segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A bruxa

Era uma daquelas salas propositadamente mobiladas para que nos esqueçamos rapidamente delas. Guardei a  breve memória de pássaros laranja a voarem sobre a base de um candeeiro de porcelana branca, pousado numa pequena mesa de madeira de mogno. As cortinas eram pesadas e escuras e também o era a chuva que há muitos dias caía, incansável. Estranhei a ausência dos livros. Tinha a certeza que algures naquele pequeno apartamento no centro da cidade haveria um quarto repleto de livros.
Levámos bolos para o chá que não me lembro de ter tomado. Creio que ela os guardou, bolos e chá, para uma visita que valesse realmente a pena.
Entediada pela minha advertência cética, deitou-me as cartas e ficou a olhar para mim durante longos minutos.
Então, a bruxa falou-me dele. Disse-me que estávamos juntos há muitas vidas. Desde o princípio dos tempos, disse ela, com a lentidão que é própria de quem tem a certeza que nenhuma razão há para apressar o que é eterno. Olhei-a com a superioridade de quem reconhece um logro. Confundiu o meu desdém com apreensão. Disse-me que era normal encontrarmo-nos todos uns aos outros nas nossas infinitas vidas. Forneceu-me a explicação que a sua ciência valida. 
Mostrou-me um quarto interior cujas paredes eram forradas a livros. Tinha adivinhado a minha adivinhação.
Perguntei-lhe, então, como me poderia livrar dele nas vidas futuras. Para que não me julgasse, forjei duas ou três razões que lhe forneci.
Ela ensinou-me a contornar as leis do além, aparentemente, não menos flexíveis às mãos dos especialistas do que as do aquém. 
Vaticinou-me muitas coisas que já esqueci. A maioria eram más. Os anos deram-lhe razão nas duas que, por absurdas, inimagináveis, recordei.
Uma semana depois, numa outra tarde de chuva, encontrei-o com o objetivo de lhe relatar a entrevista com a bruxa. Não se mostrou surpreendido. Acedeu à minha vontade de o anular do mapa das encruzilhadas das vidas futuras. Talvez também ele estivesse cansado dessa terrível forma de imortalidade. Eu sei que estava.
Não esqueci apenas a sala. Esqueci o número da porta, o prédio e o nome da rua. A psicologia, em que não acredito, fornece razões curiosas para que decidamos perder determinados objetos.
Quando, uns anos depois, ele morreu, sobreveio o pânico do funcionamento da patética mezinha e o terror da condenação a uma vida eterna, em que também sou incapaz de acreditar, na solidão da sua definitiva ausência.
Mil vezes maldigo a bruxa e os seus pássaros laranja a esvoaçarem num candeeiro de porcelana. 

13 comentários:

  1. Respostas
    1. Jam sessions. Essa maravilhosa tua definição.

      Eliminar
  2. no creo en brujas ...
    Mas já fugi a sete pés de uma praticante de quiromancia que nunca me tinha visto mais gorda e abalroou o meu cepticismo com uma "leitura" extraordinária que ainda me deixa arrepiada quando penso nisso.
    Outra leitura que me deixou arrepiada foi a deste texto.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Espero que o último tenha sido um arrepio bom! Bom
      Fim de semana.
      :)

      Eliminar
  3. sou sempre céptico, até deixar de o ser...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sou sempre céptica até entrar em desespero.

      Eliminar
    2. em desespero, até leio as minhas folhas de chá...

      Eliminar
    3. de couve, que é de couves que estás sempre a falar :)

      Eliminar
  4. Em certas nuances revi algo do Slade House do David Mitchell, no que à casa diz respeito.

    No que a adivinhações diz respeito, mais assustador só mesmo o senhor da pastelaria quase-gourmet a que por vezes vou na zona do trabalho. Ele sabe o que eu faço, mas tenho a ideia que não percebe minimamente aquilo que faço.

    No entanto, por meio de uma conversa casual, eis que expõe uma opinião muito própria e detalhada sobre um projecto (secreto) que eu estava a concluir, sem que eu tivesse falado sobre isso e com a trivialidade de quem comenta o tempo.

    A partir daí, comecei a tentar ler o futuro nos pães de deus que me serve ou nos fios de queijo de uma qualquer tosta.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. E não terias lá esquecido uma folhinha com notas?

      Eliminar
    2. Nada - a par do ditado 'não comas a carne onde ganhas o pão', também sou adepto do 'não plantes notas onde colhes morfes'. ;)

      Eliminar
    3. Nesse caso, é roubar-lhe as ideias todas! Se ele conseguir adivinhar o teu trabalho ficas com mais tempo livre! :)

      Eliminar
  5. Tá bem giro este texto Sra. D. Cuca!

    ResponderEliminar