "senhor". Todos os contrabandistas do bairro lhe chamam "senhor". E ele pode tratar os policias pelo nome próprio.
Portanto, o único ambiente de que o artista precisa é um ambiente com tanta paz, tanto isolamento e tanto prazer quanto o que lhe for possível encontrar a um preço não demasiado alto. Aquilo que um ambiente errado lhe provocará é um aumento da tensão arterial; fá-lo-á perder mais tempo com frustrações e irritações. Por experiência própria percebi que aquilo de que preciso para o meu ofício é papel, tabaco, comida e um pouco de uísque.

"Quer dizer, bourbon?"
Não, não chego a esse grau de exigência. Entre um uísque escocês e nada, aceito o uísque escocês.

William Faulkner, in, Entrevistas da Paris Review, Tinta da China. 

2 comentários:

  1. vou ler os outros, mas para já voto no Faulkner... troco o tabaco por café!

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    1. É boa troca. Eu troco o uísque por outra coisa qualquer.

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